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Fonte: Acervo do Arquivo do Mosteiro Cisterciense em Jequitibá

Historicamente, os cistercienses implantaram os seus mosteiros em vales, locais desérticos e inóspitos. Nos primórdios da ordem, as orientações apontavam na direção de que os mosteiros deveriam ser erigidos o mais longe possível das zonas habitadas, de modo a favorecer o ascetismo religioso.

O Exórdio de Cister – documento cisterciense que trata dos primeiros elementos constitutivos de uma compilação legislativa – relata desse modo a chegada dos monges encabeçados por Roberto de Molesmes, em Cister, em 1098:

[…] depois de muitas e gradíssimas dificuldades que há que suportar por parte de quantos querem viver santamente em Cristo conseguiram por fim ver realizado o seu desejo e chegaram a Cister. Era este local ‘o sítio de horror e vasta desolação’ mas considerando aqueles soldados de Cristo que a dureza do lugar não estava em dissintonia com o rigor de seu propósito e do projeto que havia concebido no seu espírito como se aquele lugar lhe tivesse sido

proporcionado pela vontade divina, tornavam-no em tanta maior estima quanto mais amor tinham pelo seu propósito. (OS

CISTERCIENSES: DOCUMENTOS PRIMITIVOS, 1997, p. 135).

O isolamento e a subsistência são orientações fundamentais para a construção dos mosteiros cistercienses. A respeito desse tema a Regra de São Bento diz:

Seja, porém, o mosteiro, se possível, construído de tal modo que todas as coisas necessárias, isto é, água, moinho, horta e os diversos ofícios, se exerçam dentro do mosteiro, para que não haja necessidade de os monges vaguearem fora, porque, de nenhum modo convém às suas almas. (REGRA DE SÃO BENTO, ca. 529, cap. 65).

De um modo geral, as abadias cistercienses tem arquitetura bastante similar. Em termos práticos, os cistercienses procuraram soluções construtivas para que cada dependência favorecesse o espírito da regra. A planta-tipo cisterciense foi elaborada com grande influência do mais notório membro da ordem, São Bernardo de Claraval.

Fundada por São Bernardo, entre 1135-1145, a Abadia Cisterciense de Claraval, tal como se refere o historiador George Duby (1990), foi o arquétipo da construção cisterciense. Padrão, modelo e gabarito, Claraval foi fonte inspiradora de inúmeras abadias cistercienses. Duby, comentando a arte e a arquitetura dos mosteiros e igrejas cistercienses salienta que:

O edifício cisterciense atingiu a amplitude que ainda vemos hoje, depois de tantas destruições, porque o estilo de vida religiosa esboçado por Roberto de Molesmes, fixado, depurado e abrasado pela palavra de São Bernardo e projetado por ela nos quatro cantos do mundo, respondia à expectativa de uma sociedade que se transformava muito rapidamente e, sobretudo, ao que havia de novo nas estruturas da Igreja. (DUBY, 1990. p. 117).

A extrema simplicidade da liturgia cisterciense refletia-se também na arquitetura dos seus mosteiros, construídos sob o signo da humildade e da austeridade. Recusando a ornamentação excessiva, os cistercienses exaltaram em sua arquitetura a pureza das formas e o despojo do supérfluo. Sobre este tema, Ana Maria Tavares Martins, afirma:

Para os Cistercienses a simplicidade das linhas, a pureza das formas, a luminosidade e o seu claro-escuro bastam-se por si só. A arquitectura e a arte cistercienses não têm como finalidade o deleite, pois nada deverá desviar a atenção de Deus. Desde o plano das abadias à simplicidade dos materiais escolhidos tudo se conjuga para elevar a procura de Deus e busca da santidade. Para os defensores da via ascética e da pobreza, apenas através da libertação dos bens materiais e da dádiva pode o Homem encontrar o amor espiritual e Deus e para S. Bernardo nada devia distrair o olhar e o espírito da ideia de Deus [...]. (TAVARES MARTINS, 2006, p. 91).

Abaixo apresentamos a planta-tipo cisterciense com suas principais dependências:

Figura 2 – Planta-tipo Cisterciense.

1. Igreja

2. Portal dos mortos 3. Coro de conversação 4. Sacristia 5. Claustro 6. Jardim e poços 7. Sala do Capítulo 8. Dormitórios 9. Casa do Capítulo 10. Sala de trabalho 11. Caldeira 12. Refeitório monges 13. Cozinha

14. Refeitório dos leigos

De acordo com esta planta-tipo, a igreja cisterciense era orientada na direção leste-oeste, com a cabeceira a leste; o claustro era encostado à igreja; a ala leste do claustro era dedicada a dependências dos monges com a sala capitular no piso térreo e o dormitório no primeiro andar com duas escadas, uma que baixa ao interior da igreja e a outra ao claustro; na ala do claustro contrária à igreja era situado o refeitório e a cozinha; na ala oeste (normalmente, com acesso independente do claustro), um edifício de pavimentos destinado aos conversos e armazéns com acesso independente à parte traseira da igreja.

Cabia a cada abade transmitir às suas abadias filiais o plano arquitetônico que aplicara anteriormente na construção da sua própria abadia e toda a experiência acumulada. Na construção do novo mosteiro, vivendo o dia a dia da obra, o abade deveria ter um monge encarregado, cuja responsabilidade era fiscalizar a execução da obra. Ainda segundo Duby:

À unidade genética, que é a da ordem, deve a arte cisterciense a sua própria unidade, que marca com um ar familiar as suas arquiteturas, [...]. No entanto, os mosteiros não são cópias e a construção cisterciense não é monótona. Cada edifício ajusta-se à mesma «forma» exemplar. Mas é deixado espaço para alguma

singularidade. (DUBY, 1990, p. 117 – Grifo nosso).

A construção do Mosteiro Cisterciense em Jequitibá foi realizada a partir de 1942. A responsabilidade técnica da arquitetura e engenharia do mosteiro foi atribuída ao padre austríaco Hermano Hahn, que fora recrutado por Dom Aloísio Wiesinger junto com outros padres com formação técnica em marcenaria, metalurgia e agronomia e que haviam chegado a Jequitibá desde 1939.

Hermano Hahn nasceu em Viena, na Áustria, em 21 de Fevereiro de 1883. Formou-se em engenharia civil na Escola Superior de Engenharia de Viena e atuou como professor na Escola Profissional de Villach. Em 1926 Hermano Hahn ingressou na Ordem Cisterciense, na Abadia de Schilierbach, de onde foi recrutado por Dom Aloísio Wiesinger.

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