2.3 Imagens, autoimagens, heteroimagens
2.3.5 Entre dois mundos: a inter-identidade migrante
Sempre em outro lugar, o estrangeiro não é de parte alguma. (Kristeva, 1994: 18)
Stuart Hall afirma que, na Pós-Modernidade, a identidade «torna-se uma “celebração móvel”: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam» (Hall, 1987 apud Hall, 2005: 13). Vivemos contemporanemente a era das comunicações e das migrações, dois fenómenos que permitem que «o sujeito assum[a] identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um “eu” coerente» (Ibidem: 13). Assim, circulando em diferentes palcos geoculturais, assumimos identidades mais restritivas ou alargadas, regionais, nacionais, ou até continentais;
[as] nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas, em função de elementos nacionais, culturais, de género, de classe social, de posição política e religiosa, enfim, das várias identificações que formam o sujeito mosaico da nossa era. (Figueiredo & Noronha, 2006: s/p)
Desta forma, os indivíduos vão redefinindo as suas identidades, em função do contexto em que se desenvolvem, o que as torna históricas e não biológicas (cf. Hall, 2005: 13). Este fenómeno revela-se particularmente interessante no caso dos migrantes, porque, apesar de muitas vezes rejeitarem a cultura da sociedade de acolhimento, num momento inicial, a passagem do tempo acaba por impor o surgimento de identidades híbridas, relegando-os, para sempre, para um espaço intervalar ou um entrelugar. Este espaço, que, no contexto do encontro colonial, é designado por Homi Bhabha como «terceiro espaço», não se refere meramente a um contexto onde duas culturas entram em contacto. Trata-se, antes, de um novo espaço, no qual emergem identidades sincréticas que reúnem traços de ambas as culturas:
for me the importance of hybridity is not to be able to trace two original moments from which the third emerges, rather hybridity to me is the ‘third space’ which enables other positions to emerge. This third space displaces the histories that constitute it, and sets up new structures of authority, new political initiatives, which are inadequately understood through received wisdom. (apud Rutherford, 1990: 211)
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Esses novos conhecimentos, adquiridos no terceiro espaço, são os que garantem o distanciamento necessário ao seu habitante, permitindo-lhe o questionamento da sua identidade anterior, de uma forma que antes não seria possível.
Assim, de acordo com a teoria de Bhabha, a criação de uma nova identidade transcorre sempre de um processo de hibridação, uma vez que
the identification is a process of identifying with and through another object, an object of otherness, at which point the agency of identification — the subject — is itself always ambivalent, because of the intervention of that otherness. But the importance of hybdridity is that it bears the traces of those feelings and practices which form it, just like a translation, so that hybridity puts together the traces of certain other meanings or discourses. (apud Ibidem: 211)
Encontrando-se em permanente diálogo transcultural com diversos outros, a identidade do sujeito não pode, portanto, ser encarada como estática e resulta sempre de um processo de permanente negociação.
No caso dos ex-emigrantes retratados em A Floresta em Bremerhaven, observa-se que a identidade de cada um se metamorfoseia incessantemente. Neste sentido, Silvio Renato Jorge explica que, enquanto Manuel se situa no mundo através de temas políticos e da reflexão acerca da sociedade, a mulher encontra na casa e nos pormenores do quotidiano o ponto de partida para compreender a realidade circundante e situar-se nela (cf. Jorge, 2009: 62). Através do discurso de Manuel, pode perceber-se como o distanciamento da pátria, através da experiência da emigração, lhe permite questionar e denunciar as injustiças vividas no passado, sem que isso signifique, aos seus olhos, uma traição da sua identidade portuguesa. Ele sabe, pelo contrário, que tem o direito e o dever de fazer essas denúncias, para que os outros possam conhecer o outro lado da história, assumindo assim a sua identidade ambivalente. Por isso, quando a mulher sugere que oculte da hóspede alguns pormenores do relato, ele reclama o seu direito à voz:
— […] Cala-te, mulher! Eu não tenho vergonha de contar isto, eu não me importa, toda a gente pode ouvir! Não tenho medo! Agora já se pode falar alto! A senhora pergunte, pode perguntar que eu respondo, tenho quem me oiça. (Gonçalves, 1991: 58)
Na realidade, se ele não enunciar a sua história, ninguém a vai contar por ele e é urgente que a sua narrativa seja ouvida. A identidade portuguesa de Manuel é uma identidade ferida, não tanto pelo tempo passado no exterior, mas bastante mais pelas experiências vividas na própria terra, que sempre o marginalizou e nunca o fez sentir-se parte dela. Este
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ressentimento em relação a uma pátria madrasta torna-se evidente quando evoca a sua infância:
— […] Tantas vezes que vim cá em criança! Às vezes, nem a minha mãe sabia de mim até que chegava à casa com as mãos cheias de chirões secos pra fazermos o lume. Era a lenha do pobre. Se era boa? Era boa, era, porque não tínhamos outra, mas fazia muito fumo e levava tempo a arder. […] Não podíamos ir buscar lenha à mata porque os lavradores corriam com a gente. Dizia o Caetano que Portugal era nosso! Nada lhe encontrei de meu a ir buscar acendalhas para fazer lume e ser sempre corrido. (Ibidem: 62)
A ausência desse sentimento de pertença explica que a personagem nunca apresente a pátria como o espaço ideal, de contornos idílicos, e se assuma como crítica contundente do presente e do passado, indagando a causa das injustiças de que foi alvo. É ainda essa ausência que faz com que, apesar de saber as dificuldades com que se confrontará no estrangeiro, Manuel deseje ainda voltar a emigrar, desta vez para o Canadá, em busca da liberdade que não consegue encontrar em Portugal.
No entanto, o seu distanciamento da cultura portuguesa não é absoluto, uma vez que assume como seus valores e tradições da sociedade portuguesa, religando-o a essa identidade primordial. Estes valores encontram-se plasmados no seu entendimento dos papéis de género, tornado explícito através de alguns traços do seu comportamento e do seu discurso acerca dos outros, nomeadamente sobre as mulheres. Assim, Manuel condena, por exemplo, o excesso de liberdade das mulheres estrangeiras, que fumam e assumem frontalmente a sua sexualidade, como acontece com as jugoslavas. É o típico homem lusitano conservador que fala sobre a mulher do Daniel33 e a condena por ter deixado o marido, concordando com a afirmação do Arlindo: «— […] Como se um português se afizesse a isso!» (Ibidem: 89), na qual, como bem nota Sílvio Renato Jorge, a associação entre o nacionalismo e o mito da masculinidade reforça «a hipótese de que a configuração tradicional da identidade portuguesa escora-se em valores não apenas imperialistas, mas também na afirmação sexista do masculino em detrimento do feminino» (Jorge, 2009: 65). É exatamente por isso que para ele é natural que um homem esteja com outras mulheres «só duas ou três vezes, que é só para enxovalhar, só para enxovalhar» (Gonçalves, 1991: 81), mas afirma que «uma mulher há-de ser só dum homem. E tem tempo. É quando se casar» (Ibidem: 81).
33 A mulher do Daniel também é uma figura anónima, como acontece com a esposa de Manuel. No seu caso,
o anonimato enfatiza a sua marginalização e condenação inapelável, por ser considerada desavergonhada e traidora.
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Como foi referido anteriormente, a identidade de esposa de Manuel encontra-se intimamente ligada às tarefas domésticas que preenchem o seu quotidiano, confinando-se ela própria ao espaço tradicionalmente atribuído à mulher. Por isso, são os detalhes do dia- a-dia que catalisam a sua rememoração e servem como ponto de referência para que possa estabelecer o seu lugar no mundo. É através deles que relata a sua experiência de emigração, agora que está em Portugal, e foi através deles que manteve viva a cultura portuguesa enquanto se encontrava na Alemanha, assim preenchendo o vazio deixado pela terra ausente. As saudades da terra que se deixou, seja ela Portugal ou a Alemanha, apresentam-se, assim, através das memórias fragmentárias de um passado insistentemente evocado. Em Bremerhaven, sentia a falta dos coentros e, por isso, plantaram-nos na horta. Em Porto Covo, não há lojas grandes, como as que visitava na Alemanha, onde podia encontrar tudo. Em Bremerhaven, visitava a floresta, por não ter outro espaço onde passar o tempo livre, mas sentia sempre saudades do mar. Em Portugal, vive perto do mar, mas recorda a floresta com nostalgia. Esta situação pode sintetizar-se nas palavras extraídas do ensaio Maneira de Ser do Emigrante Português, de Adalino Cabral: «É natural que o emigrante nem pode estar lá, no torrão, nem cá, na terra acolhedora, simultaneamente. Precisa de estar na terra nova, mas precisa da sua nativa também» (Cabral, 2004: 1).
Inversamente ao que se verifica com Manuel, a fragmentação da identidade da mulher parece fortalecer os laços afetivos com Portugal (cf. Jorge, 2009: 56), espaço ao qual efetivamente ela pertence. Sílvio Renato Jorge salienta ainda o facto de que, nela, «as imagens trazidas da Alemanha não recuperam a sensação de liberdade apontada pelo marido, a não ser quando se refere à floresta» (Ibidem: 57), como podemos verificar no seguinte excerto: «— […] Olhe que talvez pudesse fazer versos à floresta, à mata da estação, quando lá íamos ao domingo, em Bremerhaven. Era a coisa melhor que lá tínhamos, que o resto era só frio, só negro, só trabalho» (Gonçalves, 1991: 137). Desta maneira, apesar de poder encontrar alguns aspetos positivos na vida da Alemanha, são os negativos que sobressaem, levando-a a solicitar o regresso a Portugal, onde deseja permanecer e criar a sua filha, para que esta tenha uma infância mais próxima da tradição portuguesa.
Apesar das dificuldades passadas em Portugal, encontrando-se Manuel na Alemanha, a sua mulher e os seus amigos procuravam qualquer ligação com a pátria, sobretudo através da língua portuguesa: «— […] Estávamos sempre a ver se apanhávamos
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alguma coisinha em português, quando ouvíssemos uma voz portuguesa a falar era um contentamento!» (Ibidem: 79). A língua funciona com um elo de ligação entre os indivíduosw e a sociedade, porque esta lhes permite partilhar as suas memórias e criar laços intersubjetivos. Enquanto se encontravam na Alemanha, procuravam manter o contacto com a cultura portuguesa através da língua. Após o regresso a Portugal, é a língua alemã que desempenha o papel de persistente traço de união entre eles e a terra estrangeira, insinuando, pela contaminação do seu discurso, as suas interidentidades. Esta mescla linguística torna-se, sobretudo, evidente no caso do Manuel, que continua a utilizar o termo Frau para referir-se à sua mulher.
Em Uma Aventura Inquietante, encontramos um caso diferente, oposto apenas na aparência, em que o protagonista escolhe permanecer na terra alheia. Zacarias escolhe a Bélgica para estabelecer-se, por identificar-se com o estilo de vida da burguesia de Bruxelas, mas, ao longo da diegese, encontramos diversas demonstrações de que a sua identidade, apesar de cindida, é principalmente portuguesa. Esta identidade aparece frequentemente tematizada através das evocações de um «eu» coletivo, através das quais Zacarias reivindica o seu lugar na cultura portuguesa: «— […] Nós, portugueses, temos imenso em comum com os russos, a confusão mental, por exemplo, embora, hélas, sem Dostoievski!» (Miguéis, 1989: 88-89). É através deste ângulo português que procura definir-se e exprimir as suas emoções, dando lugar a um «eu» híbrido que é individual, mas procura sentimentos coletivos, evocando figuras da literatura e a cultura portuguesas, como por exemplo:
Tinha vivido a seu modo, homem de negócios por necessidade, no fundo um pequeno Fradique, o seu modelo bem-amado. (Ibidem: 101)
«Morrer, mas devagar!» Sentiu-se acuado, quase heróico, sebástico. (Ibidem: 138)
Estas referências culturais, que reforçam a presença do orgulho de ser português vislumbrado no capítulo introdutório, também se encontram presentes no seu discurso, que, apesar de ser proferido num francês exemplar, é contaminado por expressões que fazem parte da língua portuguesa:
«Meti-me numa camisa de onze varas». (Ibidem: 121)
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— Acrescentarei apenas que tudo isto é uma história da carochinha. (Ibidem: 142)
«Justos céus!», murmurou Zacarias. (Ibidem: 143)
— Obrigado, querida madame. E tenha fé, que a verdade há-de saber-se um dia. Lá dizem na minha parvónia: «Até ao lavar dos cestos é vindima!». (Ibidem: 149)
Estas expressões constituem, como justamente assinala Eduardo Lourenço, deslizes na narrativa de Rodrigues Miguéis, «mas são também pedaços de pátria no bico da caneta, marcas de exílio às avessas delimitando-lhe “fisicamente” os limites da ficção» (Lourenço, 2001: 52). Esse exílio não é apenas o do autor, mas também o da personagem que, apesar de ter escolhido permanecer em terras belgas, é, ainda e sempre, o emigrante descrito por Adalino Cabral, que nunca quis deixar de ser português (cf. Cabral, 2004: 3). É aquele que, mais tarde, procurará preservar e partilhar esses pedaços de pátria com os outros, através da comida portuguesa que serve no seu café, pois ele tem consciência que «a sobrevivência da cultura em terras alheias depende por completo na vontade do coração português» (Ibidem: 2).
Porém, apesar das experiências adversas vividas em solo belga, o apego de Zacarias à pátria não é suficiente para fazê-lo voltar a Portugal. Aliás, já no passado não tinha sido motivação bastante para fazê-lo ficar. Os anos passados em África tinham-no já afastado da terra natal e, por isso, quando regressara a Lisboa «com a secreta alegria de sentir-se “estrangeiro na própria terra natal”» (Miguéis, 1989: 104), assume para sempre uma identidade mista que lhe permitia amar a pátria (apenas) à distância.
Adalino Cabral explica que
O emigrante é produto do seu ambiente — ou, melhor, dos seus ambientes — como todos — e embora possa não apreciar tudo da sua própria vida passada pré-emigratória — por motivos absolutamente justificáveis — ainda continua a gostar muito. E é precisamente esse «muito» que lhe ajuda a viver mais tranquilamente num ambiente mais seguro e pacífico. (Cabral, 2004: 6)
Apesar de ter vivido uma infância traumática na Ucrânia, Andriy preserva carinhosamente as memórias familiares e são elas que lhe dão alento para continuar a lutar por sobreviver em Portugal. A sua identidade começa a sofrer alterações desde o início da sua experiência como imigrante. O facto de enfrentar só um mundo tão diferente do seu, vendo-se na
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necessidade de abandonar os valores que lhe foram inculcados desde cedo, para conseguir sobreviver, desequilibra a sua relação com o mundo.
A sua identidade surge, assim, cindida entre um antes e um depois da migração, tempos estes que, por vezes, coabitam em relação tensa e conflitual. Ou seja, Andriy ucraniano, sensível, bem-educado e secretamente culto que se apaixona pela Quitéria, apesar das diferenças de idade e cultura, coexiste com aquele outro que trocou muitos dos seus valores no impiedoso struggle for life em Portugal, o que se tranformou numa máquina de trabalho para alcançar o homem de ouro, apagando todos os vestígios do seu «eu» ucraniano. Estas duas identidades dão lugar a uma terceira, diferente, a do Andriy que entende que o amor pode ser motivo suficiente para viver e que, mesmo que regresse à Ucrânia, nunca poderá viver ali da mesma forma, por saber antecipadamente que «o regresso, tantas vezes impossível, encontra-se impregnado de riscos, já que o país que se encontra nunca é o mesmo que se deixou» (Gago, 2012: 120). A inter-identidade de Andriy implanta-se nesse terceiro espaço que permite a comunicação efetiva entre ele e Quitéria, porque, nesse hiato transcultural, nem ela é portuguesa nem ele é ucraniano. São apenas pessoas.
Como vemos, as identidades dos migrantes são sempre fragmentadas, obrigando- os a viver num espaço intervalar, independentemente de se encontrarem na sua terra natal ou no estrangeiro, porque o contacto com o «outro», quem quer que ele seja, através da rejeição ou da exclusão, vai transformar indelevelmente a sua ontologia. Desta forma, torna-se evidente que aquela se altera com a passagem do tempo, pois, como afirma Stuart Hall, «a identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia» (Hall, 2005: 13).
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Conclusão
As obras que integram o corpus da nossa dissertação configuram apenas uma amostra do universo de obras que trata o tema das migrações, tanto de forma central como de forma transversal. Ao selecionarmos obras que apresentam caraterísticas tão diferentes, no que respeita à sua inscrição periodológica e à sua filiação genológica, procurámos evidenciar o modo como o tema das migrações tem atravessado a literatura portuguesa ao longo da sua história. Assim, uma das questões que desde logo reclamou a nossa atenção prende-se com o facto de, através de processos diversificados, os autores estudados produzirem uma espécie de desafio da tradição romanesca, criando textos que, de certa forma, refletem as alterações sofridas pelo contexto histórico-literário em que se inscrevem. Por outro lado, ao colocarem o foco de atenção sobre personagens de realidades marginais, verificamos que os autores procuram contar as histórias que nunca foram contadas, de forma a darem a conhecer o outro lado da épica migratória, onde os heróis sofrem de exclusão e maus tratos por parte daqueles que não aceitam a sua presença. Por isso, as histórias relatadas não são necessariamente histórias felizes, são histórias que mostram como, em qualquer época e em qualquer parte do mundo, o estrangeiro é visto com desconfiança.
Assim, na sequência da análise imagológica dos textos que integraram o nosso corpus, podemos neste momento final deduzir algumas conclusões acerca do modo como os estrangeiros são representados nestas obras e sobre a forma como estes se integram, ou não, nas sociedades de acolhimento. A primeira conclusão que apresentamos é a de que todos os estrangeiros são vistos com desconfiança, porque dão origem a uma alteração na ordem social, a qual muitas vezes resulta incompreensível para os nativos. Tanto no caso dos que regressam à terra natal, como Manuel e a sua mulher (personagens do romance de Olga Gonçalves), como no daqueles que chegam a uma terra alheia, como Zacarias (Uma Aventura Inquietante) e Andriy (O Apocalipse dos Trabalhadores), a presença do estrangeiro implica uma mudança no funcionamento da sociedade de acolhimento e na hierarquia social da mesma. Seja porque os cidadãos nativos não entendem a posição do estrangeiro na sociedade, seja porque este levanta uma série de questões relativamente aos padrões pré-estabelecidos, o estrangeiro tem sido sempre associado aos estereótipos existentes, numa tentativa de qualificar a sua presença e de tentar classificar o que é desconhecido.
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Uma segunda conclusão aponta para o facto de os estrangeiros serem frequentemente representados no seu papel de trabalhadores incansáveis. Apesar de guardarem relações diferentes com o trabalho, é através dele que os estrangeiros representados nas obras procuram a liberdade, seja ela figurativa ou real. Deste modo, se Andriy procura alcançar o estatuto de «homem de ouro», e se Manuel e a sua mulher constroem o seu quotidiano através do trabalho, esperando através dele alcançar a liberdade propiciada pelo conforto económico, é também através do trabalho (não remunerado como atividade profissional) que o Zacarias consegue descobrir a verdade e recuperar a sua liberdade. Se bem que o trabalho em causa se encontra mais ligado às identidades de Manuel, da sua esposa e de Andriy, não podemos esquecer que Zacarias também conquistou a sua posição social através do trabalho e que, enquanto preso, viu nele o único meio de alcançar a liberdade.
Em terceiro lugar, concluímos que a interação do estrangeiro com a sociedade é de vital importância para a sua integração, frequentemente instabilizada pela distância linguística, porque o próprio estrangeiro decide isolar-se ou porque a sociedade o exclui. Em face do exposto, vemos como em Uma Aventura Inquietante e em O Apocalipse dos Trabalhadores a integração de Zacarias e de Andriy, nas sociedades belga e portuguesa, respetivamente, só acontece através da relação amorosa que ambos estabelecem com uma mulher nativa, pois elas representam o seu maior, ou talvez único, elo de ligação com a cultura do país onde vivem.
Em quarto lugar, cremos ser digna de realce a forma como a interação dos estrangeiros com a cultura do país de acolhimento dá lugar a interidentidades que conjugam elementos de ambas culturas no mesmo indivíduo. Como vimos, em graus e de formas diferentes, os estrangeiros que encontrámos nas obras em análise vivem num espaço intervalar, ou num terceiro espaço, no qual já não são aquilo que eram quando abandonaram o seu país de origem. Isto é sobretudo visível em Manuel e na sua mulher, pois, apesar de terem voltado à sua terra natal, já não conseguem ver o mundo e a sua