A hegemonia do neoliberalismo espraia em todo o mundo com maior ou menor grau de adesão, indo contra à expansão do Estado no que tange às demandas sociais, com intervenções minimamente pontuais e com ênfase na naturalização das desigualdades sociais inerentes nos marcos dessa sociabilidade.
O reflexo desses ideais, no âmbito político e ideológico, alçou o neoliberalismo ao sucesso inimaginável aos seus idealizadores e culminou na criação de sociedades marcadamente desiguais (ANDERSON, 1995). Além disso, como explicita Netto (2013, p.9), a “‘globalização’/‘neoliberalismo’ veio para demonstrar aos desavisados que o capital não tem nenhum ‘compromisso social’ – o seu esforço para romper com qualquer regulação política democrática, extra-mercado, da economia tem sido coroado de êxito”.
A ausência desse compromisso social é revelada à medida que o capital radicaliza as bases da sua acumulação. Trata-se de uma tendência de retração do Estado na provisão de direitos, ações e serviços sociais que expressa a trama com o capital, no momento em que a prioridade governamental está voltada aos interesses da burguesia em detrimento do atendimento das necessidades básicas da população, que tanto arcará com os custos dessa crise quanto sentirá os efeitos nocivos.
O Estado é um componente privilegiado de defesa dos interesses burgueses, operando um conjunto de mudanças na perspectiva de viabilizar a canalização de recursos para alimentar a dívida pública e assegurar seu pagamento. Do mesmo modo, atuará na regulamentação e implementação das políticas sociais neste contexto sem, entretanto, prescindir das orientações para a política social estabelecidas em 1988 (BRETTAS, 2020a, p.234).
A anuência estatal ao referendar as orientações do FMI e Banco Mundial expressam a relação escusa entre o Estado e Capital e denotam que a existência deste está atrelada ao papel desempenhado por aquele, sobretudo no contexto neoliberal. Isso fica evidenciado nas palavras de Mészáros (2013) quando “apesar de todos os protestos em contrário, combinando com fantasias neoliberais relativas ao ‘recuo das fronteiras do Estado’, o sistema do capital não sobreviveria uma única semana sem o forte apoio que recebe do Estado”. Nesse sentido, a redução do papel do Estado como apregoa os defensores neoliberais não é compatível com
essa relação estreita existente entre ambos, em especial nos momentos de depressão econômica “quando a crise se instala, todo o discurso e a defesa da eficiência do mercado, da privatização, da desregulamentação se “desmancham no ar”, chamem o Estado, ou melhor, o fundo público para socializar os prejuízos”
(SALVADOR, 2010, p.51).
Diante disso, sinaliza-se que o fundo público terá protagonismo no processo de acumulação capitalista.Conceitualmente esse fundo é entendido como “a capacidade de mobilização que o Estado tem para intervir na economia, seja por meio das empresas públicas ou pelo uso de política monetária e fiscal, assim como o orçamento público” (SALVADOR, 2010a, p.607).
Uma das funções de tal fundo, ainda conforme o autor, são as políticas sociais. Dessa forma, o fundo público, que em tese deveria financiar as políticas sociais, tem funcionado como amortecedor dos impactos da crise para os detentores do capital. Ao longo de décadas, o uso deliberado do fundo tem se tornado impeditivo para materialização de conquistas dos/as trabalhadores/as, pois, em prol da dívida pública e seus robustos encargos, o ataque ao orçamento das políticas públicas sociais tem desembocado no sucateamento dos serviços. No tempo presente o fundo público é fundamental na captação dos recursos das políticas sociais através de mecanismos que irão canalizar o montante arrecadado para os titulares da dívida pública.
Está em curso, portanto, o acirramento das contrarreformas e de ajustes fiscais que pairam no Brasil desde a década de 1990. Rememora-se que, no intuito de produzir os chamados superávits primários, em 1999, a gestão de Fernando Henrique Cardoso (FHC) acordou como o Fundo Monetário Internacional (FMI) o compromisso em reduzir o custeio das políticas sociais para o pagamento de uma dívida pública que acumula-se ao longo de décadas.
O início dos anos 1990 foi marcado por alterações que caminharam no sentido de restabelecer as margens de lucratividade do capital por meio da reestruturação produtiva, abertura comercial e financeira, privatizações e todo um conjunto de medidas que, além de beneficiarem o grande capital, fortaleciam nossa inserção dependente no mercado mundial. Além disso, todo um discurso em torno de uma suposta crise fiscal e do combate à inflação funcionava com base de legitimação para inviabilizar a implementação das políticas sociais nos moldes previstos na Constituição (BRETTAS,2020a, p.214).
Assim, enquanto se afasta dos interesses da classe trabalhadora, o Estado presta o socorro necessário aos detentores do Capital para minorar os danos causados pela crise transferindo uma parte da mais-valia produzida por meio do endividamento dos Estados. Comunga-se com Behring (2017, p.10) quando a autora analisa que o pagamento da dívida é um mecanismo de “punção violenta da riqueza socialmente produzida, por meio da apropriação privada de parte significativa do fundo público”.Essa primazia da dívida pública para alimentar o capital portador de juros em detrimento das políticas sociais pode ser observada sob vários aspectos e nuances na trajetória histórica mais recente da política brasileira.
É preciso considerar o caráter político intrínseco na condução dessa agenda econômica de viés neoliberal que, embora tenha sido iniciada no país em meados dos anos 1990 com o presidente FHC, mediante as orientações e imposições internacionais que contemplam desde as metas de superávits primários até o arsenal de contrarreformas implementadas, manteve-se de forma contínua nos governos que assumiram posteriormente. Nota-se que os governos progressistas da esquerda não conseguiram romper essa relação, ao passo que o tripé que sustentou o Plano Real (política monetária com altas taxas de juros/liberdade cambial/política fiscal) permaneceu nos governos do Partido dos Trabalhadores (PT)(SALVADOR, 2017).
Os parâmentros macroeconômicos do Plano Real de 1994 e do acordo do FMI de 1999 permanecem, em geral, vigentes, porém não se trata mais do momento fundacional do projeto neoliberal entre nós. Hoje estaríamos numa espécie de retomada da programática mais dura do consenso de Washinton (de 1993). Temos chegado a conclusão de que vivemos uma espécie de ajuste fiscal permanente desde que a dívida (1980/1982) e que após 14 planos econômicos, teve uma inflexão em 1994 com o Plano Real, em que pese aqueles deslocamentos suaves dos governos petistas [...] (BEHRING, 2018, p.62, grifos da autora).
Nesse entendimento, acerca dessa continuidade de “ajuste fiscal permanente”, apesar das ressalvas devido o investimento em políticas sociais, conforme Brettas (2017):
De uma maneira geral, podemos dizer que os governos do Partido dos Trabalhadores, em especial os mandatos do presidente Lula, estiveram em uma “corda bamba” em que, sem romper com a hegemonia das finanças, buscavam alavancar a produção industrial. Essa alavanca tinha nos recursos do fundo público uma de suas principais molas propulsoras. Sendo assim, por um lado, sangravam recursos públicos para alimentar o capital portador de juros via endividamento, e, por outro – e para compensar este –, drenavam recursos para financiar a acumulação capitalista, em especial, via BNDES – desestimulada pelo incentivo às finanças [...] Os mandatos do presidente Lula buscaram, com certa habilidade, operar algumas
concessões à classe trabalhadora. Para tanto, recorreu-se com frequência à adoção de medidas ambíguas e limitadas no seu potencial ofensivo. Sua equipe manteve altas as taxas de juros, mas concedeu créditos a juros subsidiados. Criou programas sociais que atingiram considerável parcela da população, mas o fez cheio de restrições e condicionalidades e, na maior parte deles, por meio de transferência direta de renda, o que beneficia também o capital portador de juros (BRETTAS, 2017, p.26).
Sem o rompimento com o capital portador de juros o manual neoliberal que
“ajusta” as contas públicas tem seus mecanismos atualizados e intensificados para realizar a punção de riqueza, dentre eles, pode ser exemplificado a Desvinculação dos Recursos da União (DRU), que desde 1993 se fez presente na economia brasileira, com nomenclaturas distintas, sejam elas: Fundo Social Emergencial ou Fundo de Estabilização Fiscal (SALVADOR, 2017). A ideia do instrumento é a mesma: permitir que um percentual de receitas seja deslocado do Orçamento da Seguridade Social (OSS)6para o Orçamento Fiscal, sendo possível, assim, a utilização para pagar as despesas fiscais das quais fazem parte a dívida pública, os juros e amortizações.
Conforme, Salvador (2017), dos anos 2000 até final de 2016, o percentual que a DRU retirou das políticas sociais (assistência social, previdência e saúde) concentrava a marca de 20%, mas, após a aprovação da Emenda Constitucional nº 93/2016, elaborada na gestão da Presidenta Dilma Rousseff, o percentual foi elevado para 30%.
Somente por meio da DRU, a Seguridade perdeu entre 1995 e 2017, cerca de R$ 980,00 bilhões (MENDES; CARNUT, 2020). Nessa direção, conforme os dados da Associação Nacional de Auditores Fiscais da Receita Federal no Brasil (ANFIP), entre 2005 e 2015, R$ 73 milhões foram desviados do OSS, já em 2016 com o aumento da alíquota foram drenados R$ 99,4 milhões e, em 2017, R$ 113 milhões (BRETTAS,2020a). A partir dessa retirada progressiva, como expresso nesses números, avolumam-se a canalização do OSS para o orçamento fiscal, portanto a DRU pode ser considerada como um dos mecanismos legalizados institucionalmente que mais dilapidam as políticas sociais. Com esse acréscimo de 30% que é posto livremente numa espécie de “perversa alquimia” que converte os recursos da seguridade em recurso fiscal, percebe-se que o OSS tem sido elementar aos
6O Orçamento da Seguridade Social, conforme a CF 88, é responsável por custear os serviços da saúde, assistência social e previdência.
serviços da dívida ao comparecer para socorrer o capital mas, principalmente, o mercado financeiro (BOSCHETTI; SALVADOR, 2006 ; SALVADOR, 2010).
Mas é, sobretudo, com a ascensão da direita ao poder que o projeto radical da burguesia adentra na política econômica de forma mais acirrada. Em 20167, após as manobras jurídicas e parlamentares, a Presidenta eleita democraticamente, Dilma Rousseff (PT), sofreu um impeachment que levou o comando do Brasil a cargo do seu vice, Michel Temer (PMDB), que passou a operar uma série de contrarreformas para atender aos interesses do capital.
O governo ilegítimo de Temer trata-se de uma restauração conservadora de um projeto político ultra neoliberal, assumidamente pró-capital, que visa resolver os impasses de acumulação e favorecer os interesses da classe dominante do país e aprofundar sua dependência junto ao capital internacional (BRAVO; PELAEZ; PINHEIRO, 2018, p.12).
Os autores chamam atenção para as contrarreformas no âmbito da saúde na condução do governo por Temer, como o fortalecimento das internações psiquiátricas e incentivo às comunidades terapêuticas; proposição dos Planos de Saúde Acessíveis e a revisão na Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) (BRAVO; PELAEZ; PINHEIRO, 2018). Cabe sinalizar também que o governo pôs em vigor as contrarreforma trabalhista e previdenciária, ataques diretos à classe trabalhadora que aprofundam as formas de exploração do trabalho. Além disso, o presidente (não eleito) assinalou a severa Emenda Constitucional n°95/2016 que limita os recursos orçamentários das políticas sociais.
Nesse diapasão, Brettas explica que não trata-se de um retorno do neoliberalismo, que nunca deixou de existir, mas, sim que houve uma guinada do projeto das classes dominantes, que“[...] expressa a dificuldade da classe trabalhadora em se organizar tanto para resistir a essas mudanças quanto para ampliar sua apropriação do fundo público” (BRETTAS, 2017, p.33).
A continuidade desse projeto encontra as bases políticas necessárias com a ascensão eleitoral do presidente Jair Messias Bolsonaro (PL), político da extrema direita brasileira, que tem forte apelo às políticas antidemocráticas, tendo como sustentáculo um viés moralizador, conservador e religioso, sob uma narrativa pseudonacionalista. Para Maurílio Matos (2021) trata-se de um “governo com ideias
7 O rito do processo que culminou na cassação do mandato de Dilma Rousseff iniciou em dezembro/2015 e foi concluído em agosto/2016.
e ações neofascistas, ainda que não haja, até o momento pelo menos, um regime fascista” (MATOS, 2021, p.85).
O governo bolsonarista mantém e aprofunda o desmonte operado por Michel Temer, no tocante ao desfinanciamento e a relação com as parcerias público-privadas, sendo um dos seus primeiros feitos na saúde a extinção do Programa Mais Médicos, em vigor desde 2013, cuja parceria com Cuba havia permitido ampliar a assistência médica em saúde para milhões de brasileiros/as. Com a atitude de romper o acordo com o país, em virtude de divergências ideopolíticas, a saída dos/as médicos/as resultou em um déficit de profissionais nas regiões nordeste e norte, principalmente, além da piora no acesso à saúde e índices de saúde8 (MATOS, 2021; ABRASCO, 2019).
Seguem o curso as contrarreformas orquestradas pelo ministro da economia, Paulo Guedes, cuja tentativa é privatizar as empresas do Estado para sanar uma suposta falência estatal e salvaguardar a economia, dessa forma a direção política e econômica o governo caminha, em verdade, para atender os interesses do grande capital e se distancia, substancialmente, dos anseios da classe trabalhadora.
Como já foi assinalado, a dívida pública tem protagonismo nas intenções político-governamentais, evidenciado ao passo que parte do orçamento está destinado com os encargos dessa dívida contraída ainda dos anos ditatoriais.
Conforme levantamento dos documentos produzidos pela Auditoria Cidadã da Dívida, que utiliza a base de dados do Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento (SIOP), é possível visualizar os ataques ao fundo público no cenário pós-golpe, quando entre os anos de 2017 a 2020 o pagamento com os serviços da dívida acumulou os seguintes percentuais, respectivamente: 40,66%, 38,27%, 39,08% e 39,70% (considerando as despesas pagas). Com pequenas variações entre os anos, atesta-se que o percentual dirigido à dívidatorna-se um gargalo para o financiamento das políticas sociais.
8 Em pesquisa aos dados obtidos pela de Lei de Acesso à Informação e reportagem de Nascimento (2022) para Revista Piauí, registrou-se 119 municípios mais afetados nessas duas regiões, quando em 2018 haviam 544 profissionais do Mais Médicos e no ano de 2019, o número passou para 127.
Sem assistência em saúde, sobretudo na Atenção Básica em que os/as profissionais se inseriam, nesses municípios as mortes evitáveis de crianças de até 5 anos saltou em 58%, de 60 em 2018 para 95 em 2019.
A primazia da dívida é evidenciada quando, mesmo no auge da maior crise sanitária9 do séc. XXI, ocasionada pelo novo Coronavírus (SARS-CoV-2) acometida no Brasil a partir de março/2020, os gastos com a dívida alcançaram a ordem de R$
1,381 trilhão em 2020, um aumento de 33% do gasto considerando o ano anterior, conforme Fatorelli, etal (2021). Todavia, concernente às políticas de seguridade, os valores mantêm-se ínfimos quando comparados com os gastos fiscais da dívida, a Saúde, por exemplo, acumula um percentual de pouco mais de 4% nesses mesmos anos citados. Esses números exacerbam a direção ideológica e política que envolve as relações do Estado com a classe dominante e atestam o subfinanciamento crônico (MENDES,2015) que se arrasta pela história da saúde pública no Brasil.
No âmbito da saúde, é salutar considerar que muitos são os percalços que limitam a efetivação do SUS constitucional, ao passo que em trinta anos não foi possível assegurar os 30% da seguridade destinados à saúde nos moldes da CF 88.
Além disso, a política de saúde tem ainda como base a vinculação orçamentária a partir da EC nº29/2000, que somente foi aprovada após 10 anos da publicação da Lei Orgânica nº8080/1990, que regulamentou o SUS, em que ficou estabelecido percentuais mínimos voltados às ações e serviços de saúde, sendo para União 10%, 12% para Estados e Distrito Federal pela arrecadação de impostos e 15% para os municípios. A EC, todavia, não explicitou a origem dos recursos, nem o percentual de cada política na seguridade “ignorando a existência de disputa nesse âmbito”
(CONCEIÇÃO; CISLAGHI; TEIXEIRA, 2012, p.110).
A regulamentação da EC 29/2000, só aconteceu em 2012 pela Lei complementar nº 141/2012, embora as incertezas tenham permanecido, à medida que essa normativa não permitiu avançar com relação “à alocação adicional de recursos para o SUS, pois manteve a lógica da regra do piso tal qual estabelecido pela EC 29/2000 para as três esferas de governo” (FUNCIA;OCKÉ-REIS, 2018, p.85). Mendes e Funcia (2016) apontam que na vigência de EC 29 houve uma ampliação do gasto em saúde de 2,89% do PIB em 2000 para 3,84% em 2011. É importante assinalar que em onze anos (2000 a 2011) um acréscimo de PIB de
9 Cabe sinalizar a desastrosa condução do presidente Bolsonaro na Pandemia da Covid-19 ao assumir uma postura negacionista em relação à doença; incentivar aglomerações e o uso indiscriminado de tratamentos e medicamentos sem comprovação científica; alçar a retomada da economia enquanto prioridade sobre a vida; questionar a eficácia das vacinas; retardar a compra dos imunizantes; não incentivar em campanhas de vacinação em massa; menosprezar o número
crescente de casos e vilipendiar os milhares de mortos pela doença.
menos 1% chega a ser irrisório diante da dimensão do SUS e, principalmente, do seu princípio universal.
Brettas (2020a, p.238) chama atenção que no ano de 2015 houve uma nova modificação que caminhou para ampliar esse subfinanciamento da saúde, através da EC nº 86/2015, conhecida como orçamento impositivo que “apesar da base de cálculo claramente definida, a receita corrente líquida (RCL), o percentual foi alterado para 13,2%, aumentando paulatinamente até alcançar 15%”. Ou seja, são alteradas as bases de cálculo, de receita corrente bruta para receita corrente líquida, e o percentual é reduzido.Em 2015, por exemplo, o gasto como SUS ficou em 3,9%
do PIB, sendo 1,7% na União; 1,0% nos Estados; 1,2%, nos municípios, já a média em países europeus com sistemas universais foi de 8,0% do PIB (MENDES;FUNCIA, 2016).
Diante do exposto, muitos são os entraves para materializar o desenho ideal do texto constitucional no orçamento à luz da crise do capital e das estratégias que colocam em disputa os interesses pelo fundo público.
Apesar do processo de subfinanciamento do SUS, inclusive com mecanismo já existentes (DRU e LRF), em 2017 entrou em vigor a Emenda Constitucional nº 95/2016 que impôs um Novo Regime Fiscal (NRF). O regime impede o aumento de despesas primárias pelo prazo de vinte anos, com exceção para as despesas voltadas para o pagamento de juros da dívida, “limitando-se a correção pela inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), com previsão de uma revisão em 10 anos” (SALVADOR, 2017, p.72).O NRF consiste em mais uma forma legitimada pelo Estado que potencializa a subtração dos os valores socialmente produzidos pelos/as trabalhadores/as para o enriquecimento da burguesia, escamoteando os interesses coletivos para fornecer bases para apropriação privada desse montante. Nesse diapasão, é manifesto que a sobrevida dos titulares da dívida pública está diretamente ligada à quota subtraída do orçamento da seguridade social.
Sobre a implementação dessa EC, nas palavras de Brettas:
Trata-se de uma mudança de patamar por duas razões fundamentais:
primeiro porque legitima o ajuste fiscal por meio da sua constitucionalização de uma maneira que não estava estabelecida anteriormente. Segundo, porque acaba com a relação entre as receitas e os gastos primários. Mesmo que aumente a base de arrecadação do governo não será possível ampliar os gastos primários, dentre estes, os gastos com as políticas sociais.[...] a partir desta Emenda Constitucional, o
aumento da receita tributária tem um destino líquido e certo: o pagamento de juros (BRETTAS, 2020a, p.239, grifos nossos).
Como pode ser observado, as medidas macroeconômicas, das quais o ajuste fiscal é expressão, são incompatíveis com a viabilidade do acesso e qualidade dos serviços públicos e, por conseguinte, com os interesses da classe trabalhadora. O desmonte dos direitos sociais recrudescidos hodiernamente perpassa o desfinanciamento em que estão submetidas às políticas sociais com forte agravamento das condições de trabalho, vida e saúde da população brasileira.
O cenário futuro para a saúde é o prelúdio da destruição do SUS, ao passo que nos estudos de Vieira de Benevides (2016), são estimadas perdas de R$ 654 bilhões, considerando a Receita Corrente Líquida (RCL) de 13,2% de 2016 e o crescimento anual do PIB em 2%. Se houver um crescimento de 1%, a perda é ampliada para R$ 416 bilhões. E em cenários mais auspícios, com crescimento do PIB de 3%, as projeções alcançaram a marca de R$ 1 trilhão.
A ruína da política de saúde é transparecida quando Mendes, Carnut e Guerra (2018), analisam que sob a implementação do NRF de subfinanciada, desde seu nascedouro, a saúde passará a ser desfinanciada.
Na vigência da EC 95, o subfinanciamento do SUS certamente passará para um desfinanciamento. Os recursos federais para o SUS devem reduzir de 1,7% do PIB (2016) para 1,0% até 2036, acumulando perdas superiores a três orçamentos anuais nesse período de 20 anos. Em um cenário retrospectivo, entre 2003 e 2015, essa perda seria de R$ 135 bilhões, a preços médios de 2015, diminuindo os recursos federais do SUS de 1,7%
Na vigência da EC 95, o subfinanciamento do SUS certamente passará para um desfinanciamento. Os recursos federais para o SUS devem reduzir de 1,7% do PIB (2016) para 1,0% até 2036, acumulando perdas superiores a três orçamentos anuais nesse período de 20 anos. Em um cenário retrospectivo, entre 2003 e 2015, essa perda seria de R$ 135 bilhões, a preços médios de 2015, diminuindo os recursos federais do SUS de 1,7%