• Nenhum resultado encontrado

ENTRE DEUSES E PAJÉS – A RELIGIOSIDADE INDÍGENA

Neste capítulo da nossa tese, pretendemos trazer algumas informações

sobre a religiosidade dos nossos índios, sempre tão negada pelo colonizador

por considerá-la algo pernicioso ao processo da catequização iniciado no

século XVI e da figura do pajé ou xamã, um importante elo com o sagrado na

vida da aldeia indígena.

A temática religiosa é retomada por Daniel Munduruku, no intuito de

apresentá-la aos leitores como manifestação do sagrado, ordenado pelo pajé

no seio da comunidade indígena. Apresenta o xamã como alguém que tem

uma história, uma missão junto aos seus, como podemos ler em muitas de

suas narrativas.

A FIGURA SAGRADA DO PAJÉ

Sabe-se que os missionários, nos séculos XVI e XVII, condenavam a

religião indígena e o seu maior representante espiritual – o pajé – uma figura

emblemática para a harmonização da vida social na aldeia. Daniel Munduruku

também o chama de xamã, por considerar um termo mais abrangente e

seguro. Para o autor, a palavra “xamanismo” é mais universal, “uma vez que

em todas as culturas nativas do mundo há ou houve a presença do xamã, uma

pessoa com poder especial de cura e de contato com os espíritos”.

(MUNDURUKU, 2010, p. 90).

As práticas xamânicas podem ser reportadas no Ocidente desde o

quinto século antes de Cristo, no mundo grego, em suas práticas de interpretar

o futuro e de revelar a verdade aos homens, sob a inspiração dos deuses.

Segundo Santos (2007), o xamanismo é uma das mais antigas formas da

expressão religiosa, encontrada nas culturas pré-históricas de caçadores da

Sibéria, onde o xamã era o mago, o curandeiro e poeta.

A figura do xamã e a representação de suas atividades religiosas,

entretanto, sofreram mudanças ao longo do tempo. No século XVII – marcado

pelo espírito racional do Iluminismo – o xamanismo era considerado uma

superstição, o que contrariava o cientificismo da época.

No século XVIII, assumiu a característica do exótico, sendo alvo de

interesse e curiosidade pelo oculto, até por aqueles que professavam o espírito

racionalista do Iluminismo.

O xamanismo só desenvolveu a dimensão artística no movimento

romântico, nos séculos XIX e XX, quando houve “a formação de uma poética20

que proclama a sobrevivência do pensamento mágico, contra os assaltos da

racionalidade”. (SANTOS, 2007, p. 271).

Os estudiosos das Ciências Humanas voltaram a atenção para os textos

orais dos xamãs e seus refrães, com toda a sua musicalidade. Na explicação

de Santos (2007):

Essas canções são narrativas poéticas que têm sido sussurradas pelos

espíritos eternidade afora. Elas descansam na raiz de toda forma narrativa,

seja ficcional ou histórica. Elas lidam com o poder mágico das palavras, dando

à narrativa poética uma perspectiva diferente, aquela da palavra que cura e

que ecoa os sons, há muito esquecidos, da poesia primitiva. (p. 273).

Para os cientistas das religiões, o xamã é o guerreiro do conhecimento,

símbolo da sobrevivência étnica de tradições assimiladas pela cultura da razão

europeia. Sua presença está entre os nativos americanos da América do Norte,

entre os aborígenes da Oceania e entre as tribos da África. Mas, suas práticas

podem ser observadas na maior parte das culturas.

Esse líder espiritual passa por um êxtase e mergulha em outros níveis de

consciência através do voo mágico. Dentro da perspectiva da História Geral

das Religiões, Eliade (1960) já afirmava ser o xamã um grande mestre do

êxtase, ou “o especialista de um transe o qual sua alma crê abandonar o corpo

para empreender ascensões ao Céu ou descimentos ao Inferno”.21

(p. 23,).

É alguém que “incorpora a habilidade e o desejo de alcançar um estado

de consciência alterada, frequentemente à beira de um ‘colapso psíquico’, para

20

É o que se chama de etnopoética, uma “nova poética” voltada para o antigo e para as culturas

autóctones. O termo foi idealizado por Jerome Rothemberg (1931) que propunha uma poesia fora do

espaço literário ocidentalizado, centrado na tradição greco-romana. Para Santos (2007), a etnopoética é

a poesia da experimentação do potencial humano em todos os tempos e lugares.

21

Tradução livre do trecho: “[...] El especialista de um trance durante el cual su alma se cree abandona

el cuerpo para empreender ascensiones al Cielo o descimientos al Inferno”. (ELIADE, 1960, p. 23).

uma variedade de propósitos que envolvem o sobrenatural”. (SANTOS, 2007,

p. 15).

Além desse estado metafísico, o xamã incorpora também a continuidade

de identidades étnicas, no mundo globalizado da pós-modernidade.

De acordo com Gennep (2011), o conjunto dos atos do xamã, por

ocasião de uma cerimônia, compreende a mesma sequência: transes, morte,

viagens da alma a outro mundo, a volta e a aplicação dos conhecimentos

adquiridos no mundo sagrado.

Para Munduruku (1996), o povo indígena atribui ao pajé uma importante

função de sonhar e interpretar os sonhos que mostram os caminhos a trilhar

nos momentos de dúvida. Tem um poder que não é seu, “mas das forças

cósmicas que atuam por meio dos antepassados”. (p. 22).

A antropóloga Ramos (1986) acrescenta que outra atribuição do pajé

está na responsabilidade de zelar pelo bem-estar geral da comunidade,

protegendo-a contra espíritos malignos, conduzindo recitativos ou cerimônias

propiciatórias para boas colheitas, boas caçadas, invocando espíritos benignos

para assistir na resolução de certos problemas, como esterilidade e outros

distúrbios que podem ser atribuídos aos efeitos de feitiçaria. (p. 83).

Assim, o pajé detém o conhecimento do sagrado e de suas

manifestações na natureza. A revelação do sagrado é chamada por Eliade

(1992) de “hierofania” que pode se manifestar em pedras e árvores, elementos

que acabam adquirindo um novo status para o homo religiosus:

Para aqueles a cujos olhos uma pedra se revela sagrada, sua realidade

imediata transmuda-se numa realidade sobrenatural. Em outras palavras, para

aqueles que têm uma experiência religiosa, toda a natureza é suscetível de

revelar-se como sacralidade cósmica. O Cosmos, na sua totalidade, pode

tornar-se uma hierofania. (p. 16).

Para o povo indígena, a natureza é sagrada, as águas, as árvores, os

animais, o vento podem estar dotados de sacralidade, por isso, devem ser

adorados e respeitados.

Como o elemento mágico-religioso permeia a sua vida diária de maneira

tão íntima, não faz sentido limitar as atividades religiosas dentro de um templo

ou santuário e nem num tempo especificado, como missas ou outros rituais

periódicos. (RAMOS, 1986).

Os indígenas tendem a viver o mais possível no sagrado ou muito perto

dos objetos consagrados. Fazem parte, portanto, de uma sociedade que se

organiza sobre bases mágico-religiosas e que a sacralidade predomina sobre o

mundo profano. Para o etnólogo germânico Gennep (2011): “Nascer, parir,

caçar, etc., são então atos que se prendem ao sagrado pela maioria de seus

aspectos”. (p. 23).

Esse importante personagem da tribo está sempre presente na obra de

Daniel Munduruku. Podemos citar o conto “O menino que não sabia sonhar”,

do livro Histórias de Índio (1996). É também protagonista da obra Karú Tarú: o

pequeno pajé (2009d) e é quem conduz o rito de passagem dos curumins para

a vida adulta em O sinal do pajé (2011).

É importante lembrar que a religião dos povos indígenas foi

historicamente entendida como uma religião da falta, pois os nativos não

tinham fé, nem adoravam a Deus.

Para suprir a falta não só religiosa, mas também linguística, foi preciso

um esforço dos religiosos católicos, logo no início da colonização das terras

brasileiras, de traduzir (traditio) para a língua tupi os ritos, as rezas, os cantos

bíblicos, os mandamentos.

De acordo com Bosi (1992), houve um trabalho de “aculturação

linguística” empreendido pelos missionários (padre Anchieta, por exemplo),

uma tarefa nada fácil de realizar porque nem sempre se conseguia uma

homologia entre as duas línguas e, às vezes, o resultado não era muito

preciso.

Por isso, houve muitas adaptações, o que levaria a uma nova

representação do sagrado, “uma terceira esfera simbólica, uma espécie de

mitologia paralela que só a situação colonial tornara possível”. (BOSI, 1991, p.

65, grifo do autor).

A visão eurocêntrica era a de que era preciso modificar o comportamento

e os costumes indígenas para que fossem salvos, ainda que por meio de força.

Tudo pela glória de Deus – ad majorem Dei gloriam – repetindo aqui o lema

dos soldados de Cristo.

Como se vê, com todas essas medidas austeras do colonizador, a

religião indígena foi negada pelos colonizadores, teve sua voz abafada pelo

cristianismo que sempre se mostrou sensível ao pobre, mas implacável e

etnocêntrico, diante da alteridade cultural. O “outro” foi sempre considerado

como inimigo, pagão, infiel e o pajé não foi poupado.

Ainda assim, os pajés resistiram à catequese e “continuaram gozando de

grande prestígio, promovendo reuniões de mil pessoas para prever o futuro.

Representavam certamente a mais poderosa defesa das tradições indígenas”.

(MOREAU, 2003, p. 201).

Daniel Munduruku entende o xamã como uma figura comum, mas

dotada de dons que o destacam dos demais. Em algumas sociedades

indígenas, ele é definido pelos sonhos das pessoas ou de outro xamã. Muitas

vezes é preciso que ele receba os conhecimentos dos mais velhos e passe por

um processo de iniciação conduzido pelo pajé mais velho do grupo.

De acordo com o autor, esse líder religioso da aldeia deve identificar e

curar doenças, realizar cerimônias para identificar os espíritos ladrões de almas

e causadores de doenças, sonhar e interpretar os sonhos. Os índios acreditam

que, no sonho, o pajé pode sair do próprio corpo e viajar milhares de

quilômetros pelo cosmo e descobrir o que irá acontecer a seu grupo.

(MUNDURUKU, 2009a).

Como se vê, o pajé ordena o conhecimento da comunidade e o

comportamento que se deve ter diante do sobrenatural. Sua importância para a

aldeia é vital:

Sem a presença desse líder espiritual, toda a comunidade estará sujeita ao

sofrimento e à morte e terá de buscar novas formas de lidar com o sagrado,

entregando-se, muitas vezes, às seitas fundamentalistas e que ela não está

acostumada e que jamais lhe trarão respostas de que precisa: agradar ao

Grande Espírito e compreender a maravilhosa experiência de viver.

(MUNDURUKU, 2009a, p. 53).

Hoje, vemos pentecostais, adventistas e evangélicos que invadem as

aldeias, transformando os deuses indígenas em um deus cristão, chegando a

eliminá-los.

As consequências negativas sobre as sociedades indígenas são

lembradas por Ramos (1986):

Proibindo a manifestação de uma cosmologia tradicional não-cristã e incapazes

de fornecer substituto coerente, os missionários ortodoxos de seitas ocidentais

conseguiram, através dos tempos, criar, para as populações indígenas, mais

angústias, inseguranças, incertezas e confusões mentais do que quaisquer

outros agentes de desagregação. (p. 87).

REFLEXÕES SOBRE A RELIGIOSIDADE INDÍGENA

É fato que a religiosidade indígena é um assunto pouco estudado pela

historiografia brasileira “habituada a conceber este grupo como mão de obra,

como objeto de catequese ou como bárbaro que obstaculizava o avanço da

colonização”. (BRITO, 2000, p. 103).

Para Flores (2003), o tema é pouco conhecido também entre os

teólogos, mas, apesar dessa lacuna, ressalta que a vida do índio está

impregnada de religiosidade que se manifesta nos cultos, nas danças, nos

calendários sagrados, na figura do pajé. Possuem formas próprias de adoração

à natureza, de respeito às forças sobrenaturais que atuam sobre a terra e de fé

no Grande Espírito, que foi nomeado por Tupã22.

E, ao nomear Deus apenas como Tupã, só indica o pouco conhecimento

da religiosidade dos primeiros habitantes do Brasil. Mas, tem-se uma

explicação: “O povo guarani, um dos mais numerosos do Brasil, cujo nome

dado para Deus é quase o único conhecido entre os não-índios, chama-o

Tupã”. (FLORES, 2003, p. 30).

Todavia, por conta da diversidade de povos indígenas no Brasil, com

suas línguas e culturas próprias, não é difícil concluirmos que outros nomes

existem para denominar o Criador: para os Terena, por exemplo, Itukoóviti é o

nome dado a Deus, e significa “quem criou todas as coisas” e entre os Desana,

aparece a figura mitológica feminina de Yebá Beló, a avó do universo.

Na concepção de Gambini (1988), a dimensão espiritual dos índios está

em toda parte:

Os índios do século XVI – como seus sobreviventes de hoje – estavam

rodeados pelo espírito de todos os lados: sua manifestação é onipresente, ela

habita os alimentos, as emoções, o ar que se respira, afetando o mundo todo

[...]. (p. 138).

Acreditam num Deus que, diferente da concepção católica, está para

encorajar, aplaudir, chorar junto. Na visão do índio Terena, a religiosidade

22

Tupã, na análise de Treece (2008), é apenas uma força viva da natureza, um daimon, e não um deus

civilizador ou paternal. No mito de criação Tupinambá, aparecem os deuses Monan e Maíra. Para Bosi

(1992), Tupã era o nome de uma força cósmica identificada como trovão.

indígena é uma “experiência do mergulho no sagrado sem estar

sobrecarregado de culpas ou enfrentando o olhar ameaçador de Deus”.

(FLORES, 2003, p. 14). Sem a ideia de pecado que desequilibra a relação

entre Deus e o homem, distanciando um do outro.

Na avaliação de Flores (2003), o encontro entre cristãos índios se deu

primeiramente numa única via que era cristianizar: os portugueses e os

religiosos fizeram com que o gentio beijasse o kurussu (a cruz) numa atitude de

submissão e aceitação da nova fé.

Um ponto de vista divergente tem Brito (2000) ao tratar da experiência

cultural e do tema da identidade cultural: “O Brasil quinhentista assistiu a um

complexo processo aculturador de mão dupla: índios assimilando mensagens e

símbolos religiosos e jesuítas adaptando sua doutrina e sacramentos às

tradições tupis”. (p. 108).

É óbvio que converter indígenas à fé cristã não foi tarefa fácil e,

resistentes à idolatria cristã, muitos se mostraram hostis ao cristianismo e à

exploração colonial, fugindo em massa dos aldeamentos23.

Os padres achavam que conseguiriam eliminar os maus hábitos (o corpo

nu, o canibalismo, a bebedeira, a libidinagem) dos índios que eram

considerados como papel em branco sobre o qual se poderia escrever à

vontade (como pensava Padre Manuel da Nóbrega), mas perceberam que

talvez não fossem mais uma tábula rasa e que poderiam estar influenciados

pelo demônio.

Esses excessos indígenas ou “costumes abomináveis” davam uma

conotação de que estavam num estágio inferior de humanidade, “revelador de

uma profunda desordem social e que dificultava, ao mesmo tempo, o processo

de civilização, fundamento irrenunciável para a obra de cristianização”.

(AGNOLIN, 2007, p. 276).

Como movimento de resistência conduzido pelos pajés (caraíbas), a

História destaca as Santidades, festas rebeldes dos tupis que desafiaram a

escravidão, o trabalho dos missionários. Eram rituais que, de alguma forma,

lutavam contra

23

Instituído por Manuel da Nóbrega, o Aldeamento (também chamado de reduções ou missões) era

uma área de reclusão, onde os nativos eram catequizados para viver como cristãos, onde aprendiam a

ler e a escrever. Na Aldeia, também trabalhavam na lavoura e na criação de animais. Além disso, os

índios aldeados lutavam nas guerras movidas pelos portugueses contra os estrangeiros e índios hostis.

o sistema colonial que sugou as populações indígenas através do trabalho e do

tráfico de cativos, pelos massacres e pela catequese que culpabilizou e

estigmatizou as tradições indígenas, procurando corrigir o ‘corpo’ do gentio.

(BRITO, 2000, p. 106).

Toda essa violência que os vitimava era interpretada como um sinal do

fim do mundo e nas cerimônias da caraimonhaga (as Santidades) os índios,

“em transe místico com os ancestrais e heróis mortos, poderiam estar próximos

da Terra sem Mal”. (VAINFAS; SOUZA, 2002, p. 16).

Nas Santidades, profetas apregoavam as maravilhas da Terra sem Mal e

em seus rituais percebia-se a mistura de ritos cristãos e indígenas, como no

momento do rebatismo: “O rebatismo da Santidade, ao combinar a aspersão da

água benta (rito católico) à defumação com petu (a erva santa do rito tupi)

confirmam, no conteúdo e na forma, o hibridismo cultural insurgente do grupo”.

(BRITO, 2000 p. 110).:

A Santidade do Jaguaribe, por exemplo, foi um movimento messiânico do

sul da Bahia que reuniu um número considerável de índios escravos que fugiam

das propriedades dos portugueses. (RAMINELLI, 1996).

O messianismo, na abordagem antropológica de Ramos (1986), era uma

tentativa dos indígenas brasileiros de renovar o mundo:

[...] a busca da terra prometida, a construção de uma nova era, a tentativa de

erradicar da terra o pior dos males conhecidos, que é o homem branco e suas

consequências, tem sido uma das armas com as quais as populações

indígenas tentam combater os efeitos desastrosos do seu contato com a

sociedade ocidental. (p. 89).

Entretanto, a visão que o homem branco tinha diante das festas

indígenas não era nada positiva, pois como eram festas marcadas pela

embriaguez, pela fumaceira e pelas danças, eram consideradas como uma

possessão diabólica, um grande embuste, algo ofensivo a Deus. Entretanto,

para Bastos (2011), os cânticos e danças e o cauim são “provas incontestes do

impulso lúdico que em grande parte regia a vida do índio brasileiro”. (p. 46).

No percurso histórico da dominação portuguesa, a religião indígena foi

massacrada tanto quanto sua gente. Seus líderes religiosos – os pajés – eram

reconhecidamente detentores do saber tribal e a investida dos jesuítas era

contra esses líderes que precisavam ser desmascarados, terem “decifrado o

seu código maligno e exibi-lo como mentiroso e falacioso para os indígenas”.

(MOREAU, 2003, p. 199).

Padre Manuel da Nóbrega sabia da importância dessa conduta de

perverter a imagem do pajé para seu trabalho de catequese nas aldeias e “tinha

a consciência de que a dominação dos corpos e das almas indígenas passava

pela desmoralização de seus líderes espirituais”. (MOREAU, 2003, p. 200). Era

como se, vencidos os feiticeiros, derrotava-se o Mal.

Os jesuítas acreditavam-se anjos e mensageiros de Deus, com poderes

de realizar milagres. Com esse sentimento inflacionado, viam a sua fé como

verdade única e a expectativa em relação aos índios era a de que “se

portassem como argila mole, permitindo que sua obscura e caótica natureza

finalmente se deixasse moldar como algo humano”. (GAMBINI, 1988, p.123).

Para o catedrático Holanda (1995), os inacianos queriam fabricar anjos e

não homens em suas aldeias, mas “sem conseguir, em regra, nem uma coisa,

nem outra”. (p. 127).

Imbuídos desse propósito, os religiosos não reconheciam a religiosidade

dos índios, sua forma de lidar com o sagrado e representá-lo. Não

compreendiam que os indígenas transpiravam religiosidade.

Vinham trazer do Velho Mundo a Boa Nova que iria salvar os povos

bárbaros e transformá-los em algo melhor. É uma ideia que atravessou os

tempos e que ecoa no discurso católico contemporâneo, na voz do papa Bento

XVI, em sua visita ao Brasil, em 2007, transcrito por Munduruku (2010):

Porém, o que significou a aceitação da fé cristã para os povos da América

Latina e do Caribe? Para eles, significou conhecer e acolher Cristo, o Deus

desconhecido que os seus antepassados, sem o saber, buscavam nas suas

ricas tradições religiosas. Cristo era o Salvador que esperavam

silenciosamente [...]. Ter recebido, outrossim, o Espírito Santo que veio

fecundar suas culturas, purificando-as e desenvolvendo os numerosos germes

e sementes que o verbo encarnado tinha lançado nelas [...]. Com efeito, o

anúncio de Jesus e do seu Evangelho não supôs, em qualquer momento, uma

alienação das culturas pré-colombianas, nem foi uma imposição de uma cultura

alheia. (p. 83).

Talvez aceitassem a fé cristã por não terem outra opção: ou se

convertiam à religião católica ou seriam perseguidos e forçados, de qualquer

maneira, a acreditar nas “verdades” do colonizador.

Foi uma imposição, uma vez que aos índios não lhes foi outorgada a

escolha e sua cultura, sua mitologia, enfim, sua identidade foi minada, num

processo de “destruição cultural”. (GAMBINI, 1988).

Até hoje, missionários de vários segmentos religiosos tentam penetrar

nas aldeias e transformar nossos índios em fiéis pastores, negando sua crença.

Esquecem-se de que a Constituição prevê um Estado laico; por isso, não faz

sentido nenhum manter instituições que fazem proselitismo religioso que

interfere diretamente na cultura indígena, o que caracteriza um etnocídio

cultural. (MUNDURUKU, 2010).

KAXI, O MENINO ESCOLHIDO

Daniel Munduruku em suas obras faz questão de destacar a figura do

pajé como algo sagrado e importante para o equilíbrio da sociedade indígena.

Segundo ele, o pajé pode ser escolhido por um outro mais velho, como no

conto “O menino que não sabia sonhar”, do livro Histórias de Índio (1996), que

agora apresentamos:

Na aldeia Katõ, nascera Kaxi, um menino que fora escolhido pelo pajé

Karu Bempô para ser educado na arte da pajelança e, por meio dele, os

antepassados falariam ao seu povo: “seria um tutor do povo Munduruku após a

morte do pajé”. (MUNDURUKU, 1996, p. 13).

A crítica ao homem branco (pariwat, na língua Munduruku) é feita por

Karu no dia do batismo de Kaxi ou “a lua que brilha sobre os homens”. A

aculturação religiosa já se manifesta nessa cerimônia cristã que está inserida

nos costumes dos índios. Ao falar para todos da tribo, o pajé descreve o

Documentos relacionados