3.1 Literatura Infantil: história e “estórias”
A literatura infantil surgiu, mundialmente, no século XVII, conforme aponta Cademartori (2010). Porém, apenas a partir do classicismo francês, ainda no mesmo século, as obras literárias escritas foram consideradas como literatura apropriada ao público infantil. Dentre as produções desse período citamos:
[...]as Fábulas, de La Fontaine, editadas entre os anos de 1668 e 1694, As
aventuras de Telêmaco, de Fénelon, publicadas postumamente, em 1717,
e os Contos da Mamãe Gansa, cujo título original era Histórias ou
narrativas do tempo passado com moralidades, que Charles Perrault
publicou em 1697. (LAJOLO E ZILBERMAN, 2007, p. 14, grifos das autoras).
Nesse período, o livro passou por uma situação bastante curiosa o que torna explícito o caráter ambivalente do gênero no seu início. Isso aconteceu, dentre outros motivos, porque Charles Perrault, como figura importante nos meios intelectuais franceses, decidiu atribuir a autoria da escrita de sua obra ao filho mais moço: o adolescente Pierre Darmancourt, dedicando-a ao Delfim da França, título atribuído ao herdeiro da coroa, o qual tornou-se rei ainda criança, nessa época, motivo pelo qual o referido país era governado por um príncipe regente, conforme destacam, Lajolo e Zilberman (2007, p. 14).
Assim, Perrault é responsável não apenas pela difusão da literatura infantil, cujo impulso inicial determinou a incorporação, retroativa, dos textos de La Fontaine e Fénelon na história desse gênero, como também por seu livro provocar uma preferência surpreendente pelos contos de fadas, literatizando uma produção que, até aquele momento, era de natureza popular e circulação oral; tornando-a, a partir da compilação, a principal leitura infantil, como enfatizam Lajolo e Zilberman, (2007, p. 15).
Nesse contexto, a atitude dos franceses não foi reter a exclusividade do gênero literário, direcionado as crianças, ao contrário, esses estimularam sua expansão, simultânea, na Inglaterra, país onde a associação da literatura infantil a
questões econômicas e sociais tornou-se mais evidente, conforme perceptível nas obras de origem inglesa. No que se refere a comercialização dos livros, percebe-se que mesmo não havendo o monopólio da produção a lucratividade aumentou, significativamente, ao longo do século seguinte, como destacam Lajolo e Zilberman (2007, p. 15):
A industrialização consistiu no fenômeno mais geral que assinalou o século XVIII. Foi qualificada de revolucionária e classificou o período, porque incidiu em atividades renovadoras dentro dos diferentes setores do quadro econômico, social, político e ideológico da época. A rala produção artesanal multiplicou-se rapidamente, com o aparecimento de manufaturas mais complexas, tecnologias inovadoras e invenções recentes. Localizadas nos centros urbanos, as fábricas logo atraíram trabalhadores do campo, que vinham em busca de melhores oportunidades de serviços. O êxodo rural fez inchar as cidades, incrementou o comércio e incentivou meios de transporte mais avançados. Porém, mão-de-obra abundante significa igualmente falta de empregos, e os dois fatos, reunidos, produziram o marginal alojado na periferia urbana, os cinturões de miséria e a elevação dos índices de criminalidade.
Sabe-se que, durante o século XVIII, a burguesia lucrava com o comércio dos livros infantis. Assim, para que a industrialização e a, consequentemente, comercialização continuassem beneficiando a classe burguesa era necessário ampliar a produção de livros, cujo público alvo fosse as crianças. No entanto, para a manutenção dos rendimentos o processo de criação exigiria, dos escritores envolvidos com o gênero literário infantil, dedicação. Apesar da industrialização ter sido considerada uma atividade inovadora, na época, além do engajamento dos autores, a mão-de-obra era essencial, pois para que a burguesia continuasse a lucrar era preciso contratar pessoas para atender a essa demanda.
No século XIX, a literatura infantil já havia se consolidado. A exitosa comercialização demonstra o quanto esse gênero literário era bem-sucedido. Para essa configuração contribuíram, significativamente, os Irmãos Grimm, com a edição da coletânea de contos de fadas, em 1812. Dessa forma, é notória a predileção das crianças por histórias fantásticas, como é o caso dos modelos adotados por Lewis Caroll, em Alice no país das maravilhas (1863), Collodi, em Pinóquio (1883), e James Barrie, em Peter Pan (1911).
Vale ressaltar que o público infantil também se sentia atraído por histórias de aventuras como: As aventuras de Tom Sawyer (1876), de Mark Twain e A ilha do
chamava a atenção das crianças. Logo, era bastante favorável para a classe burguesa, da época, pois à medida que atraiam o interesse, por meio das obras literárias, se beneficiavam com o lucro.
No Brasil, a literatura infantil surgiu no século XX, mas, de acordo com Lajolo e Zilberman (2007), ao longo do século XIX já havia registros de obras literárias voltadas às crianças. Com a implementação da Imprensa Régia, oficializada em 1808, as atividades editoriais foram intensificadas e traduções para o público infantil foram publicadas, a exemplo de:
As aventuras pasmosas do Barão de Munkausen e, em 1818, a coletânea de José Saturnino da Costa Pereira, Leitura para meninos, contendo uma coleção de histórias morais relativas aos defeitos ordinários às idades tenras, e um diálogo sobre geografia, cronologia, história de Portugal e história natural. (LAJOLO, ZILBERMAN, 2007, p. 21).
Contudo, por serem publicações esporádicas, são insuficientes para caracterizar uma produção literária regular para a infância, no Brasil, já que a obra seguinte surgiu, apenas, no ano de 1848. Trata-se de outra edição das Aventuras
do Barão de Munchhausen. Dessa vez sob a chancela de Laemmert. É importante
ressaltar que, historicamente, a literatura infantil é um gênero situado entre dois sistemas; destacando-se, segundo Cademartori (2010), no âmbito educacional, graças ao seu papel pedagógico, uma vez que contribui como a formação de leitores, pois no literário tem o caráter estético questionado.
Para além dessa discussão, esse estudo observa o potencial da literatura infantil para o trato das questões étnico-raciais, levando em consideração o que propõe Candido (1999, p. 82) ao defender a literatura “[...] como força humanizadora [...] Como algo que exprime o homem e depois atua na própria formação do homem.”
Isto porque, segundo Candido (1999, p. 82), a literatura desempenha uma função psicológica. Assim, “[...] a produção e fruição desta se baseiam numa espécie de necessidade universal de ficção e fantasia, que de certo é coextensiva ao homem”. Se até na idade adulta os seres humanos sentem necessidade da ficção, na infância essa é fundamental, uma vez que, além de diversão, propicia conhecimento sobre o ambiente no qual a criança está inserida, já que “[...] a fantasia quase nunca é pura. Ela se refere constantemente a alguma realidade:
fenômeno natural, paisagem, sentimento, fato, desejo de explicação, costumes, problemas humanos, etc.” (CANDIDO, 1999, p. 83 – grifo do autor)
De modo que nos propomos a refletir sobre o racismo e a estereotipização, “problema humano” que ocasiona o preconceito e a negação identitária por parte de crianças e adultos. Por isso, defendemos uma intervenção, ainda, na Educação Infantil, para que desde os primeiros anos escolares haja um processo de autoafirmação. Para tanto, ressalte-se a necessidade de manter uma educação antirracista ao longo do Ensino Fundamental, Médio e superior.
Nesse contexto, é papel dos professores ampliar o repertório de leitura, pois esse conhecimento é primordial para a abordagem de obras que possibilitem alcançar os objetivos propostos, no que se refere a uma educação para as relações étnico-raciais. De maneira que é preciso apresentar aos discentes livros cujos personagens e enredo expressem a diversidade, pois essa aproximação entre o narrado e o vivido favorece a compreensão do público leitor infantil.
Em uma conjuntura ampla, a literatura infantil brasileira, conta com obras, cuja autoria é de escritores de renome, como Henriqueta Lisboa, Raquel de Queiroz, Mário Quintana, Érico Veríssimo, além de outros autores, considerados referências na literatura nacional. Escritores contemporâneos como Ferreira Gullar e Armando Freitas ampliaram esse horizonte, no que se refere a produção literária voltada ao público infantil.
Assim, Ferreira Gullar, além da poesia, dedica-se a fábula e ao conto, para pequenos leitores, conforme constatado por meio dos títulos: Um gato chamado
Gatinho, Dr. Urubu e outras fábulas, assim como o Touro encantado; enquanto
Armando Freitas é autor de Apenas uma lata e Breve memória de um cabide
contrariado. Esses autores, dentre outros, representam o gênero infantil, o qual não
é fácil nem menor e não aceita improvisação nem descuido, pois requer talento, já que sua produção deve observar algumas peculiaridades, conforme destaca Cademartori (2010, p. 4).
Durante o final do século XX, a literatura infantil passou pelo que se pode chamar de internacionalização do gênero, o que é resultado da globalização, uma vez que quando um livro infantil é aceito pelo público de um país influente e sua aceitação fica evidente; há, de imediato, a distribuição desse livro para os demais países, tornando-se, assim, sucesso global. Essa literatura é caracterizada:
[...] pela forma de endereçamento dos textos ao leitor. A idade deles, em suas diferentes faixas etárias, é levada em conta. Os elementos que compõem uma obra do gênero devem estar de acordo com a competência de leitura que o leitor previsto já alcançou. Assim, o autor escolhe uma forma de comunicação que prevê a faixa etária do possível leitor, atendendo seus interesses e respeitando suas potencialidades. A estrutura e o estilo das linguagens verbais e visuais procuram adequar-se às experiências da criança. Os temas são selecionados de modo a corresponder às expectativas dos pequenos, ao mesmo tempo em que o foco narrativo deve permitir a superação delas. Um texto redundante, que só articula o que já é sabido e experimentado, pouco tem a oferecer. (CADEMARTORI, 2010, p. 5).
Desse modo, torna-se perceptível que as obras infantis devem ampliar a compreensão dos pequenos leitores. Por isso, o escritor deve tomar uma série de cuidados com a linguagem, pois essa deve ser adequada as diversas faixas etárias sem desconsiderar o potencial de compreensão que deve ser estimulado, pois obras previsíveis nem colaboram com o desenvolvimento das competências de leitura nem permitem ampliar o conhecimento sociocultural.
Vale salientar a existência de livros que se adequam as exigências da literatura infantil ao tempo que estimulam a percepção da realidade, pois “[...] refletem acentuada consideração por temas sociais, como as diferenças raciais, sexuais, de classe, de habilidades e outras”. (CADEMARTORI, 2010, p. 5), sendo, portanto, essenciais para uma educação antirracista e que promova o respeito a diversidade, a exemplo da obra que se constitui corpus desse estudo.
3.2 Quilombismo em letras e vozes: por uma literatura afro-brasileira para crianças
Discursos acerca da existência de uma literatura afro-brasileira, nortearam discussões na primeira década do século XX. Motivo que instigou o pesquisador Eduardo de Assis Duarte a perseguir um conceito. Nessa busca por uma definição, o estudioso constatou sua existência desde o século XVIII e reafirmou sua presença contemporaneamente, impulsionada por diversos fatores, conforme ressalta:
Desde a década de 1980, a produção de escritores que assumem seu pertencimento enquanto sujeitos vinculados a uma etnicidade afrodescendente cresce em volume e começa a ocupar espaço na cena cultural, ao mesmo tempo em que as demandas do movimento negro se ampliam e adquirem visibilidade institucional. (DUARTE, 2010, p. 113)
Contribuíram para o atual cenário, no que se refere a literatura afro-brasileira, acontecimentos anteriores e posteriores a década de 80, do século XX, a exemplo
da série Cadernos Negros, publicada, inicialmente, em 1978, e a publicação do romance Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, no ano de 2006, o qual inseriu “[...] a temática dos escravizados e suas diversas formas de resistência “[...] em uma editora de grande porte.” (DUARTE, 2010, p. 114)
Alie-se a esses fatos “[...] a ampliação da chamada classe média negra com um número crescente de profissionais com formação superior buscando lugar no mercado de trabalho e no universo de consumo e, por outro lado, a instituição de mecanismos como a lei 10.639/03 [...] (DUARTE, 2010, p. 114). Tal dispositivo legal, culminou na elaboração das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação
das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, documento no qual ressalta-se a importância das políticas
afirmativas, no âmbito educacional e, consequentemente, no social.
Apesar do crescente debate, o conceito de literatura afro-brasileira, constantemente, é confrontado com o de literatura negra, a qual, segundo Duarte (2020, p. 115,) advém da militância “[...] vinculada ao movimento negro”. De acordo com Ironides Rodrigues, citado por Duarte (2010, p. 115), em consonância com Lobo (2007, p. 266): “[...] a literatura negra é aquela desenvolvida por autor negro”.
Tal conceituação é considerada problemática por alguns pesquisadores da literatura. Apesar de atribuída por Luiz Silva (Cuti), intelectual atuante do Quilomboje, coletivo cultural transformado em editora, a qual publica a série
Cadernos Negros, cujo volume 42 foi finalista do Prêmio Jabuti, de 2020. Isso
porque a “[...] postura incisiva [dos Cadernos Negros] que se transformou em sua marca registrada [...]” (DUARTE, 2010, p. 115) afasta escritores menos dedicados a militância.
Para esses pesquisadores, a exemplo de Benedita Gouveia Damasceno, mais importante do que o “pertencimento étnico” é a temática abordada, pois nem todos/as os/as escritores/as negros/as empreendem uma escrita marcada pelo protesto contra o preconceito racial, cultural e religioso. A ausência de consenso leva alguns estudiosos a propor abordagens conciliatórias como fez Domício Proença Filho, o qual tenta incluir tanto a escrita, produzida pelas pessoas negras, quanto os textos sobre o negro na mesma categoria literária.
De acordo com Duarte (2010, p. 117), Zilá Bernd empreende a mesma linha de raciocínio de Proença filho na sua obra Introdução a literatura negra. Entretanto:
[...] tal dicotomia compromete a operacionalidade do conceito, uma vez que o faz abrigar tanto o texto empenhado em resgatar a dignidade social e cultural dos afrodescendentes quanto o seu oposto a produção descompromissada [...] voltada muitas vezes para o exotismo e a reprodução de estereótipos atrelados a semântica do preconceito. (DUARTE, 2010, p. 117)
Embora a abrangência do conceito seja problemática, Bernd (1988, p. 77), no referido estudo, apresenta “leis fundamentais” da literatura negra no que se refere a poesia, são elas: a “[...] „reversão de valores‟ com o estabelecimento de uma „nova ordem simbólica‟ oposta aos sentidos hegemônicos, „a construção da epopeia negra‟ e, sobretudo, a „emergência de um eu enunciador.” (DUARTE, 2010, p. 117)
Desse modo, o foco da pesquisadora não é a cor da pele de quem escreve, mas o “eu-enunciador” que se apresenta nos textos literários, o qual vai ao encontro de uma coletividade. Para Duarte (2010, p. 117) essas considerações devem ser restritas aos textos poéticos, tendo em vista a complexidade do narrador no “discurso ficcional”. Já para Lobo (2007, p. 328), é preciso fazer uma ressalva, pois na conjuntura social brasileira nem todas as pessoas poderiam se “[...] identificar existencialmente com a condição de afrodescendente”.
Após refletir acerca dos diversos pontos de vista, Duarte (2010, p.119) propõe a palavra afro-brasileira, a qual “[...] remete ao tenso processo de mescla cultural em curso no Brasil desde a chegada dos primeiros africanos”. Segundo Luiz Silva, conhecido pelo pseudônimo de Cuti, essa designação reduziria o sentido político e de autoafirmação identitária contido na palavra negro”, conforme revelado por Duarte (2010, p. 119)
Na esteira dessas considerações, Duarte (2010, p. 119) argumenta acerca do risco que o termo afro-brasileiro/a se torne sinônimo de pardo no uso cotidiano. No entanto, destaca: se a palavra negra for adotada no sentido de africana, não existe no Brasil uma literatura, totalmente, voltada a África. Assim, é justo evidenciar o vínculo entre esse continente e o Brasil.
Lobo (2007, p. 315) apresenta uma definição oportuna que agrega tanto o “sujeito da enunciação” quanto o compromisso ideológico. Para a estudiosa: poderíamos definir a literatura afro-brasileira como a produção literária de afrodescendentes que se assumem, ideologicamente, como tal; utilizando um sujeito da enunciação próprio: “[...] Portanto, ela se distinguiria, de imediato, da produção
literária de autores brancos a respeito do negro, seja enquanto objeto, seja enquanto tema ou personagem estereotipado (folclore, exotismo, regionalismo)”.
Além dos aspectos mencionados, Duarte (2010) evidencia a importância do ponto de vista adotado, no ato da escrita, pois mais importante que a origem dos/das autores/as é o lugar a partir do qual eles/elas se expressam. De maneira que, em resumo, distinguem a literatura afro-brasileira:
[...] uma voz autoral afrodescendente, explícita ou não no discurso; temas afro-brasileiros; construções linguísticas marcadas por uma afro-brasilidade de tom, ritmo, sintaxe ou sentido; um projeto de transitividade discursiva, explícito ou não, com vistas ao universo recepcional; mas, sobretudo, um ponto de vista ou lugar de enunciação política e culturalmente identificado à afrodescendência, como fim e começo. (DUARTE, 2010, p. 122)
Por isso, temática, autoria, ponto de vista, linguagem e público devem ser considerados quando nos propomos a analisar uma obra da literatura afro-brasileira. Saliente-se que, também, fundamenta a opção por essa nomenclatura, no presente estudo, a inserção desse adjetivo em documentos oficiais.
No que concerne a outra noção, abordada nesse tópico, em Quilombismo: um conceito emergente do processo histórico-cultural da população afro-brasileira, Abdias do Nascimento destaca como a memória do afrodescendente brasileiro é, sistematicamente, agredida pela estrutura de poder e dominação há quase quinhentos anos.
Em decorrência disso, agrupamentos, como o Quilombo dos Palmares, surgiram, se tornando locais onde a resistência era constante. Protestava-se contra o sistema escravagista que submetia os africanos escravizados a mão-de-obra sem remuneração, assim como a agressões e a um processo de aculturação. De maneira que, apesar de contribuir para que o crescimento do país ocorresse, substancialmente, em benefício dos senhores de escravos e da própria sociedade escravagista da época, essas pessoas foram marginalizadas, sem perspectiva de ascender socialmente, uma vez que essa mobilidade social era vetada por leis que reforçavam a opressão.
Percebe-se que, por muito tempo, as vozes dos negros permaneceram silenciadas. A esse respeito, Nascimento (2009) destaca que no Brasil, a elite dominante sempre buscou desenvolver esforços, na tentativa de impedir que os negros pudessem assumir as suas raízes étnicas, seccionando-os do seu tronco
familiar africano. É evidente o processo de negação, por parte da classe dominante, a qual recusa ao negro o acesso a sua herança cultural africana, vetando, assim, o acesso aos valores transmitidos por seus antepassados.
É importante destacar que, atualmente, não há proibição oficial, mas, indiretamente, incentiva-se o distanciamento das origens culturais, pois a depreciação do patrimônio imaterial do continente africano e a exaltação europeia ocasionam uma autorrejeição, já que, segundo Lima (2006, p. 43):
As visões mais comuns sobre a História africana ou se construíram com base em preconceitos etnocêntricos, apresentando a África como lugar atrasado, inculto, selvagem, terra da barbárie, ou supervalorizando o seu papel de vítima – do tráfico, do capitalismo, do neocolonialismo e assim por diante.
Essa visão depreciativa foi reforçada pela imigração maciça de europeus no pós-abolição, pois as classes dominantes que, por palavras e ações, tentavam desconstruir das mentes dos afrodescendentes a imagem de uma África positiva, silenciando suas vozes; passou a acolher os imigrantes, valorizando a cultura e incentivando a permanência no país, desde que o resultado fosse uma população cada vez mais branca, como aponta (Schwarcz, 1998. p. 87)
Apesar de tais estratégias, da elite dominante, a herança cultural africana permaneceu na lembrança dos/as negros/as, garantindo, assim, a presença viva da Mãe África em terras brasileiras. Além da memória, o continente africano estava presente, materialmente, nos quilombos, “[...] localizados no seio de florestas de difícil acesso [...]” (NASCIMENTO, 2009, p. 203); já que, segundo a historiadora Maria Beatriz Nascimento (1979, p. 17), mencionada por Nascimento (2009, p. 204) tratava-se de locais onde “[...] a liberdade era praticada, onde os laços étnicos e ancestrais eram revigorados.
Nascimento (2009, p. 203), pontua, ainda,
[...] Genuínos focos de resistência física e cultural. Objetivamente, essa rede de associações, irmandades, confrarias, clubes, grêmios, terreiros, centros, tendas, afoxés, escolas de samba e gafieiras foram e são os quilombos legalizados pela sociedade dominante.
Desse modo, o quilombismo, compreendido como “práxis afro-brasileira” refere-se tanto as organizações legais quanto as ilegais. (NASCIMENTO, 2009, p. 203). Tal perspectiva é importante por reafirmar a necessidade de união para a
libertação das mentes, pois a “abolição” garantiu, apenas, liberdade aos corpos, uma vez que a população negra precisa lutar, diariamente, por seus direitos e pelo respeito a herança cultural africana.
Consciente dessa situação, Abdias do Nascimento propôs o ABC do Quilombismo, no qual esquematiza lições importantes, dentre as quais destacamos:
[...] f) Formar os quadros do quilombismo é tão importante quanto mobilizar e organizar a comunidade negra; g) Garantir ao povo trabalhador negro seu lugar na hierarquia de poder e decisão, mantendo sua integridade étnico-cultural, é a motivação básica do quilombismo.” (NASCIMENTO, 2009, 208)
No contexto da Educação Infantil, direcionamos tais lições aos professores, os quais devem ser formados para atuar em prol de uma educação antirracista, uma vez que a escola pode se constituir um espaço adequado ao trabalho com a literatura infantil, como prática quilombista de conscientização dos/as alunos/as, pois o “poder de decisão” e a “integridade étnico-cultural” podem ser propiciadas, desde a