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1 CONTEXTUALIZAÇÃO DA PESQUISA

2 PERCURSO METODOLÓGICO: UMA POSSIBILIDADE TEÓRICO METODOLÓGICA

2. Gestão participativa: a comunidade deve participar da constituição da escola, o que proporcionará maior interação e facilitará a construção de sua realidade,

4.3.4 Ensino formal e ações complementares à escola

Ensino formal

O ensino formal realizado na escola comunitária é entendido como aquele que acontece de forma sistemática, regular, objetiva e dentro das normas e Leis de educação do nosso país, assim como acontece em outras escolas. Desde a sua fundação, as escolas comunitárias atendem crianças em idade escolar, da Educação Infantil aos anos iniciais do Ensino Fundamental.

Com a expansão das matrículas nas redes oficiais de ensino de 1ª a 4ª séries, as escolas comunitárias foram deixando de trabalhar com o Ensino Fundamental e ficando somente com a Educação Infantil. Essa mudança nos níveis de atendimento ocorreu também porque, há cerca de três anos, sem nenhuma consulta às escolas comunitárias, a Secretaria Municipal de Educação comunicou que o repasse vindo do Fundo Municipal de Educação para essas instituições tinha sido direcionado somente para as escolas

comunitárias que atendiam a Educação Infantil. Essa “ordem” pegou todos de surpresa, mas, como muitas escolas e professores dependiam desse recurso, de um ano para o outro, tiveram que se ajustar às exigências feitas pelo poder público municipal, gerando insatisfação nas famílias, que tiveram que matricular seus filhos em bairros distantes.

De acordo com a Resolução nº 3, de 3 de agosto de 2005, do Conselho Nacional de Educação/Câmara Básica de Educação, a Educação Infantil possui duas etapas de ensino: a creche (até 3 anos) e a pré-escola (4 e 5 anos). Nas escolas comunitárias baianas, o atendimento feito à criança se concentra mais na faixa etária de 1 ano e meio de idade, mas são poucas as que possuem berçário. Essas informações sobre atendimento, número de crianças e de professores que trabalham com a Educação Infantil em Salvador são insuficientes para se afirmar de forma precisa quantas crianças estudam nesses espaços e quantos professores trabalham em creches e/ou pré-escolas comunitárias. Além disso, as escolas comunitárias de Educação Infantil que participam do censo escolar do Governo Federal são enquadradas como privadas, conforme consta na legislação brasileira, o que dificulta ainda mais o levantamento do número de crianças que estuda na rede comunitária de ensino. Trata-se de uma lacuna no percurso da história da escola comunitária e de uma demanda urgente para o campo da pesquisa em educação.

Em relação ao Ensino Fundamental, ainda hoje é possível encontrar escolas comunitárias que trabalham com esse nível de ensino, como é o caso da Escola Comunitária Luiza Mahin, mas os recursos financeiros vêm de projetos financiados por ONGs internacionais ou pela própria comunidade, com o pagamento da taxa mensal que as famílias fazem à Associação. Não existem dados exatos de quantas escolas comunitárias continuam com o Ensino Fundamental, mesmo sem o repasse dos 3% oriundos do Fundo Municipal de Educação.

Dentro do ensino formal, a Educação de Jovens e Adultos é uma modalidade de ensino que, mesmo em número reduzido, também faz parte da história da escola comunitária. Na década de 1970, foi uma experiência vivenciada nas escolas comunitárias sob a influência do método de alfabetização de adultos de Freire, mas, nos últimos anos, com o incentivo dos governos federal e municipal e das campanhas para a alfabetização de jovens e adultos, várias salas de aula foram abertas em algumas escolas comunitárias, no turno noturno, para a escolarização de pessoas da comunidade que não tiveram a oportunidade de freqüentar a escola quando eram jovens. Boa parte dessas pessoas que estudam à noite na escola comunitária é constituída de pais, avós e/ou outros parentes das crianças que estudam nesse mesmo espaço educativo durante o dia.

Nas escolas comunitárias, além do ensino formal são desenvolvidas ações complementares à escola, também denominadas de apoio socioeducativo, para crianças, adolescentes e jovens da comunidade.

Ações complementares à escola

As ações complementares à escola são caracterizadas como aquelas atividades de caráter educativo, lúdico, recreativo e profissionalizante realizadas no contra-turno de estudo das crianças, adolescentes e jovens. Essas atividades vêm sendo desenvolvidas em escolas comunitárias, centros educativos e/ou recreativos. Dentre essas atividades, destaquei o reforço escolar e as oficinas pedagógicas:

a) Reforço escolar

O reforço escolar faz parte das ações da escola comunitária desde a sua origem. Ele foi implantando com a intenção de ajudar as crianças e adolescentes da comunidade que estudavam na escola pública e particular nas séries iniciais do Ensino Fundamental e apresentavam história de repetência e de fracasso escolar, e não tinham acompanhamento por parte da família/responsáveis, bem como o que fazer no turno oposto ao que estudavam, ficando soltos na rua, correndo o risco de se envolver no mundo das drogas e do crime.

O reforço escolar, dependendo de sua concepção, visa contribuir para melhorar a aprendizagem dos estudantes e, conseqüentemente, o seu sucesso escolar. Considero-o como uma atividade pedagógica, porque envolve ensino e aprendizagem, sujeitos que ensinam e aprendem, assim como intencionalidade e planejamento. O reforço escolar vem sendo realizado em casas de particulares, em escolas comunitárias e em escolas filantrópicas confessionais mantidas pelas paróquias da Igreja Católica, em centros educativos e/ou recreativos e por grupos evangélicos ou de outro credo religioso nos bairros populares. Ocorre em turno oposto ao que a criança/adolescente estuda, com a presença de uma pessoa mais velha, um monitor ou professor (contratado ou voluntário). Os conteúdos trabalhados no reforço escolar são, de um modo geral, os mesmos estudados na escola formal ou indicados pela família/responsáveis, pelos professores ou coordenação pedagógica da escola de onde o estudante vem. Com base nessas solicitações, o reforço escolar é organizado e estruturado. É nesse momento que se define se o atendimento será individual ou grupal, qual será a periodicidade, a carga horária semanal, os dias da semana, os horários e turno de atendimento, os conteúdos que serão estudados, as atividades pedagógicas que serão desenvolvidas etc.

É importante que o reforço escolar seja desenvolvido em parceria com os docentes e com a equipe técnico-pedagógica da escola de origem das crianças/adolescentes, para que sejam priorizadas atividades que tenham a finalidade de ampliar, aprofundar e construir aprendizagens, evitando a construção de uma escola paralela.

Os motivos mais freqüentes que levam a criança/adolescente ao reforço escolar são os seguintes:

a) dificuldades de aprendizagem, causadas por problemas neuro-psicossociais e também por atividades pedagógicas inadequadas e sem sentido para a faixa etária e estruturas mentais das crianças/adolescentes;

b) ausência da família e/ou responsáveis em casa, com disponibilidade para orientar as crianças/adolescentes nas atividades escolares;

c) feitura dos exercícios escolares;

d) estudo antecipado de conteúdos para prevenir possíveis dificuldades que venham surgir nas áreas de conhecimento, principalmente em Língua Portuguesa e Matemática;

e) tranqüilidade para as famílias/responsáveis que trabalham, pois reconhecem que as crianças/adolescentes estão com pessoas de confiança e em lugar mais “seguro” do que a rua.

As concepções de reforço escolar são diversificadas, mas aqui tratarei apenas de três: a banca, o reforço da aprendizagem e o doposcuola. A banca é o lugar em que se faz os deveres de casa, obedecendo às instruções dos livros didáticos e às orientações dadas pelo professor da escola de origem dos estudantes. É comum encontrar estudantes do Ensino Médio e universitários dando banca para os alunos de séries iniciais na sua própria casa ou na residência do aluno. A banca na Escola comunitária é dada por alguém da comunidade ou por um professor/monitor contratado.

A segunda concepção, reforço da aprendizagem, amplia a primeira, pois, além da realização do dever de casa, as crianças/adolescentes retomam os conteúdos estudados na escola, que ainda têm dúvida, e podem construir novas aprendizagens. O reforço, neste caso, funciona como uma possibilidade de intensificar, complementar e ampliar a aprendizagem do grupo. O processo de retomada dos conteúdos é um ponto que precisa ser levado em consideração, pois a pessoa responsável pelas aulas pode adotar como estratégia de ensino a repetição ou a análise crítica dos conteúdos, assim como adotar uma postura autoritária ou dialógica no trato com as crianças/adolescentes, o que vai influenciar diretamente no resultado do trabalho, transformando o reforço da aprendizagem em positivo ou negativo e reforçando metodologias que provocaram muitas vezes o fracasso escolar. O reforço escolar sem planejamento, sem organização do tempo e sem a clareza dos

conteúdos que serão trabalhados, ao invés de intensificar a aprendizagem, será prejudicial para a história escolar das crianças/adolescentes.

Por último, a concepção do reforço escolar como um doposcuola — palavra da língua italiana que significa conjunto de atividades educativas e de integração dos exercícios escolares — é o conjunto de atividades que proporciona a inter-relação entre as atividades das diversas áreas de conhecimento e as atividades que envolvem a arte, a música, a dança, o teatro, a capoeira etc. O reforço escolar, na perspectiva do doposcuola, funciona como atividade complementar à escola, extrapolando os conteúdos escolares. É uma visão ampla de reforço escolar que permite a (re)construção do sentido da aprendizagem e a elevação da auto-estima das crianças e dos adolescentes. É uma atividade que pode proporcionar prazer e alegria em aprender, apoiada nas diversas linguagens integradas no processo de construção do conhecimento do sujeito.

A diferença entre o reforço da aprendizagem e a proposta do doposcuola reside na natureza da atividade desenvolvida. O primeiro trabalha mais com os conteúdos escolares e o segundo, além de trabalhar com os conteúdos de forma integrada, envolve atividades de esporte e lazer, como se fosse uma espécie de atividade complementar à escola, de caráter formativo e não-compensatório.

A prática do reforço escolar e sua permanência nas escolas comunitárias até os dias atuais é um sinal de que não alcançamos a qualidade da educação. Em alguns casos, o reforço escolar funciona na escola comunitária como a única “modalidade” de ensino, e nesse caso é necessário questionar: qual a função social dessa escola comunitária? A sua implantação e a sua organização ficam sob a responsabilidade de cada escola, pois não existem parâmetros estabelecidos para o seu funcionamento, tampouco acompanhamento pedagógico, o que pode favorecer a criação de dependência no estudante em relação ao desenvolvimento do hábito do estudo, já que eles, desde muito pequenos, são inscritos em escolas comunitárias ou nas casas de particulares para “fazer reforço escolar”. Se o reforço é necessário para melhorar a aprendizagem de um estudante, ele precisa dar condições para que o aluno seja autônomo na construção de seu conhecimento.

b) Oficinas pedagógicas

As oficinas pedagógicas, realizadas em escolas comunitárias e centro educativos e/ou recreativos, são atividades de formação político-cultural e artística organizadas pelos próprios jovens e por pessoas da escola ou da comunidade, com temas de relevância social para a formação do sujeito, como esporte, comunicação, arte (dança, música, teatro...), juventude, informática, dentre outros. De modo geral, os participantes dessas oficinas são, principalmente, os ex-alunos das escolas comunitárias e outros adolescentes e jovens da

comunidade que já concluíram ou estão em fase de conclusão do Ensino Médio na escola pública. As crianças que estudam ainda na escola comunitária também participam de algumas dessas atividades desenvolvidas nas oficinas pedagógicas.

Esse tipo de trabalho é uma das possibilidades de valorização e de investimento no desenvolvimento das potencialidades e habilidades de jovens de bairros populares, já que eles não possuem dinheiro para fazer cursos fora de sua comunidade. Em alguns casos, elas servem também como um curso profissionalizante, preparando os jovens para a sua inserção no mercado de trabalho, como as oficinas de informática, que ensinam a manusear o computador e a usar e produzir seus programas. Além de grupos de dança, de capoeira e de maculelê, existem grupos de teatro, corais, cursos de música e encontros que proporcionam o estudo sobre temas de interesse dos jovens, como sexualidade, violência, drogas, meio ambiente, dentre outros.

A realização de oficinas pedagógicas como uma das atividades educativas que fazem parte do rol de ações da escola comunitária é uma prática que vem crescendo a cada dia. É provável que, daqui a alguns anos, a escola comunitária tenha que repensar o seu Projeto Político-pedagógico (PPP), pois as matrículas para a Educação Infantil, na rede pública de ensino, deverão aumentar com a inclusão desse nível de ensino no Fundeb. Penso que as ações complementares à escola ocuparão lugar de destaque em seu PPP, o que vai gerar a diminuição do número de crianças.

4.3 ALGUMAS REPRESENTAÇÕES DAS PROFESSORAS SOBRE A ESCOLA