4 FRAMING: REALIDADE ENQUADRADA
4.2 Enquadramento e jornalismo
A ideia de enquadramento ou framing da realidade (e das notícias, em consequência) não é uma novidade. A partir do momento em que os indivíduos têm consciência de sua própria existência e se reconhecem como parte de um mundo dado como pressuposto (SCHUTZ, 2003), mas que carece de significação e sentido, passam então a enquadrar tudo à volta, ainda que esse processo não seja consciente.
Na literatura, Abbot Lawrence Lowell, publicou, em 1913, o livro Public
Opinion and Popular Government no qual analisou o funcionamento dos partidos
políticos norte-americanos e escreveu que eles enquadram os assuntos a respeito dos quais os cidadãos são chamados a opinar. Quem também estudou o enquadramento aplicado a análises da política dos Estados Unidos foi George Lakoff, em cujo livro Don’t Think of an Elephant (2004) comenta as eleições presidenciais daquele país no ano de 2000, atribuindo o fracasso dos democratas ao mau uso do enquadramento, o que conferiu a vitória ao republicano George Bush contra o democrata Al Gore.
A conclusão de Lakoff foi que uma mudança social só surge a partir de uma mudança adequada de enquadramentos, conclusão com a qual concordamos, uma vez que mudança social implica transformações culturais capazes de modificar como a sociedade enxerga a realidade e se localiza nela. Um bom exemplo sobre como uma variação de enquadramento é capaz de promover mudanças sociais é a cobertura de saúde pela mídia. Nesse caso, o jornalismo especializado em saúde e as campanhas de âmbito nacional têm um papel estratégico não apenas de divulgar informações sobre a doença, mas também de propor uma mudança de olhar sobre a patologia e aqueles por ela acometidos. O papel dos enquadramentos midiáticos no caso da AIDS é emblemático. Enquanto na década de 1980 as campanhas de prevenção e a cobertura jornalística falavam em “câncer gay” e colocavam a doença como condenação à morte, hoje, passadas décadas de pesquisas, o enquadramento mudou; não se fala mais em “AIDS mata”, e sim que é melhor viver sem AIDS. Tal mudança de enquadramento modificou a forma como a sociedade encara a enfermidade e enxerga as pessoas infectadas pelo vírus HIV.
Tendo em vista a forma como a mídia enquadra as notícias sobre temas diversos, Sádaba (2007) afirma que a teoria do enquadramento é, portanto, um lugar
comum para todos os profissionais da comunicação, pois, ainda que desconheçam os aspectos teóricos do enquadramento, diariamente, jornalistas, em sua prática profissional cotidiana, enquadram os acontecimentos e o mundo em forma de notícias. E o fazem seja pela pressão do tempo de trabalho, seja pelo espaço que têm para dar as notícias, pela busca de um título atrativo ou pela necessidade de sistematizar quatro horas de entrevista em meia página de jornal. Assim, os teóricos do enquadramento desconstroem a ideia da objetividade jornalística ao afirmarem que o jornalista narra e descreve os acontecimentos a partir de um enfoque particular, enquadrado. E ao analisar esse enfoque, os estudos do framing consideram tanto as influências pessoais (subjetividade do jornalista) quanto profissionais (rotinas produtivas) que incidem sobre a produção de uma notícia. São, portanto, esses enquadramentos que fazem com que um mesmo fato seja noticiado de formas diferentes em veículos distintos.
O enquadramento é um princípio de organização dos acontecimentos e do envolvimento dos indivíduos para com estes. Os enquadramentos direcionam a nossa interpretação dos fenômenos cotidianos (GOFFMAN, 1986). Eles são capazes de converter em acontecimentos discerníveis aquilo que não seria reconhecido ou mesmo passaria despercebido caso não tivesse sido enquadrado (TUCHMAN, 1983). O enquadramento, portanto, trabalha com a seleção e a saliência de determinados acontecimentos, e, em consequência, com o silenciamento de outros, conforme explica Entman (1993, p. 52, grifos do autor, tradução nossa):
Enquadrar é selecionar alguns aspectos de uma realidade percebida e torná-los mais salientes em um texto comunicativo, de modo que se promova uma definição particular do problema, uma interpretação causal, uma valoração moral e/ou uma recomendação para o tratamento do item descrito25.
Ainda segundo Entman, em um processo comunicativo – como a produção de notícias, por exemplo – os enquadramentos podem aparecer em pelo menos quatro “lugares” distintos, quais sejam o comunicador, o texto, o receptor e a
cultura. O comunicador cria enquadramentos, consciente ou inconsciente, a partir do
momento em que decide o que dizer, e suas decisões também são influenciadas por
25 “To frame is to select some aspects of aperceived reality and make them more salient in a communicating text, in such a way as to promote a particular problem definition, causal interpretation, moral evaluation, and/or treatment recommendation for the item described”.
enquadramentos que preexistem a sua vontade e que orientam seu “sistema de crenças”. O texto manifesta enquadramentos através da presença ou ausência de palavras e expressões, do uso que se faz delas, das fontes de informação presentes no texto etc. Já os enquadramentos que guiam a interpretação do receptor não necessariamente refletem o que o texto enquadra e/ou o que o comunicador intenciona enquadrar. Por último, a cultura é, segundo Entman (1993), um acervo de enquadramentos comuns aos membros de uma sociedade, manifestos no discurso e no pensamento. Independentemente do lugar ocupado pelo enquadramento, sua função será algo como “selecionar e destacar, e usar os elementos destacados para construir um argumento sobre as questões e suas causa, avaliação e/ou solução” (ENTMAN, 1993, p. 53, tradução nossa). Nessa perspectiva, vale acrescentar a observação de Antunes (2009) de que os enquadramentos trabalham interconectados, logo, ao analisá-los, há que se ter em mente as relações existentes entre os diversos “níveis” ou “lugares” nos quais se dá o processo de enquadrar.
Para Carvalho (2000 apud Antunes, 2009), à noção de enquadramento correspondem três abordagens gerais. A primeira coloca os enquadramentos como ferramentas que ajudam o indivíduo a interpretar o mundo em que vive à medida que organizam o entendimento dos fenômenos e experiências sociais. Já a segunda abordagem trata os enquadramentos como estruturas que, de certa forma, compõem a estrutura do discurso. Por último, a terceira concepção entende o enquadramento como semelhante às representações sociais no sentido de modelos sócio-culturais que ajudam a dar sentido ao mundo cotidiano.
Antunes (2009) considera que as notícias são construídas pelos jornalistas tendo em vista a presença dos enquadramentos nas matérias e a contribuição deles para gerar significados e influenciar a interpretação de leitores, telespectadores e ouvintes para que esta coincida com a intenção do jornalista ao produzir sua matéria. Assim, tem-se que os efeitos dos frames são importantes questões para a teoria do enquadramento. O pesquisador considera os frames como “uma espécie de princípio interpretativo que organiza um conjunto de temas” (ANTUNES, 2009, p. 96), de modo que, para ele, os news frames tanto podem ser enquadramentos genéricos como podem trabalhar com assuntos mais específicos. Nos dois casos, não muda o fato de que eles determinam, em alguma medida, abordagens dos fatos sociais. Antunes pontua, ainda, que os enquadramentos não
necessariamente aparecem explícitos no texto, o que não significa que não estejam presentes e que não sejam ativados na interpretação.