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Entendimento da Lei 13.429/17 e seus reflexos na Lei 6.019/74

No documento Terceirização: trabalho precarizado (páginas 32-38)

2.1 O trabalho precarizado no Brasil, da Lei 6.019/74 à Lei 13.429/17

2.1.1 Entendimento da Lei 13.429/17 e seus reflexos na Lei 6.019/74

Esta lei foi cercada de grande debate e repercussão. O Projeto original é de 1998 de autoria do Poder Executivo, que em 2002 já tinha sido votado e aprovado pelo Senado Federal, faltando apenas a votação na Câmera dos Deputados. Como era um assunto muito polêmico demorou anos para ser analisado, sendo que apenas em 22/03/2017, foi votada e aprovada pela Câmara de Deputados, tendo sua promulgação como a Lei nº 13.429/2017 em 31/03/2017, restando com restrições especialmente pelos trabalhadores, juízes e doutrinadores.

A nova Lei estabelece novos paradigmas ao trabalho terceirizado que podem levar a uma releitura do contido na Súmula 331 do TST, ou inclusive o cancelamento

da referida súmula. A Lei 13.429/17 também trouxe mudanças para a Lei 6.019/74 que dispõe sobre o trabalho temporário.

Esta Lei adotou terminologias que distinguem o trabalho temporário do terceirizado. Quando ela se refere à tomadora dos serviços, significa que está discorrendo sobre trabalho temporário. Quando trata de empresa contratante, significa que está se referindo ao trabalho terceirizado.

Acerca do tema observe-se a manifestação de Correia (2017, s.p.):

Diferenças entre a simples intermediação de mão de obra e a terceirização: A intermediação de mão de obra está presente no trabalho temporário. Nela, a empresa prestadora de serviços possibilita que um trabalhador temporário preste serviços em outra empresa, denominada tomadora. Por outro lado, a terceirização compreende a transferência de um serviço ou atividade específico de uma empresa a outra, ou seja, não se busca apenas um trabalhador para substituir outro que entrou em férias, por exemplo, mas, na terceirização, há verdadeira delegação de um setor da empresa para que outra possa atuar com seus próprios empregados terceirizados. Nesse sentido, surge a obrigação de que a empresa de prestação de serviços a terceiros preste serviços determinados e específicos.

É importante ressaltar que a terceirização é uma forma de descentralização produtiva na empresa. O que não pode ser confundido com intermediação de mão de obra. A intermediação é proibida pois, em regra, precariza muito a mão de obra. A diferença entre terceirização e intermediação é que naquela ocorre uma atividade da empresa que é delegada, como por exemplo, a porta de seguranças de um banco, já a intermediação é quando um terceiro intermedeia a mão de obra de um trabalhador, ganhando por isso.

A Lei 6.019/74 alterou o conceito do que é trabalho temporário. Antes da aprovação da Lei 13.429/17, o Art 2º da Lei 6.019/74 definia o trabalho temporário como aquele prestado por pessoa física a uma empresa, para atender à necessidade transitória de substituição de seu pessoal regular e permanente ou a acréscimo extraordinário de serviços.

A nova redação dispõe:

Art. 2o Trabalho temporário é aquele prestado por pessoa física contratada por uma empresa de trabalho temporário que a coloca à disposição de uma empresa tomadora de serviços, para atender à necessidade de substituição transitória de pessoal permanente ou à demanda complementar de serviços.

No art. 2º, § 1º de ambas as Leis, o legislador vedou a contratação de trabalho temporário e terceirizado para substituir os trabalhadores fixos que estão em greve, salvo nos casos previstos em lei.

O art. 4º da Lei, dispõe que a empresa de trabalho temporário deve estar devidamente registrada no Ministério do Trabalho, ser pessoa jurídica e ficar responsável pela colocação de trabalhadores à disposição de outras empresas, temporariamente. Ficando a cargo dessa empresa, remunerar e ordenar seus trabalhadores.

Também estabelece a norma que a empresa tomadora de serviços (temporários) é pessoa jurídica ou entidade a ela equiparada que celebra contrato de prestação de trabalho temporário com a empresa, conforme o art. 5º da Lei 6.019.

Já para a empresa prestadora (terceirização), a Lei 13.429/17 delimita que deve ser pessoa jurídica de direito privado destinada a prestar à contratante, serviços determinados e específicos. Fica a cargo da empresa prestadora remunerar, contratar e dirigir o trabalho realizado por seus empregados, ou seja, neste ponto a nova Lei conserva o entendimento da Súmula 331 do TST, de que a prestação de serviços terceirizados deve ocorrer sem pessoalidade e sem subordinação, portanto, configurando ilícita a terceirização que não obedecer esses requisitos e por ora configurando vínculo de emprego entre a empresa tomadora de serviços e o empregado terceirizado.

A contratante dos serviços terceirizados pode ser pessoa física ou jurídica que celebra contrato com a empresa de prestação de serviços determinados e específicos e veda que os trabalhadores terceirizados realizem atividade diversa

para aquelas que foram objeto do contrato com a empresa prestadora de serviços. Dispondo ainda que é a contratante responsável pelas condições de segurança e higiene dos trabalhadores.

A Lei deixou à mercê da contratante, disponibilizar ao empregado terceirizado os serviços de atendimento médico e refeição destinados aos empregados fixos da contratante. Conforme dispõe o art. 5º- A, § 4º da Lei 6.019/74:

§ 4o A contratante poderá estender ao trabalhador da empresa de prestação de serviços o mesmo atendimento médico, ambulatorial e de refeição destinado aos seus empregados, existente nas dependências da contratante, ou local por ela designado.

Enquanto que aos trabalhadores temporários é um dever, para o tomador estender esses serviços aos temporários. Conforme dispõe o art 9º, § 2º da Lei 6.019/74:

Art. 9º. O contrato celebrado pela empresa de trabalho temporário e a tomadora de serviços será por escrito, ficará à disposição da autoridade fiscalizadora no estabelecimento da tomadora de serviços e conterá: 2o . A contratante estenderá ao trabalhador da empresa de trabalho temporário o mesmo atendimento médico, ambulatorial e de refeição destinado aos seus empregados, existente nas dependências da contratante, ou local por ela designado.

No entanto, a reforma trabalhista, Lei 13.429/2017, que entrará em vigor em novembro de 2017, termina com essa faculdade da empresa contratante, tornando-o um dever. Portanto, com a reforma trabalhista as condições de trabalho devem ser as mesmas para todos os empregados da empresa, sendo terceirizados ou não.

É importante ressaltar que a terceirização deve ser vista sob três momentos, o primeiro a Súmula 331 do TST, num segundo momento a Lei 13.429/17 e por último a reforma trabalhista. A Súmula vedava a terceirização na atividade-fim.

No art. 9º da Lei do Trabalho Temporário, em seu § 3º com a redação incluída pela Lei nº 13.429/17, passa a ser possível que no contrato de trabalho entre a empresa prestadora e a tomadora seja permitida contratação de serviço do trabalhador temporário tanto, na atividade-meio da empresa, como na atividade-fim. Quanto ao trabalho terceirizado a Lei foi omissa.

No terceiro momento, a Lei 13.429/2017, Lei da reforma trabalhista, alterou a Lei 6.019/74 em seu art. 4º-A, findando essa omissão, permitindo a terceirização na atividade principal da empresa.

O prazo que a empresa tomadora tem para usufruir dos serviços do trabalhador temporário é de até 180 dias, consecutivos ou não, com o mesmo trabalhador. Caso chegue aos 180 dias, poderá ser prorrogado por mais 90 dias, conforme o art. 10 da Lei 13.429/2017.

Caso a empresa tomadora, depois de esgotados esses 270 dias, desejar contratar com a tomadora o serviço desse mesmo empregado, terá de esperar 90 dias para contratar seus serviços novamente. Quanto ao trabalho terceirizado não resta previsão acerca de prazos.

Ao trabalhador temporário é assegurado salário equitativo, ou seja, remuneração equivalente à percebida pelos empregados fixos da empresa tomadora, que ocuparem o mesmo cargo. Já quanto ao trabalho terceirizado, a Lei é omissa. O doutrinador Henrique Correia, em um vídeo do aplicativo “periscope”, no dia 05 de agosto de 2017, dispôs-se a falar sobre a terceirização frente às mudanças da reforma trabalhista, segundo ele, o empregado terceirizado não possui direito a salário equitativo pelo fato de serem empregadores diferentes.

Nesse vídeo, Correia também afirma que os requisitos clássicos da terceirização ainda existem, sendo a terceirização uma delegação de serviços. Conforme explica, não pode haver subordinação e pessoalidade da empresa tomadora com os terceirizados, caso contrário, haverá reconhecimento de vinculo de emprego.

Observe-se que a nova redação da Lei permite o trabalho terceirizado e temporário no âmbito rural, o que antes não era permitido.

No art. 5º-A da Lei 13.429/17, em seu § 1º autoriza que o trabalhador terceirizado preste seus serviços nas instalações da empresa contratante ou em

outro local, desde que aja comum acordo entre as partes. Sendo de responsabilidade da empresa contratante garantir as condições de segurança, higiene e salubridades dos trabalhadores.

A Lei 6.019/74 em seu art. 12 apresenta um rol de direitos trabalhistas do trabalhador temporário. Segundo ela:

12 - Ficam assegurados ao trabalhador temporário os seguintes direitos: a) remuneração equivalente à percebida pelos empregados de mesma categoria da empresa tomadora ou cliente calculados à base horária, garantida, em qualquer hipótese, a percepção do salário mínimo regional; b) jornada de oito horas, remuneradas as horas extraordinárias não excedentes de duas, com acréscimo de 20% (vinte por cento);

c) férias proporcionais, nos termos do artigo 25 da Lei nº 5.107, de 13 de setembro de 1966;

d) repouso semanal remunerado; e) adicional por trabalho noturno;

f) indenização por dispensa sem justa causa ou término normal do contrato, correspondente a 1/12 (um doze avos) do pagamento recebido;

g) seguro contra acidente do trabalho;

h) proteção previdenciária nos termos do disposto na Lei Orgânica da Previdência Social, com as alterações introduzidas pela Lei nº 5.890, de 8 de junho de 1973 (art. 5º, item III, letra "c" do Decreto nº 72.771, de 6 de setembro de 1973).

§ 1º - Registrar-se-á na Carteira de Trabalho e Previdência Social do trabalhador sua condição de temporário.

§ 2º - A empresa tomadora ou cliente é obrigada a comunicar à empresa de trabalho temporário a ocorrência de todo acidente cuja vítima seja um assalariado posto à sua disposição, considerando-se local de trabalho, para efeito da legislação específica, tanto aquele onde se efetua a prestação do trabalho, quanto a sede da empresa de trabalho temporário.

Quanto aos direitos dos trabalhadores terceirizados, a nova legislação não trouxe ao debate um rol de direitos mínimos a estes trabalhadores, que ficam vinculados a uma relação de emprego com regras gerais ou através de cooperativa de trabalhadores, quando inexistem os direitos mínimos trabalhistas, tornando a relação ainda mais frágil ao trabalhador.

O item seguinte aborda a distinção entre as responsabilidades nas relações de trabalho e sua aplicação.

No documento Terceirização: trabalho precarizado (páginas 32-38)

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