3.3 A geografia dos preços
3.3.1 Entre Douro e Minho
O Entre Douro e Minho foi, regra geral, espaço de baixos preços. Apenas a cidade do Porto, em virtude das suas condições agrícolas e demográficas, se demarcava um 689 Iria Gonçalves, “Antroponímia das terras alcobacenses”…, p. 117.
690 “Vereaçoens”. Anos de 1390-1395…, p. 191.
pouco desta tendência, mas sem atingir patamares elevados como os de Lisboa, Funchal ou de terras algarvias como Loulé.
Comece-se exatamente pela cidade do Porto e pelas coordenadas que guiaram o seu sistema de trocas comerciais: oferta de pescado e sal em troca de cereais, ferro e muitas outras mercadorias. A dependência externa de pão, que vinha de “carreto de longes terras”692, associada a uma procura que nunca deixou de ser intensa, conduziu,
naturalmente, a preços elevados no quadro da comarca. Um espaço à parte é o que deixa entender D. Fernando, quando individualiza os preços dos cereais na cidade do Porto, a par das seis comarcas que compunham o reino. Assim, pela almotaçaria de 1371-72, o alqueire de trigo era 50% mais caro do que nas outras partes da comarca de Entre Douro e Minho. Decorrido um século, pelos anos de 1475-77, a diferença de preços parece ter- se acentuado, como indiciam valores de 33 reais na cidade do Porto e de apenas 12 reais na cidade de Braga. A confirmar-se esta tendência, tal estaria perfeitamente em linha com uma cidade do Porto pressionada pelo crescimento demográfico693 e pela
especulação.
Para esta disparidade contribuiu, em grande medida, o custo do transporte, como se verifica pelo pagamento, em meados do século XV, de uma série de compras de milho efetuadas pela Coroa nos almoxarifados de Guimarães e de Ponte de Lima e do seu carreto até à cidade do Porto. Com o alqueire avaliado em 3 reais, somava-se 1 real pelo transporte, ou seja, 33% sobre o preço de origem ou 25% do preço final. A carta de quitação a Diogo Afonso Malheiro, contador dos referidos almoxarifados, permite ainda calcular em 0,63 r. (cerca de 20%) o preço médio do carreto de alqueire por carros e bestas a partir de um conjunto de terras mais próximas da cidade do Porto e de 0,43 r. o preço do frete por alqueire entre Vila do Conde e o Porto694. Contribuiu também a
especulação daqueles que, procurando o maior lucro, chegavam a redirecionar o pão trazido à cidade para outras partes como Lisboa695.
Igualmente elevados no quadro da comarca, os preços do vinho não refletiam tanto o custo do transporte e, muito menos, a falta de oferta mas, desde logo, o controlo de um comércio lucrativo. À exceção de anos de más colheitas, a oferta era significativa, como 692 “Vereaçoens”. Anos de 1390-1395…, p. 157.
693 “Parece ser indiscutível que a época de Quatrocentos representa o grande salto quantitativo da urbe nortenha, que de cinco mil residentes no centro urbano e arrabaldes no início desse século, cresceu em mais mil e quinhentas almas em meados dessa centúria, sempre num aumento constante que fez com que o Porto viesse a ultrapassar Évora nas derradeiras décadas do século XV”. H. Baquero Moreno, Exilados,
marginais…, p. 58.
694 Documentos das Chancelarias Reais…, vol. I, p. 412-414. 695 “Vereaçoens”. Anos de 1401-1449…, p. 137.
testemunha o número de abades e priores de Riba Douro que procuravam vender os seus vinhos na cidade do Porto696 ou os frequentes episódios de contrabando697. Para impedir
a quebra acentuada dos preços, o comércio do vinho foi, na prática, reservado aos vizinhos do Porto. Apenas estes gozavam, à partida, do direito de trazer vinhos à cidade, além de beneficiarem de diversos privilégios como a isenção de almotaçaria e benefícios fiscais698. A concessão régia do estatuto de vizinho a algumas pessoas,
nomeadamente a abades e priores, era, por isso, fortemente contestada, pois estes passavam a vender os seus vinhos sem almotaçaria. Estava em causa o delicado equilíbrio entre oferta e lucro. Por outro lado, enquanto comércio lucrativo, o vinho foi sujeito a uma forte carga fiscal, com influência direta no preço apresentado ao consumidor. Em meados do século XV, eram já duas as sisas que recaíam sobre o vinho, pois além dos 20 soldos por almude destinados à Coroa, a edilidade portuense decidira lançar novo imposto para fazer face ao seu crónico défice orçamental699.
Não descurando outros importantes fatores como a exportação700 e a especulação
dos intermediários701, sobretudo gravosos em períodos de escassez e de peso crescente
ao longo do século XV, é essencialmente este regime protecionista e a carga fiscal que explicam os elevados preços portuenses.
Quadro IX. Preço do almude de vinho na comarca de Entre Douro e Minho (1393-1475).
Período Porto Braga Guimarães V. do Conde
1393-94 72-144 s. 20-60 s. - -
1442 24-48 r. - 36 r. -
1451-52 60 r. 24 r. - -
696 “Vereaçoens”. Anos de 1390-1395…, p. 209. Corpus Codicum…, vol. VI-VI, p. 7-8 (doc. 51); Vd. Arnaldo Melo, Trabalho e produção…, vol. I, p. 181-182.
697 “Vereaçoens”. Anos de 1390-1395…, p. 168-169.
698 “Vereaçoens”. Anos de 1390-1395…, p. 112; Corpus Codicum…, vol. VI-V, p. 13 (doc. 13, de 1383).
699 IAN-TT, Ch. de D. Afonso V, liv. 15, fl. 142.
700 Em maio de 1432, além das más colheitas, debatia-se como “ora alguus estrangeyros sam em esta cidade pera carregar vinhos o que he azo de seer moor carreza”. “Vereaçoens”. 1431-1432…, p. 111. 701 Em setembro de 1488, face às questões do preço do vinho e perante os “grandes e desmasiados regateios fora de toda a hordenança” que se faziam, a vereação da cidade do Porto, decide estabelecer almotaçaria sobre o referido produto. Vd. Maria Amélia Figueiredo, A administração…, p. 89.
1461-66 62,4-86,4 r. - - 48 r.
1474-75 60-100,8 r. 30 r. - -
O mercado de carne padeceu de problemas idênticos aos que afetavam o cereal. Dependente de gado de terras e feiras, por vezes, a mais de 50 quilómetros de distância702, a cidade do Porto foi, naturalmente, palco dos maiores preços da comarca.
Os recorrentes conflitos entre carniceiros e autoridades municipais permitem acompanhar esta realidade com algum pormenor. Em julho de 1392, segundo a vereação portuense, pelas outras partes da comarca o arrátel de carne custava 4 e 7 soldos (vaca e carneiro), mas os carniceiros da cidade vendiam-no a 5 e 8 soldos, ou seja, por mais 25% e 14,3%. Consideradas margens excessivas, foram então reduzidas para 12,5% e 7%, correspondentes aos preços almotaçados de 4,5 e 7,5 reais. Ao que parece, os carniceiros recusaram-se cortar por estes preços. Chamados à vereação em abril de 1393, na presença do ouvidor João de Alpoim, argumentavam que “a razom por que nom davam as ditas carnes a avondo e boas assy como as dam em Bragaa, Guimarães e em Ponte de Limha e em todollos outros logares da correiçom dantre Doiro e Mynho (…) era esta por que elles aviam as carnes mui caras e hiam comprallas a dez e doze legoas da dita cidade en que faziam grandes custas e despesas e que elles queriom que lhes desem o arratal a quatro soldos e meio como seerem ainda as carnes boas e que esto nom poderiam elles fazer sem grande seu dano”703. Ouvidor e edilidade portuense
reconheceram as maiores deslocações e despesas, mas mantiveram os preços anteriormente tabelados, prevendo penas para os carniceiros incumpridores.
Novo conflito ocorreu em 1414 e levou os carniceiros da cidade a interromperem o seu mester, tendo então sido nomeados novos carniceiros oriundos do termo704. Por esse
ano, o arrátel de vaca custou 30 soldos em Braga, com exceção dos dois meses seguintes à Páscoa, período no qual foi permitido uma subida para 35 soldos. Na posse desta informação, os vereadores ordenaram o preço de 35 soldos, já antes praticado e representando mais 16,7% do que o valor regular bracarense. A maior parte dos carniceiros portuenses voltou a cortar carne por este preço705, a eles reservado, já que os
carniceiros do termo eram sujeitos ao mesmo valor de Braga (30 soldos), algo nem
702 “Vereaçoens”. Anos de 1390-1395…, p. 191. 703 “Vereaçoens”. Anos de 1390-1395…, p. 191. 704 “Vereaçoens”. Anos de 1401-1449…, p. 181. 705 “Vereaçoens”. Anos de 1401-1449…, p. 183-184.
sempre respeitado706. Em 1432, 1449 e 1454, mantinha-se a regra de que a carne devia
ser mais cara na cidade do que no termo, mais precisamente um real preto, o que traduzia uma diferença de 16,7% a 20%.
O conflito de abril de 1487, em tudo idêntico aos anteriores, permite confirmar a ideia da grande homogeneidade de preços na área da comarca e da cidade do Porto como espaço à parte. De facto, constatando que “todollos carneceiros das vyllas e logares desta comarqua d’Antre Doiro e Minho e asy os carneceiros dos termos desta cidade (cortavam a carne) a nove ceytys o arratell”707, a edilidade portuense tabelou a
carne em mais um ceitil (11,1%). Novamente, a margem estabelecida foi considerada insuficiente e rejeitada pelos carniceiros portuenses e estes alvo de sanções.
Em suma, o tabelamento de preços superiores - entre 11 e 20% no caso da carne de vaca - constituía uma medida fundamental para garantir capacidade económica aos carniceiros portuenses no acesso ao mercado de gado, um mercado tanto mais difícil quanto se localizava em domínios subordinados a outros poderes708 e em que a
concorrência era forte, por vezes oferecida pelos próprios carniceiros do rei709. As
margens de lucro, discutidas em abril, tendo em vista a maior procura do período da Páscoa, constituíam o motivo dos conflitos.
Quadro X. Preço do arrátel de carne de vaca na comarca de Entre Douro e Minho (1392-1498).
Período (cidade)Porto (termo)Porto EDM
1392-93 4,5 s. - 4 s.
706 Nesse mesmo ano, na Maia, a carne chegou a ser vendida a 35 reais e, em Bouças, a 40 reais o arrátel.
707 AHMP, Vereações, Livro 6, fl. 40 v.
708 Em dezembro de 1454, os carniceiros portuenses queixavam-se, precisamente, de como nos coutos e honras dos termos não se respeitava a postura de cortar a carne a menos um preto e que, por essa razão, não podiam comprar gado. AHMP, Vereações, Livro 3, fl. 160.
709 Como reconhecia D. Fernando, em 1376, quando afirmava que “as vezes conteçe que os carnyçeiros desa cidade vaam conprar gaados as feiras dalguuns logares e que se segue que chegam hy os nosos carniceiros e nom querem conprar nem huma cousa deses gaados e que depois que os carniceiros da dicta çidade teem comprados alguuns gaados que os dictos nosos carniceiros lhos tomam dizendo que os querem aver tanto por tanto e de mays nom lhy dam por ellos nem huuns dinheiros estando em esas feiras outros muytos gaados para vender que bem poderiam comprar se o fazer quissesem pela qual razom dizem que os dictos carniceiros desa cidade nom levam para ella eses gaados e elles nom ham mantjmento de carnes”. Corpus Codicum…, vol. VI-VI, p. 8 (doc. 53).
1414 35 s. 30 s. 30 s. 1432 0,6 r. 0,5 r. - 1449 0,7 r. 0,6 r. - 1453-54 0,7 r. 0,6 r. - 1488-90 1,66 r. 1,5 r. 1,5 r. 1497-98 - 1,66 r. 1,66 r.
Relacionado com a crónica falta de gado colocava-se o mais do que provável elevado custo do calçado. Como sucedeu com os carniceiros, os sapateiros portuenses envolveram-se em frequentes discussões com a câmara aquando dos tabelamentos de preços, pois, segundo eles, “custava muito mais a coyrama que aquillo por que lhes mandavom vender a calcadura”710.
A quantidade de pescado que chegava à Praça da Ribeira não contribuía apenas para a definição do seu preço, mas de grande parte dos produtos que a cidade necessitava, a começar pelo precioso pão. A venda ilícita de pescado, especialmente em locais como Miragaia, Leça, Matosinhos, São João da Foz e Gaia, a mercadores estrangeiros, a recoveiros das mais diversas terras como Guimarães, Chaves ou Bragança ou às próprias regateiras que o revendiam a maior preço, somada à exportação, representava menos oferta, menos moeda de troca por pão e “outros mantymentos que fosem pera comer” 711, e uma natural subida do seu preço. As insuficiências produtivas e a forte
pressão especulativa que caracterizaram a cidade do Porto refletiam-se, assim, no valor do pescado, sempre mais inflacionado do que a simples oferta primária possibilitaria. Uma das melhores imagens desta realidade deve-se a D. Pedro I quando, em 1363, afirma que muitas regateiras, acostadas a pessoas poderosas, “compram todo o pescado ou a mayor parte delle pera reguatar e enxetar e o guardam e reteem para a maior vallya asy que tambem os da dita cidade como os que veem a ella com carretos de pam e das outras cousas e querem levar carreto desse pescado para as terras donde tragem o pam e coussas que som para mantymento dessa cidade nom podem aver esse pescado se nom por preço muy acreçentado e muy caro e por esta razom leixam de trager o carreto do pam e das outras cousas por que se a çidade mantem”712. Não obstante, o preço do peixe
na cidade do Porto foi, obviamente, inferior ao praticado nos espaços interiores da comarca, os quais tinham de arcar, desde logo, com os onerosos custos do transporte. A 710 “Vereaçoens”. Anos de 1401-1449…, p. 15.
711 “Vereaçoens”. Anos de 1390-1395…, p. 181-182 e 219; “Vereaçoens”. Anos de 1401-1449…, p. 170-171; “Vereaçoens”. 1431-1432…, p. 83-87.
escassez de preços coevos permite apenas um exemplo - em meados do século XV, uma dúzia de pescadas chegou a ser mais cara 50% no Minho -, embora suficientemente claro para se ter uma ideia da diferenciação do valor do peixe de mar no espaço da comarca.
Um último testemunho sobre a carestia portuense a nível regional transporta-nos a 1493-94, altura em que, por ocasião de banquete, foram comprados ovos, dois a real na cidade e quatro a real fora da cidade713.
A imagem do Porto como cidade cara desvanece-se, em boa medida, no quadro de um reino que teve na comarca de Entre Douro e Minho um dos espaços mais acessíveis ao consumo. Os preços passíveis de confrontação geográfica permitem as seguintes imagens, a começar pelos cereais:
- 1371-72: de acordo com Fernão Lopes, o alqueire de trigo foi taxado em 20 soldos no Entre Douro e Minho, o mesmo valor da Beira, mas apenas 2/3 do preço de Trás-os- Montes e da cidade do Porto, 1/2 do da Estremadura, 1/3 do de Entre Tejo e Guadiana e 1/5 do preço do Algarve.
- 1396-97: Braga e Coimbra conheceram o alqueire de milho a preços muito próximos, mais precisamente, a 17,5 e a 18 soldos. No caso do centeio, a diferença alargava-se para 50%, expressa em vendas por 20 e 30 soldos.
- 1402-03: em ano de fomes, a cidade do Porto terá conhecido um preço de 28,5 rs., superior ao de Rio Maior (20 rs.) e ao de Salvaterra de Magos (22 rs.).
- 1414 e 1442: preços de 9 rs. no Porto e de 10 rs. em Santarém, em 1414, e de 10 reais em ambas as cidades, em 1442, sugerem um grande equilíbrio entre estes dois espaços.
- 1444-45: mais uma vez, preços da zona de Santarém e do Entre Douro e Minho revelam grande homogeneidade. No caso, um alqueire de milho custou os mesmos 3 reais no termo de Santarém e nos almoxarifados de Guimarães e de Ponte de Lima. Na cidade do Porto, o custo do transporte acrescentava um real a esse valor.
- 1453-56: as vilas de Viana do Castelo, Ponte de Lima e Vila do Conde conheceram o trigo a valores entre 15 e 18 reais, embora D. Afonso V apenas pagasse 12 reais. Por sua vez, Gonçalo Pacheco, tesoureiro em Lisboa dispôs de trigo a 16, 18, 20 e 22 reais e, em Alcobaça, este chegou a ser vendido por 30 reais.
- 1474-77: D. Luís Pires, arcebispo de Braga, cobrava as dízimas das searas da região de Entre Douro e Minho com base no valor fixo de 12 reais por alqueire. Embora este quantitativo não acuse as oscilações produtivas e, nestes anos, as fracas colheitas, percebe-se um nível inferior de preços, por exemplo, quando comparado com os de Salvaterra de Magos (30 reais), Porto (33 reais), Torres Vedras (c. 45 reais) e Lisboa (52 a 55 reais).
- 1485-86: no contexto de uma das mais graves crises de subsistência do século XV, a cidade do Porto experimentou o alqueire pequeno de trigo a 30 reais. É presumível que este preço ficasse bem aquém dos níveis máximos atingidos em Lisboa (100 r.) e Funchal (120 r.).
- 1487-88: o valor de 25 reais por alqueire de trigo, em Barcelos, era inferior aos 30 a 40 reais correntes em Santarém e aos 40 e poucos reais exigidos em Lisboa. Apenas a fertilidade das searas açorianas permitia a venda de trigo a valores de 13 e 14 reais.
- 1490-91: no mesmo ano em que D. João II avaliava o alqueire de trigo no Minho em 18 reais, os procuradores de Lagos lamentavam-se, em cortes, de na sua vila o trigo nunca descer de 50 reais. O preço minhoto era ainda bastante inferior ao verificado em Santarém (40 r.), Alcobaça e Sintra (30 r.) e próximo do praticado em Évora (20 r.). Da mesma forma, um alqueire de cevada importou 14 reais no Porto e 20 reais em Santarém.
- 1493-95: por estes anos, a cidade do Porto enfrentou preços elevados de 35 a 36 reais por alqueire de trigo, superiores aos verificados em Abrantes (15 r.), Benavente, Torres Novas (20 r.), Bragança (14 a 30 reais) e Évora (16 a 30 r.). Ainda assim, ligeiramente inferiores aos praticados em Loulé (35 a 40 reais), Coimbra (40 reais) e Alenquer (75 reais).
Pão e vinho suscitaram sentimentos e preocupações muito diferentes. Se o pão gerou crónica insegurança e receio por qualquer colheita menos boa que, perturbando as já desequilibradas reservas de cereal do reino, originasse carestia, a abundância de vinhos em grande parte do território nacional punha constantemente à prova a capacidade de diversas terras em manterem lucrativo um negócio que se caracterizava por réditos mais certos e por garantia de receitas no mercado internacional. Assim, ao longo dos séculos XIV e XV, foram recorrentes as posturas municipais que visaram proteger o negócio dos vinhos, estabelecendo a sua exclusividade.
Por aqui se conclui que, aparte anos de más colheitas generalizadas, o vinho foi um bem acessível na maior parte do território nacional, apenas inflacionado pela exportação e, nas maiores áreas urbanas, pela especulação. Mas poder-se-á matizar o seu valor em termos geográficos? A incerteza sobre a capacidade do almude nas várias partes do reino, sobre a equivalência entre as diversas medidas de líquidos, bem como a qualidade dos vinhos comerciados, torna difícil o exercício. Em todo o caso, eis os preços cronologicamente coincidentes:
- 1363-65: em 1365, o vinho consumido no mosteiro de Grijó era avaliado em 7,7 soldos o almude, sensivelmente o mesmo preço dois anos antes em Lisboa (8 s.).
- 1383-85: em 1384, o mercador Estêvão Francisco emprestava à cidade do Porto dois tonéis de vinho vermelho no valor de 50 libras cada. Um ano antes, o concelho de Lisboa comprara, para revenda, 700 tonéis de vinho a 300 libras cada, ou seja, a um valor cinco vezes superior. Negociado, cada tonel deveria ainda render mais 38,6 libras. Em ambos os casos, o dinheiro destinava-se ao financiamento da guerra contra Castela. Bem mais próximo ficava um preço de 60 libras, registado em Santarém, em 1385.
- 1393-97: na região de Braga, o almude oscilava entre 20 e 60 soldos, valores semelhantes aos verificados em Bragança (30 a 60 s.), mas claramente inferiores aos praticados na cidade do Porto (72 a 144 s.) e em Lisboa (160 s.).
- 1401-04: as cidades do Porto e de Santarém voltam a registar valores idênticos (42 a 60 l. e 50 a 60 l., respetivamente) e inferiores aos da região de Lisboa, que terá conhecido o almude a cerca de 98 e 120 libras.
- 1427: D. Fernando Alonso, prior do convento de Ancede, viu serem-lhe apreendidos pela câmara do Porto alguns tonéis de bom vinho vermelho que tinha para vender nessa cidade e em Lisboa. De acordo com o prelado, o tonel valia então a 1200 reais no Porto e, em Lisboa, poderia ser vendido a 1333 reais. Este depoimento, validado por sentença favorável da corte, é precioso na medida em que fornece uma comparação entre os dois espaços sem interferência da metrologia.
- 1442: na zona de Guimarães o almude foi avaliado em 36 reais, o mesmo valor taxado pela câmara do Porto para o melhor vermelho de fora da terra e preço médio entre os 24 reais do vinho branco e os 48 reais do vinho tinto. Mais acessível foi um almude em Santarém, tendo então custado 20 reais.
- 1450-52: 2 reais por canada foi o preço do vinho despendido por ocasião de funeral em Braga. Tratava-se de um valor reduzido, o mais baixo que se podia
encontrar, por exemplo, em Loulé, numa escala que ia até 4,5 reais por canada de branco. Na cidade do Porto, eram necessários 5 reais para obter a mesma medida. Ao contrário do pão e das carnes, podia encontrar-se vinho mais barato no Algarve do que no Porto.
- 1464-67: em 1466, a administração municipal de Vila do Conde concedeu licença para a venda de 200 almudes ao máximo de 4 reais por canada, ou seja, a cerca de 48 reais por almude, adivinhando-se preços normalmente mais baixos. Em Braga, o arcebispo D. Fernando da Guerra recebia as dízimas do vinho do clero do Entre Douro e Minho mediante avaliação de 15 reais por almude. Em Santarém, este andaria pelos 20 reais e, em Lisboa, pelos 40 reais.
- 1472: no termo de Unhão (Felgueiras), um almude rondou os 15 reais, o mesmo valor registado em Braga, mas inferior 25% ao fixado por D. Afonso V para o vinho consumido em Tânger.
- 1474-75: Braga surge, novamente, como o espaço menos oneroso, custando o almude 30 reais. No Porto, a vereação local desembolsou entre 60 e 101 reais e, em Lisboa, por ocasião da festa do nascimento do Infante D. Afonso, filho de D. João II, foi consumido vinho no valor de 83 a 114 reais.
- 1477-79: o arcebispo D. Luís Pires secunda a avaliação de 15 reais feita pelo seu antecessor, valor próximo dos 20 reais praticados em Santarém, mas de todo incompatível com a carestia de 96 reais expressa no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende e pela ordem da câmara portuense de se taxar o almude em 96 e 120 reais.