O primeiro eixo deste capítulo, apoiado nas incursões a partir dos dados do capítulo anterior, esclarece as condições materiais no exercício do magistério na execução da instrução nas escolas do Recôncavo. Dentre esses aspectos, destaco os seguintes temas: prédios, livros, materiais didáticos, objetos escolares e mobiliários, descritos na inspeção nas escolas.
Da documentação levantada constam os Relatórios Gerais do Diretor de Instrução Pública do Governo do Estado da Bahia, Relatórios de Inspeção das Escolas do Recôncavo Fumageiro da Bahia, os quais são discutidos tendo em vista o que propõe o ordenamento jurídico para a regulamentação e controle do funcionamento das escolas.
Na Bahia e no Recôncavo, em meio às exclusões econômicas e sócio-políticas, os relatórios representam o cenário das precárias condições da instrução pública local. Deste modo, durante o ano de 1923, de acordo com o Relatório do Diretor de Instrução Pública, Anísio Teixeira (quadriênio 1924-1928), as condições materiais das escolas eram precárias.
Afirma que o serviço escolar na Bahia sofreu de um longo período de abandono, o qual emprestou ao ensino primário uma atmosfera de desânimo. Para efeito de esclarecimento, é importante aqui transcrever trechos do relatório e o quadro por ele apresentado.
[...] Por toda parte que tomemos o problema do ensino, na Bahia, logo avulta o singular descaso com que a administração pública feriu essa questão essencial do seu desenvolvimento. O mobiliário e aparelhamento das escolas são inadequados. A situação quanto ao mobiliário escolar é das mais inesperadas. Por mais de quatorze anos, talvez, não cumpria o Estado com as suas responsabilidades para com os indispensáveis suprimentos de mobiliário e material escolar. A situação é, pois, em suas linhas gerais a seguinte: para 79.884 crianças matriculadas nas escolas públicas existem aproximadamente 13.006 carteiras. Se refletirmos, que aquelas 79.884 crianças matriculadas representam somente 20,54% da população escolar do Estado, veremos como é tremenda a situação do nosso sistema escolar. As atuais necessidades quanto ao mobiliário escolar, podem ser estudadas à luz do quadro abaixo. (SALVADOR-Relatório da Inspetoria Geral do Ensino do Estado da Bahia 1925, p.11).
Para maiores esclarecimentos, o relatório ainda apresenta o quadro, demonstrando o déficit de mobiliário em todo o Estado da Bahia, na capital e no interior. Na capital, o índice é de 58,9%, ou seja, mais da metade dos alunos que frequentavam as escolas não possuíam assentos em suas salas de aula. No interior 35,8% dos que frequentavam as escolas também não possuíam assentos, o que significa dizer que mais de um terço dos estudantes não tinham a garantia de assentos no espaço escolar. Dados que podem ser melhor visualizados na Tabela 07 abaixo.
Tabela 7 - Demonstrativo de carteiras nas escolas públicas do Estado da Bahia-1924 Local Frequência Carteiras Assentos
Alunos frequentes sem carteiras Percentagem de alunos sem carteiras Capital 8.509 2.743 20.526 29.435 58,9 Interior 49.901 10.263 5.460 3.049 35,8
Fonte: Relatório da Inspetoria Geral do Ensino do Estado da Bahia, Salvador, 1925.
Os relatórios comprovam em tons de crítica e também de surpresa, o desinteresse do poder público pela educação local, ilustrando a falta de condições materiais das escolas inspecionadas. A semântica dos relatórios esclarece, através de vários argumentos arrolados, que a educação do povo não representou prioridade no período em estudo, mesmo tendo em vista o que propunha a legislação em vigor.
uma efervescente discussão sobre a ampliação da oferta, organização e execução da educação para a infância, a documentação levantada no cenário local não aponta para leis e nem mesmo decretos de menor complexidade ou sobre questões específicas que indiquem Reformas no Ensino Primário no Recôncavo Fumageiro. Considerando o quantitativo de mobiliário escolar, os boletins demonstram que a situação ainda era pior, pois além da ausência de mobiliário, conviviam com a ausência de materiais didáticos pedagógico em geral.
A análise não deixa dúvida de que os temas ligados à educação e a forma como foi pensada nos debates no cenário nacional não atingiram as crianças do Recôncavo, mesmo com a expansão da oferta de escolas primárias e a interiorização da Educação, como propunha Anísio Teixeira. Recém chegado de uma experiência norte americana, como aluno de Dewey, o educador estava articulado com um grupo de jovens intelectuais que reconhecia os poderes da educação. Era um ativista político que militava em prol dessa causa e, como tal, fez questão de conhecer a realidade educacional baiana, visitando escolas no interior. Com isso, no Recôncavo, as escolas de Santo Amaro, Cachoeira, São Félix, Muritiba, Cruz das Almas, Afonso Pena, Castro Alves, Amargosa, São Miguel e Nazaré foram visitadas.
Neste sentido, de acordo com Dick (2013), mesmo não havendo uma lei específica para o ensino baiano, houve uma grande preocupação com a expansão de escolas primárias para todo Estado, sendo incrementado um planejamento educacional tanto para a capital como para o interior. Nesse último caso, com a especificação dos diversos tipos de escola: Escola mínima, com duas ou três salas; Escola Nuclear, com seis salas, comportando expansão – daí serem chamadas também como escolas expansionistas; Grupos Escolares, com doze salas de aula.
Mas é importante afirmar que a documentação encontrada não revela esta variedade de escolas no Recôncavo Fumageiro. A análise dos relatórios especifica claramente a predominância das Escolas Mínimas, em geral com classes multisseriadas nas quais meninos e meninas de todas as séries compartilhavam a carência de materiais didáticos e mobiliários necessários para a realização de uma aula, com um mínimo de condição para a aprendizagem, conforme o Relatório de Anísio Teixeira. Assim, além dos dados apresentados, o documento segue afirmando:
O educador baiano de entusiasmo arrefecido vivia num ambiente subalterno de servidor inferior do estado. Tais escolas floresciam, isto é, funcionavam pelo estado mastigando uma alfabetização enfadonha e monótona,
desprovidas de prédios e de material didático, sem fiscalização, sem estímulo e impulso administrativo, na mais absoluta das autonomias, a autonomia do abandono. O mecanismo da instrução pública servido por tal descaso; relegado pela incúria administrativa a um plano subalterno, urgia por se restaurar em bases novas e adequadas à terra e à gente baianas. (SALVADOR-Relatório da Inspetoria Geral do Ensino do Estado da Bahia, 1925 p. 10).
Portanto, essa documentação exibe o quanto a educação baiana necessitava ser planejada e modificada para atender às necessidades do povo. Relembrando que o Estado apresentava índices de analfabetismo mais elevados do que os índices gerais do Brasil.
No que tange ao Recôncavo, para melhor esclarecer as condições matérias, lanço mão dos relatórios de Inspeção, que são executados por um inspetor e, posteriormente, encaminhados ao Inspetor Técnico de Ensino Primário, o qual em geral recebe o tratamento de “excelentíssimo Senhor Doutor”, demonstrando distanciamento e verticalidade na relação com a escola, com os professores e com os alunos.
Nesse sentido, e tentando demonstrar que a falta de ações e condições de execução no Recôncavo não se trata apenas de uma condição geral, mas representa uma conjuntura social classista em que o lugar reservado à escolarização da infância negra e pobre é absolutamente inferior, ou melhor, é o não lugar, é a não condição de superar a hierarquia social construída e naturalizada historicamente.
Não havia sequer um planejamento municipal para a execução dessa educação. A execução da educação do Recôncavo Fumageiro estava submetida ao planejamento e organização do Governo Federal, do Ministério da Educação e Saúde Pública, com os parcos recursos para a implementação de escolas difundidas em todo interior baiano.
A documentação analisada, além da estrutura das escolas, apresenta os programas de ensino e descreve diversos aspectos da instrução primária. As características mais marcantes do discurso é que alguns relatórios trazem detalhes de maneira mais aprofundada e outros de maneira superficial.
5.2 AS CONDIÇÕES E AS POSSIBILIDADES NA EXECUÇÃO DA INSTRUÇÃO NAS