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Ensaio sobre a cegueira, obra de passagem

3 SONS DE PAZ E ALEGRIA: A UTOPIA DO ENSAIO SOBRE A

3.5 Ensaio sobre a cegueira, obra de passagem

Como observamos, Saramago relaciona a esperança referindo-se a sua infância (Cf. primeira epígrafe), portanto, a um tempo passado. Mas o escritor mantém certa esperança que se dirige ao presente – o romancista escreveu o ESC “[...] para recordar a quem o viesse a ler que usamos perversamente a razão quando humilhamos a vida, que a dignidade do ser humano é todos os dias insultada pelos poderosos do nosso mundo, que a mentira universal tomou o lugar das verdades plurais, que o homem deixou de respeitar-se a si mesmo quando perdeu o respeito que devia ao seu semelhante.” (SARAMAGO, 2013, p. 86-87). A mentira universal – o parecer –, portanto, deve ser substituída pela verdade – o ser. Essa mensagem, embora possa ser considerada uma mera constatação, permite ser entendida também como um

40 Em uma longa entrevista concedida em 1998, ao repórter Humberto Werneck, editor sênior da Revista

Playboy, Saramago define seu pessimismo: “PLAYBOY – O senhor segue sendo pessimista. SARAMAGO – Ah, sim. O mundo em que vivemos não dá qualquer lugar para otimismo. E digo: é pena que não sejamos todos pessimistas, porque os pessimistas diriam: ‘Não se pode viver assim, vamos mudar isso’. Já os otimistas estão contentíssimos. Acham que o mundo é tão bom que não há mudanças a fazer.” (SARAMAGO, 1998c, p. 51).

alerta – e o alerta sai do plano da constatação para migrar, de certo modo, ao da recomendação, do conselho, para que nos encaminhemos à práxis.

Ao falar da “infância” (Cf. primeira epígrafe), durante o processo de criação do

ESC, Saramago não parece referir especificamente ao período em que era criança; é mais

válido considerar essa palavra conjugando-a com a ideia de “passado” (isto, é a história), palavra que ele também usa no mesmo trecho. Desse modo, importa, sobretudo, compreender as referências temporais conjugadas: passado, presente, futuro, as quais permitem a correlação entre a utopia como gênero e para além do gênero, como manifestação ideológica independente do escrito literário, como defende Witeze Junior (2012, p. 6), ao afirmar que “[...] as dimensões histórica e literária não são mutuamente excludentes, mas coexistem e geram uma tensão interna que enriquece o texto.”. O escritor preocupa-se com o futuro, pensa o presente, distopicamente, e, embora não acredite numa Idade de Ouro perdida, insere-se (através da memória) no passado, dentro de um contexto histórico em que, embora já se contrapusesse ao mundo, mantivesse viva (ele ou a época) uma força combativa que lhe serve de boa lembrança para um mundo sem esperança, o de hoje.

A ideia de passagem41 permite uma associação mais próxima com a História quando observamos algumas declarações de Saramago sobre a suposta passagem da modernidade à pós-modernidade. Embora a ideia de pós-modernidade não seja de comum acordo entre os teóricos das mais diversas áreas, é inegável que muitas das características comumente elencadas para a diferenciação entre essas épocas elucidam algumas das transformações por que passou a humanidade:

Estamos ou não perante uma obra-ensaio sobre a condição pós-moderna? É um tipo de observação que podemos fazer, sobretudo a partir de Ensaio sobre a cegueira. [...] Existe, pois, um processo reflexivo ligado à pós-modernidade e ao questionamento. Estamos no fim de uma civilização e num processo de passagem de um tempo com raízes na Revolução Francesa, no Iluminismo, na Enciclopédia, que tende a desaparecer. Não sei o que virá. (SARAMAGO apud LOPES, 2010, p. 147).

Saramago, mesmo sem aprofundamentos teóricos, identifica as mudanças e os momentos de crise por que passou e ainda passa a humanidade. No ESC, como noutros de seus romances – O homem duplicado (2002), por exemplo –, as analogias para a crise histórica do mundo contemporâneo são variadas; a “rapariga dos escuros” fala: “[...] só digo que apenas servimos para isto, para ouvir ler a história de uma humanidade que antes de nós

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Inspirado por uma conferência de Luciana Stegagno Picchio sobre Levantado do chão, na qual ela comenta que esse livro marcou “uma passagem” na escrita de Saramago, o escritor considera que, na verdade, todos os seus livros são não apenas “livros de passagem”, mas “actos de passagem”. (SARAMAGO, 1997, p. 370-71).

existiu [...]” (SARAMAGO, 1995, p. 290). Os conflitos identitários do mundo contemporâneo deixam-se entrever nas percepções das personagens, conflitos entre os valores de ontem e “[...] estes valores de agora, que não sei aonde nos levam.” (SARAMAGO, 2013, p. 50).

Saramago fez essa declaração na década de 1990, mesmo período que compreende a pesquisa de Russel Jacoby sobre como, nas quatro décadas finais do século XX, o pensamento utópico foi esmorecendo e perdendo lugar no discurso político, sempre relacionado ao comunismo e à ligação estreita que ele estabeleceria com totalitarismo e extremismo. Essa imagem negativa dessa ideologia não silenciou a voz revolucionária, mas mudou seu tom, tanto que Jacoby (2001) observa que raramente uma mudança de sistema político era proposta; tão somente medidas em um ou outro ponto tinham lugar. A utopia indefinida de Saramago, vigilante na crítica ao mundo contemporâneo, desvia-se dessa acusação, na medida em que seu apelo por organização (como o faz no ESC) compreende uma radical transformação das estruturas do mundo.

É válido observar que, representando ou não a si próprio no ESC, é inegável a associação que pode ser feita quase que prontamente, na leitura, quando o grupo de cegos da primeira ala (liderados pela “mulher do médico”) encontra, na casa de um dos membros do grupo, um escritor que ali se havia instalado. Considerada como uma representação que o escritor faz de si, a sentença “Estou a escrevê-lo” deixa de se referir somente ao personagem- escritor e torna-se uma alusão direta ao escritor-personagem (Saramago), que está a escrever o

ESC – o que funciona como uma experiência presente no momento da leitura42:

Gostaria que me falassem de como viveram na quarentena, Porquê, Sou escritor, Era preciso ter lá estado, Um escritor é como outra pessoa qualquer, não pode saber tudo nem pode viver tudo, tem de perguntar e imaginar, Um dia talvez lhe conte como foi aquilo, poder depois escrever um livro, Estou a escrevê-lo, Como, se está cego, Os cegos também podem escrever [...] A casa é vossa, disse o escritor, eu aqui só estou de passagem. [...] Estou de passagem, dissera o escritor, e estes eram os sinais que ia deixando ao passar. A mulher do médico pôs-lhe a mão no ombro, e ele com as suas duas mãos foi lá buscá-la, levou-a devagar aos lábios, Não se perca, não se deixe perder, disse, e eram palavras inesperadas, enigmáticas, não parecia que viessem a propósito. (SARAMAGO, 1995, p. 277-79).

Os sinais que ia deixando ao passar, como seu livro, justificado pela capacidade do escritor que, “outra pessoa qualquer, não pode saber tudo nem pode viver tudo, tem de

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N’A jangada de pedra, Saramago (1988, p. 224) também conjectura sobre a atuação do livro na realidade histórica: “Amanhã, quer dizer, no futuro distante, os historiadores que se dedicarem ao estudo de acontecimentos que, em sentido não apenas alegórico, mas literal, mudaram a face do mundo, decidirão, esperamos que com a ponderação e a imparcialidade de quem desapaixonadamente observa os fenômenos do passado, se sim ou não deverá ser feito o desdobramento que alguns defendem já hoje.”. Desse modo, insere o livro no círculo de proposições, utópicas ou não, para o futuro.

perguntar e imaginar”, conjugam também temporalidades: a passagem do passado para o presente, da modernidade para a pós-modernidade, e também os contornos que podemos ter no futuro, mas também a passagem individual, da personagem, mas também do escritor, o criador da representação utópica – porque negação do presente e inserção dum mundo outro, deduzido dessa negação – que constatou as transformações culturais em um tempo exaurido, quando o mínimo que pôde foi deixar sinais, pregar no deserto.