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4.2 OS DIREITOS SUCESS‘RIOS NA UNI•O EST“VEL HOMOAFETIVA

4.2.2 Entendimento dos tribunais sobre o assunto

As decis…es que dizem respeito aos direitos sucess‡rios decorrentes da uniƒo homoafetiva nƒo caminham sempre no mesmo sentido, existindo muitos posicionamentos desencontrados. Percebe-se que, diante da tend„ncia, cada vez mais acentuada, de se reconhecer a uniƒo est†vel entre homossexuais, uma das conseqŒ„ncias •, tamb•m, o deferimento do direito sucess‡rio que agora vem regulado pelo artigo 1.790 do C‡digo Civil.

Contudo, h† ainda ‡rgƒos julgadores que recalcitram em nƒo reconhecer efeitos sucess‡rios para o companheiro homossexual, como por exemplo, tem-se a decisƒo do Tribunal de Justi‚a do Estado do Rio de Janeiro:

REQUERIMENTO DE INVENT‰RIO E PARTILHA SOB ALEGA˜ˆO DE CONDI˜ˆO DE COMPANHEIRO E TITULAR DE 50% DE IM›VEL E ŸNICO HERDEIRO. RELA˜ˆO HOMOAFETIVA. SENTEN˜A QUE EXTINGUE O FEITO, COM BASE NO ART. 267, VI DO CPC, EM RAZˆO DA ILEGITIMIDADE DO REQUERENTE PARA FIGURAR NO P›LO ATIVO DA A˜ˆO. APELA˜ˆO - SENTEN˜A QUE SE ANULA - DA AN‰LISE DO PROCESSADO, VERIFICA-SE QUE O AUTOR, ORA APELANTE, ENCONTRA-SE NA POSSE E ADMINISTRA˜ˆO DOS BENS DO ESP›LIO, UMA VEZ QUE O FALECIDO, CONFORME O DECLARADO FLS. 24/25 DEIXOU 50% DE UM BEM IM›VEL, SENDO O APELANTE PROPRIET‰RIO DOS OUTROS 50%, DE ACORDO COM A ESCRITURA DE COMPRA E VENDA CONSTANTE FLS. 27/28. ASSIM, TEM-SE QUE O APELANTE FIGURA COMO ADMINISTRADOR PROVIS›RIO, ART.987 DO CPC. TAL

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RIO GRANDE DO SUL. Tribunal de Justi‚a do Rio Grande do Sul. Agravo de Instrumento n.

70009524612. Agravantes: Therezinha Monteiro Maliska e outros. Agravado: Cezario Moacyr Moreira.

Relator: Rui Portanova. Rio Grande do Sul, 18 de novembro de 2004. Dispon€vel em: <http://www.tj.rs.gov.br/site_php/jprud2/ementa.php>. Acesso em: 03 jun. 2008.

CONDI˜ˆO, LH— CONFERE A PRERROGATIVA DE REQUERER O INVENT‰RIO E A PARTILHA. ASSIM, AO CONTR‰RIO DO DECIDIDO NA D. SENTEN˜A, TEM-SE QUE O AUTOR TEM LEGITIMIDADE PARA

REQUERER A ABERTURA DO INVENT•RIO. CONTUDO, TAL N€O LHE CONFERE A QUALIDADE DE HERDEIRO, EIS QUE TAL CONDIƒ€O N€O PODE SER ALCANƒADA DIANTE DOS TERMOS DO •3Œ DO ART.226 DA CRFB. [...].65(grifo nosso).

No sentido de incluir o parceiro homossexual sup•rstite na sucessƒo heredit†ria, o m•rito • da Justi‚a Estadual do Rio Grande do Sul, a qual proferiu as primeiras decis…es favor†veis Š inclusƒo do companheiro sobrevivente como herdeiro. A primeira a ser destacada trata-se pedido de reconhecimento sucess‡rio do parceiro sobrevivente da uniƒo homoafetiva, em que o de cujos nƒo havia deixado herdeiros leg€timos. A decisƒo foi tomada por maioria, julgando a proced„ncia do pedido, reconhecendo o direito sucess‡rio do requerente, destinando-lhe a totalidade do acervo heredit†rio para afastar a declara‚ƒo de vac‹ncia da heran‚a. Importante a transcri‚ƒo da ementa do referido ac‡rdƒo:

UNIAO ESTAVEL HOMOAFETIVA. DIREITO SUCESSORIO. ANALOGIA. INCONTROVERTIDA A CONVIVENCIA DURADOURA, PUBLICA E CONTINUA ENTRE PARCEIROS DO MESMO SEXO, IMPOSITIVO QUE SEJA RECONHECIDA A EXISTENCIA DE UMA UNIAO ESTAVEL,

ASSEGURANDO AO COMPANHEIRO SOBREVIVENTE A TOTALIDADE DO ACERVO HEREDITARIO, AFASTADA A DECLARACAO DE VACANCIA DA HERANCA. A OMISSAO DO CONSTITUINTE E DO

LEGISLADOR EM RECONHECER EFEITOS JURIDICOS AS UNIOES HOMOAFETIVAS IMPOE QUE A JUSTICA COLMATE A LACUNA LEGAL FAZENDO USO DA ANALOGIA. O ELO AFETIVO QUE IDENTIFICA AS ENTIDADES FAMILIARES IMPOE SEJA FEITA ANALOGIA COM A UNIAO ESTAVEL, QUE SE ENCONTRA DEVIDAMENTE REGULAMENTADA. EMBARGOS INFRINGENTES ACOLHIDOS, POR MAIORIA.66(grifo nosso).

O Tribunal de Justi‚a do Paran† tamb•m vem admitindo a inclusƒo do parceiro sobrevivente da rela‚ƒo homoafetiva como herdeiro do falecido. Julgando o recurso de agravo de instrumento n. 404.392-7, sobre um pedido de antecipa‚ƒo da tutela para determinar o bloqueio de bens em uma a‚ƒo declarat‡ria e constitutiva incidental em autos de invent†rio, reconheceu a uniƒo est†vel existente entre a autora da a‚ƒo e a de cujos, e conseqŒentemente o direito sucess‡rio daquela em rela‚ƒo a esta.

Colhe-se do corpo da referida decisƒo: “ainda que nƒo haja amparo legal no que concerne ao reconhecimento de uniƒo est†vel na hip‡tese, os fatos sociais reclamam a tutela

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RIO DE JANEIRO. Tribunal de Justi‚a do Estado do Rio de Janeiro. Apela…„o C‹vel n. 9399/2006. Apelante: Sebastiƒo das Gra‚as Amorim. Interessado: Esp‡lio de Vicente Bezerra da Silva. Relator: Des. Ronaldo Rocha Passos. Rio de Janeiro, 11 de mar‚o de 2008. Dispon€vel em:

<http://srv85.tj.rj.gov.br/inteiroTeor/abrePDF.do?nomeDir=2006001&nomeArq=09399.0001.01.20080311.33 1&nomeSubDir=09001.09500&path=webacord2>. Acesso em: 03 jun. 2008.

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RIO GRANDE DO SUL. Tribunal de Justi‚a do Rio Grande do Sul. Embargos Infringentes n.

70003967676. Relator: Des. S•rgio Fernando Vasconcellos Chaves. Rio Grande do Sul, 09 de maio de 2003.

Estatal, no caso, pela via jurisdicional. [...] h† que se emprestar Š uniƒo efeitos jur€dicos, aplicando-se analogicamente a legisla‚ƒo infraconstitucional referente Šs uni…es est†veis”.67

Sobre os efeitos sucess‡rios da rela‚ƒo homoafetiva, o STJ e o STF ainda nƒo se pronunciaram sobre o assunto, consoante pesquisa de jurisprud„ncia contendo as palavras “homossexual” e “homoafetiva”, em 04 de junho de 2008.

Dessa forma, embora ainda haja decis…es que neguem a exist„ncia de direitos sucess‡rios na rela‚ƒo homoafetiva, existem ‡rgƒos julgadores que integram o Direito Š realidade social, nƒo deixando na marginalidade o parceiro sobrevivente da uniƒo afetiva homossexual. Espera-se sempre, pois, dos julgadores, uma solu‚ƒo sistem†tica, progressiva, humana e democr†tica.

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PARAN‰. Tribunal de Justi‚a do Paran†. Agravo de Instrumento n. 404.392-7. Agravante: Gisele Maria Silva. Agravado: Esp‡lio de Ana Z•lia Paulino da Silva. Relator: Des. M†rio Rau. Curitiba, 1• de agosto de 2007. Dispon€vel em:

<http://www.tj.pr.gov.br/consultas/jurisprudencia/JurisprudenciaDetalhes.asp?Sequencial=3&TotalAcordaos= 4&Historico=1>. Acesso em 03 jun. 2008.

5 CONCLUSÄO

O presente trabalho iniciou narrando as transformaÄÅes ocorridas na estrutura familiar com o decorrer dos tempos, verificando que a principal caracterÇstica determinante da famÇlia moderna É a afetividade. Os membros integrantes da instituiÄÑo familiar nÑo buscam mais apenas mostrar Ö sociedade que estÑo seguindo as normas por ela ditadas, mas procuram a sua realizaÄÑo pessoal, o alcance da chamada felicidade. E buscando por esta realizaÄÑo, da mesma forma que as pessoas heterossexuais, os homossexuais constroem parcerias em torno do amor, do respeito, do afeto, da confianÄa e intencionam, desta forma, constituir famÇlia.

O estudo cientÇfico da homossexualidade nos fez compreender um pouco sobre o indivÇduo homossexual e perceber que a relaÄÑo amorosa entre duas pessoas do mesmo sexo nÑo se trata de uma opÄÑo, de depravaÄÑo, tampouco de alguÉm querendo chocar a sociedade, mas sim de uma diferenÄa que nÑo deve ser discriminada.

Embora homossexualidade exista desde as antigas civilizaÄÅes, hoje ela É vista com muito preconceito pela sociedade, que a trata como um comportamento fora do normal. No Brasil, alÉm de enfrentar muita discriminaÄÑo, as pessoas com esta orientaÄÑo sexual possuem ainda outro problema, consistente na ausÜncia de legislaÄÑo expressa que lhes assegurem o direito de constituir famÇlia e, em conseqáÜncia, todas as garantias a ela inerentes.

Como soluÄÑo para o problema apresentado, o presente trabalho demonstrou a possibilidade jurÇdica de se reconhecer a uniÑo afetiva entre estas pessoas como famÇlia, assinalando os preceitos da ConstituiÄÑo Federal que permitem este reconhecimento e indicando a analogia como recurso cabÇvel para integrar a lacuna da lei, aplicando-se ao relacionamento homoafetivo as regras referentes Ö uniÑo estàvel, dispostas no art. 1.723 do Câdigo Civil.

Como relevante efeito jurÇdico da uniÑo estàvel homoafetiva està o direito sucessârio do parceiro sobrevivente. Sobre este assunto, foi demonstrada a importäncia de se incluir o companheiro homossexual na sucessÑo dos bens do de cujos, bem como foram identificadas as normas de Direito Sucessârio aplicàveis ao relacionamento homoafetivo.

O que se pãde perceber, É que a legislaÄÑo nem sempre acompanha a realidade social existente. No entanto, o Judiciàrio, ao se deparar com uma situaÄÑo nova, nÑo pode negar sua apreciaÄÑo alegando a inexistÜncia de lei, devendo julgar de acordo com a analogia,

os costumes e os princÇpios gerais de direito. O ârgÑo julgador deve estar atento Ös mudanÄas, julgando de forma imparcial, livre de preconceitos.

A soluÄÑo encontrada, aplicando-se, por analogia, as normas destinadas Ö uniÑo estàvel heterossexual, inclusive aquelas referentes ao direito sucessârio, constitui a melhor forma para se chegar Ö justiÄa. NÑo É negando o reconhecimento destas uniÅes que elas desaparecerÑo da sociedade. Pelo contràrio, a tendÜncia nos dias atuais É que as pessoas busquem cada vez mais a felicidade, sem se preocupar com normas morais e jurÇdicas preconceituosas e sem fundamento.

A anàlise das decisÅes atuais sobre a uniÑo homoafetiva mostra a tendÜncia dos tribunais em incluir este relacionamento como uma das famÇlias constitucionalmente protegidas. å uma prova de que os homossexuais estÑo cada vez mais conquistando seu espaÄo e vencendo a batalha contra o preconceito e a discriminaÄÑo.

Por fim, devem-se abrir perspectivas para novas pesquisas, ao menos enquanto nÑo forem aprovadas leis que tratem acerca da uniÑo homoafetiva. å preciso entender que, acima de tudo, sendo homo ou heterossexual, todos sÑo seres humanos, e merecem ver reconhecidos os seus direitos, para que desfrutem de uma vida digna e feliz.

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ANEXO A – PROJETO DE LEI N. 1.151, DE 1995

CÄmara dos Deputados

SUBSTITUTIVO ADOTADO PELA COMISSÅO PROJETO DE LEI N.Ç 1.151, DE 1995

Disciplina a parceria civil registrada entre pessoas do mesmo sexo e dÉ outras providÑncias. O Congresso Nacional Decreta:

Art. 1o. Ö assegurado a duas pessoas do mesmo sexo o reconhecimento de sua parceria civil

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