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2 O ENSINO DE FILOSOFIA E SEUS DESAFIOS NA SALA DE AULA

2.2 ENSINAR E APRENDER FILOSOFIA

A pergunta o que é ensinar Filosofia pode parecer simples. Pode ser a atividade de que alguém transmite ao outro determinado conteúdo de Filosofia. Aqui já encontramos problemas. Porque a pergunta foi deslocada pela forma de transmitir e de outro modo pelo conteúdo que poderia ser ensinado. É sabido que encontrar uma resposta completa para o que seja Filosofia não é possível porque as eventuais respostas dão espaço a diferentes concepções de Filosofia e de filosofar, e isto vai impactar no sentido de ensinar e transmitir Filosofia. Podemos nos pautar no que afirma Matos (2013), quando diz que:

Uma possibilidade que assumo para pensar a filosofia é o lugar da construção do argumento, e, portanto, da palavra, do diálogo. Com isso encaminho duas vias possíveis de discussão: a) o lugar da experiência e do diálogo, do embate teórico/prático, do encontro entre pessoas, para além dos sisudos gabinetes daqueles que somente a entendem com coisa de solitários gênios; b) o lugar da linguagem, da mobilização de ideias pelos caminhos da razão que pensa a si mesmo, os fenômenos, a presença e a ausência, e a própria razão dita desrazão quando encurralada nos seus limites ou extrapolando seus cânones (2013, p. 27).

O ensinar e aprender Filosofia pode estar condicionado a um contexto educativo formal, ou seja, no qual os conteúdos são prescritos ou regulados pelo Estado que torna mais complexo em como deve ser conduzida a Filosofia em sala de aula. Conforme Cerletti (2008): Se focarmos em “que é aprender Filosofia” a questão não ficaria mais simples, uma vez que, qualquer resposta que seja dada estará intermediada pela concepção que se tenha de Filosofia e seus traços característicos. Se tem como proposta que aprender Filosofia seja conhecer a sua história, a aquisição de habilidades argumentativas ou cognitivas, desenvolver uma postura diante da realidade ou mesmo construir um olhar sobre o mundo. Essas alternativas podem ser incrementadas, combinadas ou modificadas da maneira que se achar conveniente em alguma concepção filosófica (CERLETTI, 2008, p. 11-18).

As dificuldades de iniciar a abordagem básica do ensino de Filosofia não se apresentam como um obstáculo intransponível, muito pelo contrário, são o motor e o estímulo que permitem avançar sobre esse problema. Desde o seu início, a atividade de ensino da Filosofia ficou relacionada ao seu desenvolvimento. Era prática de diversas escolas filosóficas, bem como a ocupação de muitos filósofos. Com a modernidade, a Filosofia passa a integrar os sistemas educativos ocupando maior ou menor grau de importância nos programas oficiais. Dessa forma, o ensino de Filosofia adquire uma dimensão estatal. Por conseguinte, aqueles que estão à frente da mesma transmitem o conhecimento de acordo com os conteúdos e critérios estabelecidos pelos planejamentos oficiais e pelas instituições habilitadas para tal. A base de sustentação dessa realidade no ensino de Filosofia se dá pelo significado de conhecimento adquirido em nossa sociedade, cuja mentalidade é utilitarista, privilegiando a escolarização como “transmissão de conhecimentos”, como assinala Almeida (2011), “em função do valor pragmático que eles possuem” (ALMEIDA, 2011, p. 72). Consequentemente, dá-se a negação da importância de uma cultura mais abrangente, que é considerada inútil, bem como pensar para além do conhecimento como experiência que se processa na Filosofia.

A programação de um ensino de Filosofia institucionalizado desencadeia, no desenrolar dos cursos, a reflexão filosófica do significado ou o sentido da Filosofia, que pode ser abreviada ao extremo ou postergada quase que indefinidamente, para a introdução do que para os conteúdos específicos da mesma. Essa concepção, na prática do ensino de Filosofia, faz com que a caracterização desta seja mais ou menos implícita, supostamente lhe apresentando uma ou várias definições. Por esse mesmo viés atravessa a reflexão sobre o ensinar Filosofia, tornando-se, em geral, a simplificação da justificativa de como conduzir esta tarefa de ensinagem.

Em se tratando do que se ensina, e como se ensina, a falta de explicitação da relação entre o “que” e o “como” pode gerar a concepção de posições acríticas ou ingênuas na área de ensino.

Haveria uma espécie de “senso comum” constituído em torno do ensinar Filosofia – certamente, frequente na transmissão de qualquer conhecimento, que assume um suposto pedagógico trivial: há alguém que “sabe” algo e alguém que não o sabe; de alguma maneira aquele que sabe “passa” (basicamente “explica”) ao que não sabe certos “conteúdos” de seu saber e, em seguida, corrobora se essa passagem foi de fato efetivada, isto é, constata que aquele que não sabia “aprendeu”. E assim, por etapas graduais e sucessivas, o aluno, com a ajuda de um mestre ou de um professor, passa do não saber ao saber (RANCIERE, 2008, p. 44).

O “quê” é apresentado como os conteúdos programáticos usuais e o “como” fica à disposição do professor, que poderá ter maior ou menor fundamento, de acordo com a formação docente que desenvolveu ao longo de seu trabalho como ensinante ou das experiências acumuladas como estudante.

Partindo desse pressuposto, se pode inferir a possibilidade de ensinar qualquer temática, corrente filosófica ou pensamento de diversos filósofos de forma similar, metodologicamente falando, já que o significado, do ponto de vista filosófico, está no conteúdo a ser ensinado e não na maneira de como seria apresentado. Além de ser independente também das correntes ou filósofos ensinados, supondo explícita ou implicitamente que é a Filosofia ou o filosofar, e das consequências que poderiam incorrer no ato de transmissão do conhecimento.

Pode-se ensinar Filosofia por estratégias didáticas como exposições, leituras e comentários de textos, atividades grupais, estudos dirigidos, entre outros, ou de formas inspiradas pela didática geral como ferramenta universal, conforme é empregada em outras disciplinas. Deve-se ressaltar a importância daquilo que vincula professor e estudantes, que possibilitará a maneira de ensinar Filosofia. Além de destacar se o tipo de vínculo que se estabelece com a Filosofia é substancial a todo ensino.

Conforme Sócrates, “alcançar o saber” se expressou pelo constante perguntar e perguntar-se. Esta atividade, que é o filosofar, e a tarefa de ensinar e aprender não pode estar separada do fazer Filosofia, pois estão unidas na prática filosófica e no seu ensino. Dessa forma, o ensinar Filosofia e o ensinar a filosofar compõem o espaço comum de pensamento entre professores e alunos, isto consiste, em sentido estrito, no ensino de Filosofia ser um ensino filosófico. O ensino filosófico tem como atribuição uma intervenção filosófica que seja

sobre os textos filosóficos, problemas filosóficos tradicionais, além de temáticas habituais da própria Filosofia que têm visão filosófica.

A Filosofia deve ser ensinada a partir de um lugar. Deve-se partir de uma perspectiva que irá fundamentar o aprendido pelo aluno. Dessa forma, como o professor estabelece um compromisso filosófico tem um vínculo pedagógico, permitindo-lhe uma didática filosófica pertinente para a sua prática de sala de aula que envolva o aluno numa dinâmica dialogal.

O filosofar se sustenta na inquietação de formular e de se formular perguntas (o desejo do saber). Isto incorre tanto no professor quanto nos alunos na tentativa de obter respostas a situações problemas, bem como no caso de um filósofo e suas respostas. Este perguntar é fundamental para o filosofar e para o ensino de Filosofia porque é a condição de possibilidade de se encontrar algumas respostas. Logo, o ensino filosófico é aquele onde o filosofar é o motor do ensino. E o ensino enlaça o fazer filosófico no sentido da transmissão. Dessa forma, o ensino ou curso de Filosofia pode ser desenvolvido de maneira promissora.

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