CAPÍTULO 1. TEORIA SOCIOLÓGICA CONTEMPORÂNEA DA AÇÃO
1.3. A perspectiva de Anthony Giddens
1.3.2 Entendendo a proposta de Giddens
A teoria da estruturação pretende ser um conjunto de ferramentas conceituais para analisar a forma como os seres humanos produzem, reproduzem e transformam a sociedade por meio das práticas sociais. É neste sentido que a análise desenvolvida por Giddens não parte da ação, mas da práxis, entendida como conjunto de práticas produzidas e reproduzidas pelos agentes. É nelas onde é possível identificar a capacidade de agência do indivíduo, assim como sua relação com a estrutura.
Definir as práticas sociais ordenadas em um espaço-tempo como foco da análise sociológica responde à tentativa de acabar com a ênfase seja na estrutura, seja na ação, que estabeleceram tanto as perspectivas estruturalistas e funcionalistas quanto as sociologias compreensivas. Porém, implica reconhecer o papel ativo do agente, sem colocar o sujeito como fundamento da história, mas reconhecendo o social como produto dos atores e os atores como produto do social (Ortiz, 1999).
Das práticas sociais regulares, nasce principalmente a estrutura. Este conceito, na teoria da estruturação, não se asemelha ao que tradicionalmente definiu a teoria sociológica. Para Giddens a estrutura é um conjunto de regras e recursos que são usados pelos indivíduos para produzir e reproduzir tanto uma ação social quanto o sistema. Trata-se de um conjunto de regras e recursos que regulam as percepções do mundo e as práticas sociais.
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Trata-se, por sua vez, de algo impessoal. Não está localizada nas ações concretas nem nos agentes. É neste sentido que Giddens assinala que a estrutura não tem sujeito e existe fora do tempo e do espaço.
Assim como ela é o meio de constituição da ação dos indivíduos, a estrutura ao mesmo tempo é constituída pelo agir dos agentes. Ela exerce coerção sobre os agentes, mas também possibilita a ação. Essa última característica é denominada por Giddens como dualidade de estrutura e refere-se ao fato de as estruturas possibilitarem e restringirem ao mesmo tempo a ação, ao fato de serem elas meio e resultado da práxis. O autor tenta com este duplo caráter da estrutura fugir do voluntarismo e do determinismo.
Todo ato, segundo Giddens, contribui para a reprodução de uma estrutura, mas também contribui para a sua produção, ou seja, carrega novidade e é nessa medida que é possível sua transformação.
As regras que compõem a estrutura podem ser entendidas como fórmulas e processos aplicáveis na maioria de contextos ou situações em que acontecem as práticas sociais. E são aquelas que estão na base da reprodução das práticas institucionalizadas e estabelecidas em um espaço-tempo as que resultam interessantes para a análise social.
As regras tornam o ator um especialista, dado o saber que ele possui e aplica na produção e reprodução de práticas sociais. Este é um saber sobre os códigos sociais, sobre si mesmo e sobre outros indivíduos que os atores têm para “ser com” na diversidade de contextos da vida social (Giddens, 1997).
Além do foco nas práticas sociais e da redefinição do conceito de estrutura, encontra-se outro aspecto que é fundamental para entender sua teoria da estruturação. Trata-se da definição do conceito de ação.
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A ação é um fluxo permanente de experiência vivida. Acontece como um fluir, uma continuidade. É um processo permanente e refere-se à conduta humana codificada e repetida (Lutz, 2010).
Ela tem sua origem na capacidade do indivíduo de produzir uma diferença, de fazer uso de algum poder. Embora existam constrições sobre o indivíduo, a ação que ele realiza enquanto intervenção não deixa de existir. Neste sentido, entende-se a ação como poder e poder, por sua vez, como capacidade de transformação.
Esta concepção de ação carrega a definição do indivíduo como agente, como alguém com a capacidade de produzir uma diferença. Neste sentido, como afirma Ortiz Palacios (1999), na teoria da estruturação não se admite uma caracterização do ator que não pressuponha sua agência. O sujeito é caracterizado como um agente com conhecimento que tem a capacidade de usar um conjunto de recursos ou poderes para intervir em um estado de coisas (Giddens, 1997).
Com a definição de ação como poder, Giddens reage diante da tradição sociológica que entende a ação como resultado de intenções individuais. Uma ação não pode ser definida a partir da intencionalidade, na medida em que agir significa “realizar”, capacidade de “fazer coisas”. Quem realiza as coisas é o indivíduo e, portanto, o agir acontece somente pela sua intervenção. Em cada um dos momentos que compõem a cadeia de uma ação, o indivíduo aparece como autor e nessa cadeia ele sempre pode agir de outra maneira.
A ação, enquanto fluxo e processo permanente, implica um “monitoramento reflexivo”. Não se trata de autoconsciência, mas de um controle reflexivo que o agente mantém sobre sus conduta (Ortiz, 1999). É uma capacidade própria dos seres humanos que está presente nas ações cotidianas. Implica uma compreensão tanto da conduta individual, quanto da conduta dos outros e das características dos contextos em que acontece a ação.
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Este monitoramento reflexivo da ação, permite ao agente ter controle sobre seu corpo no dia a dia e é o fundamento da reflexividade. O caráter reflexivo da ação é talvez um dos elementos mais importantes da teoria da estruturação. Para alguns autores, o reconhecimento da reflexividade é de fato o ponto de partida de Giddens.
Ela está relacionada com o conhecimento que os atores têm de sua ação e do contexto em que é realizada e é graças a ela que os seres humanos podem resistir, influir e transformar suas situações sociais (Andrade, 1999) e reservar algum tipo de liberdade.
A definição de reflexividade de Giddens tem as seguintes características: 1) rejeita a concepção de que o comportamento humano é resultado de forças que os atores não controlam nem compreendem. 2) Considera que a renovação das práticas sociais dá-se por força de informação renovada. 3) Reconhece o uso da linguagem na constituição das atividades concretas da vida. 4) Salienta o papel central das capacidades reflexivas do ator. E 5) reconhece o entendimento que os seres humanos têm de sua história (Fridman,1999)
Além de ser o elemento que permite o monitoramento da própria conduta, a reflexividade é a capacidade de registrar o fluxo permanente da vida social e, nesta medida, define-se como elemento fundamental e como condição das práticas sociais. As características de serem as práticas sociais recursivas, passa pela capacidade dos agentes de manter um monitoramento sobre elas.
Uma das características da reflexividade é sua dependência da linguagem. Ela depende fundamentalmente do domínio da linguagem. Entendida como cojunto de signos e como sistema simbólico, mas também como meio que permite a ação social prática, a linguagem é o elemento mediador da capacidade reflexiva dos agentes, da compreensão que têm de si mesmos, dos outros e do contexto (Ortiz, 1999).
A reflexividade entendida como a capacidade que têm os agentes de compreender o que realizam, implica também a capacidade de dar razões de seu fazer no âmbito do discurso.
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Esta capacidade dos agentes de fazer uma narrativa das próprias atividades e das razões de seu agir é denominada por Giddens como consciência discursiva. Trata-se da habilidade dos agentes de colocar coisas em palavras quando alguém lhes pergunta pelas razões de suas condutas.
Tanto o monitoramento reflexivo quanto a consciência discursiva fazem parte do modelo proposto por Giddens para definir os elementos que ele considera ser intrínsecos à ação humana. Além destas duas capacidades, existem três elementos adicionais: a consciência prática, a motivação e a racionalização.
Embora a linha que divide a consciência discursiva da consciência prática não esteja bem definida, existem entre elas algumas diferenças. A consciência prática diz respeito àquilo que aparece na ação de maneira prática e que tem a ver com o conhecimento, as expectativas e o saber que são necessários para agir (García, 2009). Trata-se de tudo aquilo que pertence ao saber tácito dos agentes sobre o mundo e o “ser com” o mundo, ainda sem ter uma expressão direta no discurso dos atores (Giddens, 1997).
O conceito de consciência prática permite a Giddens, por um lado, assinalar a possibilidade que o agente tem de realizar ações intencionais sem gerar necessariamente uma reflexão sobre elas. Por outro, falar do registro reflexivo e da racionalização, conceitos que apresentarei mais adiante, como processos que aparecem “quase automaticamente” sem implicar um “parar para pensar” do sujeito (Giddens, 1997).
Na consciência prática está fundamentada a rotinização das atividades. Ela é o fundamento da segurança e da confiança que os agentes têm no dia a dia. Segundo o autor tudo aquilo que é realizado pelos agentes como algo de rotina é um dos elementos fundamentais da vida cotidiana.
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A vida cotidiana em sua maioria resulta de uma segurança ontológica. A base fundamental da segurança ontológica é a segurança que é adquirida nos primeiros meses de vida do ser humano. A confiança que se cria nesta fase da vida graças aos cuidados que a mãe tem com o bebê e às rotinas geradas nessa relação é o que permite ao bebê adquirir um sentido da realidade e o que permite a criação de um vínculo fundamental a partir do qual aparecerá a orientação em direção aos outros (García, 2009).
As rotinas, segundo Giddens, são fundamentais para o ser humano desde os primeiros meses de vida até o final de sua existência. Diante da ausência de rotinas, o sentimento de confiança some e no seu lugar aparece a angústia. Evitar a angústia é a razão pela qual os seres humanos estão motivados inconscientemente à repetição de padrões de conduta, à reprodução das práticas e, portanto, à reprodução social das rotinas (García, 2009).
É preciso diferenciar a consciência prática tanto da consciência discursiva quanto do inconsciente. A consciência discursiva se relaciona com formas de recordação que o ator coloca em discurso. Por sua vez, a consciencia prática implica uma recordação à qual o agente acessa na continuidade de uma ação sem ter a capacidade de expressá-la. Por sua vez, o inconsciente se relaciona com tipos de recordação que os agentes não podem acessar e não podem pôr em palavras (Giddens, 1997).
O inconsciente para Giddens é um aspecto que tem uma importante participação na ação. Ele está relacionado com as necessidades ou a motivação do agir. A motivação é geralmente inconsciente e está relacionada com as necessidades e interesses que geram a ação, com os desejos que lhe dão força e com os afetos.
Giddens é um sociólogo que, diferentemente de outros, abre um espaço importante em sua teoria aos aspectos inconscientes da ação e à psicologia do eu. Esclarece que estes elementos fazem parte da teoria da estruturação enquanto estão diretamente relacionados com o conceito de rotinização.
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Por fim, como parte dos elementos que participam da ação, temos a racionalização. Definida como uma característica da conduta reflexiva dos agentes humanos, a racionalização é “a expressão causal do fundamento da deliberação do agente no conhecimento de si mesmo e no conhecimento dos mundos sociais e materiais que compõem o contexto do ator” (Giddens, 1997, p.109, Tradução livre).
A racionalização é antes que nada um processo, não um estado. É a capacidade de compreensão teórica e de avaliação que os agentes realizam de sua conduta e da conduta dos outros. Tem a ver com a habilidade que os agentes têm de explicar suas condutas e de dar conta das razões de sua ação.
Além destes vários processos que participam da ação, os agentes ajudam-se com um conjunto de “saberes” que usam para compreender a sua ação e o que dizem dela. Ao contrário do “senso comum”, que responde a mecanismos que operam no pré-consciente e cujo fim é a orientação prática no mundo, este conjunto de saberes consiste em esquemas de interpretação, de um “conhecimento mútuo” através do qual os atores constituem e compreendem a vida social como dotada de sentido (Giddens, 1997).
Os universos de sentido da vida social são uma ideia que o autor ressalta para manter a análise da ação junto com o pressuposto da relatividade de sentido e de experiência, mas sem cair em um relativismo, isto é, sem considerá-los autossuficientes ou imediatos. Para Giddens, não é possível analisar a ação humana com leis universais ou generalizações na medida em que a teoria social não pode se manter completamente afastada do sentido da ação, do saber que os próprios agentes têm de sua ação e de suas ideias sobre a ação (Giddens, 1997).
O caráter significativo do mundo social é o que impõe aos esquemas de interpretação das ciências sociais a tarefa de compreender os esquemas de significação que estão presentes na vida social (Ortiz, 1999). Esta imposição é o aspecto que diferencia às ciências sociais das ciências naturais. Enquanto a análise do mundo natural implica uma hermenêutica, a análise do mundo social carrega a descrição da conduta de outros que sabem sobre seu próprio agir. Neste sentido, para Giddens todo teórico social deve ter a capacidade de “ser com”, de
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elaborar um saber compartilhado com os atores e de elaborar conceitos que não estejam afastados dos conceitos que os atores incorporam em suas ações (Giddens, 1997).
Deste pressuposto emerge a característica das ciências sociais, a de dupla hermenêutica.
É possível falar de dupla hermenêutica nas ciências sociais na medida em que a análise social espera atingir o sentido que faz parte da produção da vida social e reconstruí-lo em novos marcos de sentido que intervêm, por sua vez, no contexto em que é aplicado. Cria-se, desta forma, uma reciprocidade entre o conhecimento sociológico e o conhecimento leigo além de um intercâmbio entre o observador e o observado (Giddens, 1997). A dupla hermenéutica é a proposta metodológica da análise social de Giddens.