3.2 A guerra de um escritor general
3.2.3 Entre mapas e tabuleiros
O mesmo general troca os lugares de alguns mapas (FIGURA 9). Ele os abre e olha, são enormes, parecem ser da cidade de Paris, mas poderiam ser de qualquer grande cidade. São mapas sem nomes de ruas, mapas que são marcados sinalizando vários caminhos. Não há referências diretas. Quem os usarão não terão referências para guiá-lo, nem terão destino explicitado. Seu papel é descrever o que vê, escuta, lê. Comparará com outros cenários vistos, com as descrições de caminhos de outros.
Figura 9 – Guy Debord, The naked city, maio de 1957 e Movimentos principais no tabuleiro em O jogo
da guerra.
Fonte: MARCUS, Lipstick traces, 2011, p.363 e BECKER-HO; DEBORD, Le jeu de la guerre, 2006, p.163.
Ao final do livro O jogo da guerra365 Alice apresenta uma cronologia de criação e difusão desse jogo de tabuleiro de Guy Debord. As primeiras ideias sobre o Kriegspiel debordiano são de 1965, mas a reflexão sobre o jogo, de uma maneira geral, é da década
365 BECKER-HO; DEBORD. Le jeu de la guerre: relevé des positions successives de toutes les forces au
de 1950. Em 1977, Debord e Lebovici se associaram para constituir um grupo para produzir o jogo: lançam as suas regras e alguns tabuleiros são criados. Em 1991, por decisão de Debord, O jogo da guerra é publicado como um livro que se reúne aos seus outros livros. Alice Debord, em 2006, publica-o novamente pela Gallimard. Essa edição traz ilustrações de uma partida, bem como as regras e outros documentos. O livro é dividido em: desenvolvimento do jogo; manobra; batalha; operação. Vemos a engenhosidade do autor a respeito das estratégias em um campo de batalha. Também vemos, desde o prefácio, a clareza em explicar o jogo no qual, assim como a guerra, o terreno, as condições climáticas e as forças, são todas medidas estratégicas na condução dos exércitos em batalha.
Em um jogo como esse, o tabuleiro é essencial. É de se esperar que numa guerra real, fora do tabuleiro, o mapa também tenha sua importância reconhecida. No mundo, os mapas têm papel fundamental. São eles que permitem delimitar as bordas dos países. Também é através deles que a descoberta do deslocamento como o simples “estar em outro lugar” começou a ser realizado. Se antes a humanidade realizava uma viagem como experiência, agora ela se desloca para fazer turismo. Nessa transformação, os mapas se tornaram guias para a viagem – isso, quando não são usados os Sistemas de Geoposicionamento Global (GPS) – que permitem não apenas a quem se desloca ser levado precisamente aonde quer chegar, como também têm legendas que sinalizam lojas, monumentos, lugares que podem despertar o desejo de visitação do indivíduo.
Para Guy Debord, os mapas não servem como guias, mas como planos. Subverte-se sua função cotidiana. Cria-se uma suspensão da utilidade espetacular. Brinca-se com a imagem ali presente: as linhas; os caminhos; as possibilidades. É um jogo cujo resultado final pode transformar a paisagem costumeira da cidade em qualquer lugar do mundo. Com pressupostos como esses, levados a cabo pelos situacionistas, a partir do que chamavam de psicogeografia, propunham um urbanismo unitário. Essas ideias acabaram sendo relacionadas com as intervenções na cidade de modo radical, em barricadas366, por exemplo, de Maio de 1968, em Paris, quando: “As barricadas fecham a rua, mas abrem o caminho.”
A frase acima, pixada (sic) em algumas paredes de Paris, assemelha-se com as propostas dos situacionistas. O exercício lúdico se inicia com as modificações dos
mapas e se amplia na medida em que mais experimentos foram sendo feitos. Para Guy Debord, na tese 178 de A sociedade do espetáculo:
A história que ameaça este mundo crepuscular é também a força que pode submeter o espaço ao tempo vivido. A revolução proletária é a crítica da
geografia humana através da qual os indivíduos e as comunidades devem
construir os locais e os acontecimentos correspondentes à apropriação, já não apenas de seu trabalho, mas de sua história total. Nesse espaço movente do jogo, e das variações livremente escolhidas das regras do jogo, a autonomia do lugar pode se reencontrar, sem reintroduzir um apego exclusivo ao solo, e assim trazer de volta a realidade da viagem, e da vida entendida como uma viagem que contém em si mesma todo o seu sentido.367
Nesse trecho podemos ver que, para o autor, os jogos permitem levar os combatentes (jogadores) a outro terreno. A modificação provocada pelo jogo não é apenas na suspensão do cotidiano, mas de seu terreno particular, privado. Com a mudança das regras, uma mudança da arbitrariedade estabelecida na sociedade espetacular, há outra ocupação do espaço e do tempo, criando um campo diferente daquele, passando a ser modificado conforme o desejo dos jogadores, combatentes, situacionistas. Debord mostra, com a prática do jogo, que seria necessário a realização de um novo pacto na sociedade.
O programa letrista e situacionista, como vanguardas artísticas e políticas, levava seus membros a experimentarem o espaço da cidade de modo diferente. Se os mapas eram grafados, coloridos, modificados em prol de cidades diferentes das que existiam, suas propostas plásticas e gráficas conduziam à necessidade de um conceito diferenciado. Esse conceito foi conquistado através de um experimento chamado “deriva”, que inaugura, na prática, a psicogeografia.
A deriva, nada mais é que “um modo de comportamento experimental ligado às condições da sociedade urbana: uma técnica de passagem apressada através dos ambientes variados. O termo também designa o período ininterrupto de deriva.”368 Isso demonstra que a prática da dérive é uma atividade que desconsidera o tempo externo a ela, sendo um experimento situacionista com seu próprio tempo.
Em seu texto sobre a deriva, no segundo número da revista Internacional
Situacionista, Debord apresenta a duração da experiência:
A duração média de uma deriva é um dia, considerado como o tempo entre dois períodos de sono. O tempo de partida e de chegada não são necessariamente relacionados com o dia solar, mas deve-se notar que as últimas horas da noite não são geralmente adequadas para a deriva.369
367 DEBORD. A sociedade do espetáculo – Comentários sobre a sociedade do espetáculo, 1997a, p. 117. 368 INTERNACIONAL SITUACIONISTA. Definitions, 1958, s. p., tradução nossa.
A deriva, portanto, se adequa ao tempo “natural”, ou seja, tem como referência o sol e a lua, o dia e a noite, o sono, e não as horas. Além disso, a imersão na deriva, como em qualquer jogo, concretiza sua própria temporalidade. Tal temporalidade tem seu momento final no anoitecer, mas, mesmo assim, sem impedimento para a continuidade de sua execução. Esse tempo próprio assemelha-se àquele delimitado nas narrativas. Essas têm, em seu desenrolar, um tempo também imersivo, que leva o leitor ao mundo dos personagens através das descrições, características, artifícios.
Assim como a narrativa, a deriva, como uma situação psicogeográfica, também elabora seu próprio espaço. Debord afirma que:
O campo espacial da deriva pode ser preciso ou vagamente delimitado, dependendo se o objetivo é estudar um terreno ou desorientar-se emocionalmente. Não se deve esquecer que estes dois aspectos das derivas se sobrepõem de tantas maneiras que é impossível isolar um deles em um estado puro. Porém, o uso de taxis, por exemplo, pode fornecer uma linha divisória clara o suficiente: se, no decurso de uma deriva, alguém pega um taxi, para chegar a um destino específico ou simplesmente para se mover, digamos, vinte minutos para o oeste; um outro está preocupado com a desorientação pessoal. Se, por um lado, um segue para a exploração direta de um terreno particular, outro está concentrado primariamente na pesquisa de um urbanismo psicogeográfico.370
A deriva se aproxima de um jogo exploratório do espaço, seja na observação do seu terreno, ou na desorientação provocada na deriva nele. A negação do tempo surge com base nesses objetivos espaciais.
Há semelhança com a flânerie em Walter Benjamin, que situa muito bem as mudanças na Paris do século XIX a partir da “aparição” nas ruas: as pessoas, as coisas, as lojas, o teatro, a família, os costumes, os filhos, a sociedade, tudo era passível de ser visto, de ser notado, permitindo a observação e descrição. Essa percepção do autor alemão auxilia na delimitação do que seria o flâneur. Para Benjamin,
O registro tranquilo dessas descrições ajusta-se aos hábitos do flâneur, que é uma espécie de botânico do asfalto. Mas já nessa altura não se podia passear calmamente por todos os pontos da cidade. Antes de Haussmann não existiam praticamente passeios largos, e os estreitos ofereciam fraca proteção contra os veículos que circulavam. Sem as passagens cobertas (passages), a deambulação pela cidade dificilmente poderia ter alcançado a importância que veio a ter. “As passagens, uma nova invenção do luxo industrial”, diz um guia ilustrado de Paris, de 1852, “são galerias com cobertura de vidro e revestimentos de mármore que atravessam blocos de casas, e cujos proprietários se juntaram para poderem entregar-se a tais especulações.”371
370 DEBORD. Theory of the Dérive, 1958, s. p., tradução nossa.
Diferente do flâneur, que se “sente a vontade nesse mundo”372, a ser observado e descrito, o situacionista se sente à vontade na sua deriva apressada, que pretende criar uma nova visão do urbano (e seu espaço/tempo). Portanto, a deriva radicaliza a flânerie, na prática de descrição dos lugares por onde o situacionista passa mapeando a cidade. A cidade não é mais, para o situacionista, o remédio para o tédio, “doença que grassa facilmente sob o olhar mortífero de um regime reacionário saturado”, tal como o era para o flâneur.373 A insuficiência das novidades, que alcança um limite ao deixar de serem apenas observadas em Maio de 1968, convive com a intervenção no espaço urbano: pelas barricadas ou pela escrita nos muros, nos quadros, ou ainda pelas ocupações. Essas medidas se tornaram o que Debord achou ser a primeira dose do remédio para o tédio.
Maio de 1968, para os situacionistas, especialmente no que se refere às ocupações, foi de fato uma situação construída. Ela seria “um momento da vida concretamente e deliberadamente construída pela organização coletiva de um ambiente unitário e um jogo de eventos.”374 Ao que parece, a deriva, por si só, é apenas o início das possibilidades de se conhecer e intervir na cidade. Porém, é um experimento de valor, pois contribui como um exercício coletivo, em que todos apreendem o espaço no qual podem intervir.
A deriva é bastante estudada por áreas como arquitetura e urbanismo, bem como pela geografia. Debord publicou o texto “Teoria da deriva” na revista Internacional
Situacionista em 1958, em seu segundo número. Nesse texto, o experimento fica mais claro do que nas definições de conceitos situacionistas publicados no primeiro número, também no mesmo ano.
O conceito de deriva, conforme Debord, “envolve um comportamento lúdico- construtivo, e ao reconhecimento dos efeitos psicogeográficos, o que a opõe em todos os aspectos às noções clássicas de viagem ou passeio.”375 O terreno e os acontecimentos levam o indivíduo em deriva a experimentar novas sensações. E, em um mapa, quem deriva descreve essas sensações.
É curiosa a forma como Debord ressalta o aspecto da “sorte”:
Se a sorte tem na deriva um importante papel isso é porque a metodologia da observação psicogeográfica ainda está em sua infância. Porém, a ação da
372 BENJAMIN. Charles Baudelaire: um poeta na época do capitalismo avançado, 2006d, p. 39. 373 BENJAMIN. Charles Baudelaire: um poeta na época do capitalismo avançado, 2006d, p. 39. 374 INTERNACIONAL SITUACIONISTA. Definitions, 1958, s. p., tradução nossa.
sorte é naturalmente conservadora e tende, em um novo marco, a reduzir tudo ao hábito ou a uma alternância entre um número limitado de variantes.376
O papel da sorte é fundamental na deriva, e ela, com a inserção da sorte, se aproxima do jogo e da guerra, tal como visto em Clausewitz.377 A sorte deve ser dominada para que o infantil ligado a ela não prevaleça. Para Debord,
Uma desconfiança insuficiente das limitações da sorte, e dos seus efeitos reacionários inevitáveis, condenou a um triste fracasso o famoso deambular sem meta tentado em 1923 por quatro surrealistas, partindo de uma cidade escolhida ao azar: o vagar no campo aberto é naturalmente deprimente, e as intervenções da sorte são mais pobres que em qualquer outro lugar. Mas essa estupidez é bastante incentivada por um certo Pierre Vendryes (em Médium, maio de 1954), que pensa que pode relacionar essa anedota a vários experimentos de probabilidade, pelo fato de todos eles supostamente envolverem o mesmo tipo de libertação anti-determinista.378
O reconhecimento, na deriva, da presença da sorte ou do azar, a distancia das deambulações dos surrealistas e reafirma um uso para essa prática situacionista, que teria o papel de gerar, através do lúdico-construtivo e do reconhecimento dos efeitos psicogeográficos, uma experiência diferenciada, nada semelhante à viagem ou ao passeio. A psicogeografia, portanto, provocava no indivíduo, conforme a tese situacionista, a transformação da consciência do tempo e espaço espetacular, fazendo-o experimentar, ainda no mundo atual, o que seria o espaço e o tempo em uma sociedade situacionista.
O que mais chama a atenção não é a potência criativa, ou as expressões sobre a cidade à qual a deriva, supostamente, fará gerar. O curioso é a forma de “acompanhar” a deriva, que implica em descrições do deslocamento rápido e das impressões emocionais do sujeito. Este, munido de papéis e mapas para anotações, faz suas experiências valerem por meio da escrita, do desenho, do traço, do risco. Ninguém experimenta pelo sujeito, ou escreve pelo sujeito, a deriva é feita por ele.
Com a prática de unir a execução da deriva com a sua descrição (narrativa, iconográfica, ou através de esboços e anotações em mapas), unifica-se a experiência ao narrar do ser humano, pois este passa a executar/comunicar o seu experimento diretamente. A unificação dessa separação, ocorrida historicamente, como no narrador demonstrado por Walter Benjamin, é uma das ações de Guy Debord, para quem
376 DEBORD. Theory of the Dérive, 1958, s. p., tradução nossa. 377 CLAUSEWITZ. De la guerra, 2002, p. 18.
O espetáculo é a conservação da inconsciência na mudança prática das condições de existência. Ele é seu próprio produto, e foi ele quem determinou as regras: é um pseudo-sagrado. Mostra o que ele é: o poder separado desenvolvendo-se em si mesmo, no crescimento da produtividade por meio do refinamento incessante da divisão do trabalho em gestos parcelares, dominados pelo movimento independente das máquinas; e trabalhando para um mercado cada vez mais ampliado.379
A deriva possibilita que o sujeito não apenas intervenha sobre os mapas através da palavra, mas da representação ampla e irrestrita tecnicamente, expondo suas impressões. De fato, o que se cria no mapa é derivado do experimento. E este, como experimento de vanguarda, surge com a possibilidade de execução através de várias técnicas de expressão humana. Assim, na luta contra o urbanismo capitalista, surge, para os situacionistas, o que chamam de “urbanismo unitário”, que é uma “teoria do uso combinado das artes e técnicas como meios de contribuírem para a construção de um ambiente unificado em relação dinâmica com experimentos em comportamento.”380
Para Guy Debord e os outros situacionistas, a cidade foi constantemente destruída e reconstruída, aprimorando a circulação da mercadoria. Para Benjamin, como vemos no seu ensaio sobre Charles Baudelaire, especialmente na seção sobre o flâneur, no capitalismo há uma mudança concreta da cidade à medida que a industrialização avançou.381 Quanto mais rápido a mercadoria circula, mais efetiva era a arquitetura. A cidade capitalista sempre foi moldável ao gosto da mercadoria, primeiro para a moradia e circulação das pessoas como mercadoria-trabalho. Depois a cidade se adaptou para que a mercadoria-trabalho pudesse se deslocar mais rapidamente, através dos veículos motorizados. Por fim, com a mercadoria transformada em espetáculo, sua circulação não se restringiu apenas às ruas, aos veículos que por ela transitam, mas também pelas mídias comunicativas e outros meios que possibilitaram à informação circular tal como mercadoria que se tornou.
Por fim, Debord lidava com mapas transformando-os, metaforicamente, em tabuleiros, capazes de proporcionar, a quem os modifica, tal como num jogo, a experimentação do tempo e do espaço de um modo diferente daquele das cidades no capitalismo.
379 DEBORD. A sociedade do espetáculo – Comentários sobre a sociedade do espetáculo, 1997a, p. 21-
22.
380 INTERNACIONAL SITUACIONISTA. Definitions, 1958, s. p., tradução nossa. 381 BENJAMIN. Charles Baudelaire: um poeta na época do capitalismo avançado, 2006d.