Em analogia a esta função simbólica, polissémica e integradora atribuída ao objecto musical, supomos que a "mãe devotada-ideal" durante a gravidez, em função do "estado de preocupação materna primário" (Winnicott, 1956, 1967) desenvolve, graças a sua capacidade de "reverie" (Bion, 1962) uma função-continente atribuindo um sentido (significado) às sensações corporais, nomeadamente, fazendo a leitura atenta e empática dos sinais emitidos pelo feto em reacção aos estímulos musicais e outros. Tais observações teóricas levam-nos a alargar a reflexão acerca da articulação entre a eventual vivência sonora e musical da mulher grávida e a percepção dos movimentos fetais em reacção à estimulação sonora e musical.
A música parece desempenhar uma "função continente", em função da capacidade de
"rêverie musical" (Lecourt, 1993, 1998) da grávida, que se deixa penetrar e embalar pela música. Supondo a existência de um processo de diferenciação do Self sonoro-musical, em paralelo ao processo de reconstrução identitária e de diferenciação inerente às fases de elaboração psicológica na gravidez (Colman e Colman, 1994) supômos a existência de uma experiência de diferenciação promovida pelo objecto musical, durante a gravidez.
Este poderá induzir um movimento regressivo (uma "regressão ao serviço do ego") e de evocação a memórias pré-verbais (função de envelope sonoro, holding musical) bem como, a evocação de memórias afectivas e o acesso ao pensamento simbólico.
De acordo com o estado de diferenciação do Self sonoro-musical, o objecto musical na gravidez poderá evocar aspectos da vida afectiva, amplificando e alargando o campo de elaboração das fantasias da mulher grávida. A música poderá, então, evocar a relação intra-psíquica com os objectos internos interiorizados na infância precoce da mulher grávida, podendo mesmo evocar memórias afectivas do passado remoto e reeditar, em termos fantasmáticos, a relação de contacto com o ventre materno e com a mãe arcaica idealizada e todo poderosa da sua infância mais precoce. Mas, da mesma forma que a música pode evocar um sentimento de "holding", reenviando para a capacidade de
"rêverie materna", ela pode também (de acordo com Waija, 1999) reactualizar memórias afectivas associadas a uma falha de um continente primário, sem capacidade de "rêverie".
140
Neste caso, a música pode suscitar um sentimento de invasão, de agressividade e de ameaça de aniquilação ou desintegração do Self.
Em resumo, julgamos que a música evocará na gravidez afectos primários da infância precoce da mulher grávida, mobilizando a emergência de mecanismos regressivos e de idealização narcísica, parecendo reactualizar o processo de diferenciação do Self em transformação. E a transformação identitária, inerente à elaboração psicológica da gravidez, a base de evolução desse processo de diferenciação do Self na gravidez.
Servindo-nos das concepções teóricas de Winnicott (1969, 1975) e corroborando as ideias de Lecourt (1993, 1998) a música na gravidez parece reeditar a experiência de ''holding', (associada à capacidade de 'Vêvene materna", segundo Bion, 1963) actualizando a experiência de "simbiose" e de "ilusão criativa" com o objecto primário da infância. A mulher grávida procura sintonizar-se com a "mãe devotada ideal". O "espaço de ilusão criativa", evocado pela música, precede a abertura de um "espaço de desilusão" o qual é alcançado através da experiência de diferenciação progressiva no contacto com o fenómeno sonoro, à semelhança do processo de separação/individuação de transformação do Self na gravidez. Tal como um "objecto transformador" (Bollas, 1989) em função da capacidade de "reverie" (Bion, 1963), a música na gravidez oferece-se como um objecto continente, criador de sentido, transformando o mundo das sensações em sentimentos com significado. Esta função transformadora parece estar ligada à função de "barreira de contacto" (preconizada por Bion, 1962) permitindo, por um lado, a protecção de invasão do ruído (à semelhança de uma pele audiofónica ou "envelope sonoro", segundo Anzieu,
1976) e simultaneamente, o acesso à fantasia (ao sonhar acordado).
A perda e a reestruturação da imagem corporal, na gravidez, acarretam alterações na coesão do Self corporal da mulher grávida. Face à ameaça desta ruptura e descontinuidade da coesão do Self, o objecto musical na gravidez será equivalente a um objecto protector e reparador, promotor da emergência de um mecanismo de idealização, mediante a clivagem entre o objecto perfeito-ideal (música ideal para um bebé perfeito) e o objecto ameaçado (ruído de um bebé ameaçado). Julgamos que é o sentimento de
141
"ilusão" associado a um mecanismo de idealização no contacto com a música que promove a função de narcísica e objectai da gravidez. Assim, tal como uma segunda
"pele audiofónica", em analogia com o "envelope sonoro" de Anzieu (1976) e através da experiência de "banho sonoro" de afectos admitimos que a música seja considerada, por excelência, o objecto estético ideal, envolvendo o bebé imaginário, também ele, fantasiado como um objecto estético ideal. Mas, tal como um bebé ideal se encontra banhado de forma idealizada com uma música envolvente, também uma mãe ideal e devotada, inteiramente disponível, dado o estado de "preocupação maternal primária"
(Winnicott, 1956) parece emergir, em simultâneo. E a experiência de omnipotência do objecto musical que emerge em sintonia com a emergência interna do "bebé imaginário idealizado", a par da emergência da "mãe-devotada-ideal".
Para além dos sentimentos de ameaça de destruição, inerentes ao processo de reconstrução do Self e perda da continuidade e reconstrução da imagem corporal, surge também a vivência de sentimentos de ambivalência na gravidez (habitualmente durante o primeiro trimestre de gestação). A proximidade do parto (no terceiro trimestre de gravidez) e a reestruturação identitária na passagem da gravidez à maternidade (no puerpério) parecem novamente provocar um sentimento de ameaça da coesão do Self e de continuidade de existência. Este confronto com o sentimento de separação e ruptura da continuidade de existência (de grávida a mãe; de um bebé imaginário idealizado a um bebé real menos idealizado) provoca na mãe (também ela recém-nascida) um sentimento de vulnerabilidade que a música poderá ajudar a reparar, ao proporcionar uma experiência de continuidade de existência e a recuperação de um sentido de unidade e previsibilidade.
Partindo das ideias Kleinianas acerca do desenvolvimento do Ego, poderemos afirmar que face à experiência psicológica de aspectos ambíguos e ambivalentes da vida psíquica na gravidez (vivenciados através da alternância e/pu simultaneidade de sentimentos negativos e positivos) a experiência musical na gravidez parece reenviar para as fases de desenvolvimento do Ego, conceptualizadas por Klein (1946, 1948) através da teoria das posições (posição esquizo-paranóide na qual opera um mecanismo de clivagem do
142
objecto numa parte má e numa parte boa e a posição depressiva, na qual opera um mecanismo de reparação e integração das partes boas e más do objecto que assim se unifica num todo). Assim, a música ao reenviar para cada uma destas fases de desenvolvimento precoce do Ego faz uso de dois mecanismos: o mecanismo de idealização (mediante o qual se opera um mecanismo de clivagem, fazendo sobressair apenas os sentimentos positivos e idealizados do objecto) e o mecanismo de reparação (mediante o qual emerge um processo de integração e unificação de aspectos bons e maus do objecto). Partindo destas considerações concluímos que o objecto musical na gravidez pode ser equivalente a um objecto ideal, mágico e sublime, evocando sentimentos de idealização e perfeição, como igualmente, a um objecto integrador de unificação entre sentimentos positivos (beleza, plenitude, levitação, glória, triunfo) e sentimentos negativos (angústia de perda, separação, ameaça de destruição e aniquilamento do Self), expresso, musicalmente, através de contrastes e alternância de sentimentos de tensão/equilíbrio, dissonância/consonância. Assim, para além da função integradora (ligando aspectos ambíguos e dissonantes da vida psíquica da mãe) e de apoio e regulação emocional (holding musical), a função da música na gravidez e no puerpério é de manter um sentimento de ilusão e de busca de idealização.
Para além dos sentimentos de ambivalência que surgem, habitualmente no início da gravidez, durante o primeiro trimestre de gestação, a proximidade do parto, no terceiro trimestre de gravidez e a reestruturação identitária na passagem da gravidez à maternidade (no puerpério) parecem novamente provocar um sentimento de ameaça da coesão do Self e de continuidade de existência. Este confi-onto com o sentimento de separação e ruptura da continuidade de existência (de grávida a mãe; de um bebé imaginário idealizado a um bebé real menos idealizado) provoca na mãe (também ela recém-nascida) um sentimento de vulnerabilidade que a música poderá ajudar a reparar, ao proporcionar uma experiência de continuidade de existência e a recuperação de um sentido de unidade e previsibilidade.
E neste sentido que Winnicott (1956) se refere igualmente ao conceito de "preocupação maternal primária" entendido como um estado alterado de uma intensa identificação da 143
mãe com o bebé ainda antes de nascer, com a intenção de lhe assegurar a continuidade e unidade quebradas na passagem da vida intra-uterina para a vida após o nascimento; uma vida outrora caracterizada por um ambiente sonoro sustinente, marcado por uma pulsação e sonoridades permanentes, não obstante a presença de uma experiência de descontinuidade rítmica e interrupção causada pela altemância da presença/ausência de determinados sons do exterior (em particular, a voz materna) assim como a variação de parâmetros de sonoridade (intensidade, timbre e ritmo).
Após o nascimento, a canção de embalar e os rituais repetitivos constituem medidas adaptativas para recuperar a unidade e a continuidade perdida. Por outro lado, a canção de embalar mergulha a mãe recém-nascida, em termos da sua vivência intra-psíquica, numa experiência de reactualização das canções de embalar introjectadas no seu mundo interno. A mãe retoma ao contacto simbiótico com o objecto materno primário da sua própria infância, oferecendo-se, simultaneamente, como um ego auxiliar da criança, ajudando-a a regular os ritmos de adaptação da vida após o nascimento. O espaço de
"ilusão", conferido pela canção de embalar, através do retomo e reactualização ao ambiente sustentador intra-uterino, é expressão do "estado de preocupação maternal primária" da mãe devotada ideal cujo canto é fonte de encantamento do bebé.
Inspirando-nos no duplo olhar (virado para o presente e também para o passado) das Madonas do período do Renascimento, referidas por Bydiowski, 1997) somos levados a afirmar que a mãe canta não apenas para o bebé que tem no colo mas igualmente para o seu bebé introjectado no seu mundo interno, fruto de reactualização de memórias do passado infantil na relação primária com o seu objecto materno. Este duplo olhar da voz matema contribui para o estabelecimento das interacções fantasmáticas da criança, a qual devido á relação intersubjectiva com o objecto materno consegue captar o estado de espírito caracterizado pela dicotomia expressa pelo cantar da mãe. Tal parece explicar, apenas a título especulativo, a recusa e a inquietação de certas crianças perante algumas canções de embalar cantadas pela mãe.
144
Consideramos pertinente alargar a reflexão acerca das experiências repetitivas destes rituais primitivos na elaboração das experiências de descontinuidade, ruptura e separação, inerentes à evolução do processo de diferenciação, separação e individuação do Self da criança, ao contexto da experiência de diferenciação do Self na gravidez.
Julgamos, igualmente, interessante referir o efeito da experiência repetitiva da escuta de uma mesma obra musical pela mulher grávida na elaboração da separação e da perda na gravidez. Maneia (1990), ao referir-se ao ensaio de Freud (1916) intitulado "Caducidade"
formula as seguintes afirmações acerca da experiência musical: " (...) a caducidade tem as suas raízes no tempo, e a forma significante em música pode ser considerada como a de um objecto dotado de uma essência interior temporal diferente dos outros objectos estéticos de natureza espacial; uma virtualidade que espera sempre uma nova realização".
Segíundo Maneia (1990) " (...) é nesta espera que a caducidade da vivência da música (e acrescentamos, da vivência interior da gravidez) se liga à caducidade das suas formas.
"Ouvir música implica sempre uma separação contínua das formas cumpridas e uma espera sempre nova de novas formas. Uma proposta de uma série ininterrupta de lutos, como momentos enigmáticos, diante das contínuas transformações que, no percurso linear do tempo, acompanham as formas musicais." (Maneia, 1990)
Pensamos, em analogia, que as formas de gestação e os "pensamentos em potência" (pela capacidade de rêverie materna) se transformam continuamente no tempo de gravidez.
Brousselle (1993) refere-se à música como um "jogo de bobine atraente e sublime" (jogo de repetição) dirigido à economia anti-depressiva. O mecanismo de repetição inerente à estrutura musical surge, assim, como uma forma de elaboração da angústia de perda, inerente à especificidade do contacto com a música. Este aspecto repetitivo da experiência de contacto com a música poderá ser particularmente importante, como medida de conter e elaborar estados de depressão e ansiedade na gravidez. Novamente a
"barreira de contacto" (Bion, 1962) através da música parece estar aqui representada estabelecendo um compromisso entre a protecção (de conteúdos internos e externos não assimiláveis e por isso tóxicos) e a elaboração da vida afectiva e da fantasia. A função de
145
"barreira de contacto" está intimamente ligada à função continente (Bion, 1962) da música, graças à capacidade de "rêver/e musicar (Lecourt, 1998).
Quer a vida psíquica na gravidez quer a estrutura musical parecem organizar-se, de forma comum, segundo o princípio de alternância prazer/desprazer. Na música, a resolução da dissonância é a ilustração perfeita da fuga ou resolução do desprazer e busca do prazer, observando-se um ciclo de altemância destes dois opostos. Para Lecourt (1998), a música corresponde à "solução alucinatória de recriação do objecto". A música visaria, portanto, o restabelecimento ou reparação do funcionamento intra-psíquico, proporcionando no pólo do princípio do desprazer uma experiência exacerbada de sentimentos e afectos de dor, nostalgia, perda, ou, pelo contrário, fazendo apelo ao princípio do prazer, de sentimentos de paixão, triunfo, beleza, levitação e espiritualidade. Assim, a música irá reeditar o jogo da criança que deixa de chorar, durante a ausência da mãe. A "capacidade de estar só" (Winnicott, 1969) que julgamos estar aqui inerente é por excelência alcançada ao nível da função da escuta musical. A escuta musical parece permitir uma experiência, próxima do sonho acordado, através de uma verdadeira "capacidade de estar só." (Winnicott, 1969)
Todavia, caso haja dificuldade de acesso à vida da fantasia e perante a organização defensiva no período da gravidez, é igualmente de esperar que a música possa desempenhar, igualmente, uma forma de conter a angústia assim como uma forma de tolerância à dor da solidão e do silêncio, evocando uma frágil "capacidade de estar só" e de viver o silêncio interno.
A experiência de altemância "ilusão/desilusão inerente ao objecto musical é alcançado mediante um compromisso de ordem estética associada à noção de um "equilíbrio estético" (Meltzer, 1990) entre estes dois opostos. Com efeito, o impacto emocional de uma obra musical parece ser causado pela experiência de equilíbrio estético entre sentimentos de ilusão/desilusão, prazer/desprazer, som/silêncio e consonância/dissonância.
146
o carácter fugidio e efémero da experiência de contacto com a música faz desta uma experiência quer de ambiguidade como, igualmente, uma experiência de omnipotência narcísica, à medida que a repetição tem lugar, permitindo a resolução de ameaça da perda. Como afirma Brelet (1951), "A música tem a nossa dimensão temporal (...), vive na duração (...), que (...) reassume o drama puro da existência (...), os grandes esquemas da vida interior (...) a arte da música é temporal e a sua forma é diacrónica permanecendo virtual entre as recriações posteriores." Segundo Maneia (1990) esta temporalidade da experiência musical implica uma fragmentação das emoções (parecendo, reenviar para o período "esquizo-paranóide" de contactos parciais com o objecto fragmentado), " (...) uma série ininterrupta de estados melancólicos separados e transformados pela recuperação gestáltica, realizada através da memória (...)" (remetendo-se aqui para a
"fase depressiva" de recuperação da unidade, inicialmente destruída e fragmentada); "
(...) memória que oferece um sentido e uma continuidade à forma sonora, permitindo aos sons estabelecerem uma relação entre eles, mas, à semelhança do que sucede no sonho, dá igualmente valor à subjectividade, ligando a actualidade da experiência às emoções antigas que formaram o mundo interno." (Maneia, 1990).
Em analogia, parece-nos que a experiência interior da gravidez é sobretudo de dimensão temporal onde a vivência interior do tempo, tal como sucede no sonho, passa por movimentos de deslocamento e condensação e em que a actualidade da experiência se liga fortemente a memórias do passado interiorizadas no mundo interno da mulher grávida. É a função de idealização inerente à música, a base da resolução da angústia de perda e separação, que lhe é, igualmente, inerente. A função de idealização presente na música difere, contudo, da função de ''holding" do objecto musical pelo facto de a primeira proporcionar não apenas o alívio após a tensão causada mas, sobretudo, o prazer musical e a fruição estética musical.
A experiência de escuta musical junto da mulher grávida parece, por um lado, promover uma função de ''holding musical", ao proporcionar uma experiência de superfície, unidade e continuidade de existência do Self e, por outro lado, uma função-continente, ao amplificar o acesso à capacidade de sonhar {rêverie), permitindo o acesso à vida da
147
fantasia e à elaboração mental na gravidez. Mas, assim como a experiência musical na gravidez poderá ajudar a alargar e amplificar o acesso às fantasias maternas, permitindo à grávida expandir a sua capacidade de "reverie", também poderá, em alguns casos, acentuar o uso de defesas do ego, impeditivas do acesso à vida da fantasia e da capacidade de sonhar na gravidez. Nestes casos, a música pode ser, eventualmente, percepcionada como simples fonte de estimulação sensorial, manifestada por determinadas sensações ou impressões de ordem cinestésica relatadas pelas grávidas e, provavelmente, focalizadas, através da percepção dos movimentos fetais em reação à estimulação musical. No entanto, poderá, também, acontecer, uma sensibilidade musical de ordem menos diferenciada, do ponto de vista simbólico, manifestado antes por uma participação de ordem simbiótica (equiparada à fimção de ''holding"), em que a mulher grávida se deixa, simplesmente penetrar e envolver (função de banho sonoro, de envelope sonoro) pela música aqui equiparada a uma "pele audiofónica" (com função de "pára-excitação" ou "pára-ruído") que a envolva e a proteja de eventuais sentimentos de invasão e ameaça do mundo sonoro exterior, ou antes uma forma de lidar com a eventual angústia do silêncio, por vezes, também sentido como invasor.
Julgamos, contudo, que a capacidade da leitura atenta e empática (perceptiva e interpretativa) da grávida aos sinais (sensoriais e motores) emitidos pelo feto em reacção aos estímulos sonoros e musicais equivale à "função-continente" materna (graças à capacidade de "reverie ") pelo reconhecimento ou atribuição de um significado a essas reacções fetais. Esta leitura empática é geradora do princípio de uma experiência de
"intersubjectividade" partilhada entre os dois seres (mãe-feto) mediante uma mutualidade de trocas pré-simbólicas num espaço-tempo de ilusão criativa. Assim, de forma antecipada à atracção dos sons desencadeados pelos gestos espontâneos ou voluntários das crianças na sua actividade sensório-motora (reacções circulares e de coordenação sequencial dos esquemas de acção), parece que os gestos ou movimentos fetais desencadeados pelos sons e pela música também parecem suscitar, na mulher grávida, enorme atracção, independentemente do efeito emocional causado. Será a função continente da mãe, graças à sua capacidade de "rêverie", que lhe permite fazer a leitura atenta dos gestos e movimentos do bebé, transformando as sensações estranhas em gestos 148
com significado simbólico, base de um entendimento mútuo de natureza empática e de sincronia. O prazer partilhado entre ambos esboça, assim, uma vivência intersubjectiva de prazer que poderá ser alargado mais tarde ao prazer partilhado do gesto e da exploração do sonoro, na manipulação dos objectos do mundo, reenviando para as concepções de '"holding", "handling' e "apresentação do objecto" de Winnicott (1975).
Deste modo, a função-continente do objecto musical na gravidez assegura, por assim dizer, a existência de um canal privilegiado de comunicação intermediária entre o psiquismo materno e o psiquismo fetal. Mas, se a experiência de um fio condutor nessa relação é assegurada por intermédio de um "cordão umbilical sonoro" (o qual será amplificado pela função de "holding musical"), a experiência de ressonância interior será, antes assegurada pela "função-continente" da música, em analogia à função da
"placenta emocional" (Leff, 1997; Sá, 2001) ao permitir a "irrigação emocional" entre o psiquismo materno e o psiquismo fetal. Em analogia à ideia de eliminação das '^toxinas proto-mentais" e à "irrigação de substâncias proto-mentais assimiláveis para^ feto, o ruído pode ser, de imediato eliminado como uma substância tóxica. O ruído pode também ser assimilado à medida que lhe é atribuída uma significação de ordem simbólica, à semelhança da atribuição dos diferentes significados afectivos face à escuta musical captados pelo feto como diferentes "estados de espírito", graças à existência do seu psiquismo fetal. Associada à ideia de ressonância empática, aqui veiculada, encontra-se a noção de previsibilidade da mensagem do outro, inerente ao conceito de "sintonia afectiva" ou "harmonização afectiva" referida por Stern (1989). Com efeito, parece observar-se nos padrões interactivos do feto o esboço do princípio de uma descoberta da intersubjectividade partilhada na interacção com um parceiro empático.
Se o sonho, ou mais especificamente, se a "imaginação criadora" ocupa o principal cenário da história interior da gravidez, à música, por sua vez, favorece, por excelência, o acesso a uma experiência de sonho acordado. Como afirma Maneia (1990), " (...) à semelhança da organização de uma cena do sonho, ouvir música implica uma experiência projectiva que se liga ao estado em que se encontram os nossos objectos internos: deuses e demónios do nosso universo mental. Isto permite compreender a tendência e facilidade 149
com que seguimos uma sequência tonal, que se liga a processos integradores das experiências primárias da criança com a mãe, e o empenho, por vezes difícil, ou mesmo perturbador, que é exigido pela música atonal, que parece contrastar com este arcaico processo integrador." (Maneia, 1990)
Tais afirmações permitem-nos entender a atracção das grávidas por obras de música tonal (de consonância), com características de regularidade e previsibilidade, permitindo uma experiência de continuidade de existência, superfície e unidade (função de holding musical) e a rejeição por músicas atonais, com características de dissonância, irregularidade e imprevisibilidade, impedindo a experiência de superfície e unidade, e de ausência de sustentação. Como afirma Maneia (1990), "A fhiição estética de uma obra musical depende da existência de uma distância ideal interior: a música tonal parece convidar-nos a reduzir essa distância, encorajando-nos a um ''interplay" identifícatório mais fácil, mas com o perigo de nos confundir com ela", podendo provocar quer um sentimento de fusionalidade e de unidade, quer, pelo contrário um sentimento de intrusão e ameaça da perda de identidade. "A música atonal tende a aumentar a nossa distância emocional, acabando por dificultar o nosso jogo identifícatório, forçando-nos a tolerar as dissonâncias (a dúvida e a incerteza) que nos afastam da integração, criando, assim, tensão e desprazer e obrigando-nos a um trabalho árduo, entre parâmetros mais rígidos de escolha, de um facto novo, consoante as situações, para obter uma gestalt que possua, para nós, fiuidores, um relevo emocional e estético." (Maneia, 1990)
Em analogia, pensamos que é a elaboração de um equilíbrio estético entre os aspectos bons (previsíveis) e os aspectos maus (desconhecidos) do objecto estético, a base para a elaboração do conflito estético na gravidez. A elaboração do confíito estético na gravidez é expressão da elaboração da sua ambivalência, condição essencial para a criação de um equilíbrio estético na gravidez.
Adeptos da teoria kleiniana (Stokes, 1965) admitem encontrar em qualquer actividade criadora um lado de destrutividade e agressividade que precede a integração numa nova unidade formal através de um processo de recriação e de reparação. Também o processo 150
criativo na gravidez parece conter esta dualidade de amor/agressividade. O sentimento de hipersensibilidade e permeabilidade entre o mundo interno e externo, bem como o sentimento de exclusividade que o criador expressa diante da sua obra em criação é, igualmente, algo comum nos dois processos.
Quer o criador de arte quer a mãe criadora e devotada (algo que se liga à "preocupação maternal primária" e "objecto estético") parece ilustrar o sentimento de exclusividade.
Um sentimento, porém, provisório que encontra a sua fonte na "capacidade de estar só".
A retirada narcísica, no acto de criação, precede, provisoriamente, o fazer-se público a obra de arte, tal como o bebé deverá passar do corpo materno, progressivamente mais diferenciado (ventre matemo, colo, rosto, olhos), para o corpo social partilhado. Durante a gravidez, o "espaço potencial" (de criatividade) e o "espaço mental" (de simbolização) parecem ocupar o espaço interno, onde as variáveis espaço e tempo sofrem reajustamentos mediante deslocamento, projecção e condensação, tal como no trabalho do sonho, e onde os instrumentos essenciais são a exploração, a invenção e a descoberta de um sentido para o sentir. A semelhança da tela do pintor, o ventre matemo e, posteriormente, o rosto matemo, parecem ocupar um papel continente onde os "contidos"
(conteúdos) buscam sentido por alguém que os pensa e lhes dá significado.
A hipótese atrás citada acerca da finalidade da criatividade como função adaptativa diante do desconhecido abriu-nos um espaço de reflexão acerca do papel da criatividade na elaboração psicológica da gravidez, de modo a lidar com o enigma que é a vida em criação. Julgamos poder afirmar que a mãe criadora que espera um filho (contido em si própria) desempenha (ou não) o papel de uma "mãe-continente" (Bion, 1962) capaz de conter e transformar o "isto" ou a "coisa" (elementos "beta" de Bion, 1963) desconhecida em algo com sentido existencial e que, por isso, toma forma é nomeado e reconhecido (elementos alfa, de Bion, 1963). Segundo os adeptos de Bion (1963, 1991) a "mãe-continente", graças à sua "capacidade de reverie matema", consegue tolerar a dúvida, propícia à descoberta, invenção e criação do novo ser, sem se deixar enredar num estado permanente de angústias arcaicas. Será a dimensão do desconhecido e da dúvida que irá
151
permitir-lhe lidar com os perigos, receios e angústias desencadeados pelo sentimento de ambivalência na gravidez.
Numa prespectiva interaccionista a música na gravidez desempenhará uma função empática de sintonia afectiva, reenviando, na linguagem de Stern (1980, 1989) para a experiência de "vitalidade dos afectos", "sincronia" e de "harmonização afectiva". Na Prespectiva de Winnicott (1975) o objecto musical terá a função de um objecto transicional, facilitador da emergência de um espaço potencial criativo. Em termos intra-psíquicos a experiência musical poderá constituir um organizador da elaboração psicológica da gravidez. A experiência subjectiva proporcionada pela escuta musical irá facilitar o processo de comunicação intersubjectiva mãe-feto, reenviando para a interacção fantasmática referida por Lebovici e Lamour (1988) e Stolerú (1995) e a comunicação intra-psíquica entre o mundo interno e o mundo externo da mulher grávida.
No plano intra-psíquico, a escuta musical ao promover a capacidade de "rêverie materna"
(Bion, 1963) abre caminho para a elaboração do "conflito estético" e criação de um
"equilíbrio estético" (Meltzer, 1990) na relação mãe-feto, na gravidez. Ao prazer de escutar, partilhar e de se deixar encantar pelo objecto musical durante a gravidez, sucede-se, após o nascimento, o prazer da mãe se fazer escutar e tornar-se também, objecto de encantamento do bebé que se deixa encantar por ela, mas que reciprocamente se toma objecto de desejo e de encantamento materno.
Poderemos admitir que a experiência intersubjectiva da escuta musical, partilhada na relação mãe-feto, irá também proporcionar comportamentos antecipatórios e de previsibilidade, oferecendo a possibilidade de poder lidar com o desconhecido e enigmático sentido de existência ajudando a dar forma, organização e significado a esse mundo desconhecido - base para a elaboração do "conflito estético" (Meltzer, 1990).
Partindo da afirmação de Bion (1962) de que os pensamentos (o pensamento em potência que pertence ao proto-mental) são anteriores à capacidade de serem pensados (por um aparelho de pensar), Sá (2001) afirma que "Os bébés pensam antes mesmo de serem capazes de pensar os seus próprios pensamentos". Provavelmente, também as mães 152
desenvolvem (à medida da sua capacidade de "revêrie materna") esta mesma capacidade de intuir o desconhecido de modo que a dúvida e a incerteza se tomem pensamentos em potência através de tempos de espera, desejos e esperanças. Ao transformar o sentir no sentido, o corpo (criador de significância) actualiza-se no tempo e no espaço, sente e é sentido, fala e é falado, ocupa o mundo e contém o mundo, faz nascer em si a palavra e a forma em criação.
153