5. Análise do poema épico Joanneida: planos de análise
5.2. Plano estrutural: a influência da épica clássica
5.2.3. O Maravilhoso
5.2.3.1. Entidades actuantes: apoiantes e oponentes
É logo no início do Canto I, e após a narração da situação em que se encontram os Portugueses em pleno cerco de Lisboa, que nos são apresentadas as
entidades actuantes, nomeadamente as entidades que estão do lado dos Portugueses.
Tendo como residência suprema o «Olimpo Luminoso» (est. 36, Canto I), Deus é-nos apresentado como o «Senhor Supremo», empregando o autor a múltipla adjectivação para realçar a sua grandeza:
74 O uso de personagens da mitologia judaico-cristã enquanto elementos actuantes na epopeia
introduziu-se de forma gradual na poesia épica clássica. Hélio Alves refere que tal se deveu essencialmente à obra de Torquato Tasso, referindo ter sido o «novo cânone do maravilhoso tassiano, o único a que se podiam reportar os defensores da ortodoxia contra-reformista na poesia heróica» (Alves, 1999: 675).
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Este Senhor Supremo, Omnipotente Grande Deus, Infinito, Inexplicável, Terrível, Forte, Sábio, Providente,
Bom, Benigno, Fiel, Piedoso, Amável, (…) (est. 37, Canto I)
Esta caracterização confirma a ideia de um Deus soberano e decisor, o qual acaba por surgir e por se evidenciar em vários momentos da obra. Por exemplo, sempre que no diálogo entre Deus e o Génio Tutelar são abordadas por este o respeito pelas promessas divinas feitas por Deus ao Povo Português75, fica claro e evidente a
omnipotência do poder divino sobre todas as coisas, seja pela afirmação peremptória do próprio Deus:
(…) Que eu [Deus] sou só quem os Reinos edifica, Quem os abate, quem os multiplica. (est. 37, Canto IV)
Seja pelas acções por si comandadas:
Assim será, responde o Pai Sublime, E desta voz à força o Céu rendido, Com susto santo, que o respeito exprime, Tremeu de Pólo a Pólo estremecido. O torpe Génio, que a Nação oprime Se sepulta nas trevas aturdido, Foge a Discórdia do Congresso Luso,
Cessa das gentes o rumor confuso. (est. 11, Canto X)
Junto a Deus encontra-se o Génio76 Tutelar dos Portugueses, sentado no
«brilhante assento cristalino/, que ocupava no luminoso Olimpo» (est. 33, Canto V). Em termos genéricos, ao Génio compete ser o guardião, o defensor e o protector dos Portugueses, como o próprio o confirma ao Defensor:
Por ti, Senhor, me foi em sorte dada A protecção da Lusa Monarquia,
75 Em vários momentos da obra compete ao Génio Tutelar lançar como argumento decisivo para que se
actue em favor dos Portugueses a lembrança dessas promessas e a necessidade de as concretizar. Isso é evidente na est. 101 do Canto V em que o discurso do Génio, que antecede a acção de Deus de enviar a peste sobre os Castelhanos, assim como o discurso do mesmo Génio na est. 8 do Canto X que antecede a decisão de eleger D. João I como rei.
76 O Génio, enquanto entidade actuante na poesia épica, não é uma figura recorrente na generalidade
dos poemas épicos, embora a referência a esta entidade se encontre já presente na mitologia romana, encarado como a divindade individual que segue o ser vivo desde a nascença até à morte e que protege todos os seus actos. (cf. Schmidt, 1994: 126). A sua inserção nesta epopeia talvez se possa explicar pelo facto de o Génio não ser um elemento claramente pertencente à mitologia pagã ou cristã, o que prova igualmente como o autor, na elaboração da sua epopeia, teve o cuidado de não se cingir somente a um determinado plano mitológico.
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Por ti a sirvo, por ti mesmo amada
É de mim esta gente (…) (est. 98, Canto V)
sendo que nos momentos de maior aflição vividos pelos Portugueses, o Génio intercede junto de Deus e solicita o seu apoio77.
Outra das funções do Génio Tutelar dos Portugueses é a de zelar, em específico, pela segurança do Herói e por estar atento às acções deste, tendo em vista ajudá-lo a seguir o caminho que o conduzirá às glórias prometidas e futuras.
No fundo, este Génio Tutelar, qual “Vénus Camoniana”, funciona como que um anjo da guarda do próprio Herói, na medida em que, como afirma o Poeta, «sempre os passos/ Observa do Varão, a quem presente/Acompanha, e socorre diligente» (est. 91, Canto VIII) 78.
Como principal oponente do Herói e dos próprios Portugueses surge o «Monarca das Sombras»: Luzbel (est. 23, Canto II)79, o Génio tirano que domina as trevas do Cócito e que ao longo de todo o Poema procura prejudicar a acção dos Portugueses80. A ele, e ao longo de toda a obra, vão associar-se outras entidades,
77 Parecem-nos ser dignos de uma análise mais atenta os diversos diálogos que, ao longo da obra, e
sobretudo nos momentos mais aflitivos para os Portugueses, ocorrem entre Deus e o Génio Tutelar, algo que, por impossibilidade óbvia, não nos foi possível desenvolver nesta investigação. Nestes diálogos, um dos aspectos mais relevante parece-nos ser o dos argumentos lançados pelo Génio Tutelar para alcançar de Deus uma acção, os quais parecem exprimir uma certa revolta pela injustiça da situação vivida pelos Portugueses (a este propósito, cf. o discurso do Génio na est. 99, Canto V).
78 É esse papel de protector que o Génio evidencia quando o reacender da paixão entre o Mestre de
Avis e Inês Pires coloca em grave perigo o sucesso da missão do Herói: Mas o Génio, (…)
Querendo precaver os tristes danos, Que um tão grave descuido ameaçava Às nobres pretensões dos Lusitanos, Que o Céu tão favorável abonava; Na mesma escura frágoa dos enganos Um aviso fiel lhe preparava,
Pelo meio de um sonho, que em figura
Lhe mostrasse da glória a face pura. (est. 95 e 96, Canto VII)
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É curioso verificar como o autor foi buscar a denominação hebraica, Luzbel, para abordar esta personagem, primeiro nome do mais tarde conhecido como Lúcifer, o primeiro filho de Deus, que se havendo rebelado contra o seu pai por se desejar tornar igual a Ele, acabou expulso do reino celestial, ficando para sempre no «mundo dos mortos». Esta personagem encontra-se já na Jerusalém Libertada de Tasso (Canto IV) e no Paraíso Perdido de Milton, embora com o nome de Belzebu. (cf. Milton, 1789: livros I, II e IV)
80 Por exemplo, no Canto II, aquando do concílio no Inferno em que os Génios são forçados a decidir
quem apoiam: se os Portugueses ou os Castelhanos. A propósito deste episódio, refira-se que a existência de um momento em que as entidades mitológicas se reúnem para tomar decisões contra os
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como é o caso de Asmodeus81 e das próprias Fúrias Infernais82, as quais vão adquirindo com o decorrer da acção um maior protagonismo.
Relativamente a estas personagens, importa salientar que a sua presença enquanto personagens actuantes está patente um pouco por toda a obra, nomeadamente nos momentos que implicam um confronto de forças ou de ideias entre Portugueses e Castelhanos: seja por intermédio de um sonho ou de um disfarce, seja actuando per si ou por intermédio de mensageiros, o que é facto é que as forças infernais procuram, por diversas vezes, interceder junto dos Castelhanos, prejudicando a acção dos Portugueses. Tendo em conta a acção principal que é narrada na Joanneida (a defesa da independência de Portugal por D. João I), os Castelhanos e o próprio D. Juan I são encarados logo desde o início do Poema como os oponentes do Herói. Contudo, esta identificação dos Castelhanos como os inimigos ganha, na obra, outros contornos. Ao interpretarmos as estrofes centradas nas personagens de D. Juan I e dos cavaleiros castelhanos, facilmente nos apercebemos de um paralelismo entre os Castelhanos e os Mouros enquanto “inimigos da Cristandade”. Tal se justifica pelo facto de, historicamente, o período em que ocorrem os conflitos entre Portugal e Castela ter sido igualmente marcado pelo Grande Cisma do Ocidente, estando os Castelhanos pelo Papa de Avinhão, Clemente VII e os Portugueses pelo de Roma, Urbano VI, isto apesar de algumas reviravoltas.
Por isso, não é de espantar que também na Joanneida se proceda, a espaços, a uma identificação dos Castelhanos, pelos seus actos e pelas suas atitudes, como agentes do próprio Inferno. Por exemplo, na estrofe 56 do Canto II, é interessante
heróis não é específica só da Joanneida, tal como refere Hélio Alves (cf. Alves, 1999: 689). De facto, não só em Camões como noutras epopeias, o mais comum é que os Consílios sirvam para apoiar os heróis. O curioso na Joanneida é que tanto o consílio infernal como os conselhos de guerra narrados têm sempre os Portugueses como oponentes.
81 Asmodeu é um demónio da mitologia do Judaísmo (cf. Dictionnaire de la bible, 1895: 1103-1105),
cuja relevância na Joanneida reside essencialmente no seu discurso aquando do Concílio Infernal no Canto II, discurso cuja argumentação se centra em questionar o apoio aos Castelhanos, uma vez que a fé destes é a mesma que a dos Portugueses.
82 As Fúrias do Inferno são outras das personagens actuantes que intervêm na acção, sobretudo no
plano dos sonhos. As Erínias gregas (Fúrias na Mitologia Romana) eram personificações da vingança, que puniam os mortais, encarregando-se de castigar os delitos morais como a ira, a cólera ou a soberba. Eram elas Tisífone, Megera e Alecto e viviam nas profundezas do Hades, onde torturavam as almas pecadoras (cf. Schmidt, op. cit.: 105). De entre elas destaca-se no Poema a acção da Fúria
Alecto, a qual por diversas vezes surge a incentivar a acção bélica dos Castelhanos, seja por intermédio
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verificar como as acções dos Castelhanos parecem ter como instigadores os próprios agentes infernais83.
Desta forma, torna-se patente a existência na obra de uma estrutura bipolar: de um lado estão os Portugueses, chefiados pelo Mestre e apoiados pelo Génio Tutelar; do outro lado estão os Castelhanos, chefiados por D. Juan I e apoiados por Luzbel. E se tomarmos em linha de conta a estrutura mitológica de outros poemas épicos, verificamos que esta bipolarização em equilíbrio das forças e dos poderes (o bem vs. o mal; o divino vs. o profano; o cristão vs. o muçulmano; o português vs. o castelhano) constitui, no fundo, o núcleo narrativo da maior parte dos poemas épicos e sobre o qual, no caso da Joanneida, acaba por ser construída toda a narrativa.