• Nenhum resultado encontrado

Capítulo 2. A teoria do subdesenvolvimento de Furtado: entre antes e depois de 1964

2.12. Entre o dualismo e a heterogeneidade estrutural

O tema do dualismo percorreu toda a obra de Furtado. Nas obras pré-1964, havia uma preocupação em discutir as origens da estrutural dual no Brasil agrícola e também os seus efeitos sobre o subdesenvolvimento. O dualismo brasileiro foi entendido como resultante da inter-relação entre dois setores no Brasil colonial – de um lado, a grande empresa agromercantil, escravocrata exportadora de produtos primários, e, de outro, a pequena produção de subsistência.

A relação entre elas permitiria, na visão do autor, compreender os efeitos da penetração da expansão capitalista do centro na periferia. Em outras palavras, possibilitaria observar que a introdução da grande empresa agromercantil, comandada no período colonial pelos europeus, se deu sobre estruturas arcaicas e, quase sempre, levou ao estabelecimento de estruturas híbridas no país, uma se comportando enquanto um sistema capitalista (empresa agromercantil exportadora) e outra mantendo uma estrutura pré-capitalista (produção de subsistência).

165 Ver, principalmente, Furtado (1962). Também devem ser destacados cinco pontos que foram elencados por

Furtado posteriormente, quando tratou do que deveria ser a Reforma Agrária no Nordeste: “a) que nenhum trabalhador agrícola foreiro ou arrendatário, que o seja por dois anos ou mais em uma propriedade, possa ser privado de terras para trabalhar ou de trabalho sem justa indenização; b) que nenhum trabalhador que obtenha da terra que trabalha, ao nível da técnica que lhe é acessível, rendimento igual ou inferior ao correspondente a um salário familial mínimo, a ser fixado regionalmente, pague renda sobre a terra, qualquer que seja a forma que esta assuma; c) que todas as terras consideradas necessárias à produção de alimentos e que não estejam sendo utilizadas ou o estejam para outros fins com rendimentos inferiores à médias estabelecidas regionalmente possam ser desapropriadas para pagamento a longo prazo; d) que se organize a economia agrária do país redistribuindo as funções de supervisão entre governos federal e estaduais, devendo aquele assegurar, durante um período de dez anos, a aplicação na agricultura de recursos, sob a forma de assistência técnica e financeira, não inferiores a um terço do orçamento público federal e a um décimo dos investimentos totais realizados no país; e) que se organize a distribuição de alimentos de forma a que haja preços mínimos fixados em termos reais para o produtor e preços máximos para o consumidor, por regiões, com apoio numa rede nacional de armazéns e silos e em sistemas de mercados centrais urbanos” (FURTADO, 1989, p. 147-148).

O problema do dualismo não era apenas a sua existência, mas um mecanismo de reprodução deste. O avanço da empresa agromercantil, com aumento do lucro na economia primário exportadora e escravocrata, se traduzia em pagamentos em grande medida ao exterior, porque funcionava mediante pagamento de importação de escravos da África, como também pagamento de materiais e equipamentos importados dos países centrais. Mesmo o consumo da elite dessa sociedade acabava gerando importação de bens de consumo do exterior. Assim sendo, Furtado (1956) destacava que a economia escravocrata exportadora crescia sem modificação estrutural. Não havia um desenvolvimento interno de autopropulsão. E, mesmo nas crises, a economia colonial exportadora tentava subsistir, mantendo a estrutura dessa economia.

Na maioria dos casos a velha economia de exportação continuava a subsistir de forma atrofiada, utilizando uma parte reduzida de sua capacidade produtiva. Outras vezes, praticamente desaparecera, como foi o caso das atividades de mineração na região central do país. Mas, mesmo no primeiro caso, as atividades exportadoras davam ocupação apenas a uma fração da força de trabalho disponível. A parte principal dessa força de trabalho passara a ser subutilizada em atividades econômicas de natureza puramente local, com uma produtividade muito inferior àquela das atividades ligadas ao comércio exterior. Os dados básicos do problema colonial brasileiro se haviam portanto transformado. De país praticamente desprovido de mão-de- obra, o Brasil transformara-se em região dotada de uma extensa economia de subsistência que poderia constituir uma fonte de força de trabalho (FURTADO, 1956, p. 14).

A partir dessa forma de operar, o Brasil se transformava gradativamente em uma extensa economia de subsistência, estacionária, que representava uma fonte praticamente inesgotável de força de trabalho, que seria funcional para as futuras produções agrícolas que atuariam por meio do assalariamento, como passou a ser no fim do século XIX o café. Esta condição também serviria para “achatar” os salários médios em geral desta economia mesmo quando ela iniciasse o processo de industrialização, no século XX, e a maior parte das pessoas saísse do campo para as cidades.

Furtado (1956) observaria que a economia do café foi uma das principais favorecidas por esse sistema dual, porque ela se organizou quando o país já estava ocupado e com um grande reservatório de mão de obra deixado justamente pela grande empresa agromercantil. Quando do início do assalariamento, havia mão de obra subocupada da velha colonização e também facilidades para que imigrantes trabalhassem nas lavouras de café. “Sem abundância de mão de obra não teria sido possível organizar uma economia de exportação como a do café (agrícola colonial) à base de trabalho assalariado” (FURTADO, 1956, p. 15).

A ligação da economia cafeeira, embora também fosse com o exterior, remunerava a mão de obra, por não ser ancorada no trabalho escravo166. Segundo Furtado (1956), a classe trabalhadora transformava parte do que ganhava em consumo enquanto a classe proprietária dos meios de produção retinha parte do ganhava para ampliar seu capital. Isso favoreceu a criação de um mercado interno.

Porém, não se pode perder de vista que a mão de obra abundante era importante elemento que tornava lucrativa essa produção, que sempre teria custos baixos em termos de pagamentos de salários e dificilmente sofreria pressão, dado o desemprego estrutural, para aumento dos mesmos. Assim sendo, ela reproduziria também o dualismo.

Apesar de o café possibilitar o consumo dos trabalhadores, deve-se destacar que os salários reais no período do café, em geral, não subiram. Como havia mão de obra disponível em grande quantidade e facilidade de imigração de europeus, o cafeicultor podia aumentar sua renda e não elevar o salário real. Na fase de auge do ciclo internacional do café, por exemplo, o fruto desse cenário melhor era retido pelo cafeicultor sem pressão para que o repartisse com os salários. Ampliava extensivamente a plantação de café e transformava aumento de produtividade em maiores lucros. E assim sempre era mais interessante produzir a maior quantidade possível por unidade de capital, pagando o mínimo de salário por unidade de produto. “A consequência prática de tal situação era que o empresário estaria sempre interessado em aplicar o seu capital novo na expansão das plantações, não se criando nenhum incentivo que o induzisse a melhorar os métodos de trabalho” (FURTADO, 1956, p. 27).

Na fase de contração do ciclo internacional do café, havia a transferência dos prejuízos para a coletividade pela via cambial e pela redução forçada da oferta de café, com utilização dos recursos do Estado para compra do excedente produzido em benefício dos cafeicultores. Mesmo na crise, portanto, não era necessariamente o cafeicultor que perdia. Deste modo, a economia cafeeira, “na sua luta de sobrevivência contra as crises externas, criou em realidade entraves à transformação espontânea da economia dependente em um sistema autônomo” (FURTADO, 1956, p. 38).

Em suma, a economia do café não gerava emprego suficiente para a mão de obra desocupada, quem trabalhava por salário recebia pagamento a um nível de subsistência, não eram realizados investimentos significativos em tecnologia para aumento da produtividade até porque havia terras e mão de obra em abundância, mantinha-se a economia do país dependente da demanda do centro e permanecia a estrutura agrária de subsistência em seu

166 Numa primeira fase de cultivo de café houve escravidão. Numa segunda fase, tratou-se de um cultivo baseado

entorno. Por mais que houvesse algumas vantagens em relação aos produtos primários exportados em período anterior, o cultivo do café, mesmo afastando cada vez mais as economias de subsistência, entretanto, também reproduzia o dualismo.

Nas obras pós-1964, Furtado referia-se ao dualismo, portanto, como uma característica estrutural permanente e responsável por produzir uma economia instável: “Dada a existência de duas formas de remuneração do trabalho, de duas tecnologias de níveis extremamente diversos, de duas concepções de organização da produção, a economia dual é intrinsecamente instável” (FURTADO, 1964, p. 79).

Em “Teoria e Política do Desenvolvimento Econômico”, de 1967, Furtado sintetizaria a inter-relação entre os setores no dualismo, mostrando uma dialética entre eles:

O capitalismo que existe na estrutura dualista apresenta certas especificidades, cuja razão de ser está nas inter-relações que mantém com o setor não capitalista. Assim, o excedente criado no setor capitalista depende fundamentalmente das condições de vida no setor não capitalista. Da mesma forma, essas condições de vida refletem o grau de acessibilidade à terra e ao crédito, que dependem em boa medida do setor capitalista. O estudo do dualismo consiste exatamente em descobrir essas interdependências. (FURTADO, [1967] 1977, p. 212).

Nos anos 1970, o dualismo não deixaria de fazer parte da sua interpretação. Mas Furtado passaria a usar a heterogeneidade estrutural167 com mais frequência como resultado da atuação da moderna empresa capitalista estrangeira no país ao lado de setores não modernos.

Furtado destacava que a pressão que exerciam as empresas transnacionais para difundir formas mais sofisticadas de consumo constituía uma das causas da crescente heterogeneidade social do mundo dependente. Segundo ele, o rápido desenvolvimento das forças produtivas (ainda que limitado a certos setores) e os baixos salários proporcionavam considerável excedente a essas empresas, em benefício delas próprias e de uma classe interna importadora de bens de consumo do centro, não conduzindo à homogeneização social.

Para ele, a discussão da heterogeneidade se relacionava ao dualismo, pois a adoção de padrões de consumo imitativos de sociedades de níveis de riqueza muito superiores tornava inevitável o dualismo social também gerado pelo processo de industrialização. E destacava: “[...] o ingresso na industrialização também é coisa antiga, e seu efeito indisfarçável foi aumentar o dualismo social” (FURTADO, 1992, p. 54).

167

Documentos relacionados