Há quase dois anos, eu havia sido convidada para a inauguração do Programa Sentinela, na qualidade de membro do Conselho Tutelar de Lages. Depois, participei de um treinamento com os funcionários – fazendo uma breve palestra sobre Violência Doméstica. Além disso, várias vezes levei adolescentes que tinham sido abordadas pela polícia para passarem a noite no Sentinela. Voltar àquele local para iniciar a minha pesquisa de campo motivou-me bastante, mas me exigiu uma mudança de postura: não era mais a Adriana, Conselheira Tutelar, que tomava atitudes em relação às crianças e adolescentes (medidas de proteção previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente). Era a Adriana, pesquisadora, que estava indo ao Programa para um outro tipo de aproximação e escuta d@s adolescentes.
Esta situação me reportou à Da Matta (1978), quando faz uma observação em relação à antropologia, que pode ser aplicada à pesquisa em outras áreas sociais:
só se tem Antropologia Social quando se tem de algum modo o exótico, e o exótico depende invariavelmente da distância social, e a distância social tem como componente a marginalidade (relativa ou absoluta), e a marginalidade se alimenta de um sentimento de segregação e a segregação implica em estar só e tudo desemboca na liminaridade e no estranhamento (Da Matta, 1978,p.28).
Persegui transformar o familiar em exótico, ou seja, me despir da posição das instituições de defesa de criança, do meu “lugar” de conselheira tutelar, católica, etc, para poder – como pesquisadora, praticar o exercício de estranhamento, de relativização, e assim “descobrir o exótico no que está petrificado dentro de nós” (Idem, p.29). Busquei desvelar sentidos e significações, conhecer por dentro, como afirma Da Matta, chegar ao fundo do poço da minha própria cultura.
Gilberto Velho (1978) adverte que ao fazer pesquisa em sociedades complexas, “dispomos de um mapa que nos familiariza com os cenários e situações sociais de nosso cotidiano, dando nome, lugar e posição aos indivíduos” (p.40). Porém, isto não significa que sabemos qual o ponto de vista e a visão de mundo das pessoas envolvidas numa situação social. Ele afirma que mesmo nas sociedades complexas mais hierarquizadas, existem situações ou papéis sociais que “permitem a crítica, a relativização, ou até o rompimento com a hierarquia” (p.40). De modo inverso ao que ocorre nas sociedades tradicionais e estáveis, nas sociedades complexas não existe consenso em relação aos lugares e posições, e por isso a possibilidade de conflito é permanente. Velho ressalta que o pesquisador, vivendo numa sociedade complexa, pode estar acostumado a certa paisagem social, onde os lugares e papéis desempenhados pelas pessoas podem parecer familiares, porém este conhecimento pode estar prejudicado por hábitos, posturas, estereótipos, e para conhecê-lo verdadeiramente, é necessário “por-se no lugar do outro” (Idem, p.40).
Desta forma, ao entrar no Programa Sentinela, procurei relativizar, e transformar aquilo que para mim havia sido familiar, em exótico, ou seja, procurei enxergar com um novo olhar aquele local e aquelas pessoas. Descrevi algumas impressões em meu diário de campo:
Conforme o combinado com a coordenadora do programa em exercício, dirigi-me ao Centro de Referência por volta das 14 horas. Notei ao chegar, que o portão estava trancado, e assim que bati, um senhor veio abri-lo. O Centro de Referência estava limpinho, com aspecto e cheiro agradável. Alguns cartazes nas paredes sobre violência e exploração sexual infanto-juvenil, e também alguns trabalhos executados pelas/os adolescentes me chamaram a atenção. Vários trabalhos eram desenhos de casa, com inscrição da palavra “família” em cima, com janelas e portas e algumas gravuras de crianças coladas. O fato deste espaço ser limpinho, claro e bem arrumado é aqui
destacado porque anteriormente, quando ali funcionava o NAPS –programa de atendimento a adolescentes dependentes químicos (desativado no município), o espaço tinha um aspecto sujo, escuro, gelado, nada aconchegante, apenas com uma televisão na sala principal, um tapete bem velho e um sofá para os adolescentes sentarem” (Diário de Campo, quarta-feira, 12 de março de 2003).
A porta de entrada do Sentinela dá num salão central, amplo, com uma mesa de fórmica com dez cadeiras num canto e uma mesa pequena, próxima à porta de entrada. Este salão tem portas para outras salas: a primeira, à direita, é a coordenação, onde ficam o telefone e duas mesas.
A segunda, também à direita, é a cozinha, extremamente limpinha e organizada – uma mesa no centro, pia, balcão, fogão, armário e uma cozinheira bastante simpática. Ainda à direita existe uma outra sala, com uma televisão e um vídeo, um quadro branco e algumas carteiras escolares. Palestras, capacitações e aulas de reforço ocorrem nesta sala.
A porta aos fundos do salão dá para a “sala dos educadores” espaço muito utilizado no programa: há uma mesa grande, onde são realizadas as atividades artesanais e coletivas. Este é um espaço bastante aconchegante e, no período em que frequentei o Sentinela, a maior parte das atividades, conversas, jogos e brincadeiras aconteceram ali.
No lado esquerdo do salão central, existe, logo no início, uma salinha bem pequena, envidraçada, para o computador e a digitadora. Subsequente a esta salinha e a esquerda, existe um pequeno corredor, com duas salas: a primeira do serviço social, e a segunda, do atendimento psicológico. Na sala da assistente social, que na data da minha primeira visita estava substituindo a coordenadora do programa, então em licença maternidade, havia um cartaz feito em papel pardo que me chamou a atenção: papéis colados em forma de coração, cheio de palavras de afeto e esperança e assinados por uma adolescente muito conhecida, na época considerada “terrível, que não quer se ajudar”. Com várias internações em clínicas para dependentes químicos no estado, ela cumpriu medidas sócio- educativas por atos infracionais e, tendo passado um tempo fazendo programas em Lages, havia sumido não se sabendo de seu paradeiro. A sala do atendimento psicológico também exibe trabalhos, cartazes e desenhos confeccionados pelos adolescentes. Ainda no lado esquerdo do salão central, estão os banheiros feminino e masculino e o dormitório, com oito camas, com colchas bonitas e limpas e um bercinho ao canto.
A coordenadora em exercício, que também era uma das assistentes sociais do programa, recebeu-me e me levou para conversar em sua sala. Expliquei o objetivo da pesquisa e a forma como pretendia desenvolvê-la. A princípio, o meu intuito era apenas me aproximar das/os adolescentes, para tentar estabelecer uma relação de mão dupla, de confiança, pretendendo que as/os mesmos deixassem de me enxergar como conselheira tutelar. Acordamos várias idas ao Centro de Referência. Ela explicou que embora existam alguns dias mais ou menos definidos para um determinado tipo de demanda, isso acaba ficando bastante relativo, porque a clientela vai em dias que não são previamente marcados, e acaba permanecendo no local. Se ocorre algum incidente com a polícia ou abordagem de rua, por exemplo, as/os adolescentes são encaminhados ao programa, independente do dia, podendo até permanecer abrigadas/os, conforme a situação.
A profissional apontou que a frequência ao Sentinela é bastante flutuante: adolescentes vão e vem, desaparecem por um tempo, depois retornam. A frequência é semanal, a não ser em alguns casos especiais, por solicitação da Promotoria da Infância ou quando a/o adolescente está abrigada/o, situação em que passa a ser diária. Algumas adolescentes estão sendo acompanhadas apenas através de visitas domiciliares. Não é muito rígida esta programação semanal, e combinamos, então, uma presença sistemática.
Poucas/os adolescentes vão ao Centro de Referência nas segundas-feiras. Neste dia, o atendimento ocorre apenas à tarde, porque no período da manhã a coordenação, as técnicas e as/os educadores do programa fazem reunião, para discussão sobre o andamento dos trabalhos.
Às terças-feiras, existem algumas adolescentes novas (aproximadamente 12, 13 anos), que foram abusadas sexualmente, ou estão apresentando comportamento considerado promíscuo, ou já estão se iniciando na exploração sexual. Nesse caso, se estão se prostituindo, a maioria não assume o fato para a instituição.
A princípio a quarta-feira é o dia que as grávidas e mães são atendidas, razão pela qual as atividades são direcionadas especificamente para elas. Algumas que estavam na exploração, e agora estão casadas29 também freqüentam a instituição na quarta-feira.
A quinta-feira é o dia definido para adolescentes vítimas da30 exploração sexual,
segundo a informação da assistente social. Algumas/uns contam e assumem suas práticas, outras/os não.
Sexta-feira é o dia reservado para a realização de um trabalho preventivo, principalmente com as irmãs das adolescentes que estão sendo exploradas sexualmente.
Em funcionamento desde o mês de junho de 2001, o Centro de Referência registra o atendimento de cerca de 180 adolescentes, incluindo vítimas de exploração sexual e crianças e adolescentes que apresentam conduta denominada pelo programa como “de risco”. Estas meninas foram abordadas pela polícia, segundo os registros, em situação de “iminência de prostituição”, ou foram levadas ao Conselho Tutelar por familiares reclamando de sua conduta sexual.
Os atendimentos são feitos por uma equipe interdisciplinar: a coordenadora do programa é psicóloga e ainda há na equipe uma outra psicóloga, que atua diretamente com @s adolescentes. O serviço social é feito por duas assistentes sociais, e há ainda quatro educadores que trabalham com reforço escolar, artesanato, atividades lúdicas e esportivas com @s adolescentes.
O primeiro encontro
Após conversar com a assistente social, fui ao encontro da psicóloga do programa, que estava no quarto com algumas adolescentes: Perla e seu filhinho de 4 meses, Quintina, Rita e Lúcia. Quintina foi expansiva e me abraçou: “Oi, tia Adriana, que saudades, fazia
tempo que eu não te via...” me apresentou para as outras, embora algumas eu já
conhecesse. Quintina sempre foi muito dócil, foi abusada pelo pai e permaneceu muito tempo no Abrigo Municipal, tendo sido depois encaminhada ao Programa Sentinela por apresentar “comportamento sexual desregrado”. O Ministério Público e o Conselho Tutelar fizeram várias tentativas de colocá-la em família substituta, ou com parentes, mas nenhuma deu certo. Ora, porque a família estava interessada em explorar a adolescente em relação apenas aos serviços domésticos, ora pelo próprio comportamento de Quintina, com sua dificuldade em aceitar limites e regras e pela sua “sexualidade considerada aflorada”. Agora está casada, residindo no bairro Santa Helena, segundo ela, há bastante tempo com o
29 As moças, quando estão vivendo com um companheiro, falam que são casadas; no entanto, nos relatórios
das instituições, como o Conselho Tutelar e a Delegacia de Proteção à Mulher, Criança e Adolescente, o termo usado nas fichas para designá-las é “amasiada”.
30 O termo “vítimas de exploração sexual” é usado por profissionais de instituições públicas e ONG’s para
designar crianças e adolescentes que se prostituem. Existe um consenso entre estas instituições de que o termo prostituição é inadequado quando se refere à crianças e adolescentes, conforme já explicitado em capítulo sobre exploração sexual infanto-juvenil.
mesmo companheiro, cinco meses. Está com suspeita de gravidez, mas não quer admitir:
“Eu, heim, grávida, Deus me livre”31.
Eu não havia feito contato anteriormente com Perla, apenas a conhecia de vista. Foi gentil e me cumprimentou. Está casada, feliz, cuidando de seu filhinho. Recordei-me que a assistente social me disse que a Perla havia “evoluído” bastante, pois anteriormente ninguém conseguia dar conta daquela adolescente e agora as coisas estavam “sob controle”. É bastante interessante esta concepção institucional de “evolução”, crescimento, relacionada ao controle externo e/ou interno. Foucault (1999) analisa o peso do controle institucional sobre os indivíduos em Vigiar e Punir.
Rita lembrou que já me conhecia, residia anteriormente numa Casa Lar, e agora estava morando com a avó, próximo ao Programa Sentinela.
E Lúcia, uma das adolescentes que posteriormente eu entrevistei, de início ficou quieta e por fim se manifestou: “Lembra, tia, que um dia você foi me levar em casa às
duas da madrugada? Porque a senhora não é mais conselheira tutelar?” (Agora estou só estudando) “Ah...” (Como estão as coisas em casa?) “Bem... só o meu irmão, que continua aprontando um monte...” Lúcia é bem miudinha, naquela época (início da
pesquisa de campo) não estava cuidando da higiene e se negava a frequentar a escola. Quando eu era conselheira tutelar, por duas vezes fui chamada de madrugada porque a polícia a havia abordado em iminência de prostituição na rua. A assistente social disse que “ela fica com os homens na rua, nos botecos, em qualquer lugar, a troco de quase nada, ou apenas por prazer. Não admite que faz programa, diz que não”. Na conversa, referiu-se ao irmão, que pratica roubos, e também é adolescente. Ela tem irmãos menores, que estão na escola, mas ficam pela rua, sem cuidados. Segundo a assistente social, os pais são coniventes com as atividades dos filhos.
O dia-a-dia
Participei, por diversas vezes, de muitas brincadeiras e atividades, juntamente com @s adolescentes. Um dos jogos preferidos @s mesm@s é o “jogo da verdade”, que na realidade é uma brincadeira de perguntas e respostas sobre saúde, corpo humano, doenças sexuais transmissíveis e AIDS. Quem erra a resposta leva castigo e aí é que está a questão... É claro que @s adolescentes queriam perguntar pra mim, e diante de meus erros,
31 No decorrer da pesquisa de campo encontrei com Quintina outras vezes, e ela estava grávida. Incorporou e
davam uma amenizada no castigo: dar um beijo n@ fulan@, cantar uma música, recitar uma poesia.
As educadoras capricham no artesanato: quase toda semana tem um trabalho diferente: ímãs de geladeira com a técnica do biscuí; confecção de pulseiras, brincos e colares com miçangas, trabalhos em tecidos, enfeites de mesa, coelhinhos da páscoa, recortes de revistas, tricô, crochê. Juntamente com os trabalhos, há muita conversa... existe partilha de experiências, confidências, conselhos. A questão da higiene também é bastante marcada no dia-a-dia do Centro de Referência: assim que chegam, @s adolescentes tomam banho, lavam os cabelos, se necessário recebem remédios para matar os piolhos. As unhas são limpas, cortadas e cuidadas. Os profissionais do programa também acompanham @s adolescentes às consultas médicas e dentárias e, quando necessário, à escola.
O dia de maior animação é a terça-feira – dia em que o Ginásio da SAMT (Sociedade de Apoio ao Menor Trabalhador, da Secretaria Municipal de Promoção Social e Cidadania) é reservado para o jogo de futebol das adolescentes do Programa Sentinela. Tive a oportunidade de participar de um desses jogos. @s adolescentes estão sempre ocupad@s: são momentos descontraídos, em que as relações são estabelecidas, são trabalhadas questões básicas como higiene, orientação escolar, cuidados com a saúde, enfim cuida-se para melhorar a auto estima das/os adolescentes. O atendimento psicológico é feito em grupos e também realizado individualmente com algum@s del@s.
Após a realização de algumas entrevistas, procurei observar também o movimento das ruas citadas pelas informantes, como os locais de programas, onde faziam “ponto”. Da mesma forma, fui a alguns bares e boates mencionados por elas. Nas visitas a estes locais para observação, fui acompanhada de meu marido. Para realizar entrevistas na rua, fui só.
A “Rua da Vergonha”
A Rua Otacílio Vieira da Costa, localizada no centro de Lages, já é um ponto tradicional do comércio do sexo. Na realidade, essa intensa comercialização acontece não só nesta rua, mas nas suas proximidades. Nesta área fica o Terminal Integrado de ônibus urbanos, o Mercado Público Municipal e a Rua Manoel Tiago de Castro, com inúmeras
ia para a rua.
lojinhas populares, bares, hoteizinhos e pensões, onde predominam as mulheres de mais idade e é possível perceber “a função” mesmo durante o dia32.
As adolescentes se concentram na Rua Otacílio Vieira da Costa, a partir do anoitecer. Também conhecida por “Rua da Vergonha”, o trecho onde as meninas “batalham” vai da Praça Joca Neves até o terminal de ônibus. Na calçada do Terminal estão instalados alguns trailers para lanches, bastante utilizados pelas pessoas que permanecem por alí durante a noite. Foi em frente a um destes trailers que fiz a primeira abordagem às adolescentes que não frequentam o Programa Sentinela.
Nos aproximamos (eu e meu marido) do trailer Circus, de cachorro quente, e ali estavam a Ana ,a Ivone, e uma terceira adolescente, que eu ainda não conhecia – a Helena. Cumprimentei-as e começamos a conversar, numa situação meio lesa, elas sem dar muita bola, meio desconfiadas. Expliquei que não estava mais no Conselho Tutelar, Ana disse que teve os dois filhos tirados pelo Conselho, Ivone disse que o filho e a mãe estavam bem, e que ela havia doado o segundo filho ainda na maternidade, em Blumenau. Apresentei o meu marido, o Domingos. Tinha um rapaz, que não sei se era amigo ou cliente, junto com as meninas. Comemos um cachorro quente, nos aproximamos mais, queríamos estender o bate-papo... (Diário de campo, sexta, 9 de maio de
2003).
Existem alguns botecos ao longo desta rua, uma casa de prostituição, um bar que tem “quartos para alugar", um posto de gasolina e, atualmente, apenas um hotel de três andares, frequentado basicamente para programas (há um ano eram dois hoteizinhos). Em alguns depoimentos, as moças relatam a forma como este hotel as auxilia em seu trabalho:
E a maioria dos programas são feitos aonde? Mais no Lux, alí... (Felícia, 16 anos)
Daí... eu fui pro hotel, posei no hotel, com a Kéia, né... no outro dia de manhã peguei o ônibus e fui prá casa.
(Que hotel vocês posaram?)
32 Segundo Olímpia Gaio (1994) a prostituição em Lages iniciou no centro, exatamente na rua Manoel Tiago
de Castro, por volta de 1930. Mais tarde, estas “casas de mulheres” foram sendo varridas da área central, restando apenas alguns botequinhos e barzinhos.
No Lux...Daí quando eu cheguei em casa, desembarquei do ônibus e fui direto no mercado... (Ana, 17 anos)
Não, em motel eu nunca fui... só fui no Lux, uma vez...(Antônio, 16 anos)
Durante o dia, a movimentação é normal: há crianças brincando no parquinho da Praça Joca Neves, existe uma fruteira, uma escola de educação infantil, uma loja autorizada para consertos de aparelhos eletrônicos, duas lojas de móveis, duas gráficas, uma loja de tecidos, uma loja de couros e artigos gauchescos, dentre outros estabelecimentos comerciais.
Os degraus da loja de couro e artigos gauchescos abrigam todas as noites as adolescentes que param ali, à espera de clientes. Realizei uma das entrevistas sentada nestes degraus, numa noite de sábado. Esta experiência, de permanecer sentada nos degraus por mais de duas horas seguidas, numa noite de movimento intenso, foi bastante enriquecedora. “Senti na pele” não só o vento frio, mas principalmente a fragilidade destas adolescentes... Embora a maioria delas se coloque na qualidade de forte, as adolescentes ficam muito “expostas” naquele local, as pessoas passam de carro buzinando e gritando, os bêbados mexem, a polícia passa por ali, às vezes para coibí-las, às vezes para fazer programas. São apontamentos do meu diário de campo:
Eles vem, falam que não. A polícia vem aqui e sai com nóis.
(É ? e depois, quando tem que dar batidaço, eles vem e pegam na boa, colocam no carro?)
E se abri o bico, ainda apanha! (Ana, 16 anos: Diário de Campo, Sábado, 10
de maio de 2003).
No trechinho que vai da esquina da loja de tecidos até a casa de prostituição, concentram-se as maiores de idade. Elas conversam, mas se agrupam isoladamente. Às vezes, acontecem situações conflituosas e violentas, como retratou uma das entrevistadas em seu depoimento:
Chegou assim na rua, no outro dia que ela veio trabalhar, num sábado, a Susi surrou ela aqui, ela ficou sentada, e apanhou... nem abriu os braços, nem a e nem b. Ficou bem parada, não mexeu nem um dedo e a Susi dê-lhe batê nela... Daí quando passou um tempo foi a Patrícia, aquela gordinha, e ela tinha ficado com o Caio, um moço do posto de gasolina. Daí ela chegou aqui e começou a batê na guria, primeiro eu acudi a guria aqui na esquina e depois outro dia ela surrou ela aqui, e eu nem tava sabendo, que ela tinha apanhado
aqui na esquina. Ah, mas eu não tenho coragem de batê nem nela nem na Ivone. Agora, na Helena eu tenho coragem (Ana, 16 anos).
A Praça Joca Neves é um local relativamente novo onde as meninas fazem ponto, mas a Rua Otacílio Vieira da Costa é tradicional para este tipo de prostituição que não se concentra em casas, zonas ou boates: a prostituição de rua. Ao contrário da casas de prostituição, onde o controle dos programas e todo o trâmite se dá através das cafetinas ou cafetões, na prostituição de rua a presença da cafetina é quase nula ou camuflada.
Havia uma cafetina que aliciava essas adolescentes que fazem ponto neste local,