2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.2 ENSINO E APRENDIZAGEM DE LÍNGUAS ESTRANGEIRAS E A
Ao discutir o ensino e aprendizagem de LE considerarei como quase-sinônimos os termos língua estrangeira (LE) e segunda língua (L2), apesar de compreendermos diferenças na utilização de cada um deles, especialmente em se tratando do contexto em que a LE ou L2é aprendida. Para iniciar a discussão, trarei algumas definições de “língua” que amparam esta pesquisa e reflexões de autores acerca do aprendizado de uma língua não-materna e os efeitos resultantes dessa atividade. A partir dessas discussões, alinharei a prática do ensino de LE à TASHC e ao objetivo de construção de novos sentidos de Brasil proposto nesta pesquisa, justificando a abordagem de ensino de língua-cultura. Para tanto, também dissertarei brevemente sobre conceitos essenciais de Bakhtin (2011), tais como dialogismo, polifonia,
enunciado concreto e atitude responsiva.
Esta seção contribui para a presentepesquisa pois a área de PFOL está situada dentro da LA, que abarca o ensino de LE. Na próxima seção deste capítulo, explicitaremos as razões da escolhado termo PFOL e aprofundaremos as discussões sobre o Ensino de Português como L2 para estudantes de outros países, ancorados nas discussões desta seção.
Refletir sobre ensino e aprendizagem de línguas normalmente inclui retomar uma vasta literatura acerca de diferentes teorias e métodos que ganharam corpo no Brasil e no mundo. Essas teorias refletem visões de mundo e respondem aos anseios dos sujeitos históricos, situados no tempo e no espaço. No entanto, a escolha que faço nesta seção é de refletir acerca de rupturas, como indica Bohn (2013, p.80), favorecendo uma visão dialógica de linguagem (BAKHTIN, 2011) e uma abordagem multicultural e intercultural que melhor represente a diversidade global da modernidade recente (MOITA LOPES, 2013a). Os conceitos de multicultural e intercultural serão discutidos na próxima seção a fim de auxiliar na análise do material e nas respostas dos alunos.
Retomo também aqui a fala de Rajagopalan (2011), em entrevista a ALAB, em que afirma que no mundo de hoje é preciso repensarmos o conceito de língua que utilizamos e que muitos ainda se prendem a conceitos dos séculos XX e até do século XIX. Urge que apliquemos uma metodologia de ensino de línguas que consiga dar conta do caráter híbrido, mestiço, multimodal e político que as línguas têm no mundo de hoje. Ainda a esse respeito, oautor afirma que “a linguagem é o nosso modo de lidar com as nossas circunstâncias, a nossa sociedade, a nossa inserção dentro da sociedade” (RAJAGOPALAN, 2011).
Nesse contexto, trago uma visão bakhtiniana de língua, “a língua não é um sistema abstrato de formas normativas, porém uma opinião plurilíngue concreta sobre o mundo” (BAKHTIN, 1990, p.100). Esse conceito é bastante atual devido ao seu caráter flexível e interligado ao mundo e às necessidades reais. Há aqui uma grande ênfase no significado das palavras como parte de enunciados concretos, carregados de singularidade e ideologias. Ainda a respeito da língua e sua dimensão social, Bakhtinindica que:
A vida social e a evolução histórica criam, nos limites de uma língua nacional abstratamente única, uma pluralidade de mundos concretos, de perspectivas literárias, ideológicas e sociais, fechadas; os elementos abstratos da língua, idênticos entre si, carregam-se de diferentes conteúdos semânticos e axiológicos, ressoando de diversas maneiras no interior destas diferentes perspectivas.
A ideia da pluralidade de mundos concretos expressos através do uso da língua é ainda mais evidente quando tratamos do ensino de uma LE. Ensinar uma língua estrangeira é ensinar a agir em contextos diferentes e a abordagem de ensino-cultura torna-se indispensável ferramenta para auxiliar os alunos a navegar por diferentes mares. Ao refletir acerca da concepção dialógica de Bakhtin sobre cultura e linguagem, Faraco (2013) utiliza a imagem das “fronteiras (do estar-entre)”. Trabalhar com a abordagem língua-cultura, especialmente ao adicionarmos o aspecto intercultural, é estar numa região de fronteiras, em busca da construção dialogada com os alunos.
Ainda a respeito da definição de língua para esta pesquisa, entendendo essa definição como algo basilar para todas as pesquisas em linguística, assumimos aqui também o posicionamento de Galli (2015, p. 117) que declara a importância do ensino da língua como língua-cultura ao afirmar que:
Antes mesmo de ‘estrutura’, a língua é por natureza ‘conceito’ seja pelo conjunto de valores que agrega, seja pela representação que evoca. Temos, assim, um pouco da dimensão do que seja efetivamente mergulhar neste novo universo de conhecimento que é a língua-cultura estrangeira. Essa tomada de consciência impregna o fazer pedagógico do processo de ensino-aprendizagem de uma LE, daí a profundidade de seu alcance.
(GALLI, 2015, p.117)
A respeito do conceito de cultura, Kramsch (1993) afirma que cultura não é uma visão de mundo partilhada por todos os membros de cada comunidade de fala, mas algo multifacetado, flexível. Para a autora, a aquisição de uma segunda língua não é um ato cognitivo isolado, mas, sim, um ato situado, ancorado no espaço e tempo, de co-construção de significado entre professores e alunos que compartilham suas experiências com linguagem e comunicação. dialogicamente construído. Nesse sentido, Kramsch (1993) defende uma abordagem de ensino de línguas como contexto, dentro de uma pedagogia dialógica que torne o contexto explícito, possibilitando a interação dialética entre texto e contexto. A autora afirma ainda que toma o termo “dialética” como o diálogo entre posições contraditórias, favorecendo assim o entendimento mútuo a partir de uma perspectiva mais ampla e menos parcial.
Acerca de uma metodologia de ensino de línguas que possa abarcar as nuanças de nosso contexto atual, escolhemos a TASHC (ENGESTROM, 1999; LIBERALI, 2009), pois entendemos que fornece orientações essenciais a respeito dos caminhos a serem trilhados no
ensino de LE. O quadro a seguir oferece algumas orientações sobre a visão da TASCH para a Educação/Ensino.
Foco da Educação Mediação
Processo Ensino-Aprendizagem Dá-se a partir de contextos históricos, sociais e
culturais.
Produção de Conceitos Científicos Realiza-se por meio de tarefas de desafio e
descoberta
Papel dos Alunos Participantes da interação/parceiros na zona de
construção.
Papel do Professor Mediador e par mais experiente do conteúdo
enfocado.
Objetivos de Ensino
Formar indivíduos com “compromisso colaborativo com o mundo e com o outro para atuar em diferentes contextos sociais.
Quadro 01: TASCH aplicada ao Ensino - Quadro preparado a partir de conceitos trazidos por Liberali (2009).
Aprender uma segunda língua (SL doravante) através da abordagem da língua-cultura é conhecer outros mundos e outras realidades. Através dessa perspectiva, percebemo-nos no outro e apuramos nosso olhar para nós mesmos. É claro que todas as interações que vivenciamos em nossas vidas corroboram para a construção de nossa identidade, mas ao aprender outra língua, estamos essencialmente nos colocando no lugar do outro, tentando ver o mundo com outras lentes. Aprender uma LE é como viajar por caminhos desconhecidos e construir a chave que nos leva a diferentes lugares e posicionamentos sociais, possibilitando uma revolução constante dentro de nós e esse olhar dialético e dialógico sobre o aprendizado é realizado em sintonia com o enfoque de ensino da TASCH.