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2. O MODELO ITALIANO DE COOPERATIVAS SOCIAIS

2.1 Origens, marco legal e características principais

2.1.1 Entre o movimento cooperativo e o terceiro setor

O movimento cooperativo italiano

Conforme foi apontado no capítulo anterior, o movimento cooperativo na Europa foi um dos pilares do movimento operário na resistência ao capitalismo como sistema dominante e a seus efeitos sobre as populações. Na Itália o quadro não é diferente, mas apresenta suas especificidades. Vale salientar que o movimento cooperativo italiano se caracteriza por suas diretrizes político-ideológicas bastante demarcadas, com participação significativa no movimento operário a partir da adesão de cooperativas ao Partido Operário Italiano (1885) e ao Partido Socialista Italiano (1892) (Trezzi, 1982:166; Zangeri, 1987:166; In Namorado, 2007:12).

A componente socialista do movimento cooperativo italiano teve sua maior expressão com a Lega Nazionale delle Cooperative e Mutue, fundada em 1893, mas com sua primeira formação em 1886 a partir da união de 248 cooperativas. A Lega participou ativamente da fundação da Aliança Cooperativa Internacional em 1895 (Briganti, 1988:200, In Namorado, 2007:12). O movimento cooperativo italiano apresenta também uma vertente de cunho católico, impulsionada pela doutrina social da Igreja, instituída pela Encíclica Rerum Novarum em 1891. Esta vertente é representada pela Confcooperative, Confederazione Cooperative Italiane, fundada em 1919.

Em 1922 a Itália foi tomada pelo regime Fascista, o que provocou conseqüências desastrosas ao movimento cooperativista. Os princípios democrático e participativo das cooperativas mostraram-se incompatíveis com o totalitarismo dos fascistas. Com a ascensão do Fascismo e com a II Guerra Mundial o cooperativismo italiano permaneceu praticamente inativo, retomando sua atuação somente em meados de 1945. Esta retomada foi induzida pelas forças políticas e sociais representadas pelo Comitê de Libertação Nacional, além de

sofrer influência da conjuntura econômica e política da época. Neste mesmo período a Lega e a Confcooperative retomaram suas atividades.

Em 1948 entrou em vigor o artigo 45 da constituição italiana que reconheceu a função social das cooperativas e seu caráter mutualístico. Em 1952 foi criada a Associazione Generale Cooperative Italiane (AGCI), a partir de “um grupo de cooperativas de inspiração republicana, social-democrata e liberal21”, dissidente da Lega. Vale destacar ainda a formação da Unione Nazionale Cooperative Italiane (UNCI), em 1971, por meio de uma cisão da Confcooperative22.

O cooperativismo social

As primeiras experiências de cooperativismo social na Itália datam do final dos anos 1970 impulsionadas pelo movimento cooperativo e por iniciativas filantrópicas organizadas pelo voluntariado católico. Durante a década de 70 uma série de conquistas da sociedade civil foi alcançada na Itália, tais como: as escolas públicas começaram a receber alunos com deficiência, foi criado o Serviço Nacional de Saúde e publicada a lei Franco Basaglia, que determina o fechamento dos manicômios e reconhece todos os direitos de cidadania das pessoas com transtorno mental.

Em 1981 surge a primeira versão da lei de cooperativas sociais, mas somente em 1991 ocorre a aprovação de seu texto final (Vanek, 2001:1). Este intervalo de tempo permitiu debates amplos sobre a lei, envolvendo uma série de atores sociais, o que contribuiu para o fortalecimento e o amadurecimento da proposta publicada.

Durante este processo de discussão sobre a melhor forma jurídica das cooperativas sociais, cogitou-se não enquadrá-las como cooperativas. Isto porque as cooperativas sociais têm como objetivo principal atender os interesses gerais da comunidade, e não necessariamente ao princípio da mutualidade, conforme prega o movimento cooperativo. Para justificar a utilidade pública e a função social das cooperativas sociais, a lei em vigor se apóia

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Conforme informações coletadas no sítio da AGCI: http://www.agci.it/.

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Sobre a história do movimento cooperativo italiano ver sítios:

http://www.confcooperative.it/C9/La%20storia%20della%20cooperazione/default.aspx e http://www.legacoop.it/storia.aspx.

na constituição italiana que justifica o caráter comunitário destas iniciativas. Maiello (2001:179) afirma que o cooperativismo social se caracteriza pela superação do princípio da mutualidade, que tradicionalmente define o movimento cooperativista. Segundo o autor, o princípio da mutualidade reconhece que certas categorias ou grupos de indivíduos compartilham interesses que podem ser satisfeitos quando há uma atuação coletiva de apoio mútuo. As cooperativas sociais pretendem alcançar benefícios para a sociedade de forma geral.

Afora sua origem no movimento cooperativista e nas práticas filantrópicas da Igreja Católica, as cooperativas sociais italianas têm se desenvolvido entre o cooperativismo e o terceiro setor23 (op cit, 2001:179). As cooperativas sociais mantêm princípios do cooperativismo, tais como a organização associativa do trabalho e a gestão democrática e compartilhada entre os membros do grupo. E aproximam-se do terceiro setor por assumirem uma finalidade social explícita, além do trabalho voluntário e do compromisso com a comunidade.

Na Itália o terceiro setor é composto por organizações de voluntariado, associações, fundações e cooperativas sociais. Estudos sobre o terceiro setor italiano (Eleta, 2000; Maiello, 2001; Borzaga & Bacchiega, 2001) têm demonstrado que cada uma destas organizações tem encontrado espaços de intervenção específicos. No caso das cooperativas sociais a especificidade está justamente na interface direta com o mundo do trabalho, desde a prestação de serviços de formação profissional até a própria inserção laboral daqueles que foram excluídos do mercado formal de trabalho (Loss, 2004).

Em março de 2006 foi publicada a lei nº 155, que institui as empresas sociais na Itália, ampliando o universo das empresas sociais no país, antes restrito as organizações sob estatuto jurídico de cooperativa. A lei estabelece um recorte no universo das organizações consideradas do terceiro setor, dividindo-as em dois grupos, um formado por empreendimentos econômicos e outro por organizações que não realizam atividades econômicas, tais como associações e fundações.

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Na Itália as noções de terceiro setor e economia social muitas vezes se tornam convergentes, assim é possível correlacionar as cooperativas sociais também à noção de economia social.

Segundo Antonio Fiti (2006:4), a divisão proposta pela lei nº 155/2006 contribui para uma melhor compreensão da diversidade que compõe o universo do terceiro setor italiano, já que não institui uma forma jurídica, mas sim uma categorial legal. Com a publicação desta lei as diferentes organizações que compõem o terceiro setor estão sob o mesmo conceito de empresa social. Autores como Carrera, Meneguzzo e Messina (2001) já têm utilizado os termos terceiro setor e empresa social como sinônimos.

Esta aproximação entre as noções de empresa social e terceiro setor é característica do cenário italiano, o que causa contraste ao restante dos países da Europa, onde em parte dos países o terceiro setor se aproxima da noção de economia social e, em outra parte, o terceiro setor faz contraponto a noção de economia social ou de economia solidária. Noções mais amplas que empresa social, conforme apresentado no capítulo anterior.

Terceiro Setor na Itália e suas diferentes formas jurídicas

Legislação Organização

Código civil (1942) Fundação Código civil (1942) Comitês Código civil (1942) Cooperativas

Lei 49/1987 Organizações não-governamentais Lei 266/1991 Organizações voluntárias

Lei 381/1991 Cooperativas Sociais

Lei 460/1997 ONLUS24

Lei 383/2000 Associações de promoção social

Lei 155/2006 Empresas Sociais

Tabela 2. Fonte: Carrera et al, 2007:4.