Em vez da antiga oposição entre memória e história, uma das principais dimensões da interação entre as duas dimensões de apropriação do passado está em abordar historicamente o próprio processo de produção da memória. A reflexão crescente sobre a história da memória como campo de pesquisa tem evidenciado que as lógicas de produção de memórias e da historiografia não são assim tão diferenciadas. As questões formuladas pela historiografia para compreensão da escravidão negra nas Américas foram sempre determinadas por injunções sociais e políticas do mundo contemporâneo. De forma paralela, a construção de memórias coletivas se faz, necessariamente, como função de questões políticas e identitárias vividas no tempo presente (MATTOS; RIOS, 2005, p. 43).
No dia 20 de maio de 1888, o jornal Arauto Parahybano trouxe estampado em sua primeira página com letras garrafais, os seguintes dizeres: “Brasil livre! Salve! 13 de maio! Livre!”. Logo em seguida e na mesma página, um poema intitulado “Livre!”, cuja autoria foi atribuída à J. B. Vilella, dava o tom do cenário em que se construiu os eventos naquele momento: “Não mais o Sol verá no solo americano/ As lágrimas do escravo, pedindo – caridade!/ Rasgou-se o livro negro: Aqui não há Senhores,/ Impera em toda a parte a deusa – Liberdade”197. A euforia e a poesia expressas no jornal eram reflexas das agitações sociais que tomaram conta do país após a assinatura pela princesa Isabel, então regente da monarquia brasileira, da Lei Áurea que libertou todos os escravizados do Brasil. A província da Parahyba do Norte, não foi exceção, entretanto, foi curioso perceber que a informação foi divulgada apenas 7 dias depois de assinada a referida lei.
A província da Parahyba do Norte, segundo os jornais abolicionistas da época, foi tomada por “expansivas festas em homenagem a deusa da liberdade198”, com “grandes passeatas populares”, comícios, discursos inflamados e frenéticos vivas199”. No dia 20 de maio de 1888, os militares da província, organizaram uma imponente marche aux flambeaux200, que saiu às 7 horas de frente do quartel e foi organizada da seguinte forma: “cada cadete levava uma lanterna e um arco de flores sobre o hombro esquerdo, e uma elegante charola em forma de pyramide era carregado por um pelotão de 4 soldados201”. Assim, a abolição foi comemorada com elegância e pomposidade pela sociedade provincial.
197 Arauto Parahybano, 20 de Maio de 1888, arquivo IHGP. 198 Idem.
199 Idem.
200Expressão francesa que significa “marcha noturna com archotes acessos”, foi um tipo de protesto utilizado
pelos abolicionistas durante os anos finais da escravidão, mas pela notícia, não era um protesto e sim uma comemoração, ver Alonso (2015).
201 Arauto Parahybano, 27 de Maio de 1888, arquivo do IHGP. Não tivemos indícios da participação de ex-
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O fim da escravidão foi motivo de festejos por todo Império, e a narrativa que se foi forjada sobre esses eventos, atribuiu esse feito, a ação de uma princesa. Assim, Isabel entrou para a História como a “grande redentora” da população cativa. Com isso, durante décadas, os estudantes brasileiros aprenderam que o “13 de Maio”, foi resultado da benevolência e humanitarismo de Isabel. Atualmente, há vários estudos202 que buscam descontruir esse ideário sobre a princesa Isabel e sobre a abolição destacando o papel desempenhado pelos escravizados na conquista de suas liberdades e no esfacelamento da escravidão, nesse sentido, o fim do cativeiro legal foi fruto das resistências das pessoas escravizadas ao longo dos anos, e mais especificamente durante as últimas décadas do século XIX.
A crítica surgiu dentro do Movimento Negro, quando ocorreram em 1988 o centenário da Abolição, e ao negar o “13 de Maio” como acontecimento constituinte de sua identidade étnico-racial, propuseram em detrimento deste, o dia 20 de Novembro, data da morte de Zumbi dos Palmares, como Dia da Consciência Negra. O título deste tópico, “entre Isabel e Salustia”, reflete esse conflito de memória, e nos faz pensar sobre o complexo contexto que levou ao fim do cativeiro no Brasil.
Salustia é a personagem presente no terceiro capítulo de nosso trabalho, uma mulher escravizada que recorreu à justiça em busca de liberdade, alegando não ter sido matriculada pelo seu escravizador conforme exigia a legislação vigente. Seu processo percorreu os tribunais da província e chegou ao Tribunal da Relação em Pernambuco e felizmente sua libertação foi alcançada, graças a sua astúcia e resistência. O caso de Salustia é sintomático das ações das pessoas escravizadas, ao longo dos anos de existência da escravidão. Isabel, embora não tenha sido objeto de nosso trabalho, é representativa de uma visão histórica que silenciou e omitiu o papel do negro seja escravizado, livre ou liberto na formação histórica do Brasil.
A escravidão foi muito além de um modo de produção, ao enraizar-se na cultura brasileira durante sua vigência, ela foi responsável por moldar condutas e práticas sociais, subsidiar discursos políticos como o “voto em separado” de Souza Carvalho e científicos como as teorias de darwinismo social ou da eugenia, pensamentos, teorias e práticas sociais. Para além, de compor as estruturas econômica e política do século XIX, a escravidão influenciou as ações de homens e mulheres, que em suas vivências cotidianas experimentaram as facetas mais sutis e cruéis, de submeter o outro ao cativeiro.
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O processo histórico no qual findou a escravidão do Brasil, foi sem dúvida vibrante, com vários atores, ações, visões de mundo e projetos políticos. O Movimento Abolicionista, como o primeiro Movimento Social brasileiro dada sua amplitude, adesão e organicidade de acordo com Alonso (2015, p. 17), também teve sua atuação na Parahyba do Norte. Como demonstramos, houve a criação de associações emancipacionistas como a Sociedade S. João Evangelista, fundado em 1864 e que tinha como finalidade dar liberdade aos escravizados e prestar assistência aos órfãos e viúvas. Assim como, a criação de associações abolicionistas: Emancipadora Areiense (1873), Emancipadora Parahybana (1883), Núcleo Abolicionista (1884), Emancipadora “25 de Março” (1885) e o Club Abolicionista (1888), que dentro de suas concepções e projetos para o fim da escravidão atuaram na província, demonstrando não apenas a existência deste, mas sua relevância no desenrolar dos acontecimentos que culminaram no dia 13 de Maio de 1888.
O Movimento Abolicionista da província, atuou de forma tímida se comparado com a vitalidade de outros lugares, como em São Paulo ou no Rio de Janeiro, muitas vezes agindo ou se posicionando de forma conservadora e gradualista em relação ao fim da escravidão, ou mesmo reiterando a Cultura Política Escravista, a insistência em manter a escravidão da sociedade paraibana foi assunto recorrente na imprensa abolicionista da província, mas mesmo assim, não deixou de contribuir para minar a escravidão dando sua contribuição para seu término e libertando alguns escravizados.
Na Parahyba do Norte, tivemos ainda a atuação de políticos contrários e favoráveis ao fim da escravidão. Destacamos ao longo do texto, dois deles: Manoel Pedro Cardoso Vieira, um intelectual e político negro componente da elite provincial que ao travar um prolongado debate sobre a imigração chinesa demonstrou sua visão sobre a escravidão, seus horrores e a “repugnância invencível pela liberdade” de parte da elite com quem o mesmo em parte dialogava e criticava. E o Visconde Souza Carvalho que ao proferir seu “voto em separado” demonstrou, a quão enraizada estava a escravidão mesmo em 1885, quando houve uma radicalização das ideias e ações abolicionistas. Sua atuação pró-escravidão foi sintomático do posicionamento da parte dos políticos brasileiros que se organizaram nos “clubes da lavoura” e conseguiram adiar o fim da escravidão o quanto foi possível.
Mas se por um lado a escravidão forjou a Cultura Política Escravista, as múltiplas experiências das pessoas escravizadas também fizeram surgir uma Cultura de Resistência dos (as) cativos (as), possibilitando a ação em busca de suas liberdades de Joanna em São João do Cariri, Claudino na capital da província, Salustia em Mamanguape e tantas outras pessoas que mesmo estando sob o jugo da escravidão, buscaram suas liberdades nas brechas que o sistema
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escravista abriu. O protagonismo de tais sujeitos históricos, nos ajuda a perceber que não é a assinatura de uma legislação, como a Lei Áurea, que põe fim à escravidão, mas a astúcia dos (as) escravizados (as) que em sua busca por liberdade, romperam com as amarras senhoriais e demonstraram que era possível resistir.
Assim, a luta pela liberdade foi uma constante entre as pessoas escravizadas, mesmo tendo uma liberdade fragilizada, dada as barreiras sociais para o exercício de uma cidadania por parte das pessoas negras livres e libertas. Uma vez livre, a população negra tinha que enfrentar as marcas de uma sociedade excludente e segregadora. Neste sentido, poder dar visibilidade à tais pessoas foi uma das nossas preocupações, haja vista que a história da população negra foi durante anos silenciada, sendo assim, ao percebê-los como sujeitos históricos conscientes de sua condição e contextos e pró-ativos em suas ações, estamos contribuindo para a reparação das marcas lacunares de esquecimento deixadas.
Talvez seja lugar comum dizer que a abolição da escravidão veio, mas sem as condições necessárias para que as pessoas recém libertas ou mesmo as que já gozavam da liberdade pudessem ter as condições para sua subsistência, fazendo com que os mecanismos de exclusão e segregação continuassem. A população negra viu-se sem alternativas, sem possibilidades, muito embora, o “13 de Maio” tenha sido um momento de reavivar as esperanças das pessoas negras que presenciaram aqueles eventos. Como afirmou Sidney Chalhoub, “o processo histórico que resultou no 13 de maio foi significativo para uma massa enorme de negros (as) que procurou cavar seu caminho em direção à liberdade explorando as vias mais ou menos institucionalizadas na escravidão dos brasis no século XIX” (CHALHOUB, 1990, p. 252).
A atuação da população negra no pós-abolição tem sido um tema que está sendo pesquisado em outras localidades, e tem resultado em densas pesquisas como a tese de doutorado do historiador Walter Fraga Filho (2006), mas ainda temos uma grande lacuna na província da Parahyba do Norte. Como narrou o escritor paraibano José Lins do Rego, em seu livro Menino de Engenho escrito em 1926, fruto de suas vivências e contatos com o cotidiano rural de Pilar, no qual o autor foi criado. O autor conta as memórias do menino Carlinhos e seu contato com as relações sociais no Engenho de seu avô paterno. Sobre os eventos da abolição, Carlinhos narrou que:
Quando veio o 13 de maio, fizeram um coco no terreiro até alta noite. Ninguém dormiu no engenho, com o zabumba batendo. Levantei-me de madrugada, para ver o gado sair para o pastoreado, e me encontrei com a negrada, de enxada no ombro: iam para o eito. E aqui ficaram comigo. Não me saiu do engenho um negro só. Para esta gente pobre a abolição não serviu de nada (REGO, 1986 [1926], p.67)
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A literatura é representativa desse período e pode servir para compreendermos mais sobre o período posterior ao fim do cativeiro. Entre rupturas e continuidades, o processo que levou ao fim da escravidão no Brasil, se deu de forma conversadora. Atualmente, mais de um século e quase três décadas depois de ter findado a escravidão, vemos os ecos do que conceituamos de Cultura Política Escravista, pois ainda na contemporaneidade, a sociedade brasileira está permeada de elementos herdados dos anos de vigência da escravidão, e que podemos perceber pelas estatísticas. Segundo dados do Ministério do Trabalho, houve em 2012 um aumento de 14,37% do número de pessoas submetidas à condições de trabalho análogo a escravidão.
Segundo os números, foram 168 casos em todo o Brasil, envolvendo 3.110 trabalhadores, tendo sido resgatados 2.187. Os dados não nos permitem fazer um recorte étnico-racial em tais números, mas, só o fato de existir trabalhadores submetidos a uma situação de semicativeiro, já é suficiente para demonstrar que a Cultura Política Escravista, não foi rompida em 1888. Um caso ilustrativo dessas permanências ocorreu na Paraíba em 2011, quando uma jovem angolana chamada Felícia Aurora foi trazida para o Brasil por um casal de empresários, cujos nomes não foram revelados, com a promessa de que receberia trabalho e educação, mas que ao chegar foi submetida a condições de trabalho escravo, a partir da atuação do Movimento de Mulheres Negras do Estado, a história de Felícia teve repercussão internacional203.
Quando, nos voltamos para as estatísticas sobre a população negra especificamente, conseguimos visualizar as continuidades que o processo de abolição da escravidão deixou como legado. Segundo os dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizada entre os anos de 2003 e 2013, um trabalhador negro no Brasil ganha, em média, pouco mais da metade (57,4%) do rendimento recebido pelos trabalhadores de cor branca que desempenham a mesma função, ou seja, em um país, onde a maioria da população é composta de pretos e pardo, temos uma disparidade salarial enorme entre negros e brancos.
Outro percentual ainda mais cruel é referente a juventude negra. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), o percentual de jovens negros assassinados no Brasil é 132% maior do que o de brancos. Nas áreas urbanas e periféricas, essa violência se expressa de forma mais direta. Muito embora, essa Cultura Política Escravista, ainda consiga
203 Carta denúncia da Organização da Mulheres Negras da Paraíba – Bamidelê – sobre Felícia Aurora.
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impregnar a sociedade brasileira, temos como fruto da histórica resistência das pessoas escravizadas, algumas rupturas e avanços sociais.
Entre essas rupturas destacamos duas, a primeira é a Lei 10.639/03, que instituiu a obrigatoriedade do ensino de História da África e Cultura Afro-brasileira, em todos os estabelecimentos de ensino do país. Esta legislação, é entendida como um marco de luta dos Movimentos Negros do Brasil, uma vez que, foi resultado de constantes reinvindicações deste. E a segunda mudança que queremos destacar é a Lei de Cotas (nº 12.711/2012) que estabelece a reserva de 50% das vagas de cursos de ensino superior para estudantes oriundos de escolas públicas e também para negros. Como dissemos anteriormente, foi a partir da pressão do Movimento Negro que começou os questionamentos as visões conservadoras sobre a história da população negra e impor novas questões e problemáticas a historiografia, embora o diálogo entre historiadores da escravidão e ativistas negros (as) nem sempre foram tranquilos204 (MATTOS, p. 102).
Essa interlocução dialética entre Movimentos Sociais e historiografia tem resultado em uma larga produção acadêmica que se preocupa com o enfrentamento e a diminuição do racismo na sociedade brasileira, dessa forma, a história serve para a conquista de direitos sociais, como o reconhecimento legal do território quilombolas, a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, entre outros. Entretanto, os rastros da Cultura Política Escravista na contemporaneidade precisam ser combatidos e a pesquisa histórica tem contribuído para isso, através de outras percepções e leituras do passado (MATTOS, p. 110). O presente estudo, é fruto desse contexto, e procuramos dar uma contribuição sobre o processo no qual findou a escravidão na Parahyba do Norte. E entre essas permanências e quebraduras, o processo histórico segue com suas nuances e especificidades. Com avanços e retrocessos.
204 Para Hebe Mattos, essas pressões e reivindicações de organizações sociais negras ocorreram no Brasil, de
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Fontes
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