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2.2. Entrada e impressões do campo

2.2.1. Entrada no campo

O primeiro contato com a escola foi em maio de 2016, quando participei da visita guiada (modo como apresentam a escola: um educando guia o grupo de visitantes pela escola e vai explicando quem estuda ali, os núcleos de aprendizagem, a metodologia de ensino, etc.). No mesmo ano, tentei novo contato por e-mail para saber se estavam abertos a me receber como voluntária, mas não obtive resposta. Perguntei a Clara, educadora do Projeto e ela me falou que a Comissão de Recepção e Acolhimento de Voluntários e Oficinas (CRAVO) estava inativa, pois precisavam se reestruturar e reavaliar a forma de recepção do voluntariado, se seriam abertas vagas de acordo com as demandas da escola (ajudar no cuidado com as crianças menores, ajudar com impressões, documentos e cartazes, ajudar nas atividades do operacional – cozinha, limpeza e manutenção, oferecer uma oficina da qual já exista a demanda na escola) ou se seriam voluntários de acordo com o que escolhessem fazer. Foi um misto de admiração e decepção. Era uma pena que não estavam recebendo voluntários (uma das maneiras de se aproximar do Projeto, de participar e aprender), junto da admiração por terem percebido a necessidade de se reformularem diante da alta rotatividade de voluntários que não ficavam lá o tempo que se propuseram e das dificuldades de comunicação da Cravo com os contatos de possíveis

34 voluntários. Perceberam que não estavam conseguindo se organizar para receber as pessoas que queriam ir para lá nem para repensar como seria o voluntariado e qual seria a proposta para aqueles que quisessem participar. Esperei, esperei. Perguntei, mandei outro e-mail e nada.

Quando passei na seleção do mestrado em 2017, decidi bater na porta e ver no que dava. Fui para São Paulo e acabei os pegando de surpresa. Foram gentis em me receber assim, na cara dura, de me explicar esse processo de reestruturação e de informar qual era o novo caminho que estavam adotando agora e que entraria numa lista por ordem de data do contato. Já que, antes disso, estavam priorizando atender as pessoas que tentaram entrar em contato nos últimos 2 anos para checar se ainda havia interesse. Como o meu e-mail tinha se perdido, tive de entrar na fila de novo, pois agora este contato se dava pelo site, como me haviam explicado. O tempo acabou sendo perfeito e pude iniciar o trabalho de campo no segundo semestre do mestrado, como havia desejado.

Em julho fui chamada para uma reunião de recepção dos voluntários e pesquisadores (no caso, só eu era pesquisadora, os outros 7 eram voluntários). Nos apresentamos, fomos apresentados ao programa de voluntariado e de pesquisador, onde teríamos cada um, um tutor e passaríamos antes de mais nada por um período de Vivência, em que teríamos de percorrer uma série de atividades e, em contato com o tutor, perceber se já compreenderam a forma de funcionar da escola, seus valores, os espaços, as regras internas, etc.

Me programei para passar o período em São Paulo pois teria de cursar uma disciplina para cumprir a carga horária do curso exigida para o semestre, o que acabei fazendo como aluna especial na Universidade Federal de São Paulo (USP). Morei por alguns meses na casa de Clara e Titta, amigas que eu já conhecia do Rio de Janeiro, que me receberam muito bem e foi muito importante emocionalmente poder ficar lá. Clara alternava carona com Victor, outro educador do Âncora e disse que poderia ir com eles.

Chegando lá, perguntamos a Patricia Sousa (educadora integrante da CRAVO) que informou que meu tutor seria o próprio Victor. Fomos para a sala das reuniões da diretoria para nossa primeira conversa. Ele se apresentou, disse que é formado em História, que trabalha lá desde 2012 com história, música e arte, mas como o Projeto tem muitas demandas e é muito fluido, hoje ele atua na alfabetização. Contei do meu projeto de pesquisa, que tinha três pontos de

35 atenção ao estar ali, que eram: entender como se dá essa aprendizagem, os mecanismos de resolução de conflito e as relações de autoridade. Ele me falou de três regras de convivência que a escola tinha: 1) que eu poderia tirar fotos sem interromper as atividades para isso; 2) que há o mecanismo de “volta”, que é uma forma de pedir a quem desrespeitou o silêncio em uma sala – arrastando a cadeira, batendo forte a porta ou entrando correndo- que volte a fazê-lo sem fazer barulho, levantando a cadeira, por exemplo, e que poderiam me pedir isso se acontecer; 3) respeitar o direito do educando a buscar aprender – para isso eles não dão as respostas mas tentam entender porque daquela pergunta e orientar como descobrir, como pesquisar; que eu poderia acabar respondendo, pois é o que estamos acostumados a fazer, e que as crianças as vezes querem respostas rápidas, mas pra procurar não fazer e pensar sobre isso. Sugeriu que eu começasse tendo o Roteiro de Vivência como guia, especialmente porque eu não tinha um foco de pesquisa muito fechado como Alfabetização, por exemplo. Os voluntários costumam passar por todas essas atividades elencadas no roteiro, de acordo com sua disponibilidade de tempo, e então partir para alguma atividade mais específica que se interesse ou que haja demanda. Ainda, mesmo aos pesquisadores, os tutores pedem que se insiram em alguma atividade em algum momento, pois acreditam que seja coerente com a proposta de ensino deles - de aprender fazendo, aprender na prática e não só observar.

Acompanhei as atividades da escola durante agosto e setembro de 2017, de segunda a sexta-feira, nos períodos da manhã e da tarde normalmente, e por vezes a noite, quando algumas atividades eram marcadas após o horário de trabalho (reuniões com familiares, pedagógicas).

2.2.2. Impressões sobre o campo (primeiras impressões, dificuldades, dinâmica escolar, eu no