Denomina-se imaginação a faculdade do indivíduo de criar realidades que não existem. Apesar de muitos desconsiderarem a utilidade prática da imaginação é preciso considerar o inverso: admiti-la como uma das principais atividades humanas, responsável pelo o que se torna possível, já que tudo o que existe é previamente imaginado.
A imaginação é privilégio de todos e interfere de maneira substancial na vida das pessoas. Quando se afirma: não pode ser feito, o indivíduo dotado de imaginação responde:
É possível. Talvez tenha sido assim quando o homem desejou voar, antes de inventar o
avião; ou, ainda, quando desejou cura e saúde, ao tornar possíveis vacinas e medicamentos. O mesmo se pode dizer a respeito dos espaços imaginados, em específico, os
materializados nos séculos XV e XVI pelos navegadores-escritores. O continente americano
assemelhou-se a um universo que há muito tempo se constituía no imaginário do homem como referência cosmogônica onde tudo existia em perfeita harmonia. Em outras palavras, um mundo primordial de abundâncias e fartura ganha notoriedade ao deixar o plano das projeções políticas e poéticas e efetivar-se possível.
Até então a construção de lugares ideais só havia sido possível por meio de narrativas que reproduziam imaginações na tentativa de viabilizá-las. O intento, quase uma obsessão, baseava-se em querer superar insuficiências e apresentar novos modelos de sociedade por meio de anseios – utopismos –, de acordo com Coelho Neto (1987). Viabilizar as imaginações era uma tentativa de alcançar a redenção; uma espécie de Paraíso onde se teria com harmonia a junção da beleza com a abundância e a justiça: sonho do homem.
Nesse sentido, os relatos de viagem, ao relacionarem o universo americano com a realidade que se ambicionava tornaram-se vias importantes para se refletir mais e melhor a respeito do que poderia vir a ser o espaço ideal. Funcionaram como uma espécie de provocação a uma realidade constituída, em favor da renovação de preceitos e valores igualmente constituídos. Propósitos que, tempos depois, solidificaram-se responsáveis pela (re)descoberta do mundo, na experiência de (re)criá-lo como utopias. Basta perceber a influência dos relatos de viagem na constituição das utopias no século XV e XVI como gênero literário9.
No entanto, ao se ler os relatos de viagem, constata-se que o entusiasmo com o Novo Mundo comprometeu a autonomia da realidade americana: uma realidade que independia das expectativas e imaginações européias mas que foi submetida aos caprichos e conquistas dos europeus tornando-se muitas vezes o que não poderia ser. Ou seja, o que foi descrito
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Ver A Utopia, de Thomas More (1516); A Cidade do Sol, de Tommaso Campanella (1602) e A Nova
como realidade na América relacionou-se mais a ansiedade de ver materializado desejos do que reconhecer uma realidade autônoma e distinta que se assemelhava tão-somente ao que se queria vivenciar.
As imaginações, desse modo, tornaram-se um transtorno ao sobressaírem nas descrições dos relatos e comprometeram as realidades testemunhadas. Ou seja, imaginação e realidade confundiram-se e provocaram incoerências, equívocos, desvios e inverdades: mal- estares na forma como entender a Quarta região do Mundo. Desse modo, a América ganhou forma a partir a partir do que poderia ser do que propriamente era de fato. Tornaram-se o que quiseram os europeus.
Colón vislumbrou a possibilidade de se ter descoberto uma Terra Abençoada; Vespúcio inventou outro mundo, uma representação revolucionária, best-seller – talvez o primeiro da história por conta do advento da imprensa, das ilustrações e conteúdo sensacionalista – que chocou o Ocidente pela diferenças e maravilhas transcritas e o imortalizou como um dos protagonistas de uma transição de épocas; Gândavo encontrou uma forma fria e lucrativa de aproveitar o espaço mas que não deixou de concebê-lo como dádiva profética. Como se observa, cada um dos navegadores-escritores tratou a América como seu Paraíso particular e foi essa perspectiva que prevaleceu. O que é lícito. Afinal, o que seria o Paraíso para um católico do século XVI? E para um burguês desacreditado que tinha a necessidade de se firmar respeitado como homem em sua sociedade? O que seria o espaço ideal para um homem que representava uma das maiores Empresas de exploração marítimo-comercial? Mais: independente dos interesses específicos os navegadores- escritores eram movidos por interesses comuns: apropriação indébita de espaços capazes de gerar lucros ou riquezas. Assim, os europeus não estavam preocupados em reconhecer outras realidades.
Se houve dificuldades na representação do Outro, problemas que suscitaram imaginações que desvirtuaram o sentido da natureza americana, isso se deu por uma razão simples: dificuldade de compreender o que não era cristão, o que não era Ocidental em um momento em que o homem europeu descobria-se cada vez mais particular quando antes se sentia universal.
O Paraíso, independente da perspectiva atribuída pelos navegadores-escritores na América, foi produto da imaginação dos homens, resultado de frustrações e ansiedades. Uma imaginação que ganhou credibilidade a partir das leituras dos navegadores sobre o Novo Mundo quando se pensou encontrá-lo. De maneira curiosa, o Paraíso passou a ser
talvez por isso, habitou, sem maiores constrangimentos, a partir de impressões particulares, tanto na realidade quando na imaginação dos homens.
Ao levar em consideração os propósitos e as realidades dos cosmonautas é possível que os mesmos não estivessem interessados em suas realidade e a imaginação, desse modo, ganhou mais espaço. Mesmo porque a imaginação nos projetos expansionistas foi uma constante obrigatória porque foi obrigatória a designação de imaginar e encontrar espaços capazes de gerar felicidade. Desconsiderar a imaginação significaria despropositar o futuro, coisa que nenhum navegante ousou fazer. Afinal, navegadores desconheciam a realidade de seus destinos.