CHAMBOREDON, Jean-Claude, e Méjean, Annie, ‘Styles de voyage, modes de perception du paysage, stéréotypes régionaux GDQVOHVU«FLWVGHYR\DJHHWOHVJXLGHVWRXULVWLTXHV/šH[HPSOH GHOD3URYHQFH0«GLWHUUDQ«HQQHǧQ;9,,,HG«EXW;;H(VVDL GHVRFLRORJLHGHODSHUFHSWLRQWRXULVWLTXHšLQTerritoires, ed. por 0DUFHO5RQFD\RORGLWLRQV5XHGš8OP3DULVSS
“Estilos de viagem, modos de percepção da paisagem, estereótipos regionais nas narrativas de viagem e nos guias turísticos. O exemplo da Provença mediterrânica (finais do século XVIII-inícios do século XX). Ensaio de sociologia da percepção turística” resulta de uma pesquisa realizada por Jean-Claude Chamboredon e Annie Méjean consagrada à análise e problematização das percepções veiculadas em narrativas e guias de viagem tendo a Provença como estudo de caso empírico. O texto circulou e foi discutido no Seminário Territoires, organizado pelo geógrafo Marcel Roncayolo entre 1981 e 1983 no recém-criado Laboratoire de Sciences Sociales da École Normale Supérieure de Paris, e publicado na revista Territoires em 19851. Mais recentemente, em 2016, Roncayolo incluiu-o na obra Territoires, na qual recolheu trabalhos debatidos no seminário2.
Nesta colectânea de textos de Chamboredon, apresentamos a primeira parte do trabalho (um estudo genealógico da atitude de contemplação turística decorrente da análise aprofundada, minu-ciosa e inspirada de um número considerável de relatos de viagem na Provença escritos na sua maioria entre o final do século XVIII e o início do século XIX) e as últimas páginas dessa longa reflexão, que funcionam como notas finais, retomando alguns dos pontos mais
1. Chamboredon, Jean-Claude, e Méjean, Annie, ‘Styles de voyage, modes de perception du paysage, VW«U«RW\SHVU«JLRQDX[GDQVOHVU«FLWVGHYR\DJHHWOHVJXLGHVWRXULVWLTXHVOšH[HPSOHGHOD3URYHQFH P«GLWHUUDQ«HQQHǧQ;9,,,HG«EXW;;H(VVDLGHVRFLRORJLHGHODSHUFHSWLRQWRXULVWLTXHšTerritoires, 2 (1985), 1-105 (Versão original).
2. Roncayolo, Marcel, ed., Territoires(GLWLRQV5XHGš8OP
* CICS.NOVA, NOVA FCSH.
relevantes em discussão. Por traduzir fica a segunda parte, onde são analisados estes relatos de viagem, em conjunto com guias turísti-cos da primeira metade do século XX, e fixada a imagem social da Provença neles contida. A riqueza conceptual da primeira secção do trabalho ditou a sua escolha para inclusão neste volume de intro-dução da obra de Chamboredon ao público de língua portuguesa, pois tomámos o partido de privilegiar o debate em torno das princi-pais contribuições teórico-conceptuais do autor em detrimento das análises empíricas. Incluir todo o texto, cerca de 100 páginas, seria renunciar ao equilíbrio deste volume e ao seu carácter introdutório e pedagógico.
“Estilos de viagem…” é construído conceptualmente em torno da ideia de construção social das imagens de um território, a partir de diferentes tipos de narrativas e guias de viagem produzidos antes da massificação do turismo. A noção de imagem surge em contraposição à de pertença: distinguem-se as imagens do território – construídas a partir da percepção de visitantes de fora com a intenção de serem tornadas públicas e disseminadas – e da socialização dos indivíduos nos grupos territorializados, que suscita sentimentos de pertença.
Os autores enfatizam que essas representações cristalizadas e este-reotipadas, que operam ao nível simbólico, organizando a atenção e a percepção, mas também a nível da memória colectiva, actuam não só sobre os visitantes mas igualmente, até certo ponto, sobre os habitantes locais.
Chamboredon e Méjean procuram com este estudo desenvolver
“uma sociologia histórica dos estilos de percepção das paisagens e das formas de relação com o território, no caso específico da relação turística” (p. 132). Oferecem ao leitor um estudo genealógico da atitude de contemplação turística, organizado em quatro estilos distintos de viagem que delimitaram as práticas turísticas até ao advento do turismo de massas, o qual trouxe consigo profundas transformações nas formas de viver essa experiência: 1) a viagem do mundano, que procura antes de mais o convívio com a sociedade/elite local e está atento às oportunidades de encontro e aos ritos colectivos; 2) a viagem do erudito ou, de modo mais especializado, do antiquário interes-sado em vestígios históricos e monumentos artísticos; 3) a viagem do artista, que privilegia a composição da paisagem enquanto cena e a representação idealizada da figura humana enquanto elemento
da paisagem; e por fim 4) a viagem do observador social ou obser-vador-filósofo, que privilegia o estudo dos recursos da região e do seu modo de valorização. Esta tipologia é estruturada por um eixo em que se opõem os interesses político-económicos do observador social e as curiosidades “desinteressadas” do artista e do mundano, passando estas últimas, com a introdução dos guias de viagem, a dominar as narrativas e representações sobre os territórios a visitar, aqui plenamente ilustrado no caso da Provença.
O exame de relatos e guias turísticos permite aos autores clari-ficar as transformações que a imagem da região sofre no processo que a constitui como objecto de consumo turístico.
A actualidade deste texto pode declinar-se em três problemá-ticas distintas, mas interligadas. Chamboredon e Méjean relevam a importância do processo de dissociação entre espaços produtivos e espaços para consumo turístico. Esta dissociação e especializa-ção pode ser hoje identificada em áreas rurais por toda a Europa.
Adicionalmente, assistimos a um agudizar desta realidade em cidades e metrópoles, nomeadamente as do Sul e do Mediterrâneo, onde os centros históricos se especializam em actividades ligadas ao turismo, caracterizadas pelo trabalho precário e baixos salários, enquanto o quotidiano local e produtivo decorre noutros lugares, acentuando vários tipos de desigualdades à escala metropolitana.
Os processos de naturalização das paisagens definidas como
“a ver”, ao obliterar imagens de usos produtivos enraizados nas paisagens, facilitam a sua apropriação especulativa para o consumo turístico, assim como a sua museificação. A paisagem, enquanto espectáculo estético, como elemento natural e não como terra cul-tivada ou utilizada produtivamente de outras formas, emerge como finalidade essencial da viagem. Esta questão aproxima-se de uma das problemáticas clássicas desenvolvidas por Chamboredon, cuja per-tinência não tem enfraquecido: as novas formas de oposição cidade/
campo, objecto principal dos capítulos 3 e 4 desta colectânea, em que o autor dá conta das formas como os mundos rural e urbano se vão aproximando e como o campo se constitui em cenário secundário da urbanização.
Já no final do texto, os autores introduzem a dimensão ideoló-gica, nomeadamente a questão da despolitização no que diz respeito à imagem do temperamento regional. Da análise dos documentos
emerge a convicção dos autores de que se trata de um processo de construção de uma imagem social não apenas da paisagem, mas também do povo que a habita: uma imagem fatalista e bonacheirona, que actua como barreira relativamente à manutenção da memória das rebeliões culturais e políticas. Problematizar processos de des-politização é relevante para uma Sociologia do Território em vários domínios. Em particular, este da construção colectiva de represen-tações e memórias – em que se associam diferentes espaços a deter-minadas populações e acontecimentos, em detrimento de outros –, conduzindo a uma desigual hierarquização dos lugares e a uma invisibilização de certas actividades e de grupos sociais específicos.