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2ª Capítulo: O Intelectual e o Diagnóstico da crise.

ENSAIOS SEMINÁRIOS,

SIMPÓSIOS E CONFERÊNCIAS. 1987 --- “Mudanças no Padrão de Financiamento Público do investimento no Brasil”. Revista

de Economia e Política, v.7 nº

4, p.5-21. out. 1987. FGV.

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186 Há diversos ensaios de Bresser sobre a temática publicados entre 1995 e 2001 não

compilados neste quadro, por não se situarem em nosso corte cronológico (1988-1994). Para mais detalhes ver “Apêndice I” In NAKANO, Y. REGO, J. M. & FURQUIM, L. Em Busca do

novo- O Brasil e o desenvolvimento na obra de Bresser-Pereira. São Paulo. FGV. 2004;

conjunto de publicações também parcialmente citada no currículo Lattes e quase toda a sua obra disponível em www.bresserpereira.org.br.

1988

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“O Caráter Cíclico da Intervenção Estatal”. Julho/1988. Texto apresentado no Simpósio Democratizing Economics, USP e Wilson Center. Julho/1988. “A Mudança do papel do Estado na economia brasileira”. In: O Desenvolvimento Ameaçado: perpectivas e

soluções. São Paulo:

(Unesp), 1989. Intervenção no Seminário Estado e Crescimento Econômico, São Paulo (Unesp), 14- 0ut-1988. 1989 ---

“O Caráter Cíclico da

Intervenção Estatal”. Revista de

Economia Política, v. 9, n.3,

jul-set. 1989. FGV.

“Da Crise Fiscal à redução da dívida”. Publicado em Dívida

externa: crise e soluções

1990

--- “Crise e Renovação da Esquerda na América Latina”.

Lua Nova- Revista de Cultura Política, nº 21, out. 1990.

“A Crise da América Latina: Consenso de Washington ou crise fiscal?”. Aula magna no 17º Congresso da Associação Nacional de Pós Graduação em Economia. (Anpec), Brasília, 4 dez. 1990. 1991 ---

“A Crise da América Latina: Consenso de Washington ou crise fiscal?” Pesquisa e

Planejamento Econômico, v.

21, n. 1, p.115-130., abril/1991.

“The U.S. elites and the Latin American crisis”. In: BAER, Werner; PETRY, Joseph: SIMPSON, Murray (Eds). Latin

American: the crisis of the eighties and opportunities of the nineties. Urbana, Ill.: Bureau of

economics and Business, Board of Trustees of the University of Illinois, 1991.

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1992

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“A Crítica da Direita e da Esquerda a um Estado em crise.

Lua Nova- Revista de Cultura Política, n. 25, 1992.

“Economic Reforms and Economic Growth: efficiency and politics in Latin America”.

Revista de Economia Política,

v. 11, n. 4, out. 1992.

1993

A Crise do Estado.

São Paulo: Nobel, 1992. Reúne ensaios sobre o tema escritos entre 1987 e 1991. Economics Reforms in New Democracies. Cambridge: Cambridge University Press, 1993. Em português: Reformas econômicas em Novas Democracias. Nobel, 1996. Edição brasileira publicada quando Bresser já era titular do MARE.

“Economic Reforms and Economic Growth: efficiency and politics in Latin

America”. Publicado em

Economic Reforms in New Democracies (1993, cap 1, p.

15-76).

“Economics Reforms in new democracies: a social- democratic approach”. In SMITH, W,: ACUÑA, C; GAMARRA, E (eds). Latin

American political economy in the age of neoliberal reform.

New Brunswick: Transactions Publishers, 1994. Com José Maria Maravall e Adam Przeworski. Em português: “Reformas econômicas em democracias recentes”. Revista Dados, v. 36, nº 2, 1993.

“Uma interpretação para a América Latina: a crise do Estado”. Novos Estudos

Cebrap, nº 37, nov, 1993.

2.3.1 – “Mudanças no Padrão de financiamento do Investimento Público no Brasil” (1987).

Suas análises começariam sobre o caso brasileiro. “Pedra angular” em sua teorização sobre o assunto foi o artigo Mudanças no Padrão de financiamento do investimento Público no Brasil 187 apresentado em seminário na Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Segundo o próprio Bresser, tal ensaio foi de extremo relevo por apontar, ainda que de forma incipiente, seu argumento primacial no que tange à natureza da crise que assolava o Estado brasileiro: tratava-se de uma crise fiscal. Uma crise do próprio Estado e do modelo de financiamento público para o investimento em geral erigido no país desde meados do século XX. Como o próprio título do artigo já aponta, Bresser analisa com minúcias as mudanças no padrão do financiamento do investimento brasileiro. Sua análise remonta à atuação do Estado, entre a 2ª metade dos anos 1970 e primeira dos anos 1980 para o esgotamento gradual da capacidade do Estado em manter um padrão de investimento que sustentasse o financiamento da atividade econômica. Apontava neste exame comparativo a redução nas taxas de poupança (interna e externa) brasileira, enfatizando, sobretudo, a drástica redução na poupança estatal, indicando a partir daí o elevado endividamento do setor público. 188 Paralelamente a tal redução da poupança estatal, deteriorava-se a capacidade de investimento do próprio Estado, que segundo os mesmos dados comparativos caía de 8,6% em 1976 para 7,1% do PIB brasileiro. Interessante notar que Bresser atribui tais resultados aos efeitos do II Plano Nacional de Desenvolvimento lançado em 1974, pelo governo Geisel, se alinhando também a outras análises econômicas que compreenderam que, a despeito da estratégia de endividamento adotada por tal plano econômico, fora fundamental para o

187

Tal artigo foi publicado posteriormente na Revista de Economia Política. Brazilian Journal

of Political Economy. V.7, nº4. Out-1987. Tal periódico fora fundado por Bresser-Pereira em

1981 e até hoje coordenado por ele. Consultei para este texto a versão digital disponível para assinantes no website: http://www.rep.org.br. Acessado em 10/07/2012.

188

Os dados utilizados pelo ex-ministro em sua análise foram retirados do relatório “Contas Nacionais” da então Secretaria de Controle de Empresas Estatais (SEST) e do Banco Central (BRESSER, 1987:9).

crescimento industrial brasileiro, num momento de crise e recessão mundial.189 Em linhas gerais, Bresser vaticinava que a forte deterioração da capacidade de poupar e investir do Estado Brasileiro, entre 1975 e meados da década de oitenta, estava relacionada com a perda da capacidade do Estado brasileiro em realizar poupança compulsória e subsidiar o setor privado. Tais fatores explicariam a referida deterioração: A diminuição da carga tributária (explicada pela aceleração da inflação)190; e, finalmente ao elevado déficit publico, tanto fiscal quanto financeiro (Bresser afirmava que desde 1982 o fluxo de financiamento externo líquido havia estancado e novos empréstimos realizados pelo Estado haviam sido feitos para pagar juros do serviço da dívida financeira).

As saídas para superação desde quadro de esgotamento da poupança pública e queda na capacidade de investimento estatal apontavam, para “o aumento da carga fiscal, o controle dos gastos de consumo (na prática, congelamento de preços e salários) e a “liberação” de tarifas de serviços oferecidos pelas empresas estatais” 191, até então amplamente subsidiadas pelo Estado. Interessante grifar que Bresser, ao contrário do que teorizou nos anos 1990, não aponta como saída para a crise do Estado a privatização de serviços públicos. Reconhece a necessidade do financiamento público como condutor da expansão do setor privado, chegando a ressaltar que a retomada do crescimento da economia brasileira estaria associada fundamentalmente ao retorno do setor público com arregimentador de recursos para o financiamento do investimento em geral.192 Da mesma forma apontava como saída no que tange à política

189 A referência é feita por Bresser às análises de Antonio Barros de Castro (1985) e Jorge

Chame Batista (1987). A Economia Brasileira em Marcha Forçada, Rio de Janeiro, Paz e Terra e A Estratégia de Ajustamento Externo no Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento

Econômico in Revista de Economia Política. V7, nº 3, abril-jun/1987, respectivamente.

190

O “imposto inflacionário seria menor do que a perda dos impostos devido à inflação do período entre o momento que o imposto é incorrido e o momento em que ele é pago”. O artifício da indexação existente no Brasil à época, segundo Bresser, não teria sido capaz de evitar esta perda financeira para o Estado. (BRESSER-PEREIRA,1987:12).

191

BRESSER-PEREIRA, 1987. P. 18.

192

RANGEL, I. “Pósfácio” da 3ª edição de A Inflação Brasileira, São Paulo, Brasiliense. A polêmica inserida neste debate dá-se com Ignácio Rangel (1978) que, segundo Bresser, insistiria

monetária (para enfrentamento à divida externa) a necessidade de redução na taxa de juros. Par e passo a esta redução nos juros, apontava também para premência na obtenção de grandes superávits comerciais, como uma consubstanciada estratégia orientada para a exportação de bens manufaturados.

O próprio Bresser-Pereira, em relato posterior, declararia que os apontamentos de política econômica explicitados em Mudanças no Padrão de Financiamento do Investimento no Brasil haviam sido a base de sua atuação à frente do Ministério da Fazenda, onde a despeito da curta permanência na pasta, produziu seu Plano de Controle Macroeconômico (O Plano Bresser). O Plano Bresser, segundo seu criador, teria sido capaz de inserir no debate público suas ideias sobre a natureza da crise do Estado: uma crise provocada pelo gigantesco e crescente déficit público.193 Malograda sua passagem no Ministério da

Fazenda, Bresser-Pereira deu seqüência aos seus estudos sobre a crise do Estado e do padrão de financiamento público, ampliando agora suas análises para as economias centrais do capitalismo.

2.3.2- “O Caráter Cíclico da Intervenção Estatal” (1988).

Em 1988, outra publicação basilar sobre o papel do Estado como agente do desenvolvimento econômico: O Caráter Cíclico da Intervenção Estatal. 194 Neste artigo, o agora ex-ministro, retomava suas atividades de acadêmico e de executivo e sustentava sua argumentação na chamada “teoria do caráter cíclico da intervenção estatal”. Apresentado originalmente como paper no seminário Democratizing Economics, patrocinado pelo Instituto de Estudos Avançados da USP e pelo Woodrow Wilson Center (SP), o ensaio vai além das reflexões sobre a economia e o Estado brasileiro e expõe a teorização de Bresser acerca de um movimento cíclico de ora expansão, ora retração do intervencionismo estatal na

na privatização de serviços públicos, “estratégia irrealista” na opinião deste último. Citado também nesta análise de Bresser.

193

Bresser-Pereira, Economista ou sociólogo do desenvolvimento. Op. cit. P.540-542.

194

atividade econômica. Fica evidente sua tentativa de buscar um meio termo entre o que ele qualifica de “estatismo” (entendido como demasiada intervenção do Estado na busca por uma estratégia industrializante, típico, por exemplo, em países como a URSS e a China) e a mínima atuação do Estado defendida por aqueles que, segundo ele, estariam no campo da “direita neoliberal” (os monetaristas, economistas neoclássicos e defensores do livre mercado). Há a necessidade de reconhecer o Estado como agente fundamental e indispensável para a acumulação capitalista, afirmaria Bresser, apontando o equívoco dos economistas neoclássicos em segmentar Estado e mercado, categorias ontologicamente inseparáveis até na visão dos economistas clássicos do século XVIII.

Numa breve teorização acerca do papel do Estado na viabilização da acumulação capitalista, citando a análise de Altvater, Bresser expõe:

“O Estado pode, assim, ser entendido nem como um mero instrumento político, nem como uma instituição social estabelecida pelo capital, mas antes como uma forma especial do cumprimento da existência social do capital e além da concorrência... Há essencialmente quatro áreas em que o Estado é primariamente ativo: 1- a criação das condições materiais da produção (‘infra- estrutura’); 2- a determinação e a salvaguarda do sistema legal geral (...); 3- a regulação do conflito entre salário e capital (...); 4- garantia e expansão do capital nacional total e do mercado capitalista mundial”.195

Se não se pode negar o papel histórico do Estado como agente arregimentador da acumulação capitalista em geral, haveria de se pensar, segundo Bresser, uma via alternativa entre o excesso de regulamentação e controle proposto pela via estatista e a total desregulação e credo pelo livre

195

ALTVATER, Elmar. Notes on some problems of state intervention. (artigo publicado originalmente em alemão). In Kapitalistate, nº1, 1973. apud BRESSER-PEREIRA. O Caráter

mercado apregoado pelos neoliberais em ascensão desde a crise que se iniciara em meados da década de 1970. Para isso, a teoria do caráter cíclico da intervenção estatal seria o elemento chave para compreensão, segundo Bresser, de que o grau de intervenção estatal na atividade econômica marcharia num movimento cíclico que ora seria marcado pela expansão dessa atuação intervencionista, ora redução (necessária, segundo Bresser, para corrigir as disfunções provocadas pelo demasiado crescimento da ação deste mesmo Estado). Embora Bresser afirme ao longo do ensaio que a “intervenção estatal em países atrasados é uma condição necessária para os estágios iniciais de industrialização”196, a intervenção é mecanismo básico da acumulação primitiva,

ele adverte que nestes mesmos países em desenvolvimento o caráter da intervenção estatal assumiria caráter diverso. Não obstante, coadunado ao movimento cíclico de expansão/retração da atuação do Estado, Bresser perceberia, em resposta à crise em voga, a necessidade de elaborar formas de reduzir esta participação do Estado na atividade econômica em geral. Afirmava que, em alguns momentos, quando a “intervenção estatal aumenta, seja em termos de participação direta do Estado e das empresas estatais no PIB, seja em termos de grau de regulação ao qual a economia é submetida, ela começaria a ficar disfuncional. O excesso de regulação ao invés de estimular e orientar a atividade econômica, os enormes déficits públicos no lugar da obtenção da poupança forçada, seriam sintomas de que o Estado se excedeu. É o momento de reverter o ciclo, de contrair o Estado, expandir o controle do mercado, é tempo de desregular, privatizar”.197

Para Bresser sua teoria do “movimento cíclico da intervenção estatal” se apresentava como possibilidade de reduzir o conteúdo ideológico (como se isso fosse possível) do debate acerca do tema no campo da macroeconomia do desenvolvimento. Sua hipótese geral em resposta aos partidários do “estatismo” e do livre mercado, era a de apontar que “a relação ideal entre mercado e controle estatal necessariamente variaria no curso da História e de acordo com o

196

Idem. p 119.

197

caráter cíclico e em permanente transformação da intervenção do Estado na economia”.198

Há duas insuficiências claras na teorização de Bresser. A primeira aponta para a negligência deliberada em produzir uma reflexão teórica propriamente dita sobre o conceito de Estado. O “ângulo cego” da teoria de Bresser está justamente em perceber o Estado como uma entidade esvaziada de conteúdo político e ideológico, expressão do conflito entre classes ou frações destas. Ente epistemológico neutro requerido numa dada estratégia de desenvolvimento e industrialização em conjunturas históricas específicas, onde a acumulação capitalista mais exigiu do que refugou o papel do Estado, tanto nos países centrais, quanto nos considerados periféricos. Sua análise, estritamente inserida no campo da macroeconomia aplicada, não explica que as estratégias de desenvolvimento, bem como as ações de política econômica são, inevitavelmente, produto de opções políticas de classes ou segmentos de classe que ocupam a ossatura material deste Estado e/ou ascendem diretamente sobre aqueles que formulam tais ações de política econômica. A segunda insuficiência da teoria bressiana do “caráter cíclico da intervenção estatal” é que a mesma constitui-se de uma evidente a-historicidade (a despeito de uma superficial análise histórica do desenvolvimento capitalista desde a Revolução Industrial Inglesa, apontada por Bresser ao longo do ensaio). O movimento apontado pelo autor é dotado de certa inevitabilidade histórica (muito típica de modelos rigorosamente aplicados para compreensão dos fenômenos macroeconômicos), modus operandi analítico muito comum entre economistas neoclássicos, mas que parece ter seduzido Bresser. Embora, há de se reconhecer a notória formação estruturalista/keynesiana/heterodoxa do ex-ministro.

As conclusões gerais de O Caráter Cíclico da Intervenção Estatal apontavam para a crise do padrão keynesiano (base econômica da construção do welfare state) e intervenção estatal. Crise esta, que segundo Bresser, estaria ao final da década de 1980 ainda não terminada. Uma crise que desde meados dos

anos 1970 teria levado os países avançados, notadamente EUA e nações da Europa Ocidental, à redução do papel intervencionista/regulador do Estado, mas que muito provavelmente deixaria este mesmo Estado (de acordo com sua teoria do movimento cíclico e permanente) pronto “para uma nova fase histórica de expansão”.199 A despeito de suas idiossincrasias semânticas e suposta crítica original aos postulados da direita neoliberal, Bresser acabaria, nos anos 1990, a aderir em definitivo a esta leitura conservadora da crise do Estado.

2.3.3 – “A Crise da América Latina: Consenso de Washington ou Crise Fiscal” (1991).

A Crise da América Latina: Consenso de Washington ou Crise Fiscal é, sem dúvida, o mais didático dos textos de Bresser sobre a temática crise econômica dos países latino-americanos. Apresentado originalmente como Aula Magna na Associação Nacional de Centros de Pós Graduação em Economia em dezembro de 1990, o texto é rico em estratégias retóricas e léxicas que buscam mostrar ao leitor um afastamento do autor em relação aos postulados do Consenso de Washington, então amplamente repercutidos entre as burocracias e analistas econômicos latino-americanos. Bresser-Pereira tenta ao longo do ensaio distinguir a chamada “abordagem de Washington” (proposta pelo referido consenso) e aquilo que ele mesmo qualifica como “abordagem da crise fiscal”. Uma excelente estratégia retórica que tinha como objetivo afastar sua análise das críticas já sofridas pelo corolário liberal adotado nos países da região ao longo dos anos 80 e confirmados pelas análises de John Williamson, que lançaram as bases do referido Consenso.

Em linhas muito gerais, a “abordagem de Washington”, solidificada ao longo dos anos 1980 teria se formado, no plano teórico, a partir da crise do consenso das interpretações keynesianas e da correspondente crise da teoria do desenvolvimento econômico elaborada nos anos 1940 e 1950. E, por outro lado,

erigida a partir da destacada e crescente influência, a partir dos anos 1970, das contribuições econômicas da escola austríaca, 200 dos economistas monetaristas,201 dos novos clássicos relacionados com as expectativas racionais e da “escola da escolha racional” - ou teoria da escolha racional.202 Visões teóricas que segundo Bresser, temperadas por elevado grau de pragmatismo, muito típico de analistas econômicos oriundos das grandes burocracias internacionais, e compartilhado pelas agências multilaterais em Washington, o Tesouro Americano, o FED (Federal Reserve) e o próprio departamento de Estado dos EUA.203 Segundo esta abordagem para a crise das economias latino-

americanas as causas seriam basicamente duas: Por um lado, o excessivo crescimento do Estado, onde se lê protecionismo, modelo de industrialização por substituição de importações, excesso de regulação, empresas estatais ineficientes. E, por outro lado, o tão propalado populismo econômico vaticinado pelas burocracias financeiras internacionais e definido pela incapacidade de controlar o déficit público e conter as demandas salariais dos setores público e privado. Dado o diagnóstico, para a “abordagem de Washington” as reformas aplicadas aos países da região, no curto prazo, deveriam atacar o “populismo econômico” e buscar o equilíbrio fiscal e a estabilização macroeconômica. No médio prazo, de acordo em esta estratégia liberalizante, tratava-se da adoção de uma perspectiva de crescimento orientada para o mercado, assentada na redução do tamanho do Estado, na abertura comercial e ênfase nas exportações.

200Frederich V. Hayek e Ludwig V. Mises, especificamente: HAYEK, F. O Caminho da

Servidão. O Caminho da Servidão (1944) – Introdução. (disponível em:http://www.institutoliberal.org.br/biblioteca/clássicos/o-caminho-da-servidao-f-hayek/) e MISES, L. Intervencionismo – uma Análise Econômica (1940) Disponível em http://www.mises.org.br/

201 FRIEDMAN, M. Capitalismo e Liberdade. (1962). Disponível em www.instituto liberal.org.br. 202 “Escola” do pensamento liberal surgida no mundo anglosaxão em 1966 e que, em linhas

muito gerais, é definida por Tullock como “a análise científica do comportamento do governo, e em particular, do comportamento dos indivíduos com o governo”. TULLOCK, G et ali. Falhas

de governo: uma introdução à teoria de escolha pública. Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 2005.

Citado por LESSA, Isabelle. Considerações acerca da Teoria da Escolha Pública e o Princípio

da Supremacia do Interesse Público. FGV/RJ, http://academico.direito-rio.fgv.

203

BRESSER-PEREIRA. L. C. A Crise da América Latina: Consenso de Washington ou crise

Divergências pontuais à parte, Bresser apresenta grande convergência com os postulados da “abordagem de Washington”. O diagnóstico de ambas as análises apresentam como pano de fundo a concordância de que a origem da crise econômica latino-americana origina-se na indisciplina fiscal (tema recorrente na produção teórica de Bresser desde Mudanças no Padrão de Financiamento do Investimento no Brasil). O chamado “populismo fiscal” e o estatismo (protecionismo nacionalista) se constituíam em alvos par excellence da crítica tanto do Consenso de Washington, quanto da análise “pragmática” e “alternativa” do ex-titular da Pasta da Fazenda no governo Sarney.

Bresser, segundo ele mesmo, tentava avançar nos diagnósticos apresentados pela “abordagem de Washington”. Não bastaria estabilizar a economia, liberalizá-la e privatizá-la, aguardando por si só a retomada dos investimentos do setor privado. Argumentaria Bresser que as formulações do Consenso de Washington foram insuficientes por não atentar para o problema do déficit público, característico dos Estados da região, e por não situar a