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AS NECRÓPOLES

5.1.3. Enterramentos ad sanctos e apud ecclesiam

A apreciação do primeiro destes fenómenos funerários não é possível sem que se equa‑ cione uma importante mudança de mentalidade, que permitiu anular uma conceção firme‑ mente enraizada e que pugnava o afastamento entre o mundo dos vivos e o dos mortos798. Radicando na Roma antiga, foi veiculada através da Lei das Doze Tábuas, que se considera

794 ALVES, et al. 2013: 1945 ‑1948.

795 ROUCHE, 1989: 487 ‑488.

796 KARCZEWSKA et al., 2009: 62.

797 AZKARATE GARAI ‑OLAUN, 2002: 130.

precursora do direito romano, e em cujas disposições avultava o interdito de efetuar enter‑ ramentos in urbe. A proibição persistiu no tempo, tendo sido reiterada no século II pelo imperador Adriano e, novamente, já no quadro da tetrarquia, quase no ocaso do III. Poste‑ riormente, em 381, promulgava ‑se uma lei que ficou conhecida como adversus sepulturam urbanum, mais tarde integrada no Código Teodosiano, e que mantinha, apesar do avançado da cronologia, o espírito herdado da legislação republicana799. Assim se procurava, portanto, conservar a sanctitas das casas de quem habitava a cidade: ao criar distância com os mor‑ tos, impuros, reduziam ‑se os riscos de «contágio». Neste sentido e no intuito de cumprir tal desígnio, assumia ‑se como fundamental relegar as necrópoles para o exterior da urbe, ainda que implantando ‑as em locais de fácil acesso. Não é de estranhar, por conseguinte, que em período romano elas se tenham avolumado junto das grandes vias800, eixos articu‑ ladores por excelência. Assim se verificava um pouco por todo as latitudes do Império. Em Bracara Augusta, por exemplo, parece registar ‑se concordância em torno do pressuposto da existência de quatro grandes necrópoles, cada uma delas estendendo ‑se ao longo das mais importantes saídas da cidade801, a partir das quais se estabeleciam as devidas ligações com outros pontos da Península802.

Contudo, a aversão e repugnância suscitadas pela ideia de proximidade dos mortos começaram a ser suplantadas: primeiro, em território africano e, posteriormente, na pró‑ pria sede do Império803. À medida que a religião cristã se foi sedimentando, as inumações deixaram de concretizar ‑se imperiosamente extra muros, podendo ser incorporadas in ambitus murorum. De qualquer modo, a implementação deste processo decorreu paula‑ tinamente. Numa fase inicial, os conjuntos cemiteriais continuaram a desenvolver ‑se no exterior dos espaços urbanos, se bem que em correlação com antigas áreas funerárias: ali se erigiam martyria ou memoriae, onde repousavam os mártires e, envolvendo ‑os, mais enterramentos. Posteriormente, foram os próprios sepultamentos ad santos a gerar a cons‑ trução de uma basílica e a desencadear, em seu redor, a tessitura de uma dinâmica forte, na qual participavam peregrinos e religiosos e, neste sentido, a determinar a criação de núcleos habitados e, por vezes, mesmo de mosteiros. Por conseguinte, não só o lugar dos mortos deixou de ter uma existência apartada, como em contrapartida, passou a assumir ‑se como

799 BARROCA, 1987: 8; 30, nota 6.

800 ARIÈS, 1988a: 41; 1988b: 25.

801 MORAIS, 2010: 157.

802 «[…] Aparecem assim claramente individualizadas, na bibliografia, a necrópole de Maximinos, na saída da via XVI

(Bracara ‑Olisipo), onde se localizaria a porta sinistra da cidade; uma outra, na parte oriental, relacionada com achados da R. do Raio, do edifício dos Correios e da Av. da Liberdade, junto à saída da via XVII (Bracara ‑Astorga, por Chaves); uma outra, a Norte, no Campo da Vinha, relacionada com a saída, quer da via XVIII (Bracara ‑Astorga, por Orense), quer da via XIX (Bracara ‑Lucus). Uma outra necrópole, situar ‑se ‑ia na parte sul da cidade, parecendo acompanhar, aparentemente, boa parte do traçado da actual Rodovia […], correspondendo à saída de uma via, não citada no Itinerário de Antonino, que de Bracara conduzia a Emerita, por Viseu e Egitânia […]» (MARTINS & DELGADO, 1989 ‑90: 42).

polo de atração para os vivos804. Estava, pois, preparado o patamar para o esfumar da dife‑ renciação entre subúrbio e urbe, ou seja, para a anulação da oposição profunda entre uma área onde desde sempre se sepultara e uma outra, circunscrita in ambitus murorum, onde longamente vigorara o interdito805.

É, portanto, manifesta a rutura ao nível do enquadramento mental subjacente; mas essa quebra assumiu ‑se ainda mais plenamente a partir do momento em que, ultrapassada a repulsa ou repugnância primordial, os mortos começaram a penetrar no interior dos espaços que anteriormente lhes eram vedados, corporizando um outro fenómeno, a tumu‑ latio appud ecclesiam, responsável por profundas alterações na paisagem, rural e urbana, e pela introdução de uma nova teia de relações socioeconómicas806. Alguns autores veem na realização de enterramentos intramuros a expressão mais declarada da cristianização da paisagem urbana807, atendendo a que tal pressupõe a superação da dissociação profunda que estabelecia uma dicotomia entre mundo dos vivos e mundo dos mortos808. E, há que ressalvá ‑lo, a «intromissão» dos mortos na igreja, termo aplicável não apenas ao edifício cultual, mas igualmente a toda a envolvente e, naturalmente, ao atrium, não desvirtuou a vocação de área pública que lhe era inerente809.

Muitos dos sepultamentos efetuados ad sanctos procuraram corporizar, ao longo dos séculos VI e VII, como que uma espécie de prolongamento e adequação dos antigos interdi‑ tos concernentes aos enterramentos intra muros810. Mas, na verdade, cedo se constataram as imensas dificuldades em implementar alguma ordem a este nível. Logo nas primeiras centú‑ rias de observância da prática, os túmulos «invadiram» os locais de culto811. Dessa circunstân‑ cia fazem eco algumas disposições conciliares, que patenteiam os esforços empreendidos para as contrariar. E é curioso notar que, enquanto na Península Ibérica foi promulgada legislação específica no sentido de impedir que continuassem a concretizar ‑se sepultamentos no seio das basílicas812, no reino merovíngio encorajou ‑se, ainda que não oficialmente, a perpetuação dos enterramentos ad sanctos, fossem eles realizados no interior ou em torno dos lugares san‑ tos, dado que esta prática parecia consubstanciar uma ligação forte com a Igreja813.

804 ARIÈS, 1988a: 46 ‑47; 1988b: 26; AZKARATE GARAI ‑OLAUN, 2002: 124.

805 ARIÈS, 1988a: 48.

806 AZKARATE GARAI ‑OLAUN, 2002: 125.

807 VIZCAÍNO SÁNCHEZ, 2007 [Ed. 2009]: 343.

808 GURT I ESPARRAGUERA & SÁNCHEZ RAMOS, 2011: 493; 507.

809 ARIÈS, 1988b: 27 ‑29.

810 EFFROS, 1997: 15.

811 ARIÈS, 1988a: 63.

812 Atente ‑se o cânone XVIII do I Concílio de Braga, celebrado em 561 «[…] También se tuvo por bien que no se dé sepultura

dentro de las basílicas de los santos a los cuerpos de los difuntos, sino que si es preciso, fuera, alrededor de los muros de la iglesia, hasta el presente no está prohibido, pues si hasta ahora algunas ciudades conservan firmemente este privilegio que en modo alguno se entierre el cadáver de ningún difunto dentro del recinto de sus muros, ¿ cuanto más debe exigir esto mismo la reverencia de los venerables mártires? […]» (VIVES, 1963: 75).

E uma questão que vem a propósito e, naturalmente, não deverá ser obliterada, prende‑ ‑se com a capacidade de a hierarquia da Igreja poder conferir ou, em alternativa, retirar esta‑ tuto aos enterramentos e, consequentemente, aos indivíduos inumados, através do controle rigoroso da topografia dos cemitérios. Acrescente ‑se, aliás, que esse controle atuaria não só a esse nível «imediato», em conexão com os moldes de apropriação do espaço e implicações sociais daí decorrentes, como, por outro lado, se poderia repercutir na eventual imputação de sofrimento ao defunto no mundo post mortem814. Tal não significa, porém, que a Igreja dedi‑ casse uma particular atenção aos enterramentos de todos os fiéis cristãos. Mas, entre os social‑ mente bem posicionados, que viviam em meio urbano ou que possuíam algum tipo de ligação com movimentos monásticos, a implantação e qualidade dos sepultamentos seria favorecida. Ora, a procura de proximidade relativamente a santos e mártires foi assumindo pro‑ gressivamente maior relevância, na medida em que se julgava que através desse «vínculo» físico estaria a transmitir ‑se ao falecido uma inequívoca condição de exclusividade, prenhe de simbolismo. De facto, afigurava ‑se que determinados espaços seriam geradores de noto‑ riedade, prestígio e proteção, circunstância que se revestia de importância acrescida, uma vez que se imaginava que os cadáveres aguardariam no túmulo o dia em que corpo e alma se reuniriam novamente, aquando da Ressurreição815. É neste sentido que o tratamento conce‑ dido aos inumados pelo clero, longe de se limitar a refletir os méritos ou pecados que estes haviam cometido em vida, era suscetível de funcionar quase como que uma «antevisão» do desenrolar do destino póstumo. Também por isso, a ausência de um tipo de enterra‑ mento apropriado ou o incumprimento da prestação dos ritos litúrgicos adequados poderia redundar na condenação e punição eterna.

Bonnie Effros considera que terá sido a partir do século VI que o clero cristão pas‑ sou a desempenhar um papel mais ativo e a regular de forma mais declarada os rituais funerários, retirando a responsabilidade a outras órbitas, nomeadamente, à familiar. Effros entende, aliás, que essa atitude controladora exercida sobre os cemitérios da Igreja persistiu na centúria seguinte, sendo inclusive atestada pela documentação cristã coeva816. Já outros autores, caso de Bailey Young, reforçam a hesitação inicial da hierarquia perante a ideia de interferir em domínios tradicionalmente afetos ao âmbito familiar, acentuando a ocorrên‑ cia de mudanças mais expressivas somente a partir do século VII. E, aliás, colocam a tónica sobretudo nas alterações plasmadas no quadro mental vigente entre as populações que, suplantando a primazia concedida aos cuidados em torno da manutenção da individuali‑ dade do defunto e às preocupações respeitantes à implementação dos ritos necessários à sua passagem para o Além, infletiram a atitude e passaram a dedicar os seus esforços à tentativa de garantir um lugar de sepultamento apropriado, na esfera de proteção dos santos817.

814 EFFROS, 1997: 4.

815 EFFROS, 1997: 5 ‑6.

816 EFFROS, 1997: 7 ‑12.