Fazendo uma distinção epistemológica entre biografia e genealogia, Hans Renders considerou: «Biography is a genre […] in which information about someone’s personal life e exploited to render that person’s public life more inteligible»399. O historiador holandês defende que a construção genealógica segue os mesmos métodos de investigação em arquivo, mas assume-se como um fim “em si mesma” podendo para o biógrafo ter um contributo “ilustrativo, quanto muito”. Para Renders, as valências das genealogias serão sobretudo importantes para abordagens prosopográficas, bem como para as “biografias familiares” em voga. Questionando a relevância de uma “árvore genealógica”, Renders não coloca em causa a importância da análise social das origens do biografado, “seja um aristocrata ou empreendedor”, mas não será necessário “recuar à revolução industrial” para evidenciar um contexto de classe trabalhadora, questiona400.
Ainda que conceptualmente a argumentação de Renders seja apelativa, não nos parece que uma árvore genealógica seja “meramente ilustrativa” num estudo biográfico.
Por absurdo, deveríamos suprimir essas “árvores de antepassados” das biografias dos monarcas? Se nos parece evidente a importância de tais elementos num contexto historiográfico de biografias de aristocratas, no qual por diversas ordens de razão se torna importante demonstrar as múltiplas ligações familiares, quase todas as biografias ganhariam legibilidade para o leitor se incluíssem uma tábua genealógica, situando os acontecimentos no tempo e marcando as relações geracionais de pessoas que, de uma forma ou de outra, surgem na narrativa. Apesar de crítico da genealogia, Hans Renders admite a importância do enquadramento sociofamiliar do “objeto de estudo”. Corremos o risco do lugar-comum, reafirmando que “homem é formado pelas suas circunstâncias”.
O homem ou bem entendido as mulheres e os homens constroem-se, enquanto pessoa, em diálogo e em confronto com as circunstâncias que lhes são alheias na vontade, tais como os contextos sociofamiliar e comunitário.
José Mascarenhas Relvas401 foi filho de Margarida Amélia Mendes de Azevedo e Vasconcelos Relvas de Campos (1837-1887) e de Carlos Augusto Mascarenhas Relvas
399 Hans Renders, “Why Genealogy and Biography are not kin” em Theoretical Discussions of Biography, p. 343
400 Hans Renders, “Why Genealogy and Biography are not kin”, ob. cit., pp. 343-350.
401 Durante a maior parte da sua vida, fosse particularmente, fosse em cargos públicos, usou apenas o nome: “José Relvas”, assim assinava. Nalguns documentos e biografias coevas surgiu com frequência a designação “José Mascarenhas Relvas” — José Relvas não é um nome incomum e talvez fosse necessário distingui-lo do avô, ainda presente na memória coletiva em vida do neto, sobretudo no contexto dos negócios familiares. Nas cartas aos familiares assina "José", "José Relvas", "José Mascarenhas Relvas" e
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de Campos (1838-1894). O seu pai, um abastado proprietário agrícola, veio a distinguir-se enquanto amante da tauromaquia e das corridas equestres, onde alcançou prestígio internacional. Para além de todas essas atividades, foi “fotógrafo amador” e pioneiro da fotografia artística em Portugal, situação que atualmente tem motivado várias abordagens historiográficas e artísticas402.
José Relvas nasceu a 5 de março de 1858 na chamada Quinta do Outeiro, então nos limites da vila da Golegã. De acordo com registo existente no Arquivo Distrital de Santarém (ADSTR)403, José Relvas foi batizado na Golegã a 17 de Abril do mesmo ano, na capela pública do Palacete do Outeiro (ou dos Relvas)404. Teve por padrinho o avô paterno, José Farinha Relvas de Campos (1791-1865)405, e por madrinha avô materna, Maria Liberata da Costa Mendes (1823-1906), futura viscondessa e condessa de Podentes. Esse título nobiliárquico veio a ser usado por sua irmã mais velha, Clementina Relvas, já no século XX. José Relvas foi o terceiro filho do casal Carlos Mascarenhas
"José Relvas d'Azevedo". No registo de batismo ficou apenas: “José” (e não José Maria como alguns genealogistas recentemente acrescentaram). Margarida Silva Mendes de Azevedo Vasconcelos (mãe) escreve a “José Relvas e Campos” e “José Mascarenhas Relvas e Campos”, já a correspondência conhecida do pai, mais tardia usa, geralmente “José Relvas” no endereço. Nalguns documentos, que lhe são objetivamente dirigidos, surge ainda com o nome do avô “José Farinha”, ou mesmo com o nome “José Carlos”, os quais não aparenta ter usado. De acordo com a tradição patronímica portuguesa (a qual não foi sempre linear), o nome completo José Relvas poderia ser: "José Carlos de Azevedo Vasconcelos de Mascarenhas Relvas e Campos” ou apenas “José Azevedo Mascarenhas Relvas”, correspondendo esta última versão aos nomes que em momentos distintos usou. Veja-se o ADSTR, “Registo de baptismo de José Mascarenhas Relvas”, Registo Paroquiais da Golegã, Livro de baptismos de 1858, assento 122 (PT/ADSTR/PRQ/PGLG02), e AHCP, Correspondência de José Relvas com Margarida Azevedo Relvas (mãe), cx. 10, pasta 6 e Correspondência de José Relvas com Carlos Relvas (pai), cx. 10, pasta 7. No seu óbito foi registado como “José Carlos de Mascarenhas Relvas” (“Assento de óbito n.º 72 de 1929 de José Relvas”, Alpiarça, Conservatória do Registo Civil/Predial e Comercial de Alpiarça)
402 Referimo-nos, fundamentalmente, às biografias de António Pedro Vicente, de Paulo Oliveira e de Cátia Salvado Fonseca, já citadas das quais daremos novas referências, assim como a vários outros estudos de caso publicados sobre nos âmbitos da história da arte e dos estudos sobre fotografia.
403 Conforme “Registo de baptismo de José Mascarenhas Relvas”, Registo Paroquiais da Golegã, Livro de baptismos de 1858, assento 122, (PT-ADSTR-PRQ-PGLG02).
404 O “palacete dos Relvas” na Golegã foi vendido por José Relvas â Câmara Municipal dessa vila em 1892, na sequência das partilhas por morte da mãe e com aval de seu pai. O edifício ardeu integralmente em 1957, sendo no mesmo lugar construído a atual sede camarária.
405 No AHCP existe um subfundo pessoal com documentação produzida por José Farinha Relvas de Campos, designadamente AHCP, Família Relvas – José Farinha Relvas de Campos (FR-JC) que integra a
“Secção A – Vida Pessoal – Correspondência Recebida, cx. 304” e a “Secção B – Administração do Património e transmissão de bens, cx. 260, 261, 270 e 280 a 288”, ou seja trata-se de fundo com pouco informação biográfica propriamente dita, estando atividade política praticante ausente. Apenas uma investigação exaustiva da correspondência pessoal poderá trazer novas informações sobre esta figura. No entanto, estamos em crer que a documentação disponível poderá merecer um estudo mais sério de história económica uma vez que todo fundo permite acompanhar a constituição, evolução e posterior desaparecimento do poderemos designar por empresa familiar: “Casa Relvas”. Trata-se de figura por investigar cabalmente, como atesta falta de identificação do mesmo no Dicionário biográfico parlamentar 1834-1910, Maria Filomena Mónica (coord.), vol. I, p. 524. Laurinda Paz abordou com maior detalhe a biografia de José Farinha Relvas, em Arquivos de Casas-Museu. O Arquivo da Casa dos Patudos, parte I, pp. 100-101.
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Relvas e Margarida Silva Mendes de Azevedo Vasconcelos, o qual nessa época havia fixado residência na Golegã.
O seu irmão mais velho, Francisco Mascarenhas Mendes Relvas (1856-1876)406, nascera e fora batizado em Viseu, em 1856, tendo por padrinho o tio-avô Francisco António da Silva Mendes (1827-1898)407. Tratava-se do “tio Chico”, assim referido coloquialmente por José junto da esposa e prima Eugénia na correspondência408. Esta situação indica também um primeiro período de residência do casal em Viseu, antes de se ter fixado na Golegã.
Ao longo deste trabalho, como os documentos demonstram, consideraremos que a par do avô materno Jerónimo, o tio “Chico Mendes” terá tido uma das mais fortes influências familiares no percurso social e político do sobrinho José.
O malogrado irmão mais velho de José Relvas foi o único filho do casal que não nasceu, nem foi batizado na Golegã. A correspondência sobrevivente indicia longas temporadas de Carlos e de Margarida nas Beiras (Condeixa, Viseu e menor grau Sertã), bem como no Porto, nas termas de Caldelas (Braga), em Espinho, para além de viagens frequentes a Lisboa e, mais tarde, ao estrangeiro.
1.1 A família Relvas (lado paterno)
Na segunda metade do século XIX, a família Relvas contava-se entre os grandes lavradores de Golegã e do Ribatejo. De facto, desde os anos 20 do século XIX que os Relvas de Campos409 se estabeleceram na Golegã, de modo aproveitarem a potencialidades agropecuárias da região. Aparentemente toda a família, originária do lugar de Relvas (Sertã)410, dedicava-se as atividades agrícolas e pecuárias desenvolvidas em estreita ligação com o pequeno comércio na Beira Baixa.
406 Registo de óbito de Francisco Mascarenhas Relvas, ADSTR, Registos Paroquiais da Golegã, Livro de óbitos de 1876, assento 5, (PT-ADSTR-PRQ-PGLG02). “O filho segundo de Carlos Relvas (…)” em Diário Ilustrado, Lisboa, ano 5, n.º 1132, 20/01/1876, p. 2.
407 Também conhecido por “Chico Mendes” foi uma figura política marcante do liberalismo na Beira, com fortes ligações à imprensa. Sobre ela veja-se o artigo de Fernando Moreira “Mendes, Francisco António da Silva (1827-1898)”, em Dicionário biográfico parlamentar 1834-1910, Maria Filomena Mónica (coord), vol. II, pp. 879-882. Como veremos teve considerável influência junto do sobrinho-neto.
408 Correspondência de José Relvas com Eugénia Loureiro Relvas, 1898, AHCP, cx. 315.
(PT/AHCP/FR/ELR/A/01/315). A série mais antiga de carta entre ambos narra precisamente os últimos dias de vida de Francisco António da Silva Mendes e os dias subsequentes à morte deste. Por vontade de José Relvas, Eugénia ficou com os filhos em Lisboa, enquanto ele acompanhou os familiares em Viseu.
409 A documentação apresenta sempre a duas variantes Relvas de Campos e Relvas e Campos
410 Relvas é atualmente uma localidade da freguesia de Ermida, no concelho da Sertã.
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Temos poucas informações dos bisavôs paternos de José Relvas: Manuel Ferreira Relvas (?-?) e Maria Antónia Relvas (?-?), sabendo-se porém que já seriam pequenos proprietários e agrícolas na Sertã, na segunda metade do século XVIII411. João Farinha Relvas (?- c. 1830)412 parece ter sido o pioneiro da família na exploração direta (e também indireta através de rendeiros), de várias propriedades na zona de Flor da Rosa (Crato, Alentejo) e na própria Sertã, de onde era natural413. Para o biógrafo Paulo Oliveira414, tratava-se do irmão mais velho José Farinha Relvas de Campos. No entanto, Laurinda Paz considerou João Relvas como tio deste415. Os documentos citados por Paulo Oliveira, bem como a ação cível que José Farinha Relvas e Campos moveu contra Inês Caetana
(?-?), viúva de João Farinha, apesar de não indicarem expressamente o parentesco de ambos também nos levam a aderir à hipótese de se tratar de um irmão mais velho416.
Os dois Relvas e Campos arremataram os rendimentos de várias propriedades senhoriais, pertencentes à Ordem do Crato. Mais tarde, na capital do reino negociavam víveres, cabeças de gado e outros bens produzidos nessa região agrícola. Ambos prosperam com os rendimentos obtidos no concelho do Crato, estabelecendo-se com um entreposto em Lisboa, por volta de 1816417.
Em todo este processo, João Relvas parece ter tido alguma influência sobre o irmão, determinante na sua futura fixação na Golegã. De acordo com Paulo Oliveira, poucos anos mais tarde José Farinha Relvas regressa à Sertã e à pequena localidade de Relvas, onde nascera, enquanto o irmão arrenda a importante Quinta da Labruja, na localidade ribatejana418. Na Beira, José Farinha Relvas tornou-se contratador do priorado da Sertã e arrendatário da Comenda de Oleiros. Contudo, os negócios não lhe correram de feição em virtude de um conflito que o opôs a um magistrado local. Chegaria a queixar-se ao irmão desqueixar-ses sucessos, em carta datada de Abril de 1825419. Durante essa década, haveria de rumar à Golegã, estando confirmada a sua presença no concelho antes de 1830,
411 Isto de acordo com Paulo Oliveira, ob. cit., p. 13. No AHCP existe um fundo de testamentos que tornará possível seguir a linhagem da família até ao século XVI.
412 As informações sobre João Farinhas Relvas são dadas por Paulo Oliveira com base no registo de casamento pelo qual o identifica com irmão de José Farinha (ob. cit. pp. 13-15 e p. 165). Para além disso, há registo de uma litigância judicial envolvendo João Farinha Relvas em 1821, (ANTT, Feitos Findos, Fundo Geral, Letra N, mç. 25, n.º 3, (PT/TT/FGFF/013/0025/00003).
413 Paulo Oliveira, ob. cit. p. 16 e nota p. 166
414 Paulo Oliveira, ob. cit., pp. 13-15.
415 Laurinda Paz, ob. cit., p. 100.
416 Autos cíveis de petição de D. Inês Maria Caetana, Feitos Findos, Juízo dos Órfãos da cidade de Lisboa, mç. 46, n.º 1, ANTT (PT/TT/JOLSB/D-H/0046/00001).
417 Paulo Oliveira, ob. cit. pp. 14-15, p. 166.
418 Idem, ibidem, pp. 13-16.
419 Idem, ibidem.
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aliás ano em que João teria já falecido. Continuando a seguir Paulo Oliveira, entre 1825 e 1830, José Farinha associou-se ao irmão na administração da Quinta da Labruja. Esta opulenta propriedade pagava de renda quatro contos e oitocentos mil reis (4800$000), em 1830420.
Data de 2 de julho de 1830 o processo cível entre José Farinha Relvas e Inês Caetana (?-?), viúva de João Farinha e tutora do filho de ambos, Honorato Farinha (?-?).
Nos autos, o avô de José Relvas surge identificado deste modo: «(…) José Farinha Relvas de Campos, Lavrador, morador na Quinta da Labruja, termo da Golegã e ora negócios em Corte (… )»421.
Estes “negócios em Corte” deveriam estar relacionados com a colocação no mercado de bens agrícolas, arrendamentos e aprazamentos ou compra de terras. Muito antentamente, Laurinda Paz, fez notar: «[...] José Farinha foi um dos mais ricos empresários agrícolas do seu tempo, na região do Ribatejo. O poder financeiro e social não adveio somente da posse da terra, mas da hábil gestão dos direitos e formas de exploração que pululavam no século XIX. Os contratos de arrendamento, aforamento e emprazamento foram amplamente usados na administração da sua Casa Agrícola. […]»422. Num período posterior, foi agente ativo dos melhoramentos nos métodos de cultivo e das formas de produção e da diversificação dos tipos de culturas nesta região. O agricultor beirão não se contentou em ser arrendatário ou administrador de património alheio. Os lucros eram concentrados na aquisição de outras propriedades, numa vasta região, onde a bacia do Tejo constituiu o elemento central. Para além da Golegã, o Livro do Tombo da Casa Relvas documenta a exploração, arrendamento e compra de propriedades, desde 1823 até ao fim da vida, nos concelhos de Sertã (Beira Baixa), Abrantes, Almeirim, Ourém, Santarém, Torres Novas, Tomar, Vila Nova da Barquinha (Ribatejo); Crato, Ponte de Sor, Avis e Sousel (Alentejo)423.
Na Golegã, a supracitada Quinta do Outeiro, parece ter sido adquirida com o intuito de aí se fixar residência. De facto, foi só após a aquisição dessa quinta, que José Farinha Relvas viria a contrair matrimónio com Clementina Amália de Mascarenhas Pimenta (c.1810-1859)424.
420 Paulo Oliveira, ob. cit., pp. 13-16.
421“Autos cíveis de petição de D. Inês Maria Caetana”, Feitos Findos, Juízo dos Órfãos da cidade de Lisboa, mç. 46, n.º 1, fl. 8 e 9, ANTT (PT/TT/JOLSB/D-H/0046/00001)
422 Laurinda Paz, ob. cit., p. 100.
423 Laurinda Paz, ob. cit., p. 100 e Livro do Tombo da Casa Relvas, AHCP, cx. 258, (PT/AHPC/FMR/JC/B/DS/258).
424 Nalguns casos surgia o ano de 1852 com data da morte de Clementina Mascarenhas Relvas (veja-se Laurinda Paz, “Inventário do Arquivo Histórico da Casa dos Patudos”, AHCP, s. d., [Policopiado]). Porém, o registo de batismo já atestava avó paterna de José Relvas como procuradora de sua avó materna (a madrinha), presente nessa cerimónia, a primeira nunca poderia ter morrido antes 1858. Nos registos paroquiais do ADSTR comprova-se que faleceu a 3/02/1859, Registos Paroquias da Golegã. Livros de óbito de 1854 a 1859 (PT/ADSTR/PRQ/PGLG02/003/0001), disponível em linha em:
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Temos poucas informações sobre a avó paterna de José Relvas, a quem sabemos ser natural da Sertã, onde também veio a acumular património imobiliário quer rústico, quer urbano. No AHCP não existe nenhum fundo documental que lhe diga respeito. Nascida no seio de família de proprietários da Sertã, Clementina Amália casou em 1837, tendo tido dois filhos Carlos Augusto e José, respetivamente pai e tio de José de Mascarenhas Relvas, o qual, haveria de manter o apelido de sua avó425. O contrato de casamento entre José Farinha e Clementina salvaguardava os bens de ambos, os quais seriam consideráveis, de parte a parte, para justificar tais medidas426. Clementina Amália de Mascarenhas Pimenta Relvas morreu, a três de fevereiro de 1859, menos de um ano depois do nascimento do neto. O atual “Convento Hotel da Sertã” faz alusão à importância da “casa Relvas” na região e à propriedade do antigo Convento pelos irmãos de Clementina Amália427. Tal como a família Relvas, os Mascarenhas eram originários da
https://digitarq.adstr.arquivos.pt/details?id=1004682, [consultado a 02/08/2018].
425 Paulo Oliveira, ob. cit.., p. 15; José Raimundo Noras, ob. cit.., p. 19.
426 “Escritura de dote e contrato pré-nupcial que fizeram José Farinha Relvas de Campos e sua mulher Clementina Amália de Mascarenhas Pimenta”, 1837, AHCP, cx. 286 e Livro do Tombo da Casa Relvas, AHCP, cx. 258, (PT/AHCP/FR/JC/B/DS/258).
427 “José Relvas e a ligação ao Convento da Sertã Hotel” em Convento da Sertã Hotel, disponível em linha em http://www.conventodasertahotel.pt/index.php/pt/home/historia/pequenas-historia/20-historias/132-jose-relvas-e-a-ligacao-ao-convento-da-serta-hotel, [consultado a 21/02/2018, 13h45].
Imagem 1 – Palacete da Quinta do Outeiro (Golegã)
Casa onde nasceu José Relvas. (Em 1892 foi vendida à Câmara Municipal)
Gollegã – Paços do Concelho, Postal ilustrado, c. anos 20, século XX. (Coleção particular.)
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Sertã. No entanto, para além de interesses agrícolas comuns, esta família parece-nos mais ligada ao pequeno comércio urbano ao funcionalismo do estado na sua esfera de influência local.
Manuela Poitout, no seu trabalho sobre Clementina Relvas, considera José Farinha Relvas como apoiante miguelista por via de uma contribuição de víveres dada em 1833, citando a Gazeta de Lisboa428. No entanto – e a própria autora o salvaguardou – parece-nos que tal entrega de bens pode ter sido compulsória. Devemos ter em atenção que a Gazeta de Lisboa foi o periódico oficial do Governo de D. Miguel (1802-1866)429. Por outro lado, José Farinha Relvas também pode ter apoiado inicialmente a “causa miguelista” e, posteriormente, ter mudado de campo, conforme os acontecimentos ou a formação política das suas próprias convicções.
Dos vários nomes citados na Gazeta de Lisboa, pelo menos José Farinha Relvas e Rafael José da Cunha vieram depois a protestar, em 1834, contra essas entregas de bens agrícolas aos militares. Do mesmo modo, Farinha Relvas escolheu participar na delegação de lavradores da Golegã mobilizada para saudar os liberais pela vitória, nesse mesmo ano. Paulo Oliveira interpreta estes dois comportamentos como indicativos de maior simpatia pela “causa liberal”, a qual viria a representar no concelho430.
Não se conhece outro registo de qualquer envolvimento político ativo de José Farinha Relvas até 1834. A documentação que nos deixou refere-se, na quase totalidade, à gestão corrente dos negócios relativos à exploração das várias propriedades que administrava, como vimos, numa vastíssima região, que se estendia da Beira ao norte do Alentejo. No Ribatejo, havia destaque, por exemplo, para as Quintas da Alorna, Quinta do Paul ou Quinta da Labruja, onde o irmão tinha começado a mesma atividade. Parte do fundo de José Farinha Relvas, também incorpora correspondência, bem como legados e testamentos e outros documentos afins, conservados na perspetiva de fazerem fé da propriedade, dos arrendamentos e dos direitos de foro da “Casa Relvas”431. Tanto quanto se sabe, João Relvas concentrou muitos dos negócios e da fortuna neste seu familiar mais
428 Manuela Poitout, “Clementina Relvas e a condição feminina do seu tempo (1857-1934)”, p. 17.
429 Rei de Portugal entre 1828-1834, cujo reinado ficou a associado à recusa do liberalismo e à guerra civil, período também conhecido por “guerras liberais”. Após derrota e afastamento da sua linha sucessória do trono (“lei do banimento”, os seus partidários passaram conhecidos como legitimista. Não cabendo aqui nenhuma síntese bibliográfica nem sobre o monarca, nem sobre esse período. Remetemos para Joel Serrão,
“D. Miguel” em Dicionário de História de Portugal, Joel Serrão (dir.), vol. IV, pp. 291-294; como também para a biografia de Maria Alexandre Lousada e Maria de Fátima Sá e Melo Ferreira, D. Miguel, Lisboa:
Círculo de Leitores, col. “Reis de Portugal”, n.º XXIX, 7.ª ed., 2013.
430 Paulo Oliveira, ob. cit., p. 15 e Inácio Barbosa de Vilhena, “A vila da Golegã” em Archivo Pitoresco, Lisboa, ano 10, n.º 21, 1867, p. 163.
431 O subfundo de José Farinha Campos no AHCP integra documentação referente a negócios e gestão, cx.
258 a 304, (PT/AHCP/FR/JC/B/46 a 01/258 a 304).
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novo. Contudo, as propriedades de Flor da Rosa surgem depois geridas em sociedade com um primo de ambos, José Matias Relvas, de acordo com o mesmo estudo de Paulo Oliveira, que temos vindo a seguir.
Como referimos, José Farinha Relvas e outros proprietários do concelho da Golegã reclamaram contra as requisições agrícolas do Governo miguelista, conforme registo nas atas municipais432. A mesma investigação de Paulo Oliveira, demonstrou que este e outros lavradores integraram a comitiva goleganense que saudou, na Atalaia, as tropas liberais, após a vitória destas na Batalha da Asseiceira (16/05/1834), dias antes da tomada de Santarém433. Depois de ter perdido uma primeira eleição, terá sido esse papel que granjeou a Farinha Relvas prestígio suficiente para se tornar no segundo Presidente do Município da Golegã eleito, no novo contexto político, em 1835. Veio a ser várias vezes reconduzido nessas funções autárquicas, tendo exercido ainda outros cargos locais e regionais por inerência, como um dos maiores contribuintes daquele concelho434. Sabemos que demonstrou, por várias vezes, preocupações com as contas do município, que encontrou em estado calamitoso, não havendo recursos suficientes para os vários
432 Paulo Oliveira, ob. cit.., nota 23, p. 166. (Actas da Câmara da Golegã, 24/01/1830).
433 Paulo Oliveira, ob. cit.., p. 15. Sobre essa batalha veja-se Joaquim Veríssimo Serrão “Asseiceira, Batalha da” em Dicionário de História de Portugal, direção de Joel Serrão, Porto: Livraria Figueirinhas, vol. I, p.
234.
434 Paulo Oliveira, ob. cit.., pp. 16-17. Veja-se também “José Farinha Relvas” em Câmara Municipal de Golegã, disponível em linha em: http://www.cm-golega.pt/concelho/turismo/item/169-jose-farinha-relvas, [consultado a 2/02/2018].
Imagem 2 – José Farinha Relvas de Campos (c.1791-1865)
Avô paterno de José Relvas Quadro a óleo, autor desconhecido CPMA, Alpiarça
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encargos. No entanto, no final do século a situação teria melhorado, dado que o seu neto vendeu à Câmara Municipal da Golegã, a Quinta do Outeiro, na qual se fixaram os Paços do Concelho435.
José Farinha Relvas de Campos também desempenhou funções de Procurador da Junta Geral do Distrito, diversas vezes. Enquanto agricultor esteve associado a modernizações nos processos de trabalho da lavoura, segundo a imprensa, muito provavelmente relacionados com os setores da cortiça, da pecuária, do azeite e dos cereais, onde tinha os seus principais interesses. Vilhena Barbosa (1811-1890), no Archivo Pitoresco, terminou a sua “notícia da vila da Golegã” com uma síntese biográfica do lavrador:
«[…] José Farinha Relvas, abastado lavrador, nascido em 1791 e fallecido em 27 de fevereiro de 1865, era tão probo e intelligente, quanto ativo e emprehendedor. […] N’aquelles introduziu e fez uso, com manifesto proveito publico, de muitos processo e instrumentos agrícolas com a sciencia tem aperfeiçoado e desenvolvido modernamente a agricultura. / À sua iniciativa e ao seu zelo deve a Gollegã muitos e importantes melhoramentos, uns promovidos por ele como simples particular, outros a que deu impulso como presidente da câmara, cargo que exerceu quasi constantemente, [...] Elegeram no deputado ás cortes no anno de 1842, cujo mandato não acceitou. A mesma abnegação e modéstia o levaram a recusar vários títulos de nobreza com a munificência regia por diversas vezes pretendeu galardoal-o […]» 436.
Não localizámos registos da eleição para a Câmara de Deputados, em 1842, porém seria efetivamente eleito, em 1848 deputado, pela Estremadura. Não participou nos trabalhos parlamentares, primeiramente alegou motivos pessoais e de saúde e não chegou a prestar juramento. Mais tarde, renunciou ao cargo, em 1850437, pelos mesmos motivos.
O artigo refere a recusa de títulos de nobreza e honrarias várias. Porém, aceitou ser agraciado como Comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, em 1845438.
435 Sobre a venda da “casa da família Relvas” veja-se Carta de Carlos Relvas a José Relvas, 21/06/1891, AHCP, cx. 10, pasta 2, (PT/AHCP/FR/JMR/A/01/010/02). Este documento, publicado parcialmente por nós, em Fotobiografia de José Relvas (1858-1929), p. 41, veio refutar a “narrativa popular” na Golegã sustentando um diferendo entre Carlos e José Relvas, o qual despeitado com novo casamento do pai o teria expulsado de casa, vendendo o solar à Câmara. A Câmara da Golegã mantém-se no mesmo local, ainda que em edifício diferente, em virtude do incêndio que 1957, destruiu a antiga casa onde nasceu José Relvas. A biografia de Paulo Oliveira (p. 98) também transmite a ideia de que a venda do Palácio do Outeiro possa ter resultado de um diferendo entre Carlos e José Relvas, opinião refutada pelo próprio Carlos Relvas.
436 Inácio Vilhena de Barbosa, “A villa da Gollegã (II cont.)” em Archivo Pitoresco, Lisboa: Tipografia Castro e Irmão, anno 10, n.º 21, 1867, p. 163.
437 Diário da Câmara dos Deputados, 23/02/1850, n.º 16, pp. 240-241; no Dicionário Biográfico Parlamentar (1834-1910), vol. I, pp. 564, Maria Teresa Campos Rodrigues considerou: «Desconhecem-se quaisquer dados biográficos sobre este deputado eleito para a 7.ª legislatura — 2 de janeiro de 1848 a 25 de Maio de 1851 — em representação da província da Estremadura, e que, na sessão de 25 de Fevereiro de 1850, resignou do seu cargo, sem ter prestado juramento.» A dificuldade em identificar o parlamentar deve ter decorrido do facto de este não ter exercido as funções.
438 Assentamento geral de agraciados com a Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, Ministério do Reino liv. 924, ANTT, (PT/TT/MR/SG-2.ªREP/09/01).
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Desconhece-se a origem das ligações de José Farinha Relvas e Campos com os viscondes de Podentes. De facto, como presidente da Câmara da Golegã, o primeiro afirma que irá interceder junto do segundo, então deputado, no caso de uma petição feita aos “deputados da Nação Portuguesa” para garantir subsídios e medidas políticas que apoiassem a recuperação agrícola da região439. Esse pedido ocorreu sensivelmente um ano depois de José Farinha Relvas, lavrador e proprietário, político sem projeção nacional na época, ter casado o filho Carlos com a filha dos viscondes de Podentes.
Em tudo nos parece que o casamento entre Margarida de Azevedo e Carlos Relvas, adolescentes de 15 e 14 anos respetivamente, configura uma estratégia de nobilitação de uma família de raízes campesinas e burguesas, com vasto património e fortuna consolidada, deste modo associando-se uma “nova aristocracia liberal”, a qual se afirmava política e socialmente, através do sistema monárquico constitucional implementado pelo liberalismo440. Por outro lado, tanto os Viscondes de Podentes como os Relvas, para além de interesses agrários mantinham património imobiliário em diferentes zonas das Beiras e, mais tarde, em menor grau, em Lisboa e no Porto, sendo as rendas urbanas outros dos rendimentos das duas famílias. Neste contexto, poderá o casamento de Carlos e de Margarida ter configurado uma estratégia empresarial?
De facto, Carlos Relvas, no caso da sua filha Clementina é acusado nas narrativas orais de ter tentado casar a filha, antes de uma eventual desonra, com um abastado parente, o que não se concretizou. Uma visão romantizada da vida de Carlos Augusto Relvas e Maria Amália Mendes, poderá também levar a supor um eventual conhecimento nos mesmos círculos sociais e culturais propiciador do casamento de ambos, associado à vontade destes ou, mesmo, supor alguma causa exógena para o «casamento dos adolescentes», tal como Paulo Oliveira sugere441. Neste momento, parecem-nos mais plausíveis as interpretações associadas às dinâmicas de consolidação patrimonial e a estratégias de nobitalização por parte dos seus familiares. Neste caso, estamos em crer que os “pergaminhos liberais” de José Farinha Relvas devem ter pesado junto do futuro
“compadre” Jerónimo de Azevedo e Vasconcelos. A nossa perspetiva contrapõe-se à do artigo de Manuela Poitout descrevendo os dois avós de José Relvas, em “campos de
439 Paulo Oliveira, ob. cit.., p. 18 com citação da “Acta da Câmara da Golegã” de 22/03/1854, Livro de Actas da Câmara Municipal da Golegã, Câmara Municipal da Golegã (CMG).
440 Paulo Oliveira, ob. cit., p. 19.
441 Paulo Oliveira, ob. cit., pp. 19.