Demonstra o decreto nº 3.048/99, em seu art. 51:
A aposentadoria por idade, uma vez cumprida a carência exigida, será devida ao segurado que completar sessenta e cinco anos de idade, se homem, ou sessenta, se mulher, reduzidos esses limites para sessenta e cinquenta e cinco anos de idade para os trabalhadores rurais, respectivamente homens e mulheres, referidos na alínea "a" do inciso I, na alínea "j" do inciso V e nos incisos VI e VII do caput do art. 9º, bem como para os segurados garimpeiros que trabalhem, comprovadamente, em regime de economia familiar, conforme definido no § 5º do art. 9º. (Redação dada pelo Decreto nº 3.265, de 1999) [...].
§ 4o Aplica-se o disposto nos §§ 2o e 3o ainda que na oportunidade do requerimento da aposentadoria o segurado não se enquadre como trabalhador rural. (Incluído pelo Decreto nº 6.722, de 2008), (BRASIL, Decreto nº 3.048, 2017).
Segundo esse entendimento, a tese adotada pela Autarquia Previdenciária viola a mens legis da referida Lei, cujo objetivo principal, conforme exposto, é de resguardar o interesse dos trabalhadores rurais. Entende-se que, não importa qual categoria que o segurado se enquadre na data do pedido de concessão do benefício etário híbrido, sendo ele trabalhador urbano ou rural (JESUS, 2015, p. 67).
Neste mesmo pensamento, Folmann e Soares entendem que: “Tal entendimento ganha força pela inserção do § 4º ao art. 51 do RPS, feita pelo Decreto nº 6.722/08, que impõe a aplicação da aposentadoria híbrida mesmo que na DER o segurado não se enquadra como trabalhador rural” (2012, p. 41).
Preceitua Ibrahim (2017, p. 605) que a finalidade da aposentadoria por idade mista é de poder o trabalhador rural, que não alcançou o período de carência, somar este tempo a outros em qualquer atividade, ou seja, fará jus a aposentadoria ao completar a idade requerida, e assim consta no julgado REsp 1477835:
STJ - AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL AgRg no REsp 1477835 PR 2014/0217578-0 (STJ). PREVIDENCIÁRIO. APOSENTADORIA POR IDADE HÍBRIDA, MEDIANTE CÔMPUTO DE TRABALHO URBANO E RURAL. ART. 48, § 3º, DA LEI 8.213 /91. POSSIBILIDADE. PRECEDENTES DO STJ. AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO. I. Consoante a jurispru dência do STJ, o trabalhador rural que não consiga comprovar, nessa condição, a carência exigida, poderá ter reconhecido o direito à aposentadoria por idade híbrida, mediante a utilização de períodos de contribuição sob outras categorias, seja qual for a predominância do labor misto, no período de carência, bem como o tipo de trabalho exercido, no momento do implemento do requisito etário ou do requerimento administrativo, hipótese em que não terá o favor de redução da idade. II. Em conformidade com os precedentes desta Corte a respeito da matéria, "seja qual for a predominância do labor misto no período de carência ou o tipo de trabalho exercido no momento do implemento do requisito etário ou do requerimento administrativo, o trabalhador tem direito a se aposentar com as idades citadas no § 3º do art. 48 da Lei 8.213 /1991, desde que cumprida a carência com a utilização de labor urbano ou rural [...] (BRASIL, STJ/PR, 2015a).
O legislador, ao trazer a Lei 11.718/08, fez os tribunais uniformizarem algumas decisões, restabelecendo uma pacificação acerca desta aposentadoria por idade mista, que será tratada no desenrolar deste capítulo.
Primeiro item que já está sendo aceito pelos tribunais é a questão sobre em qual trabalhado está laborando o segurado na data do requerimento, e, assim, explana a jurisprudência de que o entendimento também é confirmado pelo STJ - REsp 1407613/RS:
PREVIDENCIÁRIO. APOSENTADORIA POR IDADE HÍBRIDA. ART. 48, §§ 3º e 4º, DA LEI 8.213/1991. TRABALHO URBANO E RURAL NO PERÍODO DE CARÊNCIA. REQUISITO. LABOR CAMPESINO NO MOMENTO DE
IMPLEMENTAR O REQUISITO ETÁRIO OU O REQUERIMENTO
ADMINISTRATIVO. EXIGÊNCIA AFASTADA. CONTRIBUIÇÕES.
TRABALHO RURAL. 1. O INSS interpôs Recurso Especial aduzindo que a parte ora recorrida não se enquadra na aposentadoria por idade prevista no art. 48, § 3º, da Lei 8.213/1991, pois no momento de implementar o requisito etário ou o
requerimento administrativo era trabalhadora urbana, sendo a citada norma dirigida a trabalhadores rurais. Aduz ainda que o tempo de serviço rural anterior à Lei 8.213/1991 não pode ser computado como carência. [...] A Lei
abrigou, como já referido, aqueles trabalhadores rurais que passaram a exercer temporária ou permanentemente períodos em atividade urbana, já que antes da inovação legislativa o mesmo segurado se encontrava num paradoxo jurídico de desamparo previdenciário: ao atingir idade avançada, não podia receber a aposentadoria rural porque exerceu trabalho urbano e não tinha como desfrutar da aposentadoria urbana em razão de o curto período laboral não preencher o período de carência. [...] 7. Assim, a denominada aposentadoria por idade híbrida ou mista (art. 48, §§ 3º e 4º, da Lei 8.213/1991) aponta para um horizonte de equilíbrio entre a evolução das relações sociais e o Direito, o que ampara aqueles que efetivamente trabalharam e repercute, por conseguinte, na redução dos conflitos submetidos ao Poder Judiciário. 8. Essa nova possibilidade de aposentadoria por idade não representa desequilíbrio atuarial, pois, além de exigir idade mínima equivalente à aposentadoria por idade urbana (superior em cinco anos à aposentadoria rural), conta com lapsos de contribuição direta do segurado que a aposentadoria por id ade rural não exige. [...] 10. Tal constatação é fortalecida pela conclusão de que o disposto no art. 48, §§ 3º e 4º, da Lei 8.213/1991 materializa a previsão constitucional da uniformidade e equivalência entre os benefícios destinados às populações rurais e urbanas (art. 194, II, da CF)[...]. 11. Assim, seja qual for a predominância do labor misto no período de carência ou o tipo de trabalho exercido no momento do implemento do requisito etário ou do requerimento administrativo, o trabalhador tem direito a se aposentar com as idades citadas no § 3º do art. 48 da Lei 8.213/1991, desde que cumprida a carência com a utilização de labor urbano ou rural. [...] 14. Se os arts. 26, III, e 39, I, da Lei 8.213/1991 dispensam o recolhimento de contribuições para fins de aposentadoria por idade rural, exigindo apenas a comprovação do labor campesino, tal situação deve ser considerada para fins do cômputo da carência prevista no art. 48, § 3º, da Lei 8.213/1991, não sendo, portanto, exigível o recolhimento das contribuições. 15. Agravo Regimental não provido (BRASIL, STJ/RS, 2014, grifo nosso).
Sobre esta jurisprudência, destaca-se, ainda, a não aceitação pelo INSS da aposentadoria por idade mista, na questão que envolve os itens demarcados em negrito na jurisprudência acima, os quais serão tratados a seguir, por alguns autores.
Sendo assim, a primeira análise sobre a jurisprudência supracitada vem pelo STJ: REsp 1407613/RS, que diz que: “do momento de implementar o requisito etário ou o requerimento administrativo era trabalhadora urbana, sendo a citada norma dirigida a trabalhadores rurais” (BRASIL, STJ/RS, 2014).
Esclarece Melo (2017) não ser necessário que o segurado esteja desempenhando atividade rural quando for fazer requerimento administrativo da aposentadoria por idade mista.
Neste sentido, para tanto, não se exige que o segurado esteja desempenhando atividade rural por ocasião do requerimento administrativo, isso devida inteligência do art. 51, § 4º do Decreto nº 3.048/1999: “Aplica-se o disposto nos §§ 2o e 3o ainda que na oportunidade do requerimento da aposentadoria, o segurado não se enquadre como
trabalhador rural. (Incluído pelo Decreto nº 6.722, de 2008)” (BRASIL, Decreto nº 3.048, 2017).
Exemplo jurisprudencial, em que a TNU uniformiza entendimento:
TNU: “DIREITO PREVIDENCIÁRIO. APOSENTADORIA MISTA OU HÍBRIDA. CONTAGEM DE TEMPO RURAL PARA APOSENTADORIA URBANA. APLICAÇÃO EXTENSIVA DO ATUAL DO ARTIGO 48, § 3º E 4O. DA LEI DE BENEFÍCIOS. DIRETRIZ FIXADA PELA SEGUNDA TURMA DO SUPERIOR TRIBUNA DE JUSTIÇA NO RECURSO ESPECIAL 1.407.613.
ISONOMIA DO TRABALHADOR RURAL COM O URBANO.
APOSENTADORIA POR IDADE NA FORMA HÍBRIDA PERMITIDA TAMBÉM PARA O URBANO QUANDO HOUVER, ALÉM DA IDADE,
CUMPRIDO A CARÊNCIA EXIGIDA COM CONSIDERAÇÃO DOS
PERÍODOS DE TRABALHO RURAL. PEDIDO DE UNIFORMIZAÇÃO CONHECIDO E PROVIDO. (…) 8.2. Desse modo, o que decidiu a Corte Federal foi que a denominada aposentação por idade híbrida de regimes de trabalho, instituída pela Lei 11.718/08 contempla tanto os trabalhadores rurais que migraram da cidade para o campo, como o contrário (aqueles que saíram do campo e foram para a cidade). Isso porque, seja por amor ao postulado da isonomia, vez que a ratio é a mesma como ainda ante o fato de que, em sendo postulada aposentadoria urbana, de toda forma estar-se-á valorizando aquele que, muito ou pouco, contribuiu para o sistema. 9. Ante o exposto, conheço e dou provimento ao pedido de uniformização, para julgar procedente o pedido formulado na petição inicial (itens “A” e “B”). Sem honorários, por se tratar de recorrente vencedor” (BRASIL, Turma Nacional de Uniformização, 2014, grifo nosso).
Explicando melhor o que diz a jurisprudência, está claro que não interessa qual a inversão de trabalho que se está no momento do requerimento da aposentadoria, quando é dito na jurisprudência que: “a Lei 11.718/08 contempla tanto os trabalhadores que migraram da cidade para o campo, como o contrário, aqueles que saíram do campo e foram para a cidade.”
Aguiar (2016) também demonstra a importância do TNU acerca dos pedidos de aposentadoria por idade híbrida ou mista, pacificando entendimento dos tribunais, e, assim, demonstra que houve uniformização pela turma recursal dos juizados especiais (TNU) por decisão no dia 28 de novembro de 2014, reconhecendo o direito a esta aposentadoria da Lei 11.718/08: “O relator na Turma Nacional de Uniformização, juiz federal Marcos Antônio Garapa de Carvalho, reconheceu a divergência, elencando julgados do Superior Tribunal de Justiça e da TNU”. E, sendo assim, seja qual for o trabalho exercido ao completar o quesito etário, na DER, o trabalhador terá direito de se aposentar por idade conforme o § 3º do art. 48 da Lei 8.213/1991, desde que cumpra a carência necessária, podendo somar o trabalho rural com o urbano.
Ademais, o Tribunal Regional da 4ª Região, vem reiterando as decisões, como se vê a seguir:
PREVIDENCIÁRIO. APOSENTADORIA POR IDADE MISTA OU HÍBRIDA. REQUISITOS LEGAIS. COMPROVAÇÃO. LEI Nº 11.718/2008. LEI 8.213/91, ART. 48, § 3º. TRABALHO RURAL E TRABALHO URBANO. CONCESSÃO DE BENEFÍCIO A SEGURADO QUE NÃO ESTÁ DESEMPENHANDO
ATIVIDADE RURAL NO MOMENTO DA IMPLEMENTAÇÃO DOS
REQUISITOS. POSSIBILIDADE. 1. É devida a aposentadoria por idade mediante conjugação de tempo rural e urbano durante o período aquisitivo do direito, a teor do disposto na Lei nº 11.718, de 2008, que acrescentou o § 3º ao art. 48 da Lei nº 8.213, de 1991, desde que cumprido o requisito etário de 60 anos para mulher e de 65 anos para homens. 2. Ao § 3º do artigo 48 da LB não pode ser emprestada interpretação restritiva. Tratando-se de trabalhador rural que migrou para a área urbana, o fato de não estar desempenhando atividade rural por ocasião do requerimento administrativo não pode servir de obstáculo à concessão do benefício. A se entender assim, o trabalhador seria prejudicado por passar a contribuir, o que seria um contrassenso. A condição de trabalhador rural, ademais, poderia ser readquirida com o desempenho de apenas um mês nesta atividade. [...] 4. Não há, à luz dos princípios da universalidade e da uniformidade e equiv alência dos benefícios e serviços às populações urbanas e rurais, e bem assim do princípio da razoabilidade, como se negar a aplicação do artigo 48, § 3º, da Lei 8.213/91 ao trabalhador que exerceu atividade rural, mas no momento do implemento do requisito etário (sessenta ou sessenta e cinco anos) está desempenhando atividade urbana. 5. A denominada aposentadoria por idade mista ou híbrida, por exigir que o segurado complete 65 (sessenta e cinco) anos de idade, se homem, e 60 (sessenta) anos, se mulher, em rigor, é, em última análise, uma aposentadoria de natureza assemelhada à urbana. Assim, para fins de definição de regime, deve ser equiparada à aposentadoria por idade urbana. Com efeito, a Constituição Federal, em seu artigo 201, § 7º, II, prevê a redução do requisito etário apenas para os trabalhadores rurais. Exigidos 65 (sessenta e cinco) anos de idade, se homem, e 60 (sessenta) anos, se mulher, a aposentadoria mista, pode-se dizer, constitui praticamente subespécie da aposentadoria urbana, ainda que com possibilidade de agregação de tempo rural sem qualquer restrição. 6. Esta constatação (da similaridade da denominada aposentadoria mista ou híbrida com a aposentadoria por idade urbana) prejudica eventual discussão acerca da descontinuidade do tempo (ru ral e urbano). Como prejudica, igualmente, qualquer questionamento que se pretenda fazer quanto ao fato de não estar o segurado eventualmente desempenhando atividade rural ao implementar o requisito etário. (TRF4, AC 0013816-51.2015.404.9999, QUINTA TURMA, Relator PAULO AFONSO BRUM VAZ, D.E. 27/10/2016) (BRASIL, TRF4, 2016).
E, ainda, no mesmo sentido:
PREVIDENCIÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO DE INSTRUMENTO. ANTECIPAÇÃO DE TUTELA. APOSENTADORIA HÍBRIDA. Não constitui requisito de aposentadoria híbrida ou mista a comprovação de labor rural em período imediatamente anterior ao requerimento. Afastada a exigência e satisfeitos os demais requisitos, cabe deferir a tutela antecipada visando a implantação do benefício. (TRF4, AG 5042010-63.2016.404.0000, SEXTA TURMA, Relator JOÃO BATISTA PINTO SILVEIRA, juntado aos autos em 11/11/2016) (BRASIL, TRF4, 2016).
Ainda, em análise, a jurisprudência do STJ: REsp 1407613/RS, diz que: “o tempo de serviço rural anterior à Lei 8.213/1991 não pode ser computado como carência” (BRASIL, STJ/RS, 2014).
Quando envolve questão de carência anterior à Lei nº 8.213/91 e a previdência não reconhece este tempo para fins de contagem para aposentadoria por idade, a tabela do art. 142 da Lei nº 8.213/91 se aplica ao rural, somente se comprovado o exercício de trabalho anterior a 24.07.91, ou ainda: “Pode comprovar exercício anterior de trabalho rural ou mesmo de trabalho urbano, dada a admissibilidade de descontinuidade do trabalho rural mediante intercalação de atividade rural com atividade urbana” (CASTRO; LAZZARI, 2016, p. 719).
Em razão disso, a jurisprudência demonstra no Processo REsp 1570272/RS:
PREVIDENCIÁRIO. APOSENTADORIA HÍBRIDA POR IDADE. ART. 48, § 3º, DA LEI N. 8213/91. EXEGESE. MESCLA DOS PERÍODOS DE TRABALHO URBANO E RURAL. EXERCÍCIO DE ATIVIDADE RURAL NO MOMENTO QUE ANTECEDE O REQUERIMENTO. DESNECESSIDADE. CÔMPUTO DO TEMPO DE SERVIÇO RURAL ANTERIOR À VIGÊNCIA DA LEI N. 8.213/91 PARA FINS DE CARÊNCIA. POSSIBILIDADE. 1. A Lei 11.718/2008, ao alterar o art. 48 da Lei 8.213/91, conferiu ao segurado o direito à aposentadoria híbrida por idade, possibilitando que, na apuração do tempo de serviço, seja realizada a soma dos lapsos temporais de trabalho rural com o urbano. 2. Para fins do aludido benefício, em que é considerado no cálculo tanto o tempo de serviço urbano quanto o de serviço rural, é irrelevante a natureza do trabalho exercido no momento anterior ao requerimento da aposentadoria. 3. O tempo de serviço rural anterior ao advento da Lei n. 8.213/91 pode ser computado para fins da carência necessária à obtenção da aposentadoria híbrida por idade, ainda que não tenha sido efetivado o recolhimento das contribuições. 4. O cálculo do benefício ocorrerá na forma do disposto no inciso II do caput do art. 29 da Lei n. 8.213/91, sendo que, nas competências em que foi exercido o labor rurícola sem o recolhimento de contribuições, o valor a integrar o período básico de cálculo - PBC será o limite mínimo de salário-de-contribuição da Previdência Social. 5. A idade mínima para essa modalidade de benefício é a mesma exigida para a aposentadoria do trabalhador urbano, ou seja, 65 anos para o homem e 60 anos para a mulher, portanto, sem a redução de 5 anos a que faria jus o trabalhador exclusivamente rurícola. 6. Recurso especial improvido (REsp 1476383/PR, Rel. Min. Sérgio Kukina, Primeira Turma, DJe 08/10/2015) (BRASIL, STJ/RS, 2017a, grifo nosso).
Ainda, nesta mesma decisão, diz jurisprudência:
PREVIDENCIÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. APLICABILIDADE DO CPC/1973. APOSENTADORIA POR IDADE HÍBRIDA. EXERCÍCIO DE ATIVIDADE RURAL NO MOMENTO QUE ANTECEDE O REQUERIMENTO. DESNECESSIDADE. CÔMPUTO DO TEMPO DE SERVIÇO RURAL ANTERIOR À VIGÊNCIA DA LEI N. 8.213/91 PARA FINS DE CARÊNCIA. POSSIBILIDADE. ACÓRDÃO EM CONSONÂNCIA COM A JURISPRUDÊNCIA DO STJ. PRESENÇA DOS REQUISITOS PARA A CONCESSÃO DO BENEFÍCIO. REVISÃO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA 7/STJ. RECURSO ESPECIAL NÃO PROVIDO. DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto pelo Instituto Nacional do Seguro Social - INSS, com fulcro na alínea a do permissivo constitucional, contra acórdão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, assim ementado (fl. 234): PREVIDENCIÁRIO. APOSENTADORIA HÍBRIDA POR IDADE. INTEGRAÇÃO DE PERÍODO DE TRABALHO RURAL AO DE CATEGORIA DIVERSA. ART. 48, § 3º DA LEI 8.213/91. CARÊNCIA E REQUISITO ETÁRIO [...]. É o relatório. [...] Com efeito, o entendimento adotado pela Corte de origem não destoa da jurisprudência desta Corte Superior de Justiça,
segundo a qual não há necessidade de que o segurado, quando do implemento dos requisitos para a concessão da aposentadoria por idade híbrida, esteja exercendo atividade rural e, portanto, o mencionado benefício pode ser concedido ainda que seja urbana a última atividade daquele. As razões de decidir adotadas pelo acórdão recorrido também se coadunam com a compreensão deste Tribunal Superior no que diz respeito à possibilidade de cômputo, para fins da carência necessária à concessão da aposentadoria híbrida por idade, do tempo de serviço rural exercido em data anterior ao início da vigência da Lei n. 8.213/1991, não sendo exigível o recolhimento das contribuições relativas a esse período (BRASIL, STJ/RS, 2017a, grifo nosso).
Estas decisões anteriores foram baseadas na decisão do REsp 1476383/PR, Rel. Ministro Sérgio Kukina, julgado em 01/10/2015:
[...] 3. O tempo de serviço rural anterior ao advento da Lei n. 8.213/91 pode ser computado para fins da carência necessária à obtenção da aposentadoria híbrida por idade, ainda que não tenha sido efetivado o recolhimento das contribuições. 4. O cálculo do benefício ocorrerá na forma do disposto no inciso II do caput do art. 29 da Lei n. 8.213/91, sendo que, nas competências em que foi exercido o labor rurícola sem o recolhimento de contribuições, o valor a integrar o período básico de cálculo - PBC será o limite mínimo de salário-de-contribuição da Previdência Social. 5. A idade mínima para essa modalidade de benefício é a mesma exigida para a aposentadoria do trabalhador urbano, ou seja, 65 anos para o homem e 60 anos para a mulher, portanto, sem a redução de 5 anos a que faria jus o trabalhador exclusivamente rurícola. 6. Recurso especial improvido. (REsp 1476383/PR, Rel. Ministro SÉRGIO KUKINA, PRIMEIRA TURMA, julgado em 01/10/2015, DJ 08/10/2015) (BRASIL, STJ/PR, 2015b, grifo nosso).
Ainda neste mesmo enfoque, Ibrahim (2016, p. 201) defende que os trabalhadores rurais apenas demonstrem a atividades rurais exercidas após a promulgação da Lei nº 8.213/91. Neste sentido, o STJ entende que lhe é garantido o benéfico de aposentadoria por idade mista, desde que sejam realizados os recolhimentos devidos, lembrando que o trabalhado anterior a esta Lei é dispensado de seu recolhimento, pois neste tempo não eram segurados.
Contudo, Ibrahim destaca que o indivíduo não é considerado segurado anterior a Lei n 8.213/91, pois não há contribuição de fato à previdência (2016, p. 201).
Em continuação, Melo (2017) conclui e complementa que a lei não traz nenhuma requisitação acerca disso, e nem tampouco veda a possibilidade de se computar o tempo de serviço rural, anterior à vigência da Lei n. 8.213/91, ao comprovar com documentos e testemunhas, o INSS deve reconhecer este tempo para fins de carência, conforme consta no art. 106 da Lei 11.718/08.
Como elencado acima, o Tribunal vem reconhecendo a aposentadoria por idade híbrida como de direito tanto do segurado rural, quanto do segurado urbano.
O entendimento aqui conclui que não é válida a premissa de distinguir a categoria de segurado no momento da análise da concessão do benefício em questão, portanto compreende-se que a interpretação que acaba por deixar de assegurar o direito à aposentadoria ao segurado urbano não cabe mais no atual ordenamento jurídico.
Ainda em meio a confirmações de decisões pelos tribunais, há controvérsias presentes no ordenamento. Neste caso, a Jurisprudência mesmo se contradiz, no início diz que não, mas depois reconhece os períodos anteriores à Lei 8.213/91, contabilizando como carência de acordo com a tabela do art. 142, da Lei nº 8.213/91, decisão dada pelo TRF1, página 1313, do Caderno Judicial desde ano 2017:
[...]2. O cômputo do período de atividade rural anterior a 24/07/1991 independe de qualquer contribuição ou indenização, ressalvando a impossibilidade de utilização desse período para fins de carência, conforme preconiza expressament e o art. 55, § 2º, da Lei 8.213/1991. [...]. 6. A parte autora apresentou início razoável de prova material da atividade campesina de parte do período reconhecido na sentença, pois na ocasião do seu casamento, celebrado em 1960, o seu marido à época foi qualificado como lavrador, o mesmo ocorrendo quando dos nascimentos dos seus filhos, em 1968 e 1974 a 1976, sendo o exercício de tal atividade nos períodos mencionados ratificado pela prova oral colhida (fls. 23/27 e 72/74). Ora bem se sabe que a certidão de casamento ou outro documento idôneo que evidencie a condição de trabalhador rural do cônjuge constitui início razoável de prova material da atividade rurícola (Súmula 6 da TNU). Ademais, a autora não possui vínculos empregatícios registrados no CNIS nestes períodos. Atividade rural reconhecida em parte dos períodos. 7. O somatório da atividade rural (5 anos) com o trabalho urbano desenvolvido pela parte autora, registrado no CNIS (7 anos, 7 meses e 15 dias, fl. 50), tem como resultado 12 anos, 7 meses e 15 dias, suplantando a carência de 120 meses, exigida para os segurados que implementaram o requisito etário no ano de 2001 (fl. 22), como ocorre na situação (Lei nº 8.213/91, art. 142) [...] (BRASIL, TRF1, 2017).
Contudo, Melo (2017) preceitua que o Superior Tribunal de Justiça possui entendimento recente (outubro/2015) de que o trabalhador estar ou não exercendo qualquer atividade agrícola no momento do requerimento da aposentadoria, não o impede de computar o tempo de carência rural. Isso porque a lei não traz nenhuma requisitação acerca disso, e nem tampouco veda a possibilidade de se computar o tempo de serviço rural, anterior à vigência da Lei n. 8.213/91, para efeito de carência (grifo nosso).
Pacificação desse conflito pelo TNU:
TNU - PEDIDO DE UNIFORMIZAÇÃO DE INTERPRETAÇÃO DE LEI