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1. EDUCAÇÃO, LINGUAGEM E ENSINO DE HISTÓRIA

2.3 OBRAS SELECIONADAS

2.3.1 Kabá Darebu

2.3.1.1 Enredo e materialidade da obra

Após breve contextualização do autor, da ilustradora e da obra, na sequência, será realizada a análise do enredo e da materialidade do exemplar.

Kabá Darebu conta, em prosa, diversos aspectos da vida cotidiana de um menino de

sete anos que pertence à tribo indígena munduruku. Seu nome dá título ao livro, aguçando, já na capa, a curiosidade do leitor, pois o nome não pertence à língua portuguesa. O texto vai sendo narrado pelo menino, como se ele estivesse levando o leitor em um passeio pela sua aldeia, mostrando seus costumes e sua família.

No início do livro, apresenta-se, dizendo seu nome, idade, etnia, significado de seu nome e quem lhe deu, dessa forma, procurando criar uma empatia com o interlocutor. Em seguida, fala sobre sua moradia, quem são seus pais e a função masculina e feminina dentro da aldeia. Relata seus hábitos alimentares, brincadeiras e festividades. Explora a ligação forte dos povos indígenas com a natureza e suas relações com o sobrenatural, a religiosidade e as doenças. Finaliza a história fazendo uma reflexão acerca do contato com o que, na língua munduruku, são denominados

pariwat, ou seja, os brancos, e

como sua cultura passou por mudanças após esse convívio, nem sempre amigável, com um modo de viver diferente.

A obra, de caráter paradidático, traz, além da história central, no final do exemplar, alguns paratextos intitulados Boxes para leituras

complementares. São

Figura 5 - Receita típica do povo munduruku utilizando mandioca. Exemplo dos paratextos encontrados ao final do livro

dedicadas a eles quatro páginas, nas quais o autor expõe algumas curiosidades sobre o povo munduruku. Nas duas primeiras, explica, usando uma linguagem informativa, por exemplo, que eles vivem ―[...] às margens do grande rio Tapajós e seus afluentes, no estado do Pará, além de estar presente também no Amazonas.‖ (MUNDURUKU, 2002, p. 24), e quantifica sua etnia em ―[...] aproximadamente 8 mil pessoas, espalhadas por mais de 80 aldeias.‖ (MUNDURUKU, 2002, p. 24). Além disso, aponta que ―Há quem pense que todos os índios são iguais, mas isso não é verdade. Cada povo tem sua maneira própria de se relacionar com a natureza.‖ (MUNDURUKU, 2002, p. 25), expondo diferenças e semelhanças entre grupos indígenas. O paratexto orienta o leitor acerca da percepção de que os ―índios‖ não são todos iguais. Nas outras duas páginas, são exibidas curiosidades sobre a mandioca e duas receitas típicas utilizadas por sua tribo.

É oferecida, na última página, a apresentação do autor e da ilustradora, feitas por eles mesmos. Nota-se a preocupação de ambos em expor sua relação estreita com o assunto e o trabalho para além da obra que realizam. Tais elementos conferem segurança ao ler o livro, pois, percebe-se, tanto na escrita, quanto nas ilustrações, a proximidade da temática indígena. Na contracapa, é exibido um pequeno trecho do texto e uma breve sinopse que convida o leitor a apreciar o exemplar.

A materialidade da obra colabora para o manuseio de crianças, público alvo do título. O livro, cujas dimensões são 25,5 x 23 cm, contém 28 páginas numeradas, facilitando a localização de algum dado e organização. No que diz respeito à encadernação, pode-se considerar que está adequada para o manuseio infantil, pois a capa e contracapa são confeccionadas em papel cartão envernizado, mais resistentes que as folhas do miolo. A gramatura das páginas internas é média e estas estão bem grampeadas, sem deixar folhas soltas e sem ponta de grampos que podem causar acidentes ou mesmo danificar o livro.

Quanto às ilustrações, neste momento, far-se-á breve referência, pois elas serão analisadas junto às demais categorias e conceitos. O conjunto das imagens que compõem a obra mostra aspectos do cotidiano como parte de sua aldeia, os animais e alimentos de que se utilizam, suas pinturas para diversos momentos, como festas e caça, e suas brincadeiras.

A figura do indígena está representada de modo não estereotipado, pois a ilustradora criou uma feição diferente para cada índio que desenhou. Ela respeita características físicas, como o tom de pele, as cores dos cabelos e o corte utilizado pela maioria das tribos indígenas que habitam o Brasil. As imagens mostram os indígenas em atividades do seu dia a dia, brincando e interagindo com animais, e o leitor pode ter empatia com os personagens, por observar que os munduruku também realizam ações iguais ou parecidas com as dele. A

relação com o cotidiano é importante, uma vez que pessoas que não convivem próximas a grupos indígenas podem criar uma visão distorcida desses povos, considerando-os ―selvagens‖, mas o livro Kabá Darebu é capaz de auxiliar nessa aproximação e na desconstrução de estereótipos.

As ilustrações se alternam em coloridas e preto e branco. A maioria das imagens é colorida, como exemplo apresenta-se a figura 6, na qual é usada a técnica da aquarela e pintura em seda. Os peixes, parte da alimentação básica dos munduruku, são representados na sua diversidade, visto que são pintados peixes de várias espécies, com características específicas.

Outro ponto que merece destaque são as cores utilizadas por Maté. Elas são vivas e com vários matizes, privilegiam as cores da natureza, como os tons de verde, azul e terra. A técnica utilizada permite a mistura e sobreposição de tonalidades, dando, assim, mais vivacidade e movimento aos desenhos. Quanto ao tamanho das imagens, elas variam, mas têm suas formas bem definidas e de fácil identificação pelo leitor. Tendo em vista essas questões, observa-se que as ilustrações

dialogam com o texto escrito e auxiliam o individuo na interpretação da palavra. Verifica-se que as ilustrações, em seu conjunto, potencializam e ampliam o texto verbal.

Pode-se dizer que o livro possui boa apresentação, pois traz informações necessárias em sua capa e contracapa. A imagem da capa mostra parte do rosto do personagem principal, como se esse estivesse interagindo com seu interlocutor, em uma espécie de convite para a leitura/passeio. O exemplar é convidativo à apreciação. Em seguida, observar-se-á como, quando e onde Kabá Darebu narra a sua história.

Figura 6 - Peixes com traços e cores distintas, representando a diversidade da fauna