Capítulo III – Plano Metodológico
1. Enquadramento, Objetivos e Hipóteses
O presente estudo revela-se de grande importância perante uma fraca panóplia de estudos na temática dos comportamentos sexuais, especialmente em Portugal, principalmente no que respeita às relações sexuais ocasionais e acima de tudo no que diz respeito aos riscos corridos nas mesmas.
A temática por si só revela algumas contradições, visto que, por um lado, existe uma gradual evolução a nível do pensamento para a sexualidade, mas não a nível da educação para a mesma, criando ainda ocasionalmente motivos de tabus e consequentemente de desconhecimento. Com isto, é normal que as pessoas usualmente considerem deter uma grande bagagem de conhecimentos acerca da temática, acabando de certa forma por ignorar outros assuntos sobre a sexualidade, que por vezes não são referidos, como é o caso dos riscos físicos e emocionais. Por estas razões, surgiu a urgência de realizar este estudo.
O adulto emergente encontra-se numa fase de vida onde a exploração e a experimentação sexual, iniciadas na adolescência, têm continuidade (Mosher, Chandra & Jones, 2005 cit in Lyons et al., 2010) havendo um progressivo aumento do interesse pela sexualidade. Este acrescido interesse revela, também, uma maior exploração face ao sexo ocasional e sendo o ambiente universitário conhecido como encorajador e aceitador das atividades sexuais ocasionais nos(as) jovens adultos (Chng & Moore, 1994, cit in Stinson, 2010; Paul, McManus & Hayes, 2000), este apresenta-se com um contexto privilegiado neste âmbito.
Porém, para alguns autores, o envolvimento em práticas sexuais ocasionais traz consequências negativas, como sentimento de arrependimento, processos de auto- culpabilização e riscos para a saúde física e psicológica (Lambert, Kahn & Apple, 2003; Paul & Hayes, 2002; Paul et al., 2000 cit in Eshbaugh & Gute, 2008).
Todas essas consequências advindas da incursão no sexo ocasional podem ou não ser percecionadas corretamente pelos indivíduos que no mesmo se envolvem, sendo a avaliação desses riscos um processo que cada pessoa faz, não de forma isolada, mas sim numa construção social em que o indivíduo atua como um ser social. Por estes motivos, a perceção e a aceitação do risco têm as suas raízes em fatores sociais e culturais, sendo que os perigos são mediados pela influências dos o grupos sociais nos quais o sujeito está inserido, grupos esses que tendem a minimizar
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certos riscos e a enfatizar outros, com o intuito de manter e controlar o grupo onde estão inseridos (Short,1984; Douglas & Wildavsky,1982 cit in Maia, 2010).
Mediante a revisão de literatura realizada, definiu-se como objetivo geral do presente estudo, investigar o envolvimento dos(as) estudantes universitários(as) no comportamento de sexo ocasional e a perceção de risco que este envolve, contribuindo para a compreensão da influência que os contextos onde os(as) estudantes universitários(as) estão inseridos (contextos grupais, sociais e familiares) podem ter na visão que têm quer do sexo ocasional, quer da perceção dos riscos associados a esse.
Desta forma, definiram-se como objetivos específicos:
(1) Compreender a relação entre o envolvimento em sexo ocasional e a perceção de risco dos(as) estudantes universitários(as), isto é, se os(as) estudantes universitários(as) que se envolvem em sexo ocasional sabem dos riscos reais e os desvalorizam ou, se pelo contrário, os desconhecem; (2) Aferir se a perceção de risco é diferente no momento em que os indivíduos
se envolvem em sexo ocasional e posteriormente ao seu envolvimento (3) Perceber se a perceção de risco dos(as) estudantes, relativamente ao sexo
ocasional, difere entre os(as) estudantes que incorrem em sexo ocasional e os(as) estudantes que nunca incorreram neste comportamento,
(4) Compreender a relação entre o envolvimento em sexo ocasional e os fatores contextuais nomeadamente: compreender se são os contextos grupais e sociais conhecidos (i.e. grupo de amigos) e os espaços onde os indivíduos se sentem mais confortáveis para agir de forma espontânea (i.e. festas e discotecas) que têm uma maior influência mais na participação em sexo ocasional ou se são as situações desconhecidas (como estar fora do país e a entrada na universidade) que têm uma maior influência;
(5) Perceber se o uso de métodos contracetivos e o consumo de álcool e/ou estupefacientes são meios facilitadores do sexo ocasional;
(6) Compreender se o envolvimento em sexo ocasional difere em função das expectativas sociais face ao mesmo;
(7) Aferir a relação entre o envolvimento em sexo ocasional e o arrependimento; (8) Compreender se existe uma relação entre o não envolvimento em sexo
ocasional e a religiosidade;
(9) Verificar se existem diferenças em função do género no envolvimento em sexo ocasional e na perceção de risco a ele associado.
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Em relação a cada objetivo específico formularam-se as seguintes hipóteses: H1: Existe uma correlação positiva estatisticamente significativa entre o envolvimento em sexo ocasional e a ausência de perceção de risco deste comportamento.
H2: Há diferenças significativas na perceção de risco no momento do envolvimento em sexo ocasional e na fase posterior a este.
H3: Existem diferenças estatisticamente significativas na perceção dos riscos entre os(as) estudantes que se envolvem em sexo ocasional e os que não se envolvem
H4.1: Existem correlações estatisticamente significativas entre o envolvimento em sexo ocasional e os contextos grupais em que os(as) estudantes universitários(as) estão inseridos.
H4.2: Existem correlações estatisticamente significativas entre o envolvimento em sexo ocasional e a frequência de festas/discotecas.
H4.3: Existem correlações estatisticamente significativas entre o envolvimento em sexo ocasional e a frequência universitária.
H4.4: Existem correlações estatisticamente significativas entre o envolvimento em sexo ocasional e permanência temporária fora do país.
H5.1: Existem correlações estatisticamente significativas entre o envolvimento em sexo ocasional e o consumo de substâncias (álcool e/ou estupefacientes).
H5.2: Existem correlações estatisticamente significativas entre o envolvimento em sexo ocasional e o uso de métodos contracetivos.
H6: Existem correlações estatisticamente significativas entre o não envolvimento em sexo ocasional e as expectativas sociais.
H7: Existem correlações estatisticamente significativas entre o envolvimento em sexo ocasional e o arrependimento.
H8: Existem correlações estatisticamente significativas entre o menor envolvimento em sexo ocasional e a elevada religiosidade.
H9.1: Existem diferenças estatisticamente significativas entre o sexo feminino e masculino face ao envolvimento em sexo ocasional.
H9.2: Existem diferenças estatisticamente significativas entre o sexo feminino e masculino face à perceção de risco aquando do envolvimento em sexo ocasional.
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