A “entrada na reforma”7 anuncia a demarcação final daquela que vulgarmente se designa por “vida activa”. Ansiada por muitos, por constituir uma oportunidade de libertação da pressão, da responsabilidade, da escassez de tempo e de muitos outros constrangimentos que habitualmente são atribuídos ao exercício profissional, mas temida por outros, que fizeram da sua actividade laboral fonte de prazer, investimento pessoal e/ou reconhecimento social; o sucesso do confronto com este acontecimento depende de inúmeros factores e poderá repercutir-se em diferentes dimensões da vida dos indivíduos.
Reconhece-se, porém, que esta tarefa tem vindo a ser fortemente influenciada pela evolução histórica que o contexto laboral foi assumindo ao longo dos tempos, nas diversas sociedades. Algumas medidas que definitivamente interferiram na forma como os indivíduos passaram a aposentar foram as melhorias das condições de trabalho. A constituição dos direitos e deveres dos trabalhadores, a elaboração do Código Laboral, a criação de um Tribunal do
Trabalho, a proliferação de sindicatos dos trabalhadores, a diminuição do
número de horas laborais, a divulgação e implementação de medidas de higiene, segurança e saúde no trabalho entre muitas outras, terão sido medidas que exponenciaram este progresso.
A evolução do perfil de trabalho e de trabalhador, à qual se foi assistindo, constituiu igualmente fonte de mudança. Neste contexto destacam-se: a diminuição da estabilidade profissional, o aumento da feminização do trabalho, o surgimento de novas exigências laborais e o adiamento da idade de entrada na reforma. De certa forma potencializado por uma menor diversidade de áreas de exercício profissional, por uma menor afluência de procura de trabalho e por uma menor concorrência de mercado, a estabilidade profissional foi durante muito tempo uma realidade. Assim descreve Belsky (2001:332) quando profere “En los años 50, um hombre terminaba los estúdios, quizá tenía dos o três trabajos de prueba, y luego se assentaba ya en su profesión”.
Evolução do contexto laboral
Este quadro foi, no entanto, alterando-se gradualmente. Na actualidade, o aumento da competitividade e a maior rentabilização de recursos exige uma crescente flexibilidade laboral e essa mesma exigência obriga o trabalhador a efectuar diferentes ajustamentos ao longo da sua carreira profissional (sejam elas dentro da mesma empresa ou em outras de diferentes áreas).
O aumento da feminização do trabalho foi outro fenómeno que veio modificar a caracterização do meio laboral. Na verdade, se até aos anos sessenta o trabalho das mulheres se cingia, na sua maioria, ao contexto doméstico e familiar, com o movimento de emancipação da mulher o seu ingresso no mundo laboral passou a ser expressivo. Embora mais tardiamente (dado que em Portugal tal fenómeno só se começou a fazer sentir após 1974), se em 1965 as mulheres representavam 21,3% do total dos trabalhadores, em Abril de 2001 já constituíam 42,7% do número total de trabalhadores portugueses (Ministério do Trabalho, 2002). Esta situação repercutiu-se não apenas nas características da actual população laboral, mas também, e atendendo ao tempo em que tal fenómeno ocorreu, naquela que é a população que presentemente se encontra a “entrar na reforma”.
Também a evolução tecnológica e a informatização dos locais de trabalho originaram um exponencial desenvolvimento da economia global e social mas, em contrapartida, uma maior exigência em termos de conhecimentos nos trabalhadores e uma menor necessidade de dotação de recursos humanos. E se para os que conseguiram acompanhar esta mudança tal situação não se colocou como problemática, para aqueles que tiveram maiores dificuldades de adaptação, surgiram com bastante frequência sentimentos de frustração e de desmotivação face ao contexto laboral. Ainda assim, alguns autores defendem que esta mudança não terá sido motivo exclusivo para tal fenómeno ocorresse, isto porque novos empregos e novos postos de trabalho foram surgindo e estes, sim, foram sendo ocupados pelos indivíduos mais jovens e dotados de outras competências, que em nada interferiram com aquelas que eram exigidas
aos trabalhadores de mais idade (Belsky, 2001; Torres, 2005). Na verdade, ainda que tenha apanhado “desprevenidos” os de mais idade, esta evolução não terá sido necessariamente maléfica para a generalidade destes trabalhadores. Até mesmo porque, conforme Belsky (2001:335) refere “[...] Los trabajadores mayores no son viejos. Tienen entre 45 y 60 años, la edad de mayor creatividad […] ” e, tal como esta característica, muitas outras que também são atribuídas aos trabalhadores de mais idade (ex.: “experiência de vida”, status, perícia) terão, decerto, controlado este sentimento. Este acontecimento não constituiu, por conseguinte, razão suficiente para que se assistisse a uma maior percentagem de indivíduos a aposentarem-se. Pelo contrário, nos últimos anos, com a mudança para um tipo de trabalho fisicamente menos exigente, com o aumento da longevidade e, mais recentemente, com a insustentabilidade do sistema de segurança social, a idade de “entrada na reforma” tende a aumentar.
É sabido, porém, que o limite de idade não constitui condição necessária para a aposentação. A área profissional de exercício, o número de anos de trabalho, o estado de saúde, a rescisão de contracto laboral, os factores de índole pessoal e/ou alguns outros condicionalismos (ex.: a necessidade de prestar assistência a familiares, o facto do cônjuge já estar reformado, a eminente perda de regalias económicas e o desemprego prolongado), poderão estar igualmente na base da prematuridade cronológica do assumir deste estatuto. Entre os anteriores, a alteração do estado de saúde constitui um dos motivos mais apontados para que esta antecipação ocorra e para tal contribuem, em elevada representatividade, os acidentes de trabalho, as doenças profissionais e o diagnóstico de patologias do foro crónico degenerativo. Também os indicadores de saúde são denunciadores deste facto quando revelam que os acidentes cardiovasculares, o cancro e a diabetes são as maiores causas de reforma antecipada nos homens, enquanto a hipertensão é apontada como principal responsável por este acontecimento nas mulheres. Ainda segundo a mesma fonte, nos trabalhadores mais idosos, a artrite e as queixas a nível da coluna vertebral são as mais prevalentes (Rogers, 1997).
Mas mesmo perante um quadro desta natureza, a decisão de permanecer no activo ou de aposentação é na grande maioria das vezes uma decisão pessoal, fortemente marcada por algumas variáveis tão genéricas como as de
Motivos da reforma
Conceito de “Reforma”
carácter sócio-demográfico. Ilustrativos desta afirmação são os resultados que alguns estudos têm revelado nos quais os indivíduos detentores de maiores responsabilidades laborais, de maior nível educativo e que ocupam cargos de maior status social, apresentam maior predisposição para continuar a trabalhar do que aqueles que têm menor vantagem nestas dimensões (Ainken, 1995; Mitchel et al, 1988). Também as pessoas que mais se identificam com o seu trabalho e que são gestoras de si próprias, têm tendência a demonstrar uma maior satisfação com o trabalho e, consequentemente, a aposentarem-se mais tarde (Mitchel et al, 1988). Relativamente ao género, diversos autores (Ainken, 1995; Clausen, 2001) referem que as mulheres têm, na generalidade, uma maior relutância em aposentar-se. Mais, ainda, se forem solteiras e as casadas, tomam habitualmente esta decisão em conjunto com os seus maridos, em função de um plano estratégico familiar. Um outro aspecto interessante a salientar, no que diz respeito ao género, é o facto de ambos tomarem a idêntica decisão de reforma antecipada se tiverem baixos cargos e/ou se auferirem um baixo rendimento.
Contudo, seja qual for o motivo que esteja na origem da aposentação e independentemente de ser ou não desejada, a grande maioria dos indivíduos sente que este acontecimento interfere com as suas vidas e, quando questionados, uma considerável percentagem refere ter vivenciado ou ainda estar a vivenciar algumas alterações e/ou dificuldades adaptativas a este processo (Belsky, 2001; Fonseca, 2004a; Rosenkoetter, 1998).
Que acontecimento de vida será este, então, que confere tanta ambiguidade de sentimentos aos indivíduos?
Como se poderá definir, neste contexto, o conceito “Reforma”?
De uma forma muito genérica, a reforma pode ser percebida em três perspectivas major que se complementam entre si: como um evento, como um status e como um processo. Pode ser entendida como um evento, quando associada à descrição de um determinado acontecimento que marca uma etapa do ciclo vital, a partir do qual as vivências dos indivíduos se manifestam de forma inevitavelmente diferente. Esta diferença não se coloca
pelo facto de assumir um carácter meramente positivo ou negativo mas, sim, por constituir uma importante fonte de interferência no percurso das suas vidas obrigando os indivíduos a reestruturar alguns dos seus objectivos, que até então não se lhe tinham colocado em causa ou constituído fonte de dificuldade. Pode ser compreendida como um status, por envolver uma profusão de sentimentos que origina uma certa instabilidade nos indivíduos. Isto porque, se por um lado, confere algumas vantagens (ex.: o facto de se passar a ter direito a auferir uma pensão, a usufruir de algumas regalias sociais) por outro, a mudança que imprime na vida dos indivíduos poderá fazer emergir alguns sentimentos de ambivalência (ex.: o facto de finalmente se libertar das obrigações sociais mas de se perder o poder e controlo social). E, finalmente, poderá ser descrita como um processo,por constituir um “…acontecimento de vida que implica a ocorrência de fenómenos de transição-adaptação, que se reflectem em termos desenvolvimentais” (Fonseca, 2004a: 361), quer nos indivíduos quer nos sistemas seus envolventes.
Esta última perspectiva sugere então a existência de um construto que, no presente estudo, se passará a denominar por “Entrada na Reforma”. Mais do que um evento ou do que uma mera aquisição de um estatuto, a “entrada
na reforma” reportar-se-à a um período de transição no qual ocorrem
variadíssimos fenómenos de mudança, que fazem deste acontecimento de vida uma experiência específica e única ao longo do ciclo vital humano. Fundamentado num paradigma ecológico do desenvolvimento humano, este processo contemplará os indivíduos protagonistas da vivencia de “entrada na
reforma”, todos os sistemas envolvidos nessa mesma vivência (ex.: família, amigos, comunidade) e, ainda, o contexto espaço-temporal no qual o referido processo se desenvolve.
“Entrada Na Reforma”
Definição de Transição
Características da Transição