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Entre imagens e representações: os mandingas da Guiné.

CAPÍTULO III O olhar luso-africano sobre os mandingas da Guiné

7. Entre imagens e representações: os mandingas da Guiné.

Tendo em vista as discussões apresentadas até agora, torna-se possível uma compreensão mais densa das representações criadas por Almada, Donelha e Lemos Coelho. Frente à discussão das interações culturais que moldaram o perfil dos mandingas da Guiné optou-se pela denominação de culturas híbridas, como sendo o melhor termo para sintetizar o perfil oriundo de tais processos, visto a complexidade dos mesmos. O objetivo passa agora a ser o de analisar as percepções dos viajantes de Cabo Verde inseridas no cenário, e no espaço, delineados até o momento.

Até agora foi possível perceber o repertório mobilizado pelos autores quando projetaram o que viram entre as atitudes dos mandingas da Guiné como expressões religiosas islâmicas, católicas ou mesmo filiadas às tradições locais. O passo seguinte será a apresentação de algumas possibilidades de interpretação a respeito das imagens criadas sobre estes africanos. Assim como as brechas deixadas para outras possíveis interpretações a respeito das atitudes tomadas frente às situações ocorridas entre os autores e os homens descritos. Ou seja, situações nas quais o tripé de interpretação supra mencionado, nas quais as expressões religiosas são associadas ao islã, cristianismo, ou às tradições locais, não basta para entender as situações descritas. Para o entendimento dessas ocorrências, irão ser explorados outros vetores sociais do cotidiano mandinga, de importância que devem ser considerados, como seu papel como comerciantes.

Contudo, a apresentação do espaço físico em que se situavam os mandingas descritos pelos autores deve ser considerada tendo em vista a influencia da configuração geográfica dos grupos étnicos da Guiné em suas práticas. Segundo Boubacar Barry, no período de configuração da região da Senegâmbia, tal como foi apresentado no primeiro capítulo, dois grandes acontecimentos acabam por delinear a formação dos grupos étnicos da região. Ao norte, após o enfraquecimento do domínio do Mali, há a formação da Jolof Confederation que acaba por exercer o domínio nas regiões situadas nos arredores do Rio Senegal.

Estes jalofos são também mencionados pelos viajantes como os africanos que mais corretamente empregavam as práticas islâmicas entre os homens da Guiné. Barry destaca que é possível perceber, assim, que ao norte da Senegâmbia, visto a maior influencia do domínio Jalofo e consequente maior presença de um islã mais “correto”

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havia uma maior unidade entre os grupos étnicos. Sendo a região ao Sul a que teria ficado sob uma maior influencia Mandinga, remanescente do grandioso Mali de outras épocas, uma região de grupos mais dispersos, sem estruturas muito bem delimitadas106. As práticas religiosas desses grupos localizados ao Sul seriam menos coesas do que era possível observar ao Norte, onde o islã, ainda que heterodoxo, parecia ser a religião mais frequentemente encontrada. O menor grau de unidade dos mandingas, que exerciam mais influencia nas regiões do Sul, acabava por dar margem as mais diversas práticas cotidianas dos grupos étnicos, embora fosse possível encontrar os mandingas espalhados por toda a região. A Jolof Confederation, segundo Barry, mostrou-se como elemento de domínio mais efetivo e de estruturação mais clara entre os grupos ao Norte. Essas considerações de Boubacar Barry serão demonstradas ao longo deste capítulo por meio dos relatos dos viajantes, contudo, para facilitar o entendimento da região, apresentam-se alguns mapas elaborados de acordo com o entendimento de Barry sobre a localização das regiões Norte e Sul.

MAPA II - Destacou-se no mapa ao lado o que deve ser entendido como a divisão mencionada por Boubacar Barry, com relação ao presente recorte de estudo. Contudo, frisa-se que, possivelmente, a região por ele definida como “norte” ainda estendia-se mais acima do Rio Senegal. Está também destacado, em vermelho, a correspondência atual das mesmas regiões, percebe- se que algumas ainda mantêm mesma denominação. Este mapa foi desenvolvido pela autora desta dissertação, como é possível perceber, a fim de destacar as regiões percorridas pelos viajantes. O que foi feito em razão da dificuldade de encontrar, nos mapas de época e atuais, um que retratasse todos os Rios referidos pelos viajantes.

106 Barry, Boubacar. Senegambiaand theAtlanticSlaveTrade. Translated by Ayi Kwei

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Para facilitar na localização da região de acordo com as configurações mais atuais da Guiné, segue também, a título de ilustração, a localização aproximada do correspondente atual da região descrita pelos autores.

MAPA III - A região em destaque é a que se refere de maneira mais aproximada a região da “Guiné de Cabo Verde”. Esta imagem foi extraída da ferramenta “Google Maps” a fim de apresentar uma visão contemporânea da região.

Dessa forma, delineados os contornos físicos do espaço geográfico no qual se localizavam os mandingas da Guiné, será possível referenciá-lo com mais facilidade no decorrer do texto, até mesmo na referência aos Rios. Durante o decorrer da argumentação a perspectiva de Barry será retomada e possível de ser notada com maior clareza nas palavras dos autores. Para fins de organização o capítulo será dividido de acordo com a afinidade de algumas características relatadas sobre os mandingas, que foram recorrentes nos três autores, a fim de que seja possível confrontar e perceber as representações fornecidas por estes.