Quando as crianças chegam ao Ensino Fundamental, trazem consigo uma bagagem de experiências vividas na Educação Infantil, onde se deparam com inúmeras mudanças no seu cotidiano, os horários, espaço, literatura, entre outros aspectos. Buscando discutir outras anotações feitas no diário de campo em outro polo da pesquisa, pude notar a presença mais ativa dos meninos em atividades que requerem mais habilidades e as meninas davam mais valor a atividades mais suaves. Estas diferenças de atitudes nos faz fazer relação ao período escolar que as meninas não tinham acesso igual às práticas de jogos e brincadeiras dos meninos.
Os meninos estavam jogando futebol na quadra aberta [...], as meninas estavam no corredor lendo livros, e um dos livros era algo que remetia de como ser mãe [...], as meninas estavam usando uma tiara de gatinha, algumas de unhas pintadas.
A prática dos esportes pelos meninos estava bastante presente no cotidiano da escola, o que pode ser percebido ao voltar do recreio suado, conversando sobre os jogos e seus pedidos durante as aulas de Educação Física. Por outro lado, as meninas estavam mais preocupadas em ler seus livros que faziam referência a ser mãe, suas roupas e objetos da moda a serem utilizadas por elas.
Enquanto o desempenho esportivo ocupa um lugar de extrema importância na construção de certa masculinidade (CONNEL, 1995), a produção e expressão da beleza o
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fazem em relação à feminilidade (WOLF, 1992). Estas atitudes advêm das construções sociais feitas pela sociedade, onde homem deveria ser viril e a mulher deveria ter instinto materno e cuidado com a sua beleza.
Ao relacionar a presença da mulher com o esporte, esta começou a ter conhecimento pela prática apenas no século XX. Apesar da mulher se fazer presente nos esportes tanto no alto rendimento quanto por lazer, ainda existe uma grande subordinação desta em relação ao homem. Foi possível enxergar esta construção de feminino e masculino no esporte, diante de um acontecimento descrito no diário de campo, onde:
Mariano: Professor, no final da aula pode jogar futebol? Professor: Pode, mas as meninas precisam participar. Mariano: ah não professor, elas não sabem chutar a bola.
A existência deste “pré-conceito” de que meninos são mais habilidosos do que as meninas, por eles terem uma concepção que elas não sabem chutar uma bola, é possível questionar se este não seria um conceito criado pela a experiência dele na prática de atividades realizadas com as meninas. Esta fala nos traz novamente a construções sociais onde meninos tem seu maior envolvimento com as práticas esportivas e as meninas com um envolvimento maior com o cuidado de si.
Outro ponto a ser destaco do diário de campo foi a presença da música no cotidiano das crianças.
Em conversa entre os alunos no meio da aula, Fernando contou que mora no bairro de Pantanal e gosta de escutar funk e sertanejo. João falou que mora no bairro da Costeira e gosta de escutar funk e seu cantor preferido é Mc Kekel.
A presença da música no cotidiano das pessoas é um meio de grande influência de valores. Destacando o funk da fala das crianças, pela sua alta repercussão nos dias atuais e de como as letras das músicas faz repressão à sexualidade da mulher e incentiva assédios, principalmente sexuais do homem contra a mulher, nos fez conhecer um pouco da sua história e de como ela repassa esta imagem das mulheres. Deixando claro que não é apenas o gênero funk que faz repressão à sexualidade da mulher, trouxe este gênero pela presença constante nas falas das crianças e de sua repercussão na sociedade.
Duarte (2016) nos relembra a história do funk no Brasil, que teve origem na década de 70, baseada na música americana, os chamados “bailes da pesada”. A partir dos anos 80, as letras das músicas eram feitas a partir de algum sucesso americano, foi ai que o funk
passou a ganhar um caráter híbrido. No final desta década, Dj Marlboro (conhecido dos bailes funk) lança um disco “Funk Brasil” e, com o sucesso do álbum, o funk ganha a atenção da mídia. Mas apenas nos anos 2000 os bailes foram aprovados legalmente, esta época foi marcada pelo funk erótico, o surgimento dos “bondes” e a expressão feminina nas músicas. Nesta época já havia algumas mulheres e homens de sucesso através do estilo, como Mc Tati Quebra Barraco, Grupo Gaiola das Popozudas e o Mr. Catra. O que conhecemos por funk ostentação surgiu por volta de 2009, que traz nas suas letras um estilo de vida pautado em carros importados, bebidas cara, roupas de grife e mulheres.
Buscando conhecer melhor as letras do músico citado pela criança, encontram-se alguns estereótipos negativos em relação à mulher. Um dos trechos da música do cantor faz repressão da sexualidade feminina e o lado interesseiro da mulher de ser. A mulher é retratada como um objeto sexual que não tem sentimentos com quem se relaciona e deseja apenas se aproveitar dos confortos que o dinheiro do homem com quem se envolve podem lhe proporcionar. E o poder do homem de se relacionar com varias mulheres.
Com estas representações nas letras das músicas, estas acabam enfatizando os papéis que foram historicamente construídos para homens e mulheres, onde a relações são de hierarquia masculina e a mulher é vista como um ser que está a disposição do homem.
Fazendo a relação com a música e o ambiente escolar, é preciso discutir textos e capacitar as pessoas para que, como sujeitos históricos, sejam capazes de buscar e de (re) construir discursos alternativos, em suas práticas diárias.Para Vieira:
Há que transformar o discurso masculino de opressão em discurso de respeito a uma nova mulher: determinada, forte, que adota um projeto reflexivo de vida que implica responsabilidade pessoal. Cada mulher é aquilo que ela faz de si própria (2005, p. 236).
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5. CONCLUSÃO
Ao descrever como se estabelecem as relações de gênero no âmbito da Educação Física Escolar no Ensino Infantil e no Ensino Fundamental durante o Estágio Supervisionado I e I, período este que se faz de grande importância no processo de formação de professores, pude refletir sobre as circunstâncias inesperadas e descobrindo as diversas formas que existem nas construções de desigualdades entre os gêneros.
Entender o conceito de gênero é antes de qualquer coisa desconstruir preconceitos, valores impostos de enxergar o ser feminino e o ser masculino na sociedade. O desconstruir é também o não se deixar levar por culturas já impostas pela comunidade, sendo capazes de compreender o porquê de existir e de como podem contribuir nas construções de uma sociedade.
As relações de gênero se constituíram através da luta das feministas por igualdade de direitos entre mulheres e homens. Luta que dura até dos dias de hoje. Ficou evidente, durante a pesquisa, a presença da reprodução cultural, onde se faz referência de que meninos vestem roupas mais escuras e são mais fortes, e meninas devem ser submissas a eles.
Falar sobre gênero no ambiente escolar nos permite ver como a sociedade está compreendendo este assunto. Esta transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental onde as crianças levam consigo uma grande bagagem de experiências vividas durante esta primeira instituição, pois foi onde ele teve seu primeiro contato com a sociedade, saindo do ciclo familiar, tiveram mudanças no seu cotidiano, horários, espaços, literatura, entre outros. E quando chegam ao Ensino Fundamental começam a ter outros modos de convivência dentro destas instituições, a presença com outras professoras, colegas e o vai sinalizando suas preferências que às vezes não estão de acordo com o que a sociedade impôs a tal sexo biológico.
Sabendo da importância do ambiente escolar na construção dessas culturas, deve buscar formas de capacitar seus educadores a fim de buscar a desconstrução dessas barreiras de desigualdade as quais são construídas através de anos na escola. Devemos recorrer a instrumentos usados para vincular estas desigualdades e problematiza-los diante de situações que surjam. Materiais didáticos devem ser utilizados de que forma que não reproduza estereótipos. E o planejamento das aulas esteja sempre ligado ao tema gênero.
Torna-se assim necessário a formação de professores, já que na maioria dos cursos de licenciatura essa temática não é contemplada na grade curricular. Por meio desta formação
o profissional terá oportunidade de compreender e se aprofundar ao tema e obervará que este mais presente do que imaginava, ou seja, na relação entre as crianças, entre criança e adultos, entre os adultos, na sua relação com o brincar, nos brinquedos, nos espaços que estão inseridos, nos livros infantis/didáticos, nas falas. E nestas relações que a (des)construção desta questão de gênero se faz presente e é onde o educador deve estar capacitado para discutir sobre a temática e incluí-la nas suas aulas.
Por fim, acredito que nós professores podem e devemos trabalhar e acreditar que é a partir de novas intervenções nas aulas que podemos construir uma nova realidade na nossa sociedade no que se refere a desigualdade de gênero. Acredito que, desconstruindo este determinismo biológico, poderemos contribuir para uma sociedade que respeita todas as diferenças presentes no mundo.
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6. REFERÊNCIAS
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