Comum a quase todos os textos poéticos é o registro do processo histórico, que se faz presente de formas variadas, coexistindo no corpus textos que apresentam menor ou maior capacidade para capturar a realidade histórica da época.
Mais distantes da representação das repercussões do processo histórico nos homens estão o conto “La lancha” e o poema “Tres romances”. Ambos procuram expressar dimensões da interioridade dos indivíduos. Em “La lancha”, há a tentativa de superação de uma limitação por parte do herói, que é derrotado em sua busca. “Tres romances” expressa a interioridade dos amantes, que têm seu amor destroçado.
Já os contos “Uba-Opa” e “Confesión de Prometeo N.” têm capacidade intermediária de registrar o histórico. Em “Uba-Opa”, o mito traz para a narrativa certos elementos de natureza insólita, como a existência de animais conselheiros, a perda da cor do herói, os vários meses em que este nada sem cessar. Entretanto, o espaço em que o narrador espanhol está quando entra em contato com o mito constrói um paralelo com o contemporâneo, de modo que o conto possa ser interpretado em sua relação com a realidade do imperialismo no continente africano.
Em "Confesión de Prometeo N.", a presença do mito leva à composição de um enredo que entrelaça elementos realistas a outros vinculados à lógica do mito, no caso, um mito deslocado. O herói se move de um enredo trágico, que guarda parentesco com o mítico, para um enredo prosaico. "Uba-Opa" e "Confesión de Prometeo N." são contos em que o mito é o elemento de que parte o autor implícito para plasmar seu contexto histórico.
Os demais textos são os que apresentam a maior capacidade de representação do processo social: De algún tiempo a esta parte, Discurso de la Plaza de la Concordia, “Memo Tel”, “Vernet, 1940”, “La Virgen de los Desamparados” e “Los hijos”.
Em “Vernet, 1940”, por exemplo, a estratégia narrativa de condensação, que se apoia na presença de dois narradores e na linguagem econômica, é um recurso que reflete o pouco tempo que têm o narrador-protagonista e o narrador-escriba para contar a história em Vernet. A estratégia narrativa de condensação decorre da realidade do campo de concentração.
Em Discurso de la Plaza de la Concordia, a constante movimentação de Gran Mentecato em direção a Truman e a Stalin, bem como a posição dos dois dirigentes em relação à plateia (à esquerda e à direita do público, respectivamente) remetem à recusa de Gran Mentecato em optar pelo capitalismo ou pelo comunismo.
Esses textos compõem a parcela mais representativa da obra de Aub escrita no exílio. A capacidade de plasmar o processo social neles se associa ao emprego de certos recursos. O autor, por exemplo, introduz em suas histórias narradores quase sempre desprovidos de grau de onisciência. Aub também adota personagens cujo poder de consciência é bastante reduzido. São as personagens irônicas, nos termos de Frye37, tais como Doña Remilgos e Enrique Serrano Piña, que não conseguem compreender seu destino trágico. O modo de narrar fragmentário é outro elemento de construção textual corrente em seus textos escritos durante o exílio.
Assim, como quase todos os textos publicados na revista reproduzem a vida da sociedade da época, essa produção reflete o empenho do autor em dar testemunho de seu tempo. Para tanto, Aub pode retomar elementos do cânone realista, dos movimentos vanguardistas ou ainda desenvolver novos recursos que atendem à finalidade de capturar a realidade histórica de sua época.
37 “Se inferior em poder ou inteligência a nós mesmos, de modo que temos a sensação de olhar de cima uma
cena de escravidão, malogro ou absurdez, o herói pertence ao modo irônico. Isso é verdade mesmo quando o leitor sente que está ou podia estar na mesma situação, pois a situação está sendo julgada com maior independência.” (1973, p. 40)
2
O ANDAMENTO DA REFLEXÃO ANÁLISE DOS ENSAIOSDe 1947 a 1971, Aub publica em Cuadernos Americanos dezoito ensaios:
Título do Ensaio Número da
Revista
Ano de Publicação
“Luces y sombras” 3 1947b
“Una carta” 2 1949
“El discurso de Arévalo” 4 1951b
“Bases norteamericanas en España” 5 1951c
“Una faceta de nuestro tiempo” 1 1952a
“Enrique González Martínez y su tiempo” 4 1952b
“Obra de romano” 1 1953a
“Franco en la UNESCO” 2 1953b
“Alfonso Reyes, según su poesía” 2 1953c
“Poesía española contemporánea” 1 1954a
“La seriedad de Antonio Machado” 2 1956
“Juan Ramón Jiménez” 3 1957
“Antología de los más nuevos poetas españoles” 1 1963b
“Homenaje a León Felipe” 6 1963c
“De la literatura de nuestros días y de la española en particular” 6 1964
“Prólogo acerca del teatro español de los años 20 de este siglo” 3 1965
“José Gaos” 2 1970
“Una cena en Madrid en 1969” 1 1971
A produção do autor na revista compreende em sua totalidade trinta textos, sendo que dois terços dessa produção são ensaios, forma propriamente reflexiva. Alguns dos ensaios foram reproduzidos ou reeditados após a publicação em Cuadernos Americanos, mas em menor número que os publicados exclusivamente na revista.38 Existe ainda um terceiro grupo,
38 Os dados sobre reprodução e reedição dos textos foram extraídos da Biblioteca Maxaubiana, onde, em
composto por três textos, o qual não está relacionado na Maxaubiana.
Sendo o corpus da pesquisa numeroso e variado, além dos ensaios, incluímos nesta parte do trabalho os textos “De España en México: Alfonso Reyes” (n. 2 de 1960), “Corona de poetas españoles muertos en el destierro” (n. 1 de 1963a) e “España en México: de Max Aub: opiniones” (n. 6 de 1966b). Dada a curtíssima extensão, “De España en México: Alfonso Reyes” e “España en México: de Max Aub: opiniones” são notas, que podem ser entendidas como formas embrionárias de ensaio.39 O terceiro texto, “Corona de poetas españoles muertos en el destierro”, é, na verdade, uma antologia. A opção de estudar as notas e a antologia neste momento se fez por considerar a articulação que existe entre esses textos e os ensaios, articulação essa que está trabalhada no andamento do capítulo.
Para analisar essa produção, criamos uma proposta de divisão entre os ensaios que teve em conta que o lugar de que escreve Aub quando publica na revista é o exílio, dito de outra maneira, o autor não perde de vista as condições da época sob as quais escreve. Com base nisso, agrupamos os ensaios em três categorias, a saber: “A nova perspectiva literária”, “A escrita exilada” e “Ensaios em homenagem a intelectuais hispano-americanos”.
A primeira categoria dialoga de certo modo com o período anterior à Guerra Civil Espanhola, época em que Aub experimenta as linguagens das vanguardas europeias de início do século XX. Com a Guerra Civil Espanhola, sua perspectiva literária começa a se voltar para a representação de sua realidade histórica. Assim, entre o pré e o pós-guerra civil, é possível notar uma profunda mudança em sua concepção literária: de uma literatura esteticista, o autor passa a uma literatura fundamentada historicamente, sem contudo abandonar recursos da época de vanguarda. Essa mudança pressupõe um novo modo de ver a literatura espanhola contemporânea. A nova atitude poética é nosso objeto de investigação nesse primeiro grupo de ensaios reunidos em “A nova perspectiva literária”.
A segunda categoria, “A escrita exilada”, subdivide-se em duas partes: “O exílio como tema” e “Ensaios sobre o contexto político”. O propósito de retratar o exílio e o cenário político da época nesses ensaios remete à nova maneira como Aub passa a compreender a literatura, concentrando-se em seu contexto histórico. Essa segunda categoria de ensaios
pode ser consultada no site da Fundación Max Aub, disponível em <http://www.maxaub.org>, e também em Soldevila Durante (2003).
39 Para pensar um texto como ensaio, temos em vista os princípios propostos por Adorno (2003), tais como a
autonomia formal, a ausência de um fim último, de um princípio sistemático, o acolhimento dos conceitos na reflexão. Como “De España en México” e “España en México” são textos bastante curtos, sua extensão impede que a opinião expressa pelo autor seja melhor desenvolvida, por conseguinte, entendemos que em ambos os textos há apenas elementos de ensaio.
complementa a primeira na medida em que reitera a estreita relação que a literatura do autor no exílio mantém com a realidade histórica de seu tempo.
A terceira e última categoria traz quatro artigos em homenagem a intelectuais hispano- americanos: os poetas mexicanos Enrique González Martínez e Alfonso Reyes, além do intelectual costarriquenho García Monge. Os textos sobre Enrique González Martínez e Alfonso Reyes acenam para a integração de Aub com o país que lhe deu acolhida durante os anos de exílio. Quanto ao ensaio em homenagem a García Monge, o autor reafirma nele sua filiação à causa democrática.
Dispostos os ensaios nas três categorias, cabe ainda ressaltar que a articulação dos vinte e um textos com o contexto histórico de Aub implica que toda essa produção seja tributária das condições da época em que o autor viveu.