Capítulo III Resultados e Discussão
2. Ensaios em Microcosmo Segundo período experimental
Ao longo do segundo período experimental (5 de maio a 18 de outubro), a temperatura média do ar no LAAR foi de 24,57 ± 1,94 ºC - a temperatura mínima de 21,20ºC foi registada ao 134º dia, e a máxima de 29,70ºC, ao 20º dia. A humidade média do ar (%) foi de 44 ± 7 %, com um mínimo de 21 % ao 20º dia, e um máximo de 55% no dia 113 (Fig. 28).
Figura 28: Variação da temperatura (ºC) e da humidade do ar (%) ao longo do 2.º período experimental no Laboratório de Análises de Águas Residuais (LAAR)
A caracterização dos substratos a testar (Tabela 6) considerou os seguintes parâmetros: absorção de água às 24 horas, densidade aparente, densidade de partículas e porosidade.
Tabela 6: Caracterização dos substratos com base em amostras dos três microcosmos (n=3) de cada condição experimental: substrato reciclado (R), substrato padrão (P), substrato padrão com 2% de hidróxido de alumínio (PLAA) e substrato padrão com 10% de escórias de ferro (PFe).
R P PLAA PFe
Absorção de água às 24 horas
(%) 43,4 ± 16,1 110,3 ± 14,8 122,4 ± 1,9 90,7 ± 8,2 Densidade aparente (g ml-1) 0,49 ± 0,03 0,33 ± 0,01 0,34 ± 0,02 0,40 ± 0,02 Densidade de partículas (g ml-1) 0,88 ± 0,11 0,61 ± 0,06 0,69 ± 0,12 0,95 ± 0,13 Porosidade (%) 44,0 ± 8,5 46,0 ± 6,2 48,7 ± 10,4 58,0 ± 5,6
O substrato padrão com hidróxido de alumínio (PLAA) foi o que apresentou uma maior capacidade de
absorção de água tendo apresentado densidade aparente, densidade de partículas e porosidade semelhante à do substrato padrão (P).
A maior densidade de partículas foi apresentada pelo substrato padrão com escórias de ferro (PFe) que
também apresentou a maior porosidade.
A análise estatística efetuada (Anexo 4) não evidenciou diferenças significativas na porosidade dos quatro substratos, contudo a capacidade de absorção de água exibida pelo substrato R foi significativamente diferente da dos restantes substratos (p <0,01 para PFe e p <0,001 para P e PLAA).
Entre si, os substratos suplementados, PFE e PLAA também evidenciaram diferença (p<0,05) na
capacidade de absorção de água.
A densidade aparente do substrato R foi significativamente diferente das dos substratos: P (p<0,0001); PLAA (p <0,001) e PFe (p <0,01).
Em relação à densidade aparente e à densidade de partículas, entre o substrato P e os suplementados, apenas se registaram diferenças significativas entre P e PFe (p <0,05).
Ao longo do período experimental os microcosmos (triplicados) das quatro condições a testar foram irrigados semanalmente com 500 mL de água da torneira (exceto no mês de agosto). A recuperação da água dos microcosmos foi feita semanalmente, para determinação de pH, temperatura (Tabela 3) e Carência Bioquímica de Oxigénio (CBO5).
O pH da água recuperada dos microcosmos variou entre 7,3 e 7,9 e a temperatura determinada nas amostras de água recuperada entre 18,8 e 26,5 °C (Tabela 7) não se tendo registado grandes diferenças entre os microcosmos.
Tabela 7: Temperatura (°C) e pH da água recuperada (mL) dos quatro microcosmos ao longo do período experimental (desvio padrão com n=14): substrato reciclado (R), substrato padrão (P), substrato padrão com 2% de hidróxido de alumínio (PLAA) e substrato padrão com 10% de escórias de ferro (PFe).
R P PLAA PFe Volume (ml) 266 ± 9 266 ± 14 295 ± 11 297 ± 10 pH 7,80 ± 0,02 7,48 ± 0,03 7,58 ± 0,03 7,58 ± 0,03 Temperatura (ºC) 23,7 ± 0,4 23,4 ± 0,4 23,3 ± 0,4 23,4 ± 0,4
Em todos os microcosmos foi geralmente recuperada a mesma quantidade de água (≈300 mL). Contudo a análise estatística efetuada evidenciou diferenças significativas com p<0,0001 entre R e P e entre P e PLAA no dia 160; entre R e PFe e entre P e PFe diferenças significativas com p<0,0001 foram
registadas no dia 12.
Os maiores volumes de água foram recuperados de todos os microcosmos ao 18° dia - cerca de 317, 343, 377 e 355 mL, respetivamente dos substratos R, P, PLAA e PFe, enquanto que volumes mínimos de
água foram recuperados, ao 40° dia do substrato R (213 mL) e no dia 160 dos substratos P, PLAA e PFe
respetivamente 117, 207 e 190 mL.
A Carência Bioquímica de Oxigénio (CBO5) da água recuperada dos microcosmos nunca ultrapassou,
em média, 7 mgL-1 (Fig. 29). O valor máximo foi de 14 mg L-1, nos microcosmos PFe e mínimo de 1 mg
L-1 no microcosmo R (Anexo 5).
Figura 29: Carência Bioquímica de Oxigénio (CBO5) da água recolhida semanalmente nos diferentes microcosmos (média ± dp mgL-1): em R e P (n=11); em PLAA (n=14) e PFe (n=15)
A percentagem média de cobertura por S. album nos microcosmos com os diferentes substratos R, P, PLAA e PFe (Fig. 30) foi calculada a partir da análise de imagens digitais (n=3) obtidas por registo
fotográfico, em 21 dias do período experimental.
Figura 30: Percentagem média de cobertura por Sedum album nos microcosmos com: substrato reciclado (R), substrato padrão (P), substrato padrão com 2% de hidróxido de alumínio (PLAA) e substrato padrão com 10% de escórias de ferro (PFe).
A percentagem de cobertura foi calculada a partir da análise de imagens digitais (n=3) obtidas ao longo do período experimental. As barras de erro representam o erro padrão da média (SEM)
No 1º dia, os microcosmos R e PLAA registaram a máxima percentagem de cobertura (12,13% e
12,53%, respetivamente) mas as plantas resistiram com dificuldade até ao dia 83 em R e 139 em PLAA.
Nos microcosmos P e PFe a percentagem máxima de cobertura por S. album (15,17%, 12,93%,
respetivamente) foi atingida nos dias 27 e 4 (respetivamente), e as plantas sobreviveram até ao dia 167 (cobertura 0,20 %, 0,70%, respetivamente).
A análise microscópica de suspensões dos substratos dos microcosmos R, P, PLAA e PFe foi feita em 3
lâminas por réplica (150 µm) de cada condição experimental. A densidade média de indivíduos por mL de cada taxa foi estimada tendo por base 13 observações de suspensões de amostras compostas de cada substrato. A abundância relativa (%) das formas identificadas (Tabela 8) evidenciou a predominância de ciliados.
Tabela 8: Diversidade e abundância relativa (%) dos organismos identificados nas suspensões de amostras dos substratos: reciclado (R), substrato padrão (P), substrato padrão com 2% de hidróxido de alumínio (PLAA) e substrato padrão com 10% de escórias de ferro (PFe), analisadas ao microscópio ótico.
TAXA R P PLAA PFe Ciliados (< 50µm) 88,95 62,83 47,33 67,00 Halteria 1,35 1,39 2,61 4,18 Aspidisca 0,14 5,55 0,12 - Ciliados (> 50µm) 0,50 2,38 2,24 3,40 Colpoda - 0,30 - - Vorticella - 1,09 0,37 - Stlylonichia - - - 0,22
Amebas com teca 3,90 17,94 33,17 16,05
Heliozoa 0,99 0,69 0,62 - NEMATODA - - 8,57 7,33 ROTIFERA 0,07 0,40 3,98 1,47 GASTROTRICHA 0,64 1,09 0,99 0,24 PLATHELMINTHES 0,57 0,40 - 0,12 Total de organismos mL-1 1442 1009 805 920
Da considerável percentagem de protistas observados nas amostras analisadas ao longo do período experimental é de assinalar a maior abundância relativa das amebas com teca, no substrato PLAA.
Contudo nos substratos P e PFe, a abundância relativa das amebas com teca também foi considerável
(≈18 e 16%, respetivamente), sobretudo em comparação com o substrato R (≈4%). Em menor percentagem, os metazoários estiveram representados por formas dos filos ROTIFERA e GASTROTRICHA em todos os substratos, e o filo NEMATODA nos substratos PLAA e PFe (Fig. 31). As
amebas com teca identificadas no substrato dos microcosmos eram essencialmente do género Trinema, e estavam também presentes formas de heliozoários.
Figura 31: Taxa identificados em microscopia ótica de campo claro (cc) nas suspensões de amostras de substrato dos microcosmos: reciclado (R), substrato padrão (P), substrato padrão com 2% de hidróxido de alumínio (PLAA) e substrato
padrão com 10% de escórias de ferro (PFe): Heliozoa, cc 400x (a); ROTIFERA, cc 400x (b); NEMATODA, cc 100x (c);
A percentagem média de cobertura por S. album nos substratos: reciclado (R), padrão (P), padrão com 2% de hidróxido de alumínio (PLAA) e padrão com 10% de escórias de ferro (PFe) foi geralmente bastante
crescimento de plantas (Tan 1995). A colonização dos microcosmos pelas plantas poderá ter sido dificultada pela baixa percentagem média de cobertura no início dos ensaios (12,1±1,30 %; n=12). Contudo nos substratos P e PFe observou-se um aumento inicial da percentagem de cobertura, mais
evidente no substrato P (15,2% ao 27º dia) do que no substrato PFe (12,9% ao 4.º dia). Este ensaio foi
mantido durante 167 dias, mas os substratos R e PLAA nunca apresentaram percentagens de cobertura
superiores às iniciais. Nestes, as percentagens de cobertura diminuíram até cerca de 10% do valor inicial no dia 48 (substrato PLAA) e 55 (substratos R). Tendo em conta que o substrato reciclado (R) é
composto por escórias de fundição de aço e refratários usados na indústria metalúrgica, e que o substrato PLAA contém 2% de hidróxido de alumínio, a contínua perda de cobertura por S. album poderá
ser explicada pelo facto de o alumínio, em certas concentrações, poder limitar o desenvolvimento e crescimento das plantas. O alumínio interfere com a divisão celular das raízes (Kopittke et al. 2015; Panda & Baluška 2015), aumenta a rigidez da parede celular das células vegetais, reduz a replicação do DNA, interfere com várias enzimas, modifica a estrutura e função das membranas plasmáticas podendo reduzir a absorção da água e nutrientes (Mossor-Pietraszewska 2001).
Os substratos P, PLAA e PFe apresentaram uma elevada capacidade de absorção de água (ca 100%),
enquanto que no substrato R esta capacidade foi inferior (≈ 43%). Se bem que a elevada capacidade para reter água por parte dos substratos P, PLAA e PFe possa ser útil em coberturas verdes para atenuar o
fluxo de águas pluviais, mitigando as cheias em áreas urbanas, a sua elevada capacidade de absorção de água pode tornar as coberturas demasiado pesadas, e levar à morte das plantas por asfixia das raízes.
O volume de água recuperada dos microcosmos R, P, PLAA e PFe foi em média de cerca de 280 mL o
que significa os microcosmos permaneceram semanalmente com cerca de 44% da água introduzida. Estes volumes foram necessários para a determinação da CBO5, mas poderão ter sido exagerados
tendo em conta as caraterísticas desta planta (CAM).
A Carência Bioquímica de Oxigénio (CBO5) da água recuperada de cada microcosmo foi sempre muito
baixa (< 7 mgL-1), o que traduz a pobreza orgânica dos substratos. Esta baixa carga orgânica está com
certeza associada a uma fraca colonização destes substratos por microrganismos.
As biocenoses encontradas nos diferentes microcosmos foram bastante idênticas. Apesar dos organismos melhor representados em todos os substratos terem sido os ciliados de menores dimensões (<50 µm), a sua abundância relativa foi superior no substrato R (≈89%). Nos substratos P e PFe a sua abundância relativa foi superior a 60%, mas no PLAA só foram observados cerca de metade
(47%) dos microciliados contabilizados em R (Tabela 8). Os ciliados de dimensão superior a 50 µm, nunca apresentaram abundâncias relativas superiores a 3,4%, tendo estado menos representados (0,5%) em R.
As amebas com teca apresentaram-se com uma abundância relativa de ≈33% no substrato PLAA, cerca
do dobro das amebas com teca presentes nos substratos P e PFe (18 e 16% respetivamente) e cerca de
10 vezes mais do que as contabilizadas em R.
Uma elevada abundância de amebas com teca está associada a baixos valores de amónia, altas concentrações de oxigénio dissolvido e baixa carga orgânica (Madoni 1994; Madoni 2004). As amebas auxiliam na renovação e controlo das comunidades bacterianas (Bonkowski 2004).
Dos metazoários observados nas diferentes amostras, os nematodes foram apenas observados nas amostras dos substratos P suplementados (PLAA ≈ 9% e PFe ≈7%). Rotíferos, gastótricos e platelmintes
foram observados em quase todas as amostras de todos os substratos testados, com abundâncias relativas geralmente inferiores a 1%. Contudo nas amostras do PLAA a abundância relativa de rotíferos
foi superior às abundâncias relativas destes organismos nas amostras P (≈ 10x) e nas amostras PFe (≈
3x).
Os metazoários são organismos que para além de bacteriófagos (Madoni 1994; Bonkowski 2004) também se alimentam de protistas (Geisen et al. 2017), o que pode justificar a sua maior abundância nas amostras com menor número de ciliados.
3. Ensaios em Mesocosmo
Os ensaios em mesocosmo decorreram de 31 de janeiro a 11 de outubro (254 dias), num terraço ao nível de um primeiro andar, em Gualtar. Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), durante o referido período na região de Braga, as temperaturas mínimas mensais (ºC) variaram entre 5 e 14 ºC, e as temperaturas máximas mensais entre 16 e 29 ºC (Fig.32).
Figura 32: Variação das temperaturas mensais máximas e mínimas (ºC), na região de Braga ao longo do período experimental (IPMA – https://www.ipma.pt).
De acordo com os dados disponíveis no IPMA, a precipitação total entre os meses de maio e setembro variou, entre 8 e 170 mm (Fig. 33).
Figura 33: Variação da precipitação total mensal (mm) na região de Braga, entre maio e setembro de 2017 (IPMA – https://www.ipma.pt).
A caracterização dos substratos a testar considerou os seguintes parâmetros (Tabela 9): absorção de água às 24 horas, densidade aparente, densidade de partículas e porosidade.
Tabela 9: Caracterização dos substratos com base em amostras dos três microcosmos de cada condição experimental: substrato Técnico (T), substrato Reciclado (R), substrato Padrão (P), e argila expandida (Leca®) utilizada na camada de drenagem (n=3).
T R P Leca®
Absorção de água às 24 horas
(%) 83,32 ± 7,15 41,36 ± 3,15 102,3 ± 3,13 29,82±1,66 Densidade aparente (g ml-1) 0,47 ± 0,09 0,47± 0,07 0,32 ± 0,05 0,30 ± 0,03 Densidade de partículas (g ml-1) 0,94 ± 0,11 0,78 ± 0,07 0,61 ± 0,05 0,76 ± 0,08 Porosidade (%) 50,33 ± 4,51 38,67 ± 10,97 47,47 ± 8,51 60,67 ± 6,03
A análise estatística efetuada (ANOVA com um fator, e teste de comparações múltiplas de Tukey – (Anexo 6) evidenciou uma maior diferença na capacidade de absorção de água entre T e R e T e Leca® (p<0,0001) do que entre T e P (p<0,01). O substrato P foi o que apresentou maior capacidade de absorção de água (ca 100%).
Quanto à porosidade, com valores máximos para Leca®, as diferenças encontradas só foram significativas em relação a R (p<0,05).
Ao longo do período experimental os mesocosmos das 3 condições a testar ficaram sujeitos às condições ambientais do local. A recuperação da água dos mesocosmos foi realizada sempre que se apresentavam encharcados com água da chuva. A água recuperada foi analisada para a determinação do pH (Tabela 10) e Carência Bioquímica de Oxigénio (CBO5).
Tabela 10: pH da água recuperada (mL) dos três mesocosmos de cada condição experimental: substrato Técnico (T), substrato Reciclado (R) e substrato Padrão (P); n=7
T R P
Volume
(ml) 678,3 ± 351,1 1084 ± 855,1 4499 ± 2152
pH 7,24 ± 0,24 7,61 ± 0,19 7,49 ± 0,48
A recuperação de água dos diferentes substratos foi máxima em P e R no fim de março, 56° dia (respetivamente 7340 e 2970 mL) e em T ao 11° dia – início de fevereiro (1258 mL).
A menor quantidade de água recuperada foi registada em todos os microcosmos ao 8° dia: cerca de 310, 380 e 680 mL, respetivamente em T, R e P.
A Carência Bioquímica de Oxigénio (CBO5) da água recuperada dos microcosmos (Anexo 7) nunca
ultrapassou, em média, 13 mg L-1 (Fig. 34). O valor máximo foi 25 mg L-1, no mesocosmo P e mínimo
(2 mg L-1) no mesocosmo T.
Figura 34: Carência Bioquímica de Oxigénio (CBO5) de amostras de água recolhida nos diferentes mesocosmos: substrato Técnico (T), substrato Reciclado (R) e substrato Padrão (P). As barras de erro representam o desvio padrão (dp) da média
das amostras analisadas - T, n=5; R e P, n=6.
A percentagem média de cobertura por Sedum album nos mesocosmos com os substratos, T, R e P, recorreu a 32 registos fotográficos obtidos ao longo de 254 dias (Fig. 35).
Figura 35: Percentagem de cobertura por Sedum album nos mesocosmos com substrato Técnico (T), substrato Reciclado (R) e substrato Padrão (P), ao longo período experimental. A percentagem de cobertura foi calculada a partir da análise de
imagens digitais de 32 registos fotográficos
A percentagem máxima de cobertura dos mesoscosmos por S. albumfoi de aproximadamente 33, 32 e 26 %, respetivamente em T, P e R, nos dias 99, 81 e 64.
A percentagem mínima de cobertura foi de 11% em T e P e 10% em R, nos dias 17, 254 e 1, respetivamente.
Cada planta de A. maritima atingiu um valor máximo de cobertura dos mesocosmos de apenas cerca de 5%, no dia 64, em P e T, e no dia 135 em R (Fig. 36). As plantas sobreviveram cerca de 135 dias. As diferenças de crescimento destas plantas nos três substratos testados, não foram significativas.
Figura 36: Percentagem de cobertura por Armeria maritima nos mesocosmos com substrato Técnico (T), substrato Reciclado (R) e substrato Padrão (P), ao longo período experimental.As barras de erro representam o erro padrão da média
(SEM).
Nos mesocosmos T e R, A. maritima apresentou flores desde o 1.º ao 113.º dia (Anexo 8), enquanto que no mesocosmo P só apresentou flores a partir do dia 38 (fim do inverno). O número máximo de flores ao longo do período experimental foi superior nos mesocosmos T (26 flores) do que nos R (18 flores) e P (16 flores). As plantas sobreviveram cerca de 135 dias, tendo aparecido flores até ao dia 113.
O comprimento médio (cm) dos caules principais de Rosmarinus officinalis var. prostratus nos mesocosmos, ao longo do período experimental (Fig.37), foi máximo nos mesocosmos T (≈34 cm) no dia 113 no mesocosmo R (≈35 cm) e no mesocosmo P (≈31 cm) no dia 164.
Figura 37: Comprimento médio (cm) do caule principal de Rosmarinus officinalis var. prostratus, nos mesocosmos com substrato Técnico (T), substrato Reciclado (R) e substrato Padrão (P), ao longo período experimental. nos mesocosmos As
barras de erro representam o erro padrão da média (SEM).
O número médio de ramos secundários de Rosmarinus officinalis var. prostratus nos mesocosmos T, R e P foi máximo a parir do dia 142. Em T e P o número máximo de ramos secundários foi de 12, enquanto que em R foi de 9.
Estes ramos apresentaram comprimentos máximos de aproximadamente, 13, 15 e 16 cm em T, R e P respetivamente nos dias 9, 113 e 172 (Anexo 8)
Em T as plantas sobreviveram cerca de 142 dias, enquanto que em R e P sobreviveram cerca de 179 dias.
A análise microscópica de suspensões dos substratos dos mesocosmos T, R e P demonstrou uma considerável percentagem de protistas.
Em menor percentagem, os metazoários estiveram representados por formas dos filos ROTIFERA e NEMATODA em todos os mesocosmos, e por formas do filo ANNELIDA em P. Em cada observação foram analisadas ao microscópio 3 lâminas por réplica (150 µL) de cada condição experimental (T, R e P). A densidade média de indivíduos por mL de cada taxa foi estimada com base em 14 observações de cada condição experimental. A abundância relativa (%) das formas identificadas evidenciou a
Tabela 11: Diversidade e abundância relativa (%) dos organismos identificados nas suspensões de amostras dos substratos Técnico (T), substrato Reciclado (R) e substrato Padrão (P) analisadas ao microscópio ótico
TAXA T R P Ciliados (< 50µm) 71,01 68,87 51,43 Halteria 12,46 15,56 11,07 Aspidisca 0,58 3,11 1,07 Ciliados (> 50µm) 3,19 3,89 5,36 Colpoda 0,87 0,78 1,43 Vorticella 0,29 0,39 2,86 Stlylonichia - - 0,36
Amebas com teca 9,28 6,23 22,50
Heliozoa - 0,39 - NEMATODA 1,45 0,39 2,86 ROTIFERA 0,29 0,39 0,71 GASTROTRICHA 0,58 - - ANNELLIDA 0,36 Total de organismos mL-1 347 257 280
Entre os ciliados com menos de 50 µm e com mais de 50 µm, foram identificadas formas dos géneros Halteria (com maior frequência), e Vorticella, respetivamente. No substrato P foram identificados, para além dos taxa anteriormente referidos, formas do filo ANNELIDA (Fig. 38), com fraca abundância relativa
Figura 38:Taxa identificados em microscopia ótica de campo claro (cc) nas suspensões de amostras de substrato dos mesocosmos com substrato: Técnico (T), Reciclado (R) e Padrão (P). Halteria, cc 400x (a); Vorticella, cc 400x (b);
ANNELIDA, Aelosoma, cc 100x (c)
Dos diferentes substratos testados T e P apresentaram uma elevada capacidade de absorção de água (ca 83 e 100%, respetivamente) enquanto que a de R foi de cerca de metade (ca 41%). A argila expandida (Leca®), utilizada sobretudo na camada de drenagem apresentou uma capacidade de absorção de água de apenas 28%, associada a uma porosidade bastante elevada (ca 61%). Comparativamente o substrato de T também apresentou uma elevada porosidade (ca 50%) e R e P apresentaram valores um pouco mais baixos. A baixa densidade aparente exibida por todos os substratos permite-nos classifica-los como adequados para o crescimento de plantas (Tan 1995).
A recuperação de água dos mesocosmos T, R e P variou naturalmente em função da pluviosidade. Só foi possível recuperar água durante os primeiros 102 dias, uma vez que a partir dai a precipitação foi mínima (Fig. 33). Em média a recuperação de água dos mesocosmos foi superior em P (ca 4500 mL), 4,5 x inferior em R (ca 1000 mL) e aproximadamente 7x menos em T (ca 680 mL).
A cobertura dos mesocosmos por S. album variou entre cerca de 10-30% em todos os substratos ao longo do período experimental. Contudo no substrato R a percentagem de cobertura máxima foi a menor (≈26%).
S. album é uma espécie que se sobrevive bem em diferentes tipos de substratos, tendo sido a única das espécies testadas a “aguentar” todo o período experimental (254 dias). As plantas de Sedum spp. formam “matrizes” que ajudam a evitar a evaporação de água da superfície do solo (Wolf & Lundholm 2008) e têm metabolismo CAM – características que tornam estas plantas muito resistentes a períodos de seca (Luckett 2009; McIntyre & Snodgrass 2010).
Armeria maritima também não apresentou percentagens de cobertura muito diferentes nos três tipos de substrato. As plantas só resistiram até ao dia135, mas na verdade só se registou aumento da percentagem de cobertura até ao dia 64. Um aumento do número de flores em todos os mesocosmos foi registado a partir do dia 49 (Anexo 9) que coincidiu com o início da primavera, período de floração desta espécie (SPB 2014).
Rosmarinus officinalis var. prostratus cresceu de forma muito semelhante em todos os substratos - nos substratos R e P sobreviveram cerca de 179 dias enquanto que em T só sobreviveram até ao início do verão (142 dias).
A morte das plantas foi com certeza devida às condições de seca que se registaram por todo o país e nomeadamente na região de Braga, sobretudo a partir de maio. Este período foi classificado pelo IPMA como extremamente quente e seco - as temperaturas foram cerca de 2,4 °C superiores ao normal e a precipitação cerca de 40 % inferior ao normal. A conjugação e persistência de valores de temperatura muito acima do normal e valores de precipitação muito inferiores ao normal fez com que ocorressem elevados valores de evapotranspiração e consideráveis défices de humidade do solo (IPMA 2017). As biocenoses de eucariotas observadas nos diferentes substratos apresentaram valores de diversidade e abundância relativa semelhantes (Tabela 11).
Os ciliados foram os organismos melhor representados em todas as condições experimentais, se bem que no substrato padrão (P) apresentaram a mais baixa abundância relativa. Contudo neste último substrato (P) a percentagem de amebas com teca foi a mais elevada (ca 23%), bem como os ciliados
de dimensão superior a 50 µm. Foi neste substrato que se determinou a mais elevada carga orgânica (valor médio de 12,8 mg L-1; valor máximo 25,0 mg L-1), apesar de ainda ser bastante baixa.
Comparativamente com R e T este foi o substrato que se apresentou mais rico em matéria orgânica, o que poderá justificar as diferenças na abundância relativa, sobretudo de amebas. As amebas com teca são normalmente mais abundantes em presença de baixos valores de amónia, altas concentrações de oxigénio dissolvido, baixa carga orgânica (Madoni 2004).
A elevada percentagem de protozoários ciliados em relação aos restantes organismos está de acordo com o que geralmente se observa quer em ecossistemas aquáticos quer no solo (Madoni 2004; Geisen et al. 2017).
Os metazoários melhor representados nas diferentes amostras, sobretudo em T e P foram os nematodes, frequentemente considerados bacteriófagos (Bonkowski 2004; Madoni 2004) ou fitoparasita (Rehman et al. 2016).
De todas as condições experimentais o substrato reciclado (R) foi o que apresentou menor número de organismos e de carga orgânica (Figura 12), contudo o crescimento das plantas foi equivalente em todas as condições experimentais.