Parte 01: A Revista do Livro e seus entornos
3. Entornos
A fim de bem pontuar os aspectos históricos em torno da publicação da Revista do Livro entre os anos de 1956 e 1961, julgamos procedente retornar ao início do século, tendo em vista a necessidade de conhecer as origens do Instituto Nacional do Livro e os meandros de criação da revista.
Antecedentes à criação do Instituto Nacional do Livro
“O amor ao país e o desejo de ser útil aos seus concidadãos foram os únicos incentivos que determinaram os autores desta obra a uma empresa que, excetuando a pouca glória que caber-lhes pode, nenhum outro proveito lhes funde. Há muito reconheciam eles a necessidade de uma obra periódica que, desviando a atenção pública sempre ávida de novidades das diárias e habituais discussões sobre coisas de pouca utilidade, e o que é mais, de questões sobre a vida privada dos cidadãos, os acostumasse a refletir sobre objetos do bem comum e da glória da pátria. Tal é o fim a que se propõem os autores desta Revista, reunindo todas as suas forças para apresentar, em um limitado espaço, considerações sobre todas as matérias que devem merecer a séria atenção do Brasileiro amigo da glória nacional. ”
Nitheroy, Revista Brasiliense Sciencias, Lettras e Artes, 1836.
Conhecido pela historiografia como símbolo da modernização das instituições brasileiras, o governo de Getúlio Vargas propôs reformas que marcaram profundamente a história do Brasil. Além das mudanças econômicas, sociais e políticas, a Era Vargas (1930 – 1945) destacou-se também no campo da educação, a começar pela criação do Ministério da Educação e
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Saúde Pública. Até então, a educação brasileira era subordinada ao Ministério da Justiça, através do Departamento Nacional de Ensino.
Impulsionado pelo Manifesto dos Pioneiros da Educação
Nova40, o governo Vargas promulga várias reformas no sistema educacional brasileiro, começando pela universalização do direito à educação através da Constituição de 193441. Entre os
anos de 1934 e 45, sob a égide de Gustavo Capanema Filho, o Ministério da Educação e Saúde Pública promove reformas nos ensinos primário, secundário e universitário brasileiros.
40 Lançado em 1932, o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova manifestava
o ensejo de um segmento de alguns educadores de promover reformas no sistema educacional brasileiro. Redigido por Fernando de Azevedo, o manifesto foi assinado por 26 intelectuais, dentre eles Anísio Teixeira, Afrânio Peixoto, Lourenço Filho, Roquete Pinto e Cecília Meirelles. Dele, do manifesto, sai a proposta da criação de um plano geral da educação, capitaneado pelo governo federal. Outro aspecto significativo do manifesto foi sua oposição à presença controladora da Igreja Católica na educação brasileira no momento. O texto pode ser consultado no Portal do Domínio Público, disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/me4707.pdf>. Segundo Schwartzman, “o Movimento da Escola Nova, sem se constituir em um projeto totalmente definido, estruturava-se ao redor de alguns grandes temas e de alguns nomes mais destacados. A escola pública, universal e gratuita ficaria como sua grande bandeira. A educação deveria ser proporcionada para todos, e todos deveriam receber o mesmo tipo de educação. Ela criaria, assim, uma igualdade básica de oportunidades, a partir da qual floresceriam as diferenças baseadas nas qualidades pessoais de cada um. Caberia ao setor público, e não a grupos particulares, realizar essa tarefa; pela sua complexidade e tamanho, como também pelo fato de que não seria o caso de entregá-la ao facciosismo de setores privados. Este ensino seria, naturalmente, leigo”. (SCHWARTZMAN, S. et al. Tempos de
Capanema, 2000, p. 70.). O projeto da Escola Nova, de Anísio Teixeira ou
Fernando de Azevedo, disputou espaço com a Igreja Católica de Jackson de Figueiredo ou Alceu Amoroso Lima, sendo esses últimos os que mais conseguiram impor suas teorias educacionais para o país.
41 Além da universalização do ensino, ou seja, o direito universal de acesso à
educação, a Constituição de 1934 aprofundou outras reformas na educação nacional, tais como o estabelecimento de um sistema de ensino universal, gratuito e obrigatório; a fixação de percentuais orçamentários mínimos a serem aplicados pelos municípios (10%), estados (20%) e união (10%).
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Para além do ensino tradicional, o Manifesto apontava uma guinada a favor de práticas educacionais mais amplas, insistindo principalmente na educação extraescolar. Diversas foram as iniciativas do governo Vargas ao criar instituições para promover a intervenção estatal na educação e na cultura brasileiras. Dentre elas, destaca-se, em 1933, a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o SPHAN; em 1936, do Instituto Nacional de Cinema Educativo; e, em 1937, da Radiodifusão Educativa, do Museu de Belas Artes e do Serviço Nacional do Teatro.
Partindo, portanto, das propostas manifestas em 1932 – e através do artigo de número 150 da Constituição de 1934 – o Governo Vargas passa a elaborar o Plano Nacional de Educação (PNE). Para tal fim, em janeiro de 1937, Getúlio Vargas assina o decreto que dá origem ao Instituto Cairu42. O Instituto nasceu com as atribuições de elaborar o PNE e a Enciclopédia
Brasileira, dois desejos varguistas para a educação brasileira.
Teve, porém, vida curta, sendo transformado em Instituto Nacional do Livro no ano seguinte.
Porém, antes mesmo da criação do Instituto Cairu, o Ministério da Educação e da Saúde Pública já havia se mobilizado para a elaboração do PNE, conseguindo, em setembro de 1937, encaminhar o projeto do Plano para o Legislativo. Criticado por sua demasiada extensão e por, em lugar de apontar diretrizes, propor um código minucioso para a educação, o plano não chegou a ser votado pelos deputados. Em 10 de novembro de 1937 foi instaurado o Estado Novo e, com o
42 Também registrado como Cayrú. Do Tupi, árvore de folhas escuras. Cairu
também dá nome a município litorâneo no estado da Bahia e a um dos barcos brasileiros atacados pela Alemanha Nazista durante a Segunda Grande Guerra. Porém, a escolha do nome para o Instituto vem, suspeitamos, de José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu. Economista e historiador, Lisboa teve participação ativa no processo de independência brasileiro. Foi responsável também pela difusão das teorias econômicas de Adam Smith em terras tupiniquins, através do seu livro Princípios de economia política, publicado em 1804. Patrono da cadeira número 20 dos sócios correspondentes da Academia Brasileira de Letras.
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fechamento do Legislativo, o Ministério da Educação implementou o PNE sem o debate político.
Dentre as diretrizes do Plano, destaca-se o capítulo acerca da Educação Extraescolar, cujo programa incitava, dentre tantos aspectos, a importância da publicação de livros originais, revistas ou jornais de interesse educativo e edição de obras inéditas ou reedição de esgotadas; bibliotecas permanentes e circulares, públicas ou privadas, que passam a receber auxílio da União através da remessa regular e gratuita de publicações de caráter cultural, da organização de bibliografias e da adoção de regras uniformes de biblioteconomia.
Na esteira dessas diretrizes, em 21 de dezembro de 1937, através do decreto-lei número 93, Getúlio Vargas e Gustavo Capanema Filho assinam a ordem de criação do Instituto Nacional do Livro cujos trabalhos seriam desenvolvidos no prédio da Biblioteca Nacional e cujas atribuições seriam:
(Art. 2) a) Organizar e publicar a Enciclopédia Brasileira e o Dicionário da Língua Nacional, revendo-lhes as sucessivas edições;
b) editar toda sorte de obras raras e preciosas, que sejam de grande interesse para a cultura nacional;
c) promover as medidas necessárias para aumentar, melhorar e baratear a edição de livros no país bem como facilitar a importação de livros estrangeiros;
d) incentivar a organização e auxiliar a manutenção de bibliotecas públicas em todo o território nacional. 43
Percebe-se, assim, uma possível delegação dos artigos 397 (acerca da publicação de livros originais, a edição e reedição de obras clássicas e / ou esgotadas) e 399 (acerca da remessa regular e gratuita de obras consideradas de caráter cultural) do PNE como atribuições do Instituto Nacional do Livro.
Através do decreto, o INL foi estruturado com uma direção geral, três seções técnicas e um Conselho de Orientação.
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As seções ficaram divididas, de acordo com o artigo quinto do decreto, em Seção Enciclopédia e Dicionário, Seção Publicações e Seção Bibliotecas. Ao Conselho de Orientação, de acordo com o artigo sexto, foi atribuída a elaboração do plano de organização da Enciclopédia Brasileira e do Dicionário da Língua Nacional, além de pareceres acerca das medidas que o Instituto deveria tomar para cumprir seus objetivos. O Conselho foi pensado com a composição de cinco membros, nomeados pelo Presidente da República, cujos préstimos seriam gratuitos (sem remuneração) e constituiriam serviço público de relevância.
Institutos Cairu e Nacional do Livro
Os castelos Primeiro / Ulysses
O MYTHO é o nada que é tudo. O mesmo sol que abre os céus É um mytho brilhante e mudo – O corpo morto de Deus, Vivo e desnudo. Este, que aqui aportou Foi por não ser existindo Sem existir nos bastou Por não ter vindo foi vindo E nos creou.
Assim a lenda se escorre A entrar na realidade E a fecundal-a decorre. Em baixo, a vida, metade De nada, morre.
Fernando Pessoa, Mensagem, primeira parte. Criado a partir da reforma do Instituto Cairu, o INL tem sua origem vinculada à reforma iniciada no Ministério da Educação e Saúde em janeiro de 1937, e ao projeto pessoal de
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Gustavo Capanema Filho, cuja ambição era a elaboração e publicação de uma Enciclopédia Brasileira que atendesse às peculiaridades da cultura brasileira.
De acordo com Suely Braga da Silva44, em consulta ao
arquivo Gustavo Capanema45, em fevereiro de 1936 formou-se uma comissão encarregada de esboçar um plano para a realização do projeto do então Ministro da Educação e Saúde Pública. Formada por Alceu Amoroso Lima, Luís Camilo de Oliveira Neto e Rodolfo Garcia, a comissão, ao analisar as diversas publicações do período, tais como a Enciclopédia Universal, a Britânica, a Treccani46, percebeu que as limitações
brasileiras (sobretudo materiais) os impediam de realizar um plano tão grandioso. Elaborou-se, então, o Instituto Cairu. Composto por uma Diretoria Técnico-Administrativa e um Conselho Superior (presidido pelo Ministro da Educação), o Cairu instalou-se na Biblioteca Nacional em janeiro de 1937. Durante sua curta duração, o único legado produzido pelo órgão foi o projeto de Relação bibliográfica de linguística americana, cuja publicação ficou restrita ao primeiro fascículo, sob direção de Eugênio de Castro.
Em 15 de dezembro de 1937, Capanema encaminha uma carta sugestão para Getúlio Vargas, recomendando a criação do
44 SILVA, Suely Braga da. Op. cit.
45 Depositado no CPDOC, Centro de Pesquisa e Documentação de História
Contemporânea da Fundação Getúlio Vargas.
46 Laurence Hallewell desloca o ensejo de publicação da enciclopédia de
Capanema para Getúlio Vargas: “Vargas, fazendo-se ditador, decidiu evidenciar a necessária e paternal preocupação com a cultura de seu país. Inspirado na magnífica enciclopédia italiana Treccani, então recentemente completada no governo de Mussolini, e que já levara a empreendimento semelhante no Portugal de Salazar, Vargas sonhou com uma enciclopédia e um dicionário nacional semelhantes para o Brasil.” (In: O livro no Brasil: sua história. 1985, p. 313). Porém, além de a ideia de elaboração da enciclopédia ser anterior ao estabelecimento do Estado Novo, não reconhecemos em Vargas ditador o desejo de sua publicação, uma vez que os recursos dotados aos institutos responsáveis pela enciclopédia foram parcos durante toda a Era Vargas. Se a enciclopédia era sua preocupação paternal, porque não a dotar de recursos suficientes para sua realização?
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INL, apoiado principalmente no ensejo de pôr em prática os artigos referentes às Políticas Públicas livreiras do PNE. Seguindo as sugestões de seu subordinado, Vargas decreta, dois dias mais tarde, a ampliação dos afazeres do Instituto Cairu, criando, assim, o Instituto Nacional do Livro.
Ainda em 1937, Capanema convida Augusto Meyer para assumir a direção na nova instituição. Diretor da Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul entre 1930 e 1936, Meyer, poeta, ensaísta e crítico literário, já possuía familiaridade burocrática com a gestão pública e certo destaque na cena literária do período. Apoiado no movimento modernista de 1922, Meyer tinha valorizado ainda mais as “raízes da terra”, o regionalismo gauchesco, marca já forte na literatura rio- grandense47.
Porém, situações de instabilidade política, tais como a possibilidade de demissão de Gustavo Capanema na virada entre 1937 e 1938 e o estabelecimento do Estado Novo, retardaram o pleno funcionamento do INL em, no mínimo, dois anos. Em relatório de atividades assinado por Meyer em outubro de 194048, esse justifica as reduzidas atividades do Instituto alegando que a efetiva nomeação e instalação dos funcionários e das seções que estruturaram o INL deu-se somente nos fins de 1939, assim como a própria nomeação de Meyer, efetivada somente 120 dias depois da publicação do decreto de número 93.
Para além do retardo na estruturação do órgão, um erro político-administrativo de Meyer reforçou a inatividade do INL em seus dois primeiros anos. Em meados de 1939, dispondo
47 Nas palavras de Moysés Vellinho, Meyer refundava o regionalismo gauchesco
ao incorporar influências modernistas a um regionalismo que “à força de repetir- se, estereotipava-se, empobrecia-se. Ao repisar os mesmos tipos, as mesmas situações, os mesmos cenários, sem alcançar outras dimensões que não as de superfície, vinha perdendo substância psicológica e horizonte social, e já acusava alarmantes sintomas de esgotamento”. In: VELLINHO, Moysés. Letras da
província: crítica literária. Porto Alegre: Globo, 1960, p. 48.
48 Documento recuperado por Suely Braga da Silva no fundo Gustavo Capanema,
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finalmente dos funcionários necessários, Meyer empenha-se no lançamento da Revista do Instituto Nacional do Livro, projeto apresentado ao ministro Capanema em outubro do mesmo ano. Meyer não contava com a falta de apoio do ministro e teve seu projeto por ele vetado, ainda que este não negasse a importância e o valor da proposta. Segundo Capanema, uma revista não estava nem nas prioridades nem nas atribuições legais do INL Os seus poucos recursos, humanos e materiais, deveriam ser canalizados no cumprimento das atividades previstas pelo seu decreto de formação.
Cancelado o projeto, Augusto Meyer vê-se obrigado a cumprir suas atribuições legais. Para isso, nomeia Américo Facó para chefiar a Seção da Enciclopédia e do Dicionário. Nesse momento, nova discórdia com Capanema. Meyer defendia Facó, enquanto o então ministro faria o mesmo convite a Mário de Andrade. O autor de Macunaíma, calejado com os desdobramentos da intervenção do Estado Novo em São Paulo49
– o que interrompeu seus trabalhos frente ao Departamento de Cultura de São Paulo – negava-se a assumir cargos de chefia. O impasse foi resolvido com a nomeação de Facó para a chefia e de Mário de Andrade como consultor técnico.
A partir daí, só lhe cabem pequenos trabalhos e uma situação incerta, que Mário de Andrade aceita por falta de alternativas, com grande custo pessoal. Em junho de 1939, Mário de Andrade trabalha precariamente para o Instituto Nacional do Livro e
49 “Após o golpe do Estado Novo, em 1937, São Paulo ficou sob intervenção
federal e a situação política mudou muito. Um outro diretor foi nomeado para o Departamento de Cultura e lançaram-se acusações nunca comprovadas acerca de irregularidades na administração de Mário de Andrade. Foi feita uma devassa e, apesar de não se ter encontrado nada que fundamentasse as acusações, o escândalo e a tristeza de ver perdido um trabalho realizado com tanto empenho, foram o suficiente para Mário de Andrade pensar em suicídio. Trocou a morte por um auto-exílio no Rio de Janeiro, fugindo de um ambiente que no momento lhe era insuportável”. AMARAL, Adriana Facina Gurgel do. Uma enciclopédia
à Brasileira: o projeto ilustrado de Mário de Andrade. In: Estudos Históricos,
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escreve a Capanema pedindo que lhe paguem pelo que produziu. A situação é desesperadora:
“(...) venho pedir que me faça pagar isto imediatamente, e por outra via possível aí do ministério, pois estou numa situação insustentável, crivado de dívidas ridículas, sem cara mais para me apresentar a certos amigos, que positivamente não têm a obrigação de me sustentar. Felizmente não estou acostumado, em quarenta e cinco anos de vida, a viver de expedientes e situação penosa. O resultado é um desespero, uma inquietação, uma desmoralização interior que não mereço, e a que, espero, o ministério não tem razão para me obrigar’. Nessa época, Mário de Andrade aguardava uma nomeação prometida pelo ministro, que, entretanto, jamais se corporifica: ‘muito mais agradável para mim será trabalhar com você, no Instituto do Livro, mas se não é possível, suplico mais este favor a você de me dizer francamente o que há, para que eu me arranje50”.51
Os trabalhos produzidos por Mário que Schwartzman faz referência são de 1939 e 1940, biênio em que ele apresenta o
Anteprojeto do plano básico da Enciclopédia Brasileira, no qual
expõe seu desejo de realizar uma obra capaz de atender a todas as camadas da sociedade brasileira “com um critério conceptivo geral; nem histórico, nem filosófico, nem científico, mas francamente objetivo e realista, nada sentimental, que não dê opiniões nem palpites, nem tome partido”52.
Afastado do cargo que sequer chegaria a ocupar de maneira oficial, Andrade deixa vacante sua vaga e seu projeto. Um dos motivos do afastamento de Mário foi a suspeita que lhe levantou “seu velho amigo Augusto Meyer [que] desconfiava que ele estava ‘mexendo os pauzinhos’ para substituí-lo na direção do INL”53. O então diretor da seção da Enciclopédia,
Américo Facó, em 1944, em seu relatório de atividades,
50 [Nota do autor] Carta de Mário de Andrade a Capanema, 30 de junho de 1939.
GC/Andrade, M. doc. 9, série b.
51 SCHWARTZMAN, Simon, et all, Op. cit, p. 100 – 101.
52 ANDRADE, Mario de. Anteprojeto do plano básico da Enciclopédia Brasileira, apud SILVA, Suely Braga da, op. cit, p. 54 – 55.
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apresenta não mais que justificativas, a grande maioria de origem material, financeira, para a inexistência de proposta para a obra. Informalmente arquivado, o projeto da enciclopédia será retomado somente em 1956, a partir da elaboração de um novo plano por parte de Euryalo Cannabrava, então chefe da Seção da Enciclopédia, e por Paulo Assis Ribeiro, seu subordinado. Novo plano, novo revés.
A Enciclopédia Brasileira voltaria ainda em 1967, durante a ditadura militar. Ao pronunciar seu discurso de posse do cargo de diretor geral do INL, o general Umberto Peregrino declara:
E a enciclopédia? Esse será talvez o setor a desafiar-nos mais contundentemente. Não há, como é notório, correspondência entre os recursos para ali canalizados cada ano, por anos e anos, e os resultados até agora apresentados. Acreditamos, porém, que nossos planos relativamente à Enciclopédia conduzirão à solução do impasse em que caiu a sua elaboração. Pretendemos simplesmente abandonar a elaboração global, de porte esmagador, sem condições práticas de continuidade, para enveredar pelo trabalho distribuído por assuntos, que serão confiados a equipes especializadas, submetidas a coordenadores não apenas capacitados intelectualmente, senão também imbuídos de responsabilidade. Nessas condições, é possível que, dentro de dois anos, já possamos dispor de alguns assuntos reduzidos a verbetes, devidamente dicionarizados para publicação em fascículos. 54
Novo plano, novo revés. O INL será encerrado em 1990 sem cumprir totalmente a primeira das suas atribuições de 1937. A Enciclopédia Brasileira não chegaria nunca às prateleiras e aos lares brasileiros. Os anos de dedicação dos mais diversos intelectuais que passaram pela Seção não seriam, porém, totalmente em vão. Os projetos de Mário de Andrade e de Euryalo Cannabrava exerceram influência significativa nos números que compõem o nosso corpus da Revista do Livro. Voltaremos a esses projetos na terceira parte deste trabalho. Já
54 PEREGRINO, Umberto. Discurso de pose no cargo de Diretor Geral do Instituto Nacional do Livro, in: Revista do Livro, nº 31, 1961, p. 86.
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os estudos elaborados sob a direção do general Umberto Peregrino serviram de substrato para algumas políticas públicas levadas a cabo pelo Instituto entre os anos de 1967 e 1970.
Durante sua existência, a chefia do INL foi designada a Augusto Meyer, entre os anos de 1937 e 1955; a José Renato Santos Pereira, entre 1956 e 1961; novamente a Augusto Meyer, de 1961 a 1964; a Pereira Caldas, entre 1964 e 1967; a Umberto Peregrino, de 1967 a 1970, encerrando suas atividades sob a égide de Maria Alice Barroso, ainda em 1970.
Mário de Andrade não foi, contudo, o único intelectual de grande projeção nas fileiras do Instituto. Se a Seção da Enciclopédia pôde contar com os préstimos do autor da