CAPÍTULO 1 – FUNDAMENTOS TEÓRICOS: OS CONCEITOS DE
1.2 Entre campo e cidade, espaços migratórios
Na transitoriedade que se instaura, dois lugares em específico têm sido palco de andanças e experiências, o campo e a cidade. Sendo assim, “[...] a vida do campo e da cidade é móvel e presente: move-se ao longo do tempo, através da história de uma família e um povo; move-se em sentimentos e idéias, através de uma rede de relacionamentos e decisões” (WILLIAMS, 1989, p. 19). Somos levados a pensar no que o espaço citadino transforma o homem do campo, já que ali, instalado em um novo ambiente, ele precisa se adequar ao seu estilo que, por sua vez, é governado por alguém que não deixa brechas para opiniões e vontades de quem vem de fora, pelo contrário, as decisões são impostas e o relacionamento é de subordinação para com os menos privilegiados. Mesmo que a cidade se sustente em função do produto que vem do campo, não há um reconhecimento disso e, consequentemente, o homem campesino, nesse contexto, está sujeito, por um lado, aos interesses do seu dominador, de forma que
é explorado naquele espaço e, muitas vezes, não vê outra saída, se não, aceitar a subordinação.
Por outro lado, em vários momentos da história, vemos registros de uma resistência por parte desse camponês que, um dia, deixou-se dominar. Por exemplo, desde o fim do Império, no Brasil, já há registros de lutas camponesas no nordeste e no sul do país, o que abriu precedente para as demais manifestações ocorridas com o passar do tempo, em vários outros lugares, mas com dois objetivos alinhados: enfrentar o governo e a classe social dominante; lutar por posse de terras e pelo sustento da família. Sendo assim, tendo como referência os primeiros conflitos, os camponeses de Goiás, com o subsídio de alguns membros do Partido Comunista, a partir de 1940, até meados de 1960, não se deixaram ser subordinados por completo:
Entre as reações do campesinato a essas condições está Canudos (1893-1897) e Contestado (1912-1916). Manifestações camponesas caracterizadas pela forte presença da religiosidade popular e seu costumeiro messianismo, teologia e catolicismo de cunho colonial, situados na transição da Monarquia para a República e a modernização capitalista, como destaca Monteiro (1977). “Ao fazê-lo [os camponeses], irromperam no curso de uma história dramática de submissão para trilhar os caminhos de rebeldia sem projeto, ou seguir as vias místicas que lhes eram dadas ousando assumir a condição de sujeitos” (MONTEIRO, 1977, p. 43). Essas lutas antecedem o campesinato da década de 1950 que se apresentava como sujeito político diante da modernização capitalista. (SOUZA, 2010, p. 58-59).
Por mais que haja situação de subordinação e ela seja comprovada historicamente, chega um momento em que fatores como a política e o capitalismo, como o próprio impulso de sobrevivência, resultados da modernização, direcionam o campesinato a sair de sua situação de submissão e procurar saídas tangentes para se manter no meio social. No romance de Godoy Garcia, tal fato pode ser exemplificado com o episódio da “derrubada do mato”, que intitula a quarta parte da obra, inclusive. Chega um momento em que os lavradores se cansam de esperar pela compreensão dos fazendeiros e políticos e vão, por conta própria, enfrentar os donos de terras ainda intocadas, a fim de derrubarem os matos e plantarem suas lavouras. A subordinação, nesses termos, precisa ser revista, porque há uma inversão dos papéis quando, afrontando, os lavradores chegam, invadem as terras alheias, derrubam os matos e plantam. Quando descobrem a ação, os fazendeiros se manifestam, mas, mesmo com
esforço e apoio da polícia, dessa vez, não conseguem vencer os ditos subordinados. Ao final do capítulo, a vitória é de quem teve a coragem de enfrentar o dominador e assim finaliza a parte da derrubada do mato:
Assim chegaram ao fim da limpa, em tôdas as palhadas. O fazendeiro não apareceu. Era esperar as chuvas para os novos plantios. As chuvas sempre vinham. Mesmo retardadas, mas vinham. A semente era jogada na terra. Sentiam-se fortes, como a árvore farta das regras da chuva, as velhas árvores de cedro, vigorosas. (GARCIA, 1966, p. 162).
Tanto na literatura quanto na história, graças aos primeiros manifestantes, registram-se em todo o Brasil lutas como essas que, por mais que tenham sido perdidas em alguns casos, evidenciam que o sujeito não está completamente estagnado e à mercê de seu dominador, mas, pelo contrário, enfrenta-o de maneira direta e com as armas que possui, aliás, em alguns casos, literalmente. Sobre sua participação em guerrilhas como a de Formoso e Trombas, por exemplo, José Godoy Garcia, em entrevista, dá o seguinte testemunho:
José Maria e Silva — Como foi a participação dos senhores na
guerrilha de Trombas e Formoso?
Mandamos fuzis para o pessoal da associação de lá. O Alberto Xavier foi quem levou as armas, umas espingardas e uns fuzis. Com o golpe de 64, o regime militar resolveu abrir inquérito sobre Formoso, uma coisa do passado. E nessa época eu estava advogando, não queria saber de pegar em armas. Tanto que, quando começou a se falar em resistência armada ao novo regime em Brasília, eu me opus frontalmente.
José Maria e Silva — Qual foi a primeira guerrilha da qual o senhor
participou?
Em 1951, havia um movimento numa fazenda chamada São Domingos, e o movimento ficou conhecido como Tiririca. Era um grilo de terras. Então, fizemos uma luta contra o arrendo e contra o grilo. Contra o grilo era mais fácil, porque o lavrador já tinha a terra, bastava impedir que fosse tomada pelos grileiros. No caso do arrendo, era difícil porque o trabalhador era um servo de gleba.
Conseguimos reduzir a cobrança dos fazendeiros de 30 para 20 por cento do arrendamento. Essa era uma luta de classes. Já o grilo, não: os próprios fazendeiros eram contra o grilo, porque o grilo desmoralizava sua classe. Na Fazenda São Domingos, queríamos uma luta de resistência, mas os lavradores queriam a luta por intermédio de advogado. Mas eles vieram aqui e contrataram advogado, só que o advogado não podia fazer nada. Então, fui lá e convenci um dos
membros da direção do partido, Jerônimo Afonso, de Rio Verde, a recorrer às armas. Pegamos cinco fuzis, alicates e um monte de coisas.
Diante da necessidade de conquistar um espaço, o homem do campo, principalmente, precisa sair em busca de maneiras que o permita viver na terra e da terra, por isso a união dos agricultores e sua proximidade com os posicionamentos políticos que direcionam para uma dinâmica favorável ao comunismo. Movidos pelos ideais marxistas e adeptos da proposta de uma reforma agrária, a maioria dos participantes ativistas, como José Godoy Garcia e seus companheiros goianos, ajudaram nessa seara durante as guerrilhas que ocorreram nessa região. Limitados, mas com empenho e o objetivo de ajudar, conseguiram fazer muito por aqueles que, morando no campo, não tinham muitas possibilidades e meios de luta, sendo assim, ainda que subordinados, em algum momento há uma conquista.
A partir desse viés, portanto, de o homem ser dominado dentro de seu próprio espaço, tanto física quanto social e psicologicamente, fica evidente a relação de dependência e ao mesmo tempo subordinação, porque, para se construir dentro do espaço rural ou urbano, as classes inferiores sempre vão ser subordinadas à classe dominante. No , essa última não deixa de ser dependente da primeira, uma vez que, para sobreviver, ela também precisa das demais, pois o plantio e a colheita, bem como qualquer outra atividade que exija uma mão de obra mais pesada, como a construção civil, no espaço citadino, só é realizada por aquele considerado subalterno. Revendo isso, o grupo inferior passa a perceber a relação de dependência e subordinação, e que os interesses estavam voltados ao grupo dominante, o que os leva a buscar um conhecimento de seus direitos e agir em prol do social e do coletivo, e não mais ficar na inteira submissão.
Para exemplificar o exposto, pensemos nos dois espaços que aqui nos chamam a atenção, o campo e a cidade, e a relação entre as classes sociais ali existentes. Inicialmente, em termos históricos e geográficos, temos uma concentração demográfica no campo, onde a maioria dos meios de subsistência humana são produzidos e, posteriormente, enviados para a cidade, que apenas recebe e consome tais produtos. Estando o maior número de pessoas concentrado e produzindo no campo, por que o fruto de seu trabalho não permanece ali, mas é enviado para outro lugar? Quem é responsável por essa organização e estruturação? Onde, exatamente, são os campos de
produção? Para responder a essas perguntas, precisamos lembrar que esse número populacional diz respeito à classe baixa, que não tem posse de terras nem condições financeiras para se sustentar, por isso, submete-se ao jugo dos fazendeiros e latifundiários, trabalhando com o máximo de força e tempo, para receber o mínimo, o que mal atende às suas necessidades, logo, o que esse homem produz não é seu e, portanto, ele não terá a possibilidade de usufruir dos resultados de seu trabalho.
Em resumo, o que se produz no campo, sendo este o espaço onde há um maior número de pessoas, é destinado ao consumo daqueles que possuem fortunas, vivendo no campo ou na cidade. Teoricamente, são os proprietários das grandes terras, destinadas ao cultivo e à pecuária, que organizam e estruturam as formas de oferecer meios de subsistência à população, mas, na prática, isso é feito pelos trabalhadores da classe subalterna. Ora, nesse sentido, se não houver quem esteja no campo, para plantar e colher, não haverá mantimentos, logo, a classe dominante depende da dominada.
No que tange ao contexto citadino, após a Revolução Industrial, sabe-se que houve um fluxo migratório mais intenso em direção à cidade, o que esvaziou, de certa forma, o campo. Quando chega ao espaço urbano, aquele homem do campo precisa se organizar para enfrentar as novas atividades, a fim de dar respaldo à sua sobrevivência. Mais uma vez, a relação de dependência e subordinação entre as classes é ressaltada, pois, para que cresça a cidade e se fortaleça, em todos os seus aspectos, o dominador precisará do dominado e vice-versa. Todavia, por mais que haja tal interdependência, quem tem mais dinheiro e status sempre permanecerá no controle, tendendo à dominação total. Contudo, nem sempre terá uma aceitação passiva da classe trabalhadora, pois, como vimos anteriormente, manifestações, lutas, guerrilhas e movimentos em defesa do proletariado já foram e ainda são realizados, começando no campo, onde havia maior concentração demográfica e, depois, indo para as cidades, esse lugar de transformações e, hoje, mais populoso.
Os aspectos levantados, para além do campo social e histórico, estão explicitados, também, na literatura, a qual tem como uma de suas funções o resgate do aspecto social externo que, na conjuntura ficcional, torna-se interno, conforme nos lembra Candido (2010). Dessa maneira, ao trazer para o interior do romance uma temática como essa da migração, o escritor cumpre seu papel social e literário, pois evidencia tanto os fatores constituintes da sociedade quanto os elementos do texto
narrativo, além de usar uma linguagem que foge ao formato técnico e científico exigido aos textos de documentos históricos, por exemplo.
Toda essa conjuntura nos leva a enxergar o processo de deslocamento que leva o indivíduo a ter contato com culturas distintas que, até então, ele desconhecia. Deslocamento esse que, na obra em análise, acontece quando da ida do homem do campo para a cidade e, a partir do novo contato, surge o que Tomaz Tadeu da Silva (2014) chama de hibridização de culturas, tendo em vista que é uma relação que se dá pelas vias de um grupo estabelecer poder sobre o outro, mas que, ao mesmo tempo, é uma via de mão dupla, porque o grupo dominado também exerce alguma influência sobre o dominador. De maneira geral, como o autor nos adverte, o hibridismo se dá a partir do contato possibilitado pela movimentação demográfica, em todos os sentidos: diáspora, deslocamentos nômades, viagens, cruzamentos de fronteiras. Adiante, Silva (2014, p. 88) diz:
[...] movimentos migratórios em geral, como os que, nas últimas décadas, por exemplo, deslocaram grandes contingentes populacionais das antigas colônias para as antigas metrópoles, favorecem processos que afetam tanto as identidades subordinadas quanto as hegemônicas. Finalmente, é a viagem em geral que é tomada como metáfora do caráter necessariamente móvel da identidade. Embora menos traumática que a diáspora ou a migração forçada, a viagem obriga quem viaja a sentir-se “estrangeiro”, posicionando-o, ainda que temporariamente, como o “outro”.
Sendo assim, independente da natureza do caminho percorrido, o indivíduo passará por uma experiência de troca e estranhamento ao cruzar as fronteiras, reais ou metafóricas, já que o contato com o outro e o colocar-se no lugar do outro, em algum momento, vai conferir a ele a mudança da identidade ou, no mínimo, uma nova experiência enquanto indivíduo movente. Acrescentamos ainda o fato de que, por menor e mais rápido que seja o contato com a outra cultura, respingará sobre ambos os sujeitos, o que se desloca e o que recebe, vestígios da identidade que cada um carrega e é aí, também, que se efetiva o hibridismo.
No que tange ao romance O caminho de Trombas, especificamente, veremos que as alterações identitárias se constituem a partir da saída do homem do seu espaço de pertença, que é o campo, isto é, acontece em função do novo contato com o homem da cidade, pois, ao chegar ali, forçosamente, o modo de viver é alterado, logo, o meio tende
a determinar e influenciar as atividades do camponês, que precisa se adequar àquele lugar para sobreviver. Vê-se aí uma mudança que respinga na identidade do sujeito. Ademais, na urbe, ele também passa a ter contato com pessoas mais esclarecidas, no sentido de ter uma vivência e uma prática, tanto escolar quanto de atividades sociais e políticas, que vão além das experiências tidas na zona rural. Assim, surge o interesse de conhecer sobre seus direitos, sobre a política, sobre o comunismo, o que o leva a alterar, uma vez mais, seus valores e conhecimento, acrescentando experiência ao processo de mudança identitária.
Prêto Soares, na narrativa godoyana, é um exemplo claro desse sujeito movente e em constante transformação. Uma vez na cidade, ele se vê diante de várias situações que o fazem perceber a diferença entre viver ali e no campo, onde antes vivera e de onde já possui muito conhecimento. O personagem reconhece que alguns novos costumes, como o contato com o homem da cidade, a lida no novo emprego, a necessidade de construir uma morada e a participação em movimentos políticos mais acentuados, fazem dele e dos companheiros de São Domingos outras pessoas, as quais contam, depois de estarem na cidade, com mais conhecimento e experiência, ou seja, são identidades e diferenças que se cruzam e o resultado disso é a transformação do sujeito.
Seguindo a mesma perspectiva de discutir as interferências ocorridas na vida do sujeito por meio das movências, mas com temática e contexto não apenas nacional e de identidade, Sandra Regina Goulart Almeida (2015) discorre sobre o processo de hibridização do indivíduo, focalizando a elite como responsável pela literatura migrante pós-colonial. A pesquisadora se respalda em Boehmer (2005) e Bhabha para pensar o espaço como influenciador das mudanças e responsável pelo entre-lugar em que o homem se encontra, nesse sentido, traz sua reflexão sobre a mudança identitária, a partir do espaço, nos seguintes termos:
No contexto transnacional sobre o qual também discorre Bhabha, ressalta-se ainda a questão da produção literária diante da nova cartografia cultural da contemporaneidade, que cada vez mais privilegia os relatos e experiências dos sujeitos híbridos. Por um lado, pode-se argumentar, como fez Boehmer (2005), que esse mapa transnacional continua mantendo as relações de poder, apropriação e exploração entre polos opostos, já que a metrópole permanece como espaço de produção hegemônica, enquanto a periferia se encarrega de
fornecer o produto e mão de obra a ser explorada, muitas vezes em condições degradantes. Não resta dúvida de que a literatura pós- colonial migrante é escrita, definida e canonizada por uma elite (BOEHMER, 2005, p. 233). (ALMEIDA, 2015, p. 17).
Vê-se, portanto, que onde houver trânsito de pessoas, haverá dominação de um grupo sobre o outro e influências identitárias, como, por exemplo, o que ocorre com os personagens de O caminho de Trombas, que, ao saírem do campo, passaram a ser explorados na cidade e, como consequência disso, sua identidade sofreu transformação. Apesar disso, ele também influencia a identidade do sujeito cosmopolita.
Não podemos deixar de mencionar aqui a temática da diáspora que acontece dentro do país e, mais especificamente, em determinada região. Dessa forma, dizemos que se trata de uma questão inter-regional, para tomar emprestado um termo da geografia. Para deixar claro, estamos entendendo o termo diáspora com base no que Stuart Hall (2003) aponta sobre o assunto, ainda que ele fale de um contexto caribenho. Ainda que em regiões e épocas diferentes, o processo de desapropriação de terras e de perda/mudança de identidade é evidente, isto é, aquela identificação com o lugar de nascimento, o sentimento de pertença a um determinado local, com a diáspora, lida aqui como o processo migratório, faz com que ocorra uma mudança no sujeito que se encontra em transição.
Não podemos deixar de dizer que a maior causa das transformações dos sujeitos é a migração e seus desdobramentos na vida deles, pois isso é o que mais afeta, diretamente, sua relação com o outro e causa um estranhamento necessário ao enfrentamento com o novo. A partir daí, praticamente todas as áreas da vida do migrante serão alteradas, desde o espaço onde vive, que é a primeira mudança, passando pelo trabalho, até chegar ao pensamento crítico e posicionamento político.
Nesse sentido, vale lembrar o contexto histórico no qual estamos focados neste trabalho, a década de 1960, momento em que o governo de Juscelino Kubitscheck investiu para que houvesse um desenvolvimento industrial em grandes cidades do Sudeste do país. Mais especificamente, ainda no final da década anterior, houve um fluxo intenso do êxodo rural em função da construção de Brasília; pessoas saíam das mais diversas partes do país em direção à nova capital, mas, principalmente, migrantes do Norte e do Nordeste, além daqueles da região mais próxima, como Goiás, por exemplo. Como é sabido, esse processo migratório não se deu de forma tão tranquila e
natural, pelo contrário, foi cercado de desavenças políticas, econômicas e sociais, o que, como consequência, não deixou de interferir na identidade cultural do sujeito. Em linhas gerais, ao analisarmos todos os fatores contextuais que levaram ao grande processo migratório do período aqui em destaque e seus desdobramentos, encontramos em Milton Santos (1993) um resumo do que se deu:
O caso de Goiás é emblemático. Durante praticamente quatro séculos e, do ponto de vista da produção, um verdadeiro espaço natural, onde uma agricultura e uma pecuária extensivas são praticadas, ao lado de uma atividade elementar de mineração. [...] Com a redescoberta do cerrado, graças à revolução científico-técnica, criam-se as condições locais para uma agricultura moderna, um consumo diversificado e, paralelamente, uma nova etapa de urbanização, graças, também, ao equipamento moderno do País e à construção de Brasília, que podem ser arrolados entre as condições gerais do fenômeno. (SANTOS, 1993, p. 62).
Em função dessa dinâmica de preencher o espaço geográfico e ao mesmo tempo trabalhar para o desenvolvimento econômico e demográfico do país, a região a que Goiás pertence acabou por se tornar alvo de pessoas dos mais variados estados e, também e acima de tudo, preocupação do governo federal, que via no cerrado goiano uma chance de crescimento no setor agrícola, industrial e de urbanização. Essas circunstâncias contribuíram para a chegada de novos migrantes e seu envolvimento com os que já estavam ou já eram do local, acontecimento que, mais uma vez, indica a relação de alteridade e convivência entre os sujeitos.
Nesse ponto, recorremos aos questionamentos de Hall (2003, p. 28), quando o estudioso elenca algumas razões para se pensar a construção da identidade em suas relações de poder, “construídas pela diferença e disjuntura”. Como uma resposta, ou tentativa para tal, ele traz a seguinte assertiva:
Essencialmente, presume-se que a identidade cultural seja fixada no nascimento, seja parte da natureza, impressa através do parentesco e da linhagem dos genes, seja constitutiva de nosso eu mais interior. É impermeável a algo tão “mundano”, secular e superficial quanto uma mudança temporária de nosso local de residência. A pobreza, o