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2. PRINCÍPIOS BÁSICOS DA GEOTECNIA

2.8 ENSAIOS DE CAMPO

2.8.2 Ensaio de Cone (CPT) e de Piezocone (CPTU)

Objetivos

Procedimentos

Os ensaios de cone, executados com monitoramento mecânico ou elétrico, são conhecidos internacionalmente há várias décadas como “Cone Penetration Test”, com a sigla CPT. O ensaio consiste na cravação estática de uma haste cilíndrica com ponta cônica, medindo-se a resistência de ponta e o atrito lateral. Mais recentemente, foi desenvolvido o Ensaio de Piezocone (CPTU), que utiliza um transdutor piezométrico na ponta cônica. No ensaio de Piezocone, obtém-se, portanto, o registro das poropressões durante a cravação do cone, além das medições usuais do ensaio de CPT (resistências de ponta e de atrito lateral). Adicionalmente, pode-se interromper o ensaio CPTU para monitorar a dissipação da poropressão registrada na ponta cônica, ao longo do tempo. Este procedimento permite a estimativa do coeficiente de adensamento do solo.

Os ensaios de cone e piezocone fornecem indicações detalhadas sobre o perfil estratigráfico do terreno e permitem a estimativa de diversos parâmetros geotécnicos, com base em expressões empíricas. A Tabela 2.9 apresenta os principais parâmetros que são usualmente estimados através do ensaio de piezocone.

Tabela 2.9 – Parâmetros estimados através do ensaio de Piezocone

O procedimento padrão do ensaio de cone consiste na cravação estática da ponteira cônica (com 60º de ápice) sob velocidade constante de 20mm/s. A seção transversal do cone é normalmente de 10cm², podendo atingir 15cm² para equipamentos mais robustos. Existem diferentes tipos de equipamentos, que podem ser classificados em três categorias: (a) o cone mecânico, caracterizado pela medida na superfície, com a transferência mecânica pelas hastes, dos esforços necessários para cravar a ponta cônica qc e o atrito lateral fs; (b) o cone elétrico, cujas células de carga instrumentadas permitem a medida de qc e fs diretamente na ponteira e (c)

Areias

Densidade relativa (DR) Ângulo de atrito efetivo (f’) Coeficiente de empuxo no repouso (ko)

Módulo de Young (E) Módulo edométrico (M) Módulo cisalhante máximo (Gmax)

Argilas

Razão de pré-adensamento (OCR) Resistência não drenada (Su) Coeficiente de empuxo no repouso (ko)

Módulo de Young não drenado (Eu) Módulo edométrico (M) Módulo cisalhante máximo (Gmax)

Sensitividade (Sf)

Coeficiente de adensamento (ch ou cv)

o piezocone, que além das medidas elétricas de qc e fs, permite o monitoramento contínuo das poropressões geradas durante o processo de cravação. A Figura 2.68 apresenta uma ilustração típica do piezocone. Um aspecto importante do piezocone é a falta de consenso em relação à localização do elemento filtrante, para registro das poropressões geradas durante a cravação (Robertson et al, 1992; Schnaid et al, 2000). A escolha de uma posição particular: ponta (u1), base (u2) ou luva (u3) dependerá da aplicação dada às poropressões registradas no ensaio.

O equipamento de cravação consiste de uma estrutura de reação sobre a qual é montado um sistema de aplicação de cargas. Em geral, são utilizados sistemas hidráulicos para essa finalidade, sendo o pistão acionado por uma bomba hidráulica acoplada a um motor de combustão ou elétrico. A penetração é executada através da cravação contínua de hastes de comprimento de 1.00m, seguida da retração do pistão hidráulico para posicionamento de nova haste.

O conjunto pode ser montado sobre um caminhão, cuja capacidade varia entre 10 e 20 toneladas.

A reação aos esforços de cravação é obtida pelo peso próprio do equipamento.

O principal atrativo do ensaio é o registro contínuo da resistência à penetração, fornecendo uma descrição detalhada da estratigrafia do subsolo.

A Figura 2.69 apresenta alguns resultados típicos de ensaios de piezocone. No caso do CPT, as grandezas medidas são: resistência de ponta qc e atrito lateral fs. A razão de atrito Rf (= fs / qc) é o primeiro parâmetro derivado do ensaio, utilizado na classificação dos solos.

Os resultados apresentados na Figura 2.69 mostram um perfil de solo com estratigrafia

Figura 2.68 – Ilustração do Piezocone.

Equipamento

Apresentação dos Resultados

bastante variável composta de estratos de areia, argila e silte-argiloso. As camadas de areia são identificadas por valores de qc relativamente elevados (10 a 20MPa) combinados a valores de Rf da ordem de 1%. As camadas de argila se caracterizam por um padrão oposto, com baixos valores de qc e razões de atrito acima de 5%. A classificação do tipo de solo pode ser obtida através do gráfico apresentado na Figura 2.70 que relaciona qc com Rf (Begemann, 1965;

Sanglerat, 1972; Shemertmaann, 1978; Douglas e Olsen, 1981 citados por Schnaid, 2000).

Figura 2.69 – Resultados Típicos de um Ensaio de CPT (Schnaid, 2000).

Figura 2.70 – Ábaco para classificação do tipo de solo sedimentar (Robertson e Campanella, 1983 citado por Schnaid, 2000).

A diferença do ensaio de CPT para o CPTU ou piezocone é a leitura de poro-pressão durante o processo de cravação. Essa distinção é notada através da obtenção de um novo parâmetro de classificação denominado Bq.

Onde:

u0 é a pressão hidrostática;

svo é tensão vertical in situ.

A medição da poropressão no ensaio CPT proporciona maior sensibilidade na detecção de camadas drenantes delgadas e poucos centímetros de espessura. A Figura 2.71 exemplifica um perfil típico de piezocone na qual são medidas qt, Rt, uo, u e Bq ao longo da profundidade.

(2.8) (2.111)

B =q (u - u )2 0 (qtvo)

Nessa figura é possível identificar com clareza a presença de uma camada de argila mole com espessura aproximada de 15.00m, caracterizada por baixos valores de qt e geração significativa de excesso de poro-pressão. A existência de uma lente de areia à profundidade de 5.50m é detectada pelo aumento pontual de qt e Du=0.

A Figura 2.72 apresenta alguns ábacos que permitem classificar amostras de solo ensaiadas através do ensaio de piezocone relacionando qt com Bq.

Figura 2.71 – Resultado de um ensaio de piezocone (Schnaid, 2000).

Zona

1 2 3 4 5 6

Comportamento do solo

Solo fino sensível Material orgânico

Argila

Argila siltosa – argila Silte argiloso – argila siltosa Silte arenoso – silte argiloso

Zona

7 8 9 10 11 12

Comportamento do solo

Areia siltosa – silte arenoso

Areia – areia siltosa Areia

Areia grossa – areia Solo fino – duro

Areia – areia argilosa (cimentação) b) Robertson e outros, 1986 citado por Schnaid, 2000 incluindo a experiência brasileira.

a) Senneset e Janbu, 1984 citado por Schnaid, 2000 incluindo a experiência brasileira.

Figura 2.72 – Sistemas de classificação das argilas utilizando ábacos qt x Bq.

A partir dos resultados de ensaios de piezocone, podem ser estimadas várias propriedades de solos argilosos e arenosos, conforme descrito a seguir.

1. Resistência não-drenada (Su)

A resistência não drenada pode ser estimada a partir das equações propostas por Lunne et al (1997):

onde NKT e NDu são os fatores de cone em termos de resistência de ponta e de poropressão, respectivamente. Os valores de NKT e NDu podem ser estimados através de ábacos ou previamente obtidos a partir de correlações entre ensaios de piezocone e de palheta.

2. Coeficiente de Adensamento Horizontal ch do solo

Ensaios de dissipação do excesso de poropressões geradas durante a cravação do piezocone no solo podem ser interpretados para a obtenção do coeficiente de adensamento horizontal (ch).

O ensaio consiste em interromper a cravação do cone em profundidades pré-estabelecidas, por um período de aproximadamente 1 hora, até atingirem-se 50% de dissipação do excesso de poropressão.

O método de estimativa de ch mais utilizado é o proposto por Houlsby e Teh (1988) que leva em conta o índice de rigidez Ir do solo:

Solos Argilosos

(2.8) (2.112)

SuqTvo

(2.8) (2.113)

Suu u

(2.8) (2.114)

C = T*.R .I /th 2 r1/2

Onde:

R = raio do piezocone;

t = tempo de dissipação;

Ir = índice de rigidez (Ir = G/Su);

G = módulo de cisalhamento do solo.

T* = fator tempo, obtido a partir da Tabela 2.10 para as duas posições mais utilizadas do elemento poroso.

3. História de Tensões

O conhecimento da magnitude da tensão de pré-adensamento do solo é fundamental na análise do comportamento de depósitos de argilas moles.

A história de tensões de um depósito, ou seja, a variação da tensão de pré-adensamento (s’vm) com a profundidade pode ser estimada através das seguintes correlações propostas por Mayne e Holtz (1988):

Fator tempo T*

Du/D

u

o

(%) Elemento poroso na

face do cone (u

t

) Elemento poroso na

Tabela 2.10 – Fator tempo T* para análise dos ensaios de dissipação (Houlsby e Teh, 1988).

(2.8)

(2.8) (2.117)

vm= 0,54 (u - u )b o

Onde: s’vo = tensão vertical in situ;

uT = poropressão medida na face do cone;

ub = poropressão medida na base do cone;

uo = poropressão hidrostática.

A razão de pré-adensamento (OCR) de um depósito argiloso pode ser então determinada através da equação:

1. Densidade Relativa

Para solos granulares, a medida da resistência de ponta do cone (qT) pode ser utilizada na previsão da densidade relativa (Dr). Pesquisas em câmaras de calibração foram determinantes para o desenvolvimento de correlações, gradativamente incorporadas à prática de engenharia (Robertson & Campanella, 1988; Jamiolkowski, et al, 1985) O valor de Dr pode ser determinado através da equação:

sendo qc e s’vo expressos em t/m².

2. Ângulo de atrito interno do solo (f’)

A partir do valor da densidade relativa do solo, pode-se obter o ângulo de atrito através das seguintes correlações:

(2.8) (2.118)

OCR =’vm/ ’ vo

Solos Arenosos

(2.8) (2.119)

D = -98 + 66log (q / ( ’ ) )r 10 c vo 0.5

(2.8) (2.120)

(1.49-D ).tan ’ = 0.712r

(2.8) (2.121)

’ = 33 + {3.[D (10-Inp’)-1]}r

3. Módulo de Deformabilidade (E)

Inúmeras correlações entre o módulo de deformabilidade e a resistência à penetração (qc) têm sido propostas na literatura. No entanto, na ausência de correlações desenvolvidas e validadas para solos arenosos brasileiros, recomenda-se a utilização da expressão de Baldi et al (1981) para uma primeira estimativa do módulo E25:

O ensaio de palheta é um método semi-indireto de investigação do subsolo. Este tipo de ensaio não fornece informações sobre a natureza do terreno, sendo estas informações obtidas a partir de correlações indiretas.

O principal objetivo dos ensaios “Vane” é a determinação da resistência ao cisalhamento não-drenada de um estrato argiloso, podendo-se obtê-la tanto para amostras em estado indeformado, quanto para amostras em estado deformado ou amolgado. A partir de variações das formas e dimensões da palheta, pode-se ainda investigar a anisotropia da resistência não-drenada do material.

Onde: E25 = módulo de deformabilidade correspondente a 25% da tensão desviadora máxima.

(2.8) (2.122)

E = 1.5.q25 c

2.8.3 Ensaios de Palheta (“Vane Test”)