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elato do progresso analítico

6 Entre a aquiescência e a criação institucionais

6.1 Entre os contextos periférico, semiperiférico e global

A compreensão da evolução do campo de software em Pernambuco pode começar a ser obtida através do entendimento da peculiar cadeia de inovação que se logrou constituir como a parte central desse campo. As atividades específicas aqui focalizadas relacionam-se ao desenvolvimento de software, mais precisamente aquelas que envolvem inovação, e não os contratos que envolvem apenas serviços convencionais.

A abrangência geográfica de um campo funcional não é estabelecida a priori, mas sim mediante a identificação das principais organizações que compõem as diversas funções, junto àquelas que, mesmo não participando regularmente das atividades produtivas, são parte importante ao na evolução do campo. Foram encontradas neste campo, em linhas gerais, as mesmas componentes que Castells e Hall (2001) consideram requisitos-chave para a instalação de uma tecnópole: alguma forma de geração de informação tecnológica nova e valiosa, uma mão de obra altamente qualificada e o capital.

Articulam-se no campo de software em Pernambuco uma universidade semiperiférica de excelência; as empresas baseadas no ambiente periférico local, muitas delas fornecedoras de novos produtos ou provedoras de soluções tecnológicas ad hoc; e, como maioria de clientes, empresas brasileiras ou subsidiárias de empresas multinacionais, sediadas nos centros dinâmicos do Brasil e, portanto, consideradas como parte de um ambiente semiperiférico.

Apesar de se registrarem discussões internas sobre uma suposta prevalência do critério da quantidade sobre o da qualidade na formação dos profissionais, a universidade semiperiférica tem se desincumbido, ao longo dos anos, do papel de provedora de profissionais e de conhecimento. No outro extremo da cadeia da inovação, as empresas locais, em especial as empresas inovadoras nascentes, puderam se beneficiar de contratos com “consumidores empreendedores” (METCALFE, 2003), uma categoria de clientes intrinsecamente difícil de existir em regiões periféricas, mas passível de ser encontrada em ambientes semiperiféricos.

Além do provimento de recursos essenciais, a Universidade semiperiférica exerceu o papel de intermediação entre a pesquisa e a sua aplicação prática. A circunstância de estar inserida numa sociedade periférica vai se revelar uma vantagem no desempenho dessa função pelo Departamento de Informática. Descrições obtidas nessa pesquisa indicam que essa unidade parece ser um caso singular no Brasil pois logrou reunir, num determinado momento da sua trajetória, um conjunto heterogêneo de acadêmicos com grandes qualificações. Nesse grupo, havia indivíduos aptos tanto para as tradicionais atividades de ensino e pesquisa, quanto para as do empreendedorismo. Além disso, comparações realizadas por vários depoentes, que podem ser consideradas interpretações de primeira ordem (VAN MAANEN, 2002), constituem evidências de que semelhante reunião de habilidades heterogêneas numa mesma organização parece menos plausível de ocorrer nos centros mais desenvolvidos do

Brasil. Portanto, excluindo o consumo, esse conjunto de acadêmicos estava em condições de ao menos iniciar o exercício das funções da inovação: a invenção, a aplicação e a intermediação. Pode-se afirmar assim que parte substancial da parte do campo local do software focada no novo paradigma da Informática foi “incubada” no interior dessa organização acadêmica.

Ora, de acordo com os modelos de sociedade conceituados por Riggs (1964) e incorporados por Ramos (1983) à sua análise institucional de cunho desenvolvimentista, é de se esperar variações relativas à concentração de funções entre sociedades que se encontram em estágios diversos de desenvolvimento econômico. A superposição de diferentes funções numa mesma unidade social tende a existir em maior grau onde o número de estruturas é mínimo, como acontece em sociedades periféricas, e de forma reduzida nas sociedades avançadas em que é grande a diferenciação funcional entre as organizações. Embora nominalmente definidas da mesma forma, estruturas sociais situadas em diferentes contextos sociais necessitam um adequado estudo para discernir os diferentes conjuntos de funções que essas estruturas realmente exercem. Do contrário, se incorre no “pecado epistemológico” de se chamar pelo mesmo nome coisas com significados diferentes (DAGNINO, 2004).

Comparações com universidades nominalmente congêneres de regiões economicamente mais desenvolvidas nos conduzem a afirmar que a maior concentração de funções existente num determinado momento histórico do Departamento de Informática da UFPE é relacionada à situação periférica da sociedade em que essa unidade acadêmica estava inserida. E como essa concentração de funções parece ter facilitado o encadeamento que conduz à inovação, nesse caso o ambiente periférico constituiu uma vantagem.

Em acréscimo, a condição periférica parece propiciar maior “maleabilidade” institucional, ou seja, menor resistência à inovação, pois praticamente inexistem localmente outras “estruturas de poder e de negócios mais consolidadas” que existem, por exemplo, em

meios mais adiantados como São Paulo ou no Rio de Janeiro. Embora essa inexistência de instituições possa ser considerada a manifestação da concentração de funções já mencionada, a inexistência específica de estruturas locais dedicadas à inovação pode ser considerada um reflexo do atraso econômico da região. Quando da mudança de paradigma tecnológico, as antigas vantagens dos países adiantados podem se transformar em empecilhos custosos de serem removidos (PEREZ; SOETE, 1988). Portanto, o caso parece ilustrar que um ambiente periférico, de certo modo, pode ter essa outra vantagem de prescindir, ou de reduzir, a necessidade do trabalho destruidor que, na visão de Schumpeter, acompanha os processos de inovação.

Uma safra recente de trabalhos que toma o campo organizacional como unidade de análise tem adotado, em afinidade com as formulações de Tolbert e Zucker (1999), uma abordagem construcionista, conforme exemplificam os artigos de Greenwood, Suddaby e Hinings (2002), Munir (2005) e Smets (2005). Focalizando os processos de institucionalização principalmente como interações que incidem estritamente entre os participantes do campo, esse enfoque não é adequado a captar as contrastantes influências que os participantes do campo podem receber também dos respectivos ambientes organizacionais.

Com efeito, sem focalizar essas relações “externas” ao campo funcional, fica difícil compreender porque a articulação Universidade-Empresa parece ter sido mais fácil de incorrer no ambiente periférico. Tampouco se compreende a complementaridade do ambiente semi-periférico na cadeia de inovação, ao prover os imprescindíveis “consumidores empreendedores”.

Em importantes funções, identifica-se no campo de software a proeminência de organizações estrangeiras. Como produtoras e disseminadoras de conhecimento, observa-se que as universidades semiperiféricas mantém relacionamento com um sistema internacional em que universidades cêntricas “dão o tom do que deve ser reeditado em países dependentes”

(MORAIS, 1995, p. 20). Na Informática, essa relação de dependência parece ser ainda mais intensa devido à necessidade constante de atualização, o que explica a maior presença dos professores dessa área nos encontros acadêmicos internacionais.

Conforme evidenciado neste estudo, grandes produtoras mundiais de software promovem eventos competitivos de cunho acadêmico. Assim, elas acumulam o poder econômico que detêm no campo com o poder simbólico das premiações, mediante o qual influem na definição das regras do jogo do campo e, portanto, na definição de quem pode ou não entrar no jogo.

Nas relações estritamente empresariais, para empresas situadas em regiões menos desenvolvidas, muitas vezes não resta alternativa se não procurar formas de cooperação com as grandes multinacionais, na esperança de ter acesso maior ao mercado ou de diminuir distâncias no atraso tecnológico (CHESNAIS, 1996). Conforme evidências extraídas de dados secundários, o arranjo organizacional de que participam a universidade e empresas locais em contratos com pelo menos uma das grandes empresas multinacionais que contratam as organizações locais, caracteriza-se por relações verticais de terceirização sob controle da empresa contratante. Nesses relacionamentos com organizações estrangeiras, constata-se o desequilíbrio de poder que caracteriza a posição subalterna do campo de software de Pernambuco dentro do respectivo campo mundial.