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Ensino Superior: particularidades e desafios

No documento O humor na educação (páginas 44-49)

CAPÍTULO I EDUCAÇÃO E ENSINO

1.3 P ARA UMA PRÁTICA DO ENSINO

1.3.6 Ensino Superior: particularidades e desafios

Em Portugal o ensino superior era visto antes da revolução dos cravos como um mundo fechado ao qual apenas um pequeno grupo de privilegiados poderia aceder. Era a elite. Apesar de ainda hoje o acesso ao Ensino Superior ser desigual, é acentuadamente mais democratizado como confirmam Balsa et. Al.[2001]. O Estado preconizava uma política de ensino básico para todos mas não o ensino universitário. Assim, se na década de 60 do Século XX apenas pouco mais de 20 mil pessoas frequentavam o ensino superior em todo o país, hoje esse número ultrapassa os 367 mil sendo que já ultrapassou os 400 mil6, prova que o caminho foi a democratização e abertura. A título de exemplo, os docentes no ensino superior em 2005 eram mais de 37 mil [Instituto Nacional de Estatística], mais do que a totalidade de alunos em meados do século XX. A partir dos anos 1980/1990 entrar no ensino superior tornou-se prioridade para a maioria dos jovens [e para os pais, também]. A multiplicação de Universidades, Institutos Politécnicos e Escolas Superiores permitiu a muitos alunos que ficavam de fora deste nível de ensino antes, ter acesso aos tão almejados diplomas.

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Fonte: Ministério da Ciência , Tecnologia e Ensino Superior. Dados consultados a partir do site:

Depois de um exponencial crescimento na década de 1980 e início da década de 1990 o número de alunos inscritos tendeu a crescer menos, a estabilizar, inclusivamente a descer, em linha com a própria evolução demográfica do país. Hoje, apesar do grande número de licenciados, Portugal ainda aparece nos últimos lugares em percentagem tendo em consideração a população total.7

Ao nível das áreas com mais diplomados, as Ciências Sociais e as Engenharias estão à frente com perto de metade das vagas no Ensino Superior preenchidas. Outras áreas com muita procura são a Saúde, as Humanidades e a Educação. Apesar disso, são muitas as preocupações com a relação [ou a falta dela] que o mercado de trabalho e o Ensino Superior encetam. As empresas e associações empresariais criticam ainda hoje o certo acantonamento do Ensino Superior e o seu autismo em relação ao “mundo real”. Os cursos de Educação, formaram tantos profissionais que, com a baixa da natalidade e envelhecimento da população, muitos foram aqueles que não conseguiram um lugar no mercado de trabalho. As ciências sociais vivem um problema semelhante. O poder político tem consciência destes factos e procura soluções. Mariano Gago, Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, em Entrevista ao Diário de Notícias [03-01-07]: “Em termos de áreas, o sector da educação corresponde de facto a 31% dos licenciados no desemprego, mas depois há as artes e humanidades com 12%, e uma área que abrange muitas profissões, as ciências sociais, comércio e direito, com 28%.” Uma formação mais adequada ao mercado dos nossos dias torna-se premente. Que fazer?

Aparentemente este não é um problema exclusivamente português. Concluiu-se que todo o sistema europeu de Ensino Superior estava desadequado da realidade e, principalmente, pouco competitivo em relação aos principais competidores na cena internacional, Estados Unidos da América, Japão, Austrália. Por isso a 19 de Junho de 1999 assinou-se a Declaração de Bolonha cujo intuito era estabelecer um espaço Europeu conjunto de Ensino Superior. O objectivo desta harmonização é simples na sua designação e complexo na sua realização: Modernizar as Universidade e a sua capacidade de instrução uniformizando os ciclos de formação de modo a podermos enfrentar com mais dinamismo a sociedade do conhecimento e um mundo em constante mudança. A declaração de Bolonha assinada pela maior parte dos países europeus dos quais Portugal reforça alguns objectivos8:

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Segundo este estudo do Eurostat:

http://epp.eurostat.cec.eu.int/pls/portal/docs/PAGE/PGP_PRD_CAT_PREREL/PGE_CAT_PREREL_YE AR_2005/PGE_CAT_PREREL_YEAR_2005_MONTH_10/1-13102005-EN-BP.PDF

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Adaptado: Declaração de Bolonha consultado em :

1. Harmonização do sistema de ensino de modo a criar graus compatíveis em toda a Europa facilitando deste modo a empregabilidade dentro do continente.

2. A adopção de um sistema baseado em dois ciclos: Licenciatura e Mestrado. A licenciatura consiste em pelo menos 6 semestres lectivos, sendo que o mestrado terá mais 4 e só poderá ser frequentado depois de aprovação no primeiro ciclo de estudos.

3. Estabelecimento de um sistema de créditos [ECTS] de modo a promover uma maior mobilidade a todos os cidadãos. Os créditos podem inclusivamente ser adquiridos sem ser na universidade através de avaliação de competências.

4. Estabelecimento de cooperações entre instituições de ensino superior europeias de modo a assegurar mais qualidade de ensino.

A implementação da declaração de Bolonha é uma realidade hoje na maior parte dos países europeus. Assiste-se a uma pequena revolução na organização, designação e orientação científica dos cursos. Assim, o novo ensino baseia-se na aquisição de competências e pretende colocar em evidência o estudante. É ele que se torna o centro de todo o processo educativo. Em contraponto ao sistema anterior, verifica-se uma ênfase nas aulas práticas e tutórias com um acompanhamento do percurso de estudo maus individualizado e um sistema de avaliação mais discriminado de modo a responsabilizar professores e alunos no seu compromisso com a educação. Gloria Pérez Serrano [2007: 7] acrescenta: “Entre outras mudanças, podemos destacar uma profunda reformulação no que diz respeito à organização do docente; a metodologia de trabalho; a planificação mais detalhada da actividade docente, a utilização de novos materiais e ferramentas que fomentem a auto-aprendizagem, uma maior valorização das tutorias e apoios, uma diversificação dos sistemas de avaliação que não podiam continuar unicamente baseados no exame tradicional […].” Basicamente uma nova concepção ensino-aprendizagem.

A maior parte dos educadores e políticos encara o processo de Bolonha como algo de muito importante para o futuro da educação da Europa ainda que em países como o nosso ou de sistemas educacionais muito diferentes como são os dos países do antigo bloco comunista isto implique mudanças drásticas.9 Mas que tipo de efeitos

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Voldemar Tomusk [2006] apresenta um estudo acerca das implicações “bolonhesas” em países periféricos em Creating the European Area of Higher Education: Voices from the Periphery. NewYork: Springer.

indesejáveis pode ter este processo? A reorganização de estruturas tão complexas como as Universidades e Politécnicos pode trazer danos colaterais: despedimentos de docentes, necessidade de mais investimentos em infra-estruturas, concorrência desleal entre Instituições mais poderosas e Instituições mais pequenas, possível fecho de algumas devido à não adaptação às regras do “mercado comum” de ensino superior. Este aspecto é sublinhado por Ana Rioja Nieto [2007:61] “Resumindo, são muitos os elementos de juízo de valor que apontam na direcção de um modelo mercantil da Universidade para o qual converge a Europa. O certo é que todas as declarações interministeriais europeias desde 1998 até aos nossos dias, mostram uma concepção económica da educação, já que designam a transformação da Europa quase exclusivamente no continente mais competitivo na economia do conhecimento” A autora acredita que esta reforma tem um cariz mercantil porque as universidades terão que produzir diplomados tendo em consideração as necessidades de mercado. São as próprias instituições que devem garantir uma gestão mais próxima de preceitos empresariais o que vem de encontro ao que os próprios governos projectam. Em Portugal o Auto-financiamento das Instituições de Ensino Superior é hoje uma realidade: Dizia José Sócrates, Primeiro-Ministro, ao parlamento acerca deste tema em 2006: “reduzir o número de cursos; racionalizar a rede de escolas estimulando as associações e parcerias, sem esquecer, certamente, o contributo do ensino privado; qualificar a gestão, melhorar o desempenho”. A óptica da contenção de custos e da

limitação de orçamento estatal parece uma preocupação de fundo: reforçar a capacidade científica e técnica das instituições, assim como a sua capacidade

de gestão, o seu envolvimento com a sociedade e a economia e a participação nas redes internacionais do conhecimento global”10 . O governo aposta assim na cooperação e na autonomia financeira do ensino superior como forma de incentivar a competitividade no sector. Em termos de áreas de estudo, as privilegiadas são, sem dúvida as das novas tecnologias.

Durante muito tempo afastada da realidade e acusada disso, a Universidade prepara-se para aquele que é o maior desafio a longo prazo: compatibilizar-se, reorganizar-se, redefinir-se e ganhar um novo papel na sociedade. Os sistemas anglo- saxónicos de educação, mais curtos e mais práticos deram o mote: para as economias sobreviverem no competitivo mundo do século XXI precisam de uma sociedade com

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http://www.portugal.gov.pt/Portal/PT/Primeiro_Ministro/Intervencoes/20061221_PM_Int_Debate_Men sal.htm

competências práticas e adaptadas à realidade. A instrução não se pode distanciar do seu propósito. E o ensino superior tem a responsabilidade mais importante por ser o último estádio prévio ao mercado de trabalho.

No documento O humor na educação (páginas 44-49)