Para exposição desse subitem, recorremos a um caso prático, uma decisão do Superior Tribunal de Justiça. Trata-se do Recurso Especial nº 45.492-1 RS, em que foi relator o Min. Luiz Vicente Cernicchiaro. A parte recorrente pretendia que o reajuste de aluguel ocorresse de acordo com o art. 49, §§ 4º e 5º da Lei nº 6.649/79.
Dispõe o citado art. 49 que, no silêncio do contrato, o aluguel será reajustável anualmente. E, o § 4º estabelece:
Não tendo havido acordo nos termos do parágrafo antecedente, o locador, após cinco anos de vigência do contrato, poderá pedir a revisão judicial do aluguel, a fim de ajustá-lo ao preço de mercado, aplicando-se o disposto nos §§ 2º e 3º, do art. 53.
Acrescenta o § 5º
A revisão judicial poderá ser requerida de cinco em cinco anos, contados de acordo, ou, na falta deste, do início do contrato.
Em seu voto, o Ministro-Relator debela a eficácia daqueles dispositivos: art. 49 e §§ 4º e 5º, argumentando:
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O discurso judiciário não deve ser mera projeção do trabalho legislativo. O Juiz não é autômato, aplicador de labor posto por outrem.
O magistrado, antes de tudo, porque diante de dois fenômenos – lei e fato social – deve ser o crítico da lei e do fato social. Não pode olvidar, ademais, que a norma jurídica não se reduz a mero esquema lógico-formal. Há uma realidade sócio-cultural, que é a matéria, o conteúdo a ser considerado.
Coloca-se, então, a problemática – Direito/Justiça. A lei será o fim em si mesma, ou, ao contrário, trânsito para realizar algum valor?
Coloco-me, ideologicamente, entre os pensadores que têm o Direito como trânsito, esquema historicamente provisório para a realização de valores. E como esquema histórico, o Direito não é absoluto. Cessa sua eficácia no instante em que a norma evidenciar inadequação, constituir obstáculo para realizar o valor eleito.
A insatisfação com a lei absoluta sempre resultou por ocasião das grandes transformações sociais. Em Roma, o trabalho dos pretores, preocupados com o justo em detrimento do formal, consagrou a cláusula rebus sic stantibus.
... O esquema legal estabelecendo prazos determinados para rever o preço de locação, no contexto econômico brasileiro, de economia em diária e permanente instabilidade, é lógico, por ser rígido, entre em conflito com a situação fática. Em termos de teoria geral da norma jurídica, a – causa – resultou afetada. Conseqüentemente, repercute no conteúdo da relação mesma. O reajuste do valor locatício, então, deve orientar-se pelo fim último do Direito – evitar a injustiça.
Não é justo o inquilino pagar menos do valor real, notadamente, passado significativo tempo do último reajuste do aluguel.
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O julgado evidencia que a reverência eclesiástica à literalidade da lei conduz, no caso concreto, a enriquecimento ilícito do Recorrente.
No relatório, o Ministro realça que “o recorrente alega que tal entendimento contraria as disposições das leis nºs 6.649/79 e 8.245/91, além de divergir de julgados do Superior Tribunal de Justiça, Tribunal de Alçada Cível de São Paulo e do Tribunal de Justiça do D. F.”
O recorrente (que era o locatário) foi derrotado. Por unanimidade, a Sexta Turma do STJ decidiu por não conhecer do recurso, nos termos do voto do Ministro-Relator.
O que significa dizer que a parte vencedora, o dono do imóvel, pôde aumentar os aluguéis antes do prazo previsto no contrato e na lei. Ou seja, os dispositivos da Lei 6649/79, acima transcritos, tornaram-se letra morta, para o caso vertente, a decisão contrariou totalmente a lei.
Com base no texto transcrito do voto do Ministro Relator, podemos, começar fazendo as seguintes ponderações: a) a legislação inquilinária tem caráter social, portando visa à parte hipossuficiente da relação, no caso o inquilino, a parte derrotada pelo acórdão; b) a questão da inflação atinge muito mais os menos favorecidos do que o proprietário, portanto o tribunal reparou apenas o lado do dono do imóvel; e c) a pretensão da parte era apenas cumprir um prazo contratual e legal.
Do ponto de vista retórico, o Relator utilizou um discurso entimemático, como se denota pelo teor da decisão. Basta que se demonstre com a cláusula rebus sic stantibus, e, no final, ao se referir ao enriquecimento ilícito.
A noção que se tem sobre a cláusula rebus sic stantibus é de uma cláusula de natureza eminentemente entimemática, por ser a mesma inexpressa, por não constar nos
contratos. O que existe de conteúdo e significado nessa invisível e subentendida cláusula são opiniões, topos de cunho ético-moral, traduzindo que não se devem cumprir obrigações caso ocorram modificações imprevisíveis. São topos do justo e do injusto, segundo os quais as partes só estão obrigadas a cumprir o contrato desde que as circunstâncias permaneçam as mesmas. Com base em tais “verdades”, o entimema constrói, fundamenta-se: se as circunstâncias não permanecerem as mesmas, logo não se estará obrigado a cumprir o contrato. Outro exemplo que se pode extrair desse mesmo topoi, sempre na linha do justo e do injusto: as pessoas devem ser honestas e justas, o entimema: o Direito protege o enriquecimento lícito, logo condena o enriquecimento ilícito.
A decisão nada diz da lei. O Relator adota um discurso divorciado completamente do texto da norma. Como opção, escolheu negar provimento ao recurso, para tanto foi buscar, em um contexto retórico entimemático, lugares-comuns, premissas particulares ao Direito, como condenar o enriquecimento ilícito. Situações que não estão previstas na lei de locação, à qual estavam as partes vinculadas.
As decisões judiciais têm se caracterizado por essa metodologia entimemática. Dessa lógica teria surgido a teoria da imprevisão.