O LHARES SOBRE O C AMPO DO J IQUIÁ
3.4. T ENSÕES E C ONFLITOS ENTRE OS A GENTES DO P ODER P ÚBLICO DO R ECIFE
Ao iniciar os trabalhos com os representantes da Prefeitura do Recife, do Estado de Pernambuco e do IPHAN, que estão, ou estiveram, à frente dos projetos e das intervenções no Campo do Jiquiá, encontrei o mesmo o receio por parte deles em me atender. Antes de agendar as conversas por telefone era necessário explicar que se tratava de um estudo, que não havia intenção de polemizar o trabalho deles como gestores públicos, enfim, foi exigido todo um cuidado na hora de agendar as entrevistas. A primeira coisa que percebi é que, assim como a população que vive no entorno do parque, estas instâncias também têm uma série problemas para dialogar entre si.
Para a prefeitura do Recife, o ideário desses projetos conforme a análise das falas de meus informantes, mescla um discurso de cunho mais social, voltado para a melhoria dos problemas que envolvem os bairros do entorno, mas também ao estímulo do turismo da cidade. É importante destacar, que estes projetos são apresentados por eles como um “projeto padrão”, que procura, no caso, explorar as potencialidades do Campo do Jiquiá. Em outras palavras, os projetos da prefeitura e do Estado foram desenvolvidos seguindo um padrão, recorrente nestas intervenções que unem o discurso social ao turístico. É exatamente este projeto padrão que vai ser criticado pelo IPHAN, diante do argumento de que devem ser levadas em conta as especificidades sócio-culturais e históricas da área, que a intervenção não seja apenas a transposição de um projeto pré-formatado, sem maiores estudos sobre a área (particular pela sua história, mas também pelos seus problemas sociais).
Os responsáveis pelo gerenciamento dos projetos do futuro parque são a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico da prefeitura. Além dela, a DIRCON, responsável pela retirada da população, e a Secretaria de Habitação, que procura organizar soluções e formas de prestar assistência à população que será realocada. Como já observamos nas falas dos moradores da Nova Esperança, o diálogo com a DIRCON, chega a ser classificado como violento pelos moradores locais.
Ao mesmo tempo em que o parque está sendo construído para favorecer a população local (que não está dentro da área do Campo do Jiquiá) e diminuir os problemas sociais, pretende-se cercar a área e evitar a circulação de pessoas potencialmente suspeitas dentro do novo lugar construído no espaço do futuro parque (isto ficou evidente nas falas dos meus informantes). Mas quais serão essas pessoas suspeitas?
Os turistas que vêm de fora para prestigiar um parque símbolo da história da modernização do Recife e da aviação mundial? Ou a população do entorno? Em outras palavras, através das falas dos meus interlocutores, observa-se o disciplinamento que o poder público pretende fazer dos usos do espaço para as comunidades.
Para os funcionários da prefeitura, a construção do parque e a especulação imobiliária gerada a partir dela, irão trazer vários benefícios para as comunidades. Porém, quando voltamos à fala da dona de casa do bairro San Martin, mais especificamente sobre os interesses das empresas de construção civil na área, é difícil imaginar os benefícios que a especulação provocada pelas intervenções pode trazer para população local. Não estou querendo dizer que a preocupação social do projeto não seja válida, ou não seja realmente colocada em prática pelo poder público, entretanto, parece-me que o carro chefe do projeto é fomentar o turismo local e evitar a degradação do Campo do Jiquiá, representado pelo poder público como um lugar de referência histórica da cidade.
Para os técnicos da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico do Estado de Pernambuco o projeto do Parque do Jiquiá não é novo, tem décadas. Conforme eles, havia um questionamento do Ministério Público exigindo um tipo de apropriação do terreno, que mostrasse a utilidade pública do mesmo. E os projetos resultaram dessa exigência.
Por outro lado, para os funcionários do IPHAN, responsáveis pela supervisão do processo de tombamento federal, o Campo do Jiquiá tem uma importância de caráter nacional. É interessante destacar que existia um processo de solicitação de tombamento em âmbito federal em aberto, desde 1980, período em que também foi encaminhada esta solicitação para FUNDARPE. Ambas as solicitações foram feitas por Francisco D. R. Pfaltzgraff (um estudioso da história dos zeppelins, residente no Rio de Janeiro no período do tombamento estadual). Apenas uma das solicitações foi aceita, pela FUNDARPE, que iniciou os procedimentos para o tombamento da torre dos zeppelins do Jiquiá e da área em que ela se localizava, sendo concluído em 1983. Algum tempo depois o IPHAN também deu início a um processo de análise da solicitação enviada anteriormente e concluiu que, por ser um bem já protegido em nível estadual (o tombamento estadual teoricamente tem os mesmos objetivos do tombamento federal), pressupõe-se que não seria necessário outro tombamento, pois, em teoria, o bem já estaria protegido. Agora, 30 anos depois, este processo de solicitação de proposta de tombamento da área em nível federal é retomado.
Quando o tombamento estadual foi feito havia uma maior descentralização da política de reconhecimento, tombamento e preservação dos bens imóveis, o que permitia ao Estado e Município uma maior autonomia, tanto nas formas como estes processos se davam quanto na forma como este patrimônio seria gerenciado, em termos de recursos para manutenção e preservação do bem. Como já observamos no capítulo anterior, havia nessa época um estímulo a essa descentralização e um incentivo pela procura de soluções autofinanciáveis, que visavam parcerias entre o poder público e instituições privadas e de turismo, na gestão do patrimônio das cidades brasileiras.
Ao desarquivar o processo de tombamento federal, a equipe do IPHAN passou a considerar que o espaço local (o Campo do Jiquiá) deve ser contemplado, não apenas com a torre de atracação, como foi feito no tombamento estadual, mas também contemplar a paisagem local e as construções dentro do campo. Isto é, deve ser pensado o espaço do Campo do Jiquiá como um todo, não apenas a torre como um monumento isolado no espaço da antiga base de atracação. É aqui onde começam a aparecer as dissonâncias entre o IPHAN e a prefeitura do Recife. A principal crítica do IPHAN é à forma como as Secretarias de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico, de Turismo e Esportes da Prefeitura, juntamente com o Estado, têm desenvolvido os projetos no Campo do Jiquiá, ou seja, o projeto padrão.
Outro, talvez o maior ponto de tensão, seja a forma como estes órgãos concebem o bem patrimonial. Para o IPHAN, a prefeitura da cidade, através das intervenções, visa em última instância, à contenção dos processos de invasões do espaço local, fomentando, assim, a especulação imobiliária. Já para o IPHAN, a proposta é que todas as intervenções sejam pensadas, por um lado, contemplando as expectativas das comunidades do entorno; por outro, mantendo a unidade arquitetônica com o todo do Campo do Jiquiá. Sobre a primeira questão (as expectativas das comunidades e a relação delas com o bem), pelos depoimentos de alguns informantes, ao mesmo tempo em que se preza pela relação sócio-cultural com o bem, não há nenhuma preocupação em saber quais os significados do bem para a população do entorno.
Retomando a fala dos moradores não residentes no entorno do bairro, percebe-se que nenhum elemento da paisagem local, como os miudeiros, os balaieiros, ou até mesmo os viveiros de peixes de outrora, são evocados ou referenciados. Isto é curioso, pois ao observar as imagens de época, utilizadas no primeiro capítulo, é possível perceber
que estes elementos da paisagem local estiveram sempre presentes nas imagens que fazem referência aos dirigíveis no Jiquiá. Não quero dizer que esta ausência das vozes das populações locais é fruto da displicência da equipe técnica selecionada pelo IPHAN, resta saber se foi impedimento devido à insegurança fruto dos problemas com o tráfico e com os assaltos.
CAPÍTULO IV
A CONSTRUÇÃO DO CAMPO DO JIQUIÁ COMO UM LUGAR DE