2 A FACTICIDADE SOBRE O ENVELHECIMENTO E RELIGIOSIDADE E
5.1 ENTENDIMENTO DA PESSOA IDOSA LONGEVA SOBRE RELIGIOSIDADE
Essa unidade apresenta o entendimento da pessoa idosa sobre religiosidade e espiritualidade e, para facilitar a compreensão vaga e mediana, a Figura 05 ilustra esse entendimento, através da frequência das palavras presentes nos relatos. É possível perceber que há um agrupamento das palavras que se apresentaram em maior frequência, evidenciando a associação da religiosidade e espiritualidade, com maior destaque para “Deus”.
Figura 05 – Nuvem de palavras por frequência das palavras na codificação do nó “entendimento da pessoa idosa longeva sobre religiosidade e espiritualidade”. Via QSR NVivo®.
A religiosidade e a espiritualidade da pessoa idosa aumentam com o passar dos anos, por servir de explicação para os questionamentos relacionados ao sentido da vida (FARINASSO; LABATE, 2012). Ao solicitarmos que o participante falasse sobre o que
entendia sobre a religiosidade, apreendemos o não entendimento e/ou a não compreensão para formulação de uma definição a respeito, que se destaca nas falas abaixo por respostas curtas.
Sei lá (risos) (E1) Eu não sei o que é. (E4) Eu sei lá, minha senhora! (E7)
Embora a religiosidade seja um quadro de referência pessoal importante para a maioria das pessoas idosas, considerando que os comportamentos religiosos são bastante frequentes na idade avançada (TEIXEIRA; LEFÈVRE, 2008), a maioria dos participantes deste estudo apresentou dificuldade para elaboração de uma definição sobre a religiosidade, tendo em vista a complexidade do termo e a pluralidade teórica que emana da sua múltipla dimensionalidade.
Apenas uma participante concebeu uma definição do que é religiosidade, a partir da sua concepção e vivencia religiosa, conforme segue:
Religiosidade, eu acho que seja uma pessoa que teme a Deus, que tem Deus dentro de si, e que tudo que faz acha que, se Deus permitir, tudo vai dar certo, entendeu? Tem assim aquela maneira de se comunicar com Deus, sempre através de orações, com fé. [...] eu pratico em casa a minha religiosidade. (E12)
Ressalta-se que a E12 foi a única participante que possuía o ensino médio completo e exerceu durante sua vida a profissão de professora de Ensino Fundamental. Trata-se de uma idosa mais esclarecida pelo grau de instrução, bem como pelo nível socioeconômico diferenciado dos demais participantes do estudo. A escolaridade e profissão podem ter contribuído para o entendimento da religiosidade pela idosa.
No entanto, a dificuldade para elaboração da definição de religiosidade não significa que os participantes deste estudo não a possuam. Tal fato pode significar a escassez da discussão sobre o assunto no percurso de suas vidas, bem como a pouca visibilidade, muito embora tenha sido observada a presença de símbolos religiosos em seus lares.
Estudos apontam uma correlação positiva entre a inteligência emocional e orientação religiosa intrínseca, e uma correlação negativa com a orientação religiosa extrínseca. Outros sugerem que, quanto mais anos de escolaridade, maior o desenvolvimento da inteligência emocional. Se a inteligência emocional for um aspecto importante para o desenvolvimento da
religiosidade intrínseca, e se mais anos de escolaridade favorecem o desenvolvimento da inteligência emocional, então, pode supor-se também que, através deste processo, maior número de anos de escolaridade aumenta a probabilidade de desenvolvimento de uma orientação religiosa intrínseca (LOBO, 2012).
Ainda Lobo (2012) refere que autores consideram o desenvolvimento da fé como algo menos dependente das características pessoais do indivíduo (ex. inteligência emocional e capacidade de desenvolver um pensamento complexo sobre conceitos abstratos), mas, dependente, sobretudo, do contexto sociocultural que o rodeia.
Apesar do construto diferenciado de religiosidade e religião, alguns relatos revelaram o entendimento da religiosidade como sendo sinônimo de religião, conforme recortes abaixo:
Bom, eu sou católica. (E2)
Religiosidade, eu não sei. Religião assim, eu acho. (E9) Menina eu sou muito fiel, sabe? Eu nasci católica. (E10)
Eu já fui católica, participava das coisas católicas, não é? E hoje eu sou evangélica. (E11)
Ah! Eu já vou lhe responder agora mesmo. Eu sou evangélica. (E14)
Os relatos reforçam a dificuldade apresentada pela pessoa idosa longeva em, a partir do seu entendimento, elaborar um conceito para tais termos e diferenciá-los em seu discurso. Logo, o entendimento e definição da religiosidade e religião pelos participantes apresentam-se como sendo sinônimos.
Corroborando com tais achados, Camboim e Rique (2010) salientam que, embora o conceito de religião seja diferente de religiosidade e de espiritualidade, por tratar-se de três conceitos distintos, muitas vezes são usados como sinônimos.
Considerando a adoção de práticas rituais como expressão da religiosidade, a E5 demonstra que o vivido da religiosidade é fundamental em suas ações, ao descrevê-la como a realização de orações para Deus e os Santos.
Eu só entendo é fazer minhas orações para Deus e meus Santos: Cosme e Damião, Santa Barbara, Nossa Senhora de Fátima. Eu rezo para eles [...] Tudo meu é com meus Santos, é com Deus na frente. (E5)
Koenig (2012) refere que a atividade religiosa que é realizada a sós e em particular, como orar ou se comunicar com Deus em casa é um tipo de religiosidade não organizacional, conforme evidenciado no discurso de E5, que relata a sua vivência religiosa através da oração, manifestando, assim, a sua confiança no divino e sobrenatural.
Quando instigados a falar sobre o que entendem acerca da espiritualidade, evidenciamos o não entendimento, a associação com o espiritismo e macumbaria. Apenas duas participantes conseguiram expressar a formulação de uma definição da espiritualidade.
Falar sobre espiritualidade envolve e articula diversas conceitualizações, tais como a busca pessoal da compreensão de questões fundamentais da vida, referindo que esta relação com o sagrado ou transcendente pode ou não levar à prática de rituais religiosos (CROWTHER et al., 2002; PINTO; RIBEIRO, 2007). Compreender a espiritualidade ultrapassa ideologias ou instituições religiosas, pois é um recurso interno do indivíduo, que pode ser acionado pelo contato com a natureza, artes ou experiência pessoal (SANTOS; SOUSA, 2012).
Frente aos diversos conceitos existentes na literatura sobre o tema, conceber uma definição para espiritualidade foi difícil para alguns participantes, que prontamente relataram não saber do que se tratava e não tentaram fazer associações para criação de uma definição.
Eu não compreendo esse negócio não. (E7) Não sei dizer. (E8)
Eu não sei. (E10)
Dezorzi e Crossetti (2008) referem que é desafiador encontrar uma definição para espiritualidade, conforme apresentado pelos depoentes E7, E8 e E10, pois, nenhuma das existentes consegue abranger todo o seu significado. Entretanto, pode-se dizer que ela é formada por diferentes conceitos interligados.
Para alguns participantes deste estudo, a definição de espiritualidade foi relacionada ao espiritismo e macumbaria.
É a pessoa ser de labuta com essas coisas de curador, não é não? Macumbaria. É isso que eu sei. (E4)
Eu não sou por dentro de espiritismo não. (E5)
Relacionar espiritualidade com espiritismo e macumbaria reforça a dificuldade que a pessoa idosa longeva tem para elaboração de uma definição sobre espiritualidade, ao mesmo tempo em que tenta relacionar com outros tipos de crenças existente, conforme evidenciado no relato da E4.
A espiritualidade é definida como a relação com o sagrado ou o transcendente (Deus, poder superior, realidade última), bem como uma busca de respostas sobre o significado da vida (KOENIG, 2012). Está relacionada com a essência da vida e associa-se com questões espirituais, distintas de qualquer meio material; produz comportamentos e sentimentos de esperança, amor e fé, fornecendo um significado para a vida (ROSS, 2006).
O espiritismo é descrito como doutrina baseada na crença da sobrevivência da alma e da existência de comunicação por meio da mediunidade entre vivos e mortos (FERREIRA, 1975). Já a macumba, sabe-se que a origem da palavra é controversa. Contudo, é possível verificar que algumas definições para esta palavra ficaram restritas ao dicionário, isto é, não representaram um uso corrente desta palavra, em especial, nos espaços de construção e legitimação das formas de conhecimento como jornais e textos acadêmicos (AMORIM, 2013).
Em Bastide (2005), por exemplo, a palavra macumba aparece como sinônimo de agrupamento de pessoas num ritual de origem africana; uma transformação do candomblé, ou mesmo, uma perda dos valores tradicionais ao culto dos orixás.
O conjunto de saberes e práticas que compõe este ritual foram identificados pelo antropólogo, de modo diferente do termo dicionarizado. Isto não necessariamente reduz o símbolo a qual a palavra está atrelada, mas objetiva, ao mesmo tempo em que omite algo. O verbete permite-nos observar que a luta para uma negação de “macumba” enquanto sinônimo de “religiões afro-brasileiras” ou “Umbanda” resvala em um discurso completamente diferente presente no dicionário, reforçando e legitimando uma designação muitas vezes vista como pejorativa e excludente (AMORIM, 2013).
Muito embora a maioria dos participantes tenha apresentado dificuldade para expressar seu entendimento sobre a espiritualidade, dentre as definições apresentadas, observamos nos discursos de alguns participantes uma aproximação conceitual com a literatura (REIMER-KIRKHAM, 2009), na qual a espiritualidade apresenta-se como algo subjetivo, mas, não deixa de ser intrínseca ao ser humano (NASCIMENTO et al., 2013):
Espiritualidade é uma coisa que está sempre em comunicação com a religiosidade. Eles estão assim integrados com a fé em Deus, entendeu? Espiritualidade também é aquela fé que a pessoa tem. (E12)
Espiritualidade, assim... É crer em Deus, não é? É crer em Deus, que Deus é o todo poderoso, é quem está conosco, quem nos ajuda. Ai de nós se não for Deus. Eu creio que seja assim, é ter muita fé em Deus, é a parte espiritual mesmo. Servir a Deus em verdade e em espírito. (E14)
Os relatos acima desvelam a definição da espiritualidade relacionada à existência de um tipo de força ou energia que transcende o biológico, um ser superior, corroborando com a literatura (DEZORZI; CROSSETTI, 2008; SALMON et al., 2010).
Pesquisa realizada com 30 idosos pareados por sexo (idade entre 80 e 102 anos), residentes na região da Grande Florianópolis, SC, com o objetivo de estudar as representações sociais de idosos com 80 anos de idade ou mais sobre espiritualidade, apontou para duas representações sociais da espiritualidade. Uma masculina, ancorada na ideia de conexão com uma força superior, poder divino ou Deus, desvinculado da religião; e outra feminina, ancorada na ideia de transcendência da matéria, parte integrante da vida e religiosidade (GUTZ; CAMARGO, 2013).
Hill e Pargament (2003) argumentam que, nos Estados Unidos e em qualquer outro lugar, existe uma polarização de religiosidade e espiritualidade, sendo que a primeira representa uma expressão institucional, formal, externa, doutrinal, autoritária e inibidora, e a segunda, uma expressão individual, subjetiva, emocional, interna, não sistemática e libertadora.
Esta diferenciação entre espiritualidade e religiosidade, aparentemente sutil tem importante significado, uma vez que pessoas que não seguem uma religião podem ter na espiritualidade uma fonte importante de apoio, que fortalece seus enfrentamentos e, em sentido oposto, pessoas que seguem religiões nem sempre encontram o fortalecimento em suas doutrinas (NASCIMENTO et al., 2013).
Apesar de alguns participantes não conseguirem definir religiosidade/espiritualidade, o vivido da religiosidade/espiritualidade está expresso nos relatos, conforme as falas abaixo:
De manhã cedo eu levanto, eu leio a Bíblia, eu oro para meus filhos, para todos que estão merecendo de uma oração, de uma saúde, de ficar sã porque está doente [...]. E4
Eu leio a Bíblia todos os dias de manhã, marco, e a noite a mesma coisa. Eu entendo que a gente deve servir a Deus, servir com fé, perseverar e ser fiel a
Deus, fazer aquilo que Deus manda, fazer bem ao próximo, ajudar a quem precisa, não é? E11
O vivido da religiosidade/espiritualidade expresso pelos depoentes está relacionado à busca pelo sagrado, por meio de práticas religiosas, como uma forma de alcançar a proteção divina para a família e para aqueles que necessitam de amparo no âmbito biológico, através da manutenção/recuperação da saúde e em outros setores da vida.
A vivência religiosa e espiritual é algo que pode proporcionar um maior contato com a realidade subjetiva interna e favorecer possíveis mudanças de atitudes e ideias frente às experiências atuais da realidade de cada indivíduo (ALVES; ASSIS, 2015).
O encantamento do mundo vivido, manifesto na expressão da religiosidade humana, é possível através da busca pelo sagrado. A religiosidade nutre-se de uma força sobrenatural que habita o ser, organizando-se como uma experiência simbólica da diferença entre os seres. A sacralidade introduz uma ruptura entre o natural e o sobrenatural, entendido como aquilo que os homens julgam impossível efetuar, contando apenas com as forças e capacidades humanas (CHAUI, 1996).
O entendimento da pessoa idosa longeva sobre religiosidade e espiritualidade, embora tenha desvelado a dificuldade para elaboração da definição dos termos, evidenciou as práticas religiosas como possibilidade de aproximação com Deus e alcance de vitórias, viver mais e com tranquilidade, conforme discutido no tópico abaixo.
5.2 A RELIGIÃO E A FÉ EM DEUS DÃO FORÇA, PROTEÇÃO, POSSIBILITA