2.5. A síntese da construção da liberdade na Idade Média e a transição com
2.5.2. O Estado como ente secular e soberano: Maquiavel e Jean Bodin
Quatro anos antes de Lutero publicar suas teses, Nicolau Maquiavel escrevia sua obra mais notável: O Príncipe. Mais do que crítico voraz a favor da secularização do poder, o autor florentino tem destaque no estudo das ciências políticas pela implosão causada à faceta de hipocrisia que ocultava a política pouco religiosa de seu tempo57. O governante de Maquiavel é aquele que não se vale da fé como apanágio governamental: um bom governo é aquele fundado sob boas leis e boas armas. Em detrimento ao homem medieval espectador da providência
57
Segundo Marcos Antonio Lopes, ―A originalidade de Maquiavel não está propriamente na secularização da política, mas na separação de vida pública e privada, nas ditas escolhas dolorosas que o poder impõe, nos ditos ‗meios extraordinários‘ de que é preciso lançar mão, que ele mesmo define por ‗armas e violência‘. A ruptura do humanismo maquiaveliano está no fato de ter sido capaz de enunciar aquilo que certos pensadores políticos já haviam percebido: as relações entre os homens e, sobretudo, entre os Estados, não podem ser reguladas segundo preceitos religiosos e normas evangélicas. Como avaliou Berlin, Maquiavel não se recusava a reconhecer a santidade dos santos. Apenas constatou que as suas virtudes não bastavam para sustentar a ordem requerida a um corpo político‖ (LOPES, 2009, p. 59-60).
divina, o desafio do príncipe está em conquistar e manter o poder, garantindo sua governabilidade. Para tanto, deve se valer de sua virtù, isto é, de sua capacidade astuciosa para intervir antecipadamente nas situações e alterar o rumo da história. Maquiavel ignora a palavra revelada pelo Deus cristão e fixa seus olhos no leme dos grandes feitos da história uma vez que ―um homem prudente deve sempre seguir os caminhos abertos pelos grandes homens e espelhar-se nos que foram excelentes‖ (MAQUIAVEL, 2001, p. 23). Além da virtù, o príncipe deve contar com a fortuna, ou seja, possuir a sagacidade de agir na ocasião oportuna. Virtù e fortuna são os elementos essenciais para o governante maquiavélico. Para o florentino, entretanto, não basta ao soberano apenas um destes atributos: aqueles que tenham conquistado o poder somente pela fortuna de cidadãos particulares, por dinheiro ou por afeição de alguém, ―fazem-no com pouco esforço, mas com muito esforço se mantêm‖ (MAQUIAVEL, 2001, p. 27).
O capítulo dezessete de O Príncipe é um dos marcos da secularização da política e guarda parte do gérmen que notabilizou Maquiavel como um autor ―imoral‖ ou realista em demasia por desvelar a realidade da política como posse do poder. Ao tratar do modo de agir do príncipe, o autor indaga acerca da imagem que o soberano deve conservar, isto é, se é melhor ser temido ou amado. Para ele, o ideal seria cominar ambos os atributos, mas que numa possível escolha, o mais seguro é ser temido, pois não se pode confiar nas palavras dos homens – que são ―ingratos, volúveis, simulados e dissimulados, fogem dos perigos, são ávidos de ganhar e, enquanto lhe fizerem bem, pertencem inteiramente a ti, te oferecem o sangue, o patrimônio, a vida e os filhos, desde que o perigo esteja distante; mas quando precisas deles, revoltam-se‖ (MAQUIAVEL, 2001, p. 80). Contudo, Maquiavel lembra que o príncipe, ainda que não seja amado, também não pode dar azo para que o temor se transforme em ódio, que via de regra ocorre pelo roubo de mulheres e de patrimônio dos súditos58. A partir destas considerações, estabelecendo-se um paralelo entre o governante almejado por Maquiavel e o rei medieval escolhido pela entidade divina, claramente se observa que o soberano idealizado pelo escritor florentino
58
Uma das pérolas lapidares do tido ―imoralismo‖ de Maquiavel está nesta passagem, em que ele comenta que, entre o roubo de mulheres e de patrimônio, deve-se evitar incansavelmente a tomada do último, uma vez que ―os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do patrimônio‖ (MAQUIAVEL, 2001, p. 81).
não possui restrições morais ou teológicas em sua gestão na medida em que seu fim não é a salvação cristã, mas sim estabelecer a ordem em seu território e conservar a coroa para si.
Consoante comentário de Norberto Bobbio (1997, p. 14): Maquiavel nos ensinou a julgar as ações do príncipe segundo a vantagem que oferece para o Estado, e não segundo seu valor moral; em outras palavras, segundo a conformidade aos fins da conquista e da manutenção do Estado, e seguramente não segundo a bondade intrínseca das mesmas
Maquiavel desenvolveu uma noção de liberdade fundada em duas conotações: a externa, quando a república (civitas) não está sujeita ao julgo de nenhum povo estrangeiro e a interna, que é a liberdade republicana, cujas leis guiam os cidadãos. Aqui o fator importante não está no órgão que estabelece as leis, mas apenas a observância de sua existência. Para o florentino, a liberdade está relaciona com o hábito, ou seja, povos que se habituaram por uma vida livre lutarão com maior afinco para conservá-la, enquanto os acostumados a uma vida de servidão se manterão nesta condição. Em Comentários Sobre a Primeira
Década de Tito Lívio, Maquiavel reconhece ser muito difícil manter um
governo livre em uma cidade tomada por corrupção ou mesmo lhe instituir, uma vez que o povo não está preparado para a política e suas instituições não são hábeis para reprimir os atos corruptos. De todas as formas de governo, a republicana é a que mais apresenta dificuldades em coibir tais atos, motivo pelo qual ―mais vale a monarquia do que o estado popular para assegurar que os indivíduos cuja insolência as leis não podem reprimir sejam subjugados por uma autoridade real‖ (MAQUIAVEL, 1979, p. 77).
Entretanto, apesar de seus traços críticos e realistas, Van Creveld lembra que Maquiavel não foi inovador no que tange a separação entre o governante e o governado, entre a vida pessoal do príncipe e seu papel político59. Ele ainda não foi capaz de transpor a
59
―Nenhuma das comunidades políticas que existiram até 1648 fazia distinção entre a pessoa do governante e eu governo. O chefe da tribo africana, o rei grego, o imperador inca e seus colegas, fossem quais fossem seus títulos e o
faceta que conjugava o governo à figura de um soberano. Em outras palavras, não conseguiu vislumbrar o governo como uma instituição, cuja segurança e ordem seriam obtidas pela força da lei e não pela violência das armas.
Por sua vez, Jean Bodin é o autor do século XVI que melhor construiu o arquétipo do Estado moderno ao estatuir a noção fundamental de soberania. Sua principal obra, Seis Livros da República, publicada em 1576, concatena-se com o momento histórico vivido na França, a guerra civil, e a busca por uma solução viável ao caos estabelecido no país oriundo, em especial, pela fissura aberta ante a reforma protestante. Nem a via confessional, tampouco o príncipe maquiavélico resolveriam o problema francês. Inspirado pela Política de Aristóteles, Bodin se concentra na república, tornando-se ―o primeiro autor da história moderna‖ a estabelecer uma precisa diferença entre o público e o privado, isto é, o governo político e o patriarcal (CREVELD, 2006, 249-250). Embora ainda fortemente atrelado ao direito divino, esta divisão é de extrema importância para a configuração da estrutura estatal.
Nas palavras de Simone Goyard-Fabre:
É com Bodin que, pela primeira vez na história da doutrina política, o conceito de soberania conota a essência da república: esse conceito não só define sua especificidade, distinguindo-a de qualquer outra comunidade, mas a designa como Estado no sentido moderno da palavra, o que quer dizer que faz dela uma entidade política cuja prerrogativa já não é, como para os reis da Idade Média, jurisdicional, mas legisladora (GOYARD- FABRE, 2002, p. 23).
Todavia, ainda que inspirado na filosofia aristotélica, o autor francês não busca a origem ou a forma de governo mais adequada, mas parte do pressuposto de que a busca pela ordem institucional ocorreria com uma república, estabelecida sobre leis que atingem a todos, e, sobretudo, com a repreensão severa das violações legais.
tamanho dos países que governavam, eram o governo‖ (CREVELD, 2006, p. 241).
O conceito de liberdade em Bodin guarda profunda semelhança com a construção aristotélica, já descrita no capítulo anterior. Nas palavras de Sylvia Lenz (2004, p. 126), a família constituiria a base do Estado e a sociedade estaria dividida entre a esfera privada e a pública. A liberdade cidadã seria conquistada quando o homem deixasse a sua casa, na qual mulheres e crianças são sujeitas a autoridade patriarcal, para assumir as questões de interesse público. O chefe de família, cidadão livre, teria sua liberdade limitada apenas pela obediência que todos os demais cidadãos devem ter às leis emanadas da autoridade soberana.
A soberania deveria possuir três atributos indeléveis: caráter absoluto – não dependeria de ninguém, sendo potência pura –, indivisível – pois dois soberanos se anulariam mutuamente caso agissem de modo contíguo – e perpétuo – poder transcendental que não é corroído pelo despontar do tempo. A soberania estatal absoluta poderia residir no povo de modo geral (república democrática), em parte dele (aristocracia) ou em apenas um indivíduo (monarquia). Para o autor, a democracia seria a forma ideal de Estado, pois se baseia na justiça e na igualdade dos cidadãos, mas esta forma de governo esbarra na carência de cidadãos instruídos aptos a gerenciar as questões de interesse político coletivo. A aristocracia é o governo dos melhores, mas tende a se dissolver em facções que lutam por seus próprios ideais, fragilizando o todo. Segundo o autor, os grupos aristocráticos hegemônicos são os militares e os comerciantes, elite financeira das sociedades. Como são poucos os cidadãos virtuosos, a monarquia se mostra como a melhor forma de Estado.
Bodin concentra no soberano, que representa o Estado, competências que seu conterrâneo Montesquieu, cento e cinqüenta anos mais tarde, distribuiria entre as funções de legislar, julgar e executar as decisões: o governante assumiria de modo absoluto o processo legislativo, bem como teria de decidir sobre a guerra e a paz, nomeação de autoridades, distribuição de recompensas e punições, seria juiz de apelação e concessor de graça e ainda deveria tomar decisões sobre os tributos e a moeda do país. Acima do soberano terreno haveria apenas a potência divina e abaixo dele o magistrado60. A função da magistratura
60
Nas palavras de Lenz (2004, p. 128) ―antecipando-se à tese do direito divino dos reis, defendida mais tarde por Bossuet, Bodin conclamou que, acima do soberano, somente o poder de Deus é superior. A soberania, na prática,
para o pensador francês teria escopo de julgar as querelas entre os indivíduos bem como fazer cumprir as ordens como verdadeiros agentes do poder soberano. Assim, consoante Baker, Bodin apresenta uma relação de hierarquias do poder em seu Estado. Tal ordem coercitiva ―se daria a partir de uma relação vertical: Deus no topo, o soberano na terra com autoridade de legislar, os magistrados agindo em seu nome para exercer o poder coercitivo sobre súditos‖ (BAKER apud LENZ, 2004, p. 119).
O conceito de soberania absoluta de Bodin se tornou célebre pois anteviu a obra dos autores contratualistas que pensaram o Estado como uma instituição secular e distinta da figura do governante, o que ocorreria apenas em 1651 com a publicação de Leviatã pelo inglês Thomas Hobbes.
significava o poder de legislar, enquanto os magistrados zelavam pela aplicação da lei, representando o exercício pragmático do mando‖.
CAPÍTULO 3
A LIBERDADE E O ESTADO MODERNO: CONTRATUALISMO E TEORIA DO ESTADO
A passagem da Idade Média para a Idade Moderna é, via de regra, compreendida como a transição de um ideal de vida centrado em Deus (ainda que nos últimos séculos do medievo este ideal tenha se deslocado) e as descobertas científicas e sociais que colocaram os seres humanos novamente no comando de seus próprios destinos. Consoante precisa indicação de Zygmunt Bauman, ―para uma pessoa ser livre, tem de haver pelo menos duas‖ (BAUMAN, 1989, p. 21)61
. Ou seja, deve-se ter em conta o homem em sociedade e não apenas consigo em sua interioridade. No que tange a questão política, é indubitável que a formação do Estado moderno provocou intensa revolução no modo de ser das sociedades. Antes de possuir um ato fundacional oficial, ainda que muitos apontem para as revoluções burguesas, este ente despersonalizado teve sua formação constituída a partir da evolução de diversos fatores, tais como autonomia administrativa e a criação dos funcionários estatais62.
A análise acerca do limiar do Estado tem como ponto de passagem obrigatório os autores do período denominado contratualismo, que se estende pelos séculos XVII e XVIII. Tais autores – como Thomas Hobbes, John Locke, Jean-Jacques Rousseau e Immanuel Kant – declinaram de análises centradas na figura divina e passaram a repensar o espaço público e as suas instituições fundamentais para a formação de uma sociedade secular e para a colmatação das inúmeras debilidades perpetradas pelos governos de seus países. Distintos entre si em diversos pontos, eles comungavam de uma mesma sintaxe e de uma mesma estrutura conceitual – passagem do estado de natureza para o estado social por meio de um contrato social – para alicerçar o poder, outrora fundado em Deus, em alguma forma de consenso.
61
Neste mesmo sentido, Arendt afirma que - ―sem um âmbito público politicamente assegurado, falta à liberdade o espaço concreto onde aparecer‖ (ARENDT, 2011c, p. 195).
62
Este tema foi tratado no capítulo anterior, na seção intitulada Declínio e ascensão do mundo público.
O estado de natureza, de modo geral, é uma abstração necessária. Não é necessária a comprovação de sua existência, todavia, ele se torna um meio para justificar os problemas das sociedades do tempo de seus pensadores. Como um periscópio voltado para o passado, a concepção do estado de natureza varia, pois o diagnóstico de cada autor acerca da sua sociedade também é diferente. Assim, o estado de natureza legitima sua percepção de seu presente e as mudanças necessárias para a reforma social orquestrada pelo pensador político.
Norberto Bobbio destaca a existência de três possíveis eixos explicativos dos autores contratuais. No primeiro caso, a transição do estado natural para o social é fato historicamente comprovado o que incorre na análise pormenorizada da condição primeva humana como condição para a compreensão das profundas crises encontradas nas civilizações. Neste sentido, fixa-se a análise em verdadeira categoria antropológica, na qual os autores buscam justificações para a necessidade de o homem deixar seu estado primitivo (que podem chegar desde hordas primitivas até as sociedades tribais) a formas de vida mais organizadas e social e politicamente mais complexas. O segundo eixo tem, ao contrário, o estado de natureza apenas como hipótese lógica a fim de destacar a idéia racional ou jurídica do Estado e de colocar o fundamento de legitimidade política na construção de uma autoridade validada pelo consenso popular, expresso ou tácito.
Ao lado do contratualismo clássico, subjaz uma análise em que ―predomina o elemento jurídico como categoria essencial da sintaxe explicativa‖, na qual o direito é a ―única forma possível de racionalização das relações sociais ou de sublimação jurídica da força‖ (BOBBIO, 1998, p. 272). Bobbio explica que isto se justifica pela influência do direito natural cujo escopo era a legitimação do Estado travada em face do poder soberano, tanto pela legitimidade de sua legislação como pelo monopólio da força coativa. Por fim, o terceiro grupo prescinde completamente da análise antropológica do nascedouro do Estado, vendo no contrato um instrumento de ação política capaz de limitar o poder daquele que detém as prerrogativas de sua utilização (BOBBIO, 1998, p. 272).
Ainda sob o olhar de Bobbio, dois autores se destacam na análise do arquétipo do contrato em razão de terem levado sua formulação até as últimas conseqüências: Hobbes e Rousseau, ambos dispondo entre si de posições bem distintas quanto ao homem em seu estado natural – enquanto Hobbes via o homem como um lobo que
precisava de um soberano com amplos poderes para lhe conter, Rousseau consignava o bom selvagem que é corrompido pelo contato social –, mas comungando do fato de terem explorado em demasia esta condição humana. Em todo o caso, a formulação geral é a de um âmbito distinto da figura do soberano medieval, com certa dinâmica própria, e que possui algumas funções, sobretudo a legislativa, voltada para o interesse dos associados ao pacto. Neste sentido, Nuno Piçarra lembra que a maior conquista dos pensadores contratuais que se refletiu na formação do Estado de Direito foi a afirmação da separação entre as funções atribuídas aos poderes legislativo e executivo na figura do Estado contemporâneo. Segundo ele, ―a edição de normas gerais e abstratas, prévia e independentemente de casos concretos, e a sua execução ou aplicação a casos concretos, que é conquista definitiva da Idade Moderna e componente essencial do Estado de Direito‖ (PIÇARRA, 1989, p. 92).
Neste sentido, compulsar a obra de tais autores pressupõe se lançar em seus períodos históricos, vislumbrar os seus problemas cotidianos da inexistência de uma esfera pública consolidada, cujas principais atribuições – legislar, administrar e julgar – não tivessem resquício da vontade soberana. Qual instrumento jurídico mais sólido e digno de confiança que um contrato para encarnar a metáfora de uma nova sociedade? Todo contrato pressupõe um acordo entre as partes contratantes. Não se trata, portanto, de uma forma de aquisição do poder político por imposição, mas de um meio com características republicanas e pré-constitucionais para seu estabelecimento. Segundo Norberto Bobbio (1998, p. 279), verifica-se a mesma sintaxe em todos os contratualistas: a ―necessidade de basear as relações sociais e políticas num instrumento de racionalização, o direito, ou de ver no pacto a condição formal da existência jurídica do Estado‖. Analisando- se sobre um olhar constitucional, poder-se-ia inclusive classificar como a tensão natural e própria do poder constituinte, ainda que não se observe a universalização dos direitos em favor de todas as classes sociais. Contudo, é indubitável a influência destes autores na construção do Estado moderno e na propagação de seus principais elementos – legalidade, separação dos poderes, republicanismo, constitucionalismo – , sobretudo, na lutas travadas entre monarcas e parlamentos e nas revoluções burguesas.
Ainda a respeito do contrato, oportuno salientar que, inversamente, esta contratação não deve se pautar em cláusulas leoninas, mas por salutar modus operandi de uma obrigação na qual haverá
necessariamente a limitação de alguns direitos em favor da conquista de outros. Nesta sociedade pós-medievo, verifica-se um aparato jurídico estatuído e legado através das gerações – como a influência do direito romano e germânico – bem como a tradição da filosofia política grega redescoberta na Idade Média como padrão de um modo distinto de fazer a política. Assim, partindo-se desta premissa elementar de todos os autores analisados, cumpre investigar a forma como cada um estatui as vantagens a serem adquiridas pela celebração do pacto social, quais direitos serão entregues para a sua elaboração, a possibilidade de retroceder ao status quo e outras indagações que possam esta escola de pensamento político.
No epicentro destas novas e distintas teorias, a liberdade surge como um atributo elementar. Ela é, via de regra, um dos principais direitos analisados pelos autores, tanto em sua relação com o homem natural como sendo uma das conquistas do Estado de Direito pós- contratual. Esta discussão é muito importante no bojo da análise que se fará da teoria de Amartya Sen. Sen utiliza os autores do contratualismo clássico como contraponto ao seu ponto de vista focado mais nas realizações do que nos arranjos. Em outras palavras, o economista parte do pressuposto que as liberdades instrumentais são aportes elementares para a concepção de desenvolvimento que, em Amartya Sen, vai além da noção de expansão econômica dos Estados.
Neste sentido, o autor critica a filosofia política do século XX que se pautou quase que unicamente na edificação de sistemas de justiça e liberdade fundados em instituições, mas sem jamais efetivamente buscar soluções para os problemas existentes. Por esta razão o seu ideal de justiça conclama, antes de criar teorias, ―enfrentar as questões sobre a melhoria da justiça e a remoção da injustiça, em vez de oferecer soluções para questões sobre a natureza da justiça perfeita‖ (SEN, 2011, p. 11). Em outras palavras, Sen parte da idéia que sua teoria deve se focar em atacar injustiças crassas, como a fome coletiva, não em