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Na foto 1, tem-se a representação de uma casa cercada, construída com pequenos pedaços de madeiras de árvores, típicas da Caatinga22. Essa estrutura, típica no cotidiano do homem nordestino, foi usada como elemento decorativo do portal, na entrada da festa.

Ao posicionar-me em frente ao portal, comecei a imaginar os pequenos vilarejos, localizados próximos a minha cidade. Apesar de muitos interpretarem o espaço rural como um lugar de sofrimento, o vejo de um modo diferente. A caracterização do rural, no portal, representou a paz, o silêncio, a liberdade, a bonança, a saudade e a infância. Nesse instante, uma diversidade de flashes veio em mente, eu estava revivendo cenas da minha infância, quando ia ao sítio de familiares, e gozava da liberdade em correr por espaços imensos, sem carros e casas, de sentir nas solas dos meus pés descalços as texturas da terra, da areia e lama. Essa viagem momentânea ao sítio permitiu que nesta noite eu fosse bem mais feliz.

Existem registros afirmando que os elementos que simbolizam o rural são utilizados nas festas juninas há muito tempo no Brasil. Comprovando essa informação, Chianca (2006) destaca que, na cidade de Natal – RN, no dia 26 de junho, do ano de 1900, dois trechos de um artigo publicado pelo jornal d’A República, revelavam o seguinte: em todas as ruas apareciam as tradicionais fogueiras, os bosques e outros motivos de decoração – os festejos prometiam certa animação, com as ruas caracterizadas como sítios, ou seja, como espaços rurais.

Na cidade de Santa Cruz – PB, também pôde-se observar durante a época junina, diversas casas, lojas, ruas, escolas e outros espaços públicos decorados com bandeirolas coloridas, ou com adereços que simbolizam o rural nordestino, como: potes de barros, urupembas, cestos e chapéu de palha, tecidos coloridos, dentre outros. Assim sendo, compreende-se que esses recursos simbólicos têm também como função de nutrir o clima de festividade nas cidades e entre as pessoas, fazendo com que todos, direta ou indiretamente, acabem envolvidos por esse clima junino. Particularmente, esse contato com os adereços simbólicos nos espaços que não são da festa, me permite sentir que no mês de junho em Santa Cruz – PB, todo dia é dia de festa de São João.

Souza (2013) aponta que a representação do espaço rural nas festas juninas, geralmente, acontece porque as pessoas das cidades não encontram mais em seu cotidiano elementos que caracterizam aquele tipo de espaço. Esse autor e Chianca (2013) compartilham com pensamentos bem parecidos, quando refletem que a representação do rural no São João se relaciona à saudade e a memória de quem um dia já viveu no ambiente rural.

22 A caatinga é uma vegetação exclusiva do bioma brasileiro. Essa vegetação é típica do clima semiárido que é

encontrada em área do nordeste do Brasil. Geralmente, as árvores que constituem essa vegetação possuem espinhos e perdem suas folhas no período de estiagem.

Dessa forma, o processo de modernização fez com que os elementos que são símbolos das festas juninas, que eram utilizados nas casas das pessoas que moram em cidades pequenas ou na zona rural do Nordeste, fossem substancialmente trocados por aparelhos eletrônicos. Talvez, o ato de aderir ao uso desses equipamentos, seja o resultado da procura pelo conforto e rapidez. Contudo, durante as festas de junho, é possível perceber seus retornos.

A presença desses tipos de símbolos nas festas juninas de Santa Cruz – PB, as quais meu corpo junino vivenciou, permitiu que eu, constantemente, me deparasse com pessoas contemplando a beleza de tais adereços, muitas vezes comparando com os que já possuíram em suas casas. Tais lembranças trazem para as pessoas que observavam, vários tipos de sentimentos, como: a saudade, alegria ou tristeza, pois, em contadas vezes, percebi que as pessoas ao tocarem esses elementos se emocionavam ao falar sobre os momentos fáceis ou difíceis que foram vividos por eles na zona rural.

A ideia apontada por Chianca (2013), em sua pesquisa, traça argumentos que sinalizam o simbolismo rural das festas de São João, apresentando-a como uma categoria difusa, manifestando-se de forma ambígua, pois o rural é caracterizado, por muitos, como um local que ora possui períodos chuvosos e com abundância, outrora como um ambiente pobre e seco com falta de chuva, sendo também testemunho de injustiças sociais e misérias.

Entende-se que, essa retratação do Nordeste, nos festejos juninos, pode ser dúbia, e depende do que se propõem a pensar neste aspecto, pois estes podem representar tanto a valorização da tradição e dos elementos utilizados por nossos antepassados, como também, podem revelar a desvalorização da região, quando comparada às outras regiões brasileiras. Isto é representado ao visualizamos a pobreza das figuras arquitetônicas das casas de madeira, de tamanho reduzido, com cortinas de um tecido barato, situados em um espaço citadino.

Nas festas juninas de Santa Cruz – PB, o rural não estava simbolizado somente nos espaços decorativos, durante o evento, foi possível perceber que as pessoas costumavam utilizar roupas e adereços que eram parecidos com as vestimentas que os homens do campo usam. Contudo, as roupas em tons de xadrez quadriculados não me chamavam tanto a atenção quanto às matizes amarronzados dos chapéus, que eram vistos nas poucas cabeças dos participantes da festa. A compreensão impressa em meus sentidos pelas roupas dessas características, talvez, seja uma decorrência da habitualidade de ver pessoas as utilizarem em outros ambientes que não sejam festivos, e a admiração pelo chapéu se dá pelo contrário, pois, em nosso município, não se costuma ver pessoas, em festas, usarem essas indumentárias, é comum somente no período de São João.

Apesar de estar fixado em quase todos os ambientes das festas que vivenciei, eu ficava enfeitiçado quando via os chapéus fincados nas cabeças das pessoas. Particularmente, o chapéu possui um sentido de mistério, pois as pessoas geralmente os utilizam para esconder algo. Nessas festas, ao utilizar o chapéu, eu pude comprovar o que acabei de comentar. O chapéu encobriu algumas imperfeições da pele do meu rosto e meu cabelo que já estava um pouco assanhado, além disso, ocultou as movimentações do meu olhar e implementou alguns centímetros em minha estatura. Sem o costume de usar o chapéu, durante o tempo que o utilizei e andei pela festa, passei por vezes, despercebido pelas pessoas.

Ao usar o chapéu, comecei a me questionar como uma coisa tão pequena daquela pode mudar a identidade de uma pessoa. Singularmente, ao fazer uso do chapéu, me senti mais bonito, com mais liberdade e segurança. A partir disso, passei a não mais associar a figura do chapéu somente ao homem da roça, mas, pela junção das curvas sinuosas de suas abas, ficou guardada em mim a memória do chapéu, como um misto de beleza e elegância.

Lenzi (2015), doutoranda em Ciências Sociais, pelo programa de Antropologia da Universidade de Salamanca, produziu um artigo científico, fruto da sua dissertação de mestrado, que teve como objetivo compreender e analisar a simbologia presente no acessório chapéu. A autora apresentou por meio de alguns discursos com outros estudiosos à complexidade dos valores simbólicos que o chapéu possui e, dentre eles, destacou que esse objeto possui a função de determinar a identidade das pessoas. O seu estudo assegura que o indivíduo que usa o chapéu pretende mostrar sua identidade ou mudar para uma nova.

Chevalier (1990) destaca que além ser signo de poder e sabedoria, o chapéu é também um símbolo que representa a identificação. Para Lexicon (1998, p. 54 apud Lenzi, 2015, p. 3), o chapéu “simboliza muitas vezes a cabeça ou os pensamentos; mudar de chapéu pode significar também mudar de ideia”.

Jung e Von Franz (1968 apud Lenzi, 2015, p. 4) asseguraram que:

[...] a troca de chapéu poderia mudar o pensamento de tal modo a dar outra visão do universo para o indivíduo. Aquilo que o indivíduo é – a sua real identidade – poderia, na verdade, ser um segredo e, se um simples chapéu não pode ser suficiente para definir essa identidade, pelo menos poderia contribuir para desvendar o seu estado de ânimo.

Lenzi (2015) reflete que o simbolismo do chapéu em busca de uma nova identidade, só é possível devido a esse elemento alterar nosso corpo e, consequentemente, a nossa imagem. Sem dúvidas, ao usar o chapéu, senti que ele fazia parte do meu corpo, era como se fosse uma

extensão da minha cabeça, ele contribuía para que alguns dos meus traços identitários fossem respaldados e outros ofuscados. Assim, concordamos com o que foi dito pelos autores, associando as significações simbólicas provocadas e edificadas pelo o uso do chapéu, durante as festa de junho.

Evidenciamos que se não fosse à utilização do chapéu pelas quadrilhas juninas das escolas, que se apresentaram no arraial, possivelmente, não viríamos mais com tanta frequência o seu uso nas festas juninas, foi o que percebemos durante a experiência na comemoração das festas de São João, em Santa Cruz – PB, pois, foram contáveis as ocasiões em que vimos alguém usar o chapéu, inclusive, o de palha. Essa resistência ao uso do chapéu, nas festas juninas, mesmo sendo tão frequente no espaço rural, talvez seja explicada pelo fato das pessoas associarem esse objeto como adorno típico do homem matuto. Percebeu-se que as poucas pessoas que o utilizam, essas não tinham a intenção de incorporar os hábitos dos homens da roça, ou ser comparado pelos seus comportamentos, em nossa compreensão, o uso do chapéu os constituía como sujeitos simpáticos, descontraídos e brincalhões.

Se o chapéu de palha era pouco usado pelas pessoas que participam dos festejos de São João, em Santa Cruz – PB, ao contrário, nos espaços decorativos, era comum vê-los em grandes quantidades; eles estavam em todos os lugares, suspensos em cordões nos ares, em postes, nas barracas e, numa fila sequenciada, expostos em uma parede na parte superior do palco, por onde passaram as principais atrações musicais da festividade, como mostra a foto 2.

Foto 2. Sequência de chapéus: decoração do palco das festas juninas em Santa Cruz – PB