3 DA EDUCAÇÃO INFANTIL AO ENSINO FUNDAMENTAL
3.1 Ensino Fundamental: desafios e possibilidades
Oobjetivo central desta pesquisa é analisar como a corporeidade é compreendida e trabalhada nas práticas pedagógicas no Ensino Fundamental, mais especificamente no primeiro ano, e identificar ações, planos ou práticas pedagógicas que contribuam para uma educação que contemple os temas da corporeidade e emancipação.
Verifica-se, desta forma, a importância de antes da apresentação e análise da pesquisa na escola,realizar um estudosobre o Ensino Fundamental que atualmente tem duração de nove anos, abordando principalmente as oportunidades e desafios salientados principalmente pela legislação, através da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e das Diretrizes Curriculares para a Educação Básica, atualizada no ano de 2013.
O processo de implantação e implementação do disposto na alteração da LDB pela Lei nº 11.274/2006, que estabeleceu o ingresso da criança a partir dos seis anos de idade no Ensino Fundamental, foi aprovada em 6 de fevereiro de 2006,com o prazo estipulado até 2010 para a efetivação dessa proposta em todas as escolas brasileiras. Essa proposta tem como perspectivas melhorar as condições de equidade e qualidade da Educação Básica, estruturar um novo Ensino Fundamental e assegurar um alargamento do tempo para as aprendizagens da alfabetização e do letramento.De acordo com Diretrizes Curriculares para o Ensino Fundamental:
O Parecer CNE/CEB nº 7/2007 admitiu coexistência do Ensino Fundamental de 8 (oito) anos, em extinção gradual, com o de 9 (nove), que se encontra em processo de implantação e implementação. Há, nesse caso, que se respeitar o disposto nos Pareceres CNE/CEB nº 6/2005 e nº 18/2005, bem como na Resolução CNE/CEB nº 3/2005, que formula uma tabela de equivalência da organização e dos planos curriculares do Ensino Fundamental de 8 (oito) e de 9 (nove) anos, a qual deve ser adotada por todas as escolas. O Ensino Fundamental é de matrícula obrigatória para as crianças a partir dos 6 (seis) anos completos até o dia 31 de março do ano em que ocorrer matrícula, conforme estabelecido pelo CNE no Parecer CNE/CEB nº 22/2009 e Resolução CNE/CEB nº 1/2010 (BRASIL, 2004).
No que concerne à corporeidade e ao desenvolvimento multidimensional, uma inovação dessa Diretriz diz respeito a importância que é dada ao cuidar, abordando a indissociabilidade dos conceitos referenciais de cuidar e educar. Cuidado como afirma Boff (1999, p. 91) [...] significa então desvelo, solicitude, diligência, zelo, atenção, bom trato.” E para educar com qualidade e consciência, é necessário cuidar das necessidades específicas de cada indivíduo, contribuindo para o seu desenvolvimento na sua totalidade. As Diretrizes Curriculares para a Educação Básica (BRASIL, 2013, p. 18) complementam que
Educar exige cuidado; cuidar é educar, envolvendo acolher, ouvir, encorajar, apoiar, no sentido de desenvolver o aprendizado de pensar e agir, cuidar de si, do outro, da escola, da natureza, da água, do Planeta. Educar é, enfim, enfrentar o desafio de lidar com gente, isto é, com criaturas tão imprevisíveis e diferentes quanto semelhantes, ao longo de uma existência inscrita na teia das relações humanas, neste mundo complexo. Educar com cuidado significa aprender a amar sem dependência, desenvolver a sensibilidade humana na relação de cada um consigo, com o outro e com tudo o que existe, com zelo, ante uma situação que requer cautela em busca da formação humana plena.
A educação emancipatória objetiva um ser humano que se auto-organize e, para isso, são necessárias condições apropriadas para que a criança tenha um desenvolvimento, ela necessita da presença, cuidado, amor e atenção dos pais e professores. Para evitar a formação de bloqueios energéticos que gerem futuros traumas e dificuldades de relacionamento e aprendizado, deve ser evitada uma educação que impeça a liberdade de expressões e sentimentos apresentados pelas crianças, é muito importante o acolhimento do outro ser humano e o estabelecimento de vínculos.
Cuidado é, pois, um princípio que norteia a atitude, o modo prático de realizar-se, de viver e conviver no mundo. Por isso, na escola, o processo educativo não comporta uma atitude parcial, fragmentada, recortada da ação humana, baseada somente numa racionalidade estratégico- procedimental. Inclui ampliação das dimensões constitutivas do trabalho pedagógico, mediante verificação das condições de aprendizagem apresentadas pelo estudante e busca de soluções junto à família, aos órgãos do poder público, a diferentes segmentos da sociedade. Seu horizonte de ação abrange a vida humana em sua globalidade. É essa concepção de educação integral que deve orientar a organização da escola, o conjunto de atividades nela realizadas, bem como as políticas sociais que se relacionam com as práticas educacionais. Em cada criança, adolescente, jovem ou adulto, há uma criatura humana em formação e, nesse sentido, cuidar e educar são, ao mesmo tempo, princípios e atos que orientam e dão sentido aos processos de ensino, de aprendizagem e de construção da pessoa humana em suas múltiplas dimensões (BRASIL, 2013, p. 18).
Essas Diretrizes trazem pontos fundamentais e inovadores quando se trata de uma educação crítica e emancipatória e da importância de considerar o educando em sua integralidade, considerando até mesmo sua sensibilidade, sua constante mutação que ocorre na inter-relação consigo, com o outro e com o meio ao afirmar que uma educação de qualidade é direito de todos os cidadãos e
condição para o exercício pleno de todos os direitos humanos, sociais, civis e políticos.
Uma questão importante que aborda essa Diretriz, que é um dos objetivos da ampliação do Ensino Fundamental de 8 para 9 anos, foi aumentar o número de crianças matriculadas na escola, mas se forem observados os dados estatísticos a partir da relação entre as duas datas referenciais – 2000 e 2008 –, tem-se surpresa quanto ao quantitativo total de matriculados na Educação Básica, já que se constata redução de matrícula (-0,7%), em vez de elevação. Contudo, embora se perceba uma redução de 20,6% no total da Educação Infantil, na Creche o crescimento foi expressivo, de 47,7%. Os números indicam que, no Ensino Fundamental e no Ensino Médio, há decréscimo de matrícula, o que trai a intenção nacional projetada em metas constitutivas do Plano Nacional de Educação, pois, no primeiro, constata-se uma queda de 7,3% e, no segundo, de 8,4%. Uma pergunta inevitável é: em que medida as políticas educacionais estimulariam a superação desse quadro e em quais aspectos essas Diretrizes poderiam contribuir como indutoras de mudanças favoráveis à reversão do que se coloca?