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Entre percursos e deslocações: várias formas de representar a viagem

Capítulo I A Literatura de Viagens entre espelhos: géneros sobrepostos

3. Entre percursos e deslocações: várias formas de representar a viagem

Partindo dos pressupostos expostos e em convergência com uma linha de análise que envolve o ato viático e o seu espelhamento na escrita, atardemo-nos sobretudo num breve excurso sobre esta matéria, concentrando-nos especialmante na última década do século XX até à atualidade. Na prática, interessa-nos explorar as produções textuais estabelecidas em Portugal por autores-viajantes distintos, protagonistas dos seus percursos físicos e textuais.

Explorando, entre outras, algumas formas de encarar e definir o ato viático, a verdade é que desde sempre, programado ou imprevisto, este imbui-se de uma multiplicidade de dimensões: a experiência de um espaço exótico, a busca ontológica, a revelação, a fuga, o exílio, o isolamento ascético voluntário, o comprazimento na errância, a peregrinação, a deslocação pela escrita e/ou por outras artes, para só enunciar algumas. Estas funcionam como causas do mesmo e os seus relatos, entre outros aspetos, caracterizam-se, normalmente, pela busca da captação de um real marcado pelo pluralismo cultural e étnico, melhor dizendo, pela presença do Outro dentro ou fora de fronteiras. Pode ainda assumir a forma de incursão interior, ou seja, de autognose e/ou deslocamento criativo, corporizando assim uma escrita intimista, reflexo de uma cartografia pessoal e afetiva ou tão-somente emergir como um estado de permanente desassossego, indutor metamórfico de viagens outras, como seguidamente constataremos.

Posto isto, no seio deste quadro caracterizador da viagem nas suas diversas vertentes, a designação Literatura de Viagens surge cunhada nas noções de deslocação e “fronteira”84, quer no tocante ao espaço geográfico, quer no que tange à

84 Dado o seu cariz de permeabilidade, Bill Ashcroft, Gareth Griffiths e Helen Tiffin propõem a seguinte

definição do conceito de fronteira: “The idea of a frontier, a boundary or a limiting zone to distinguish one space or people from another, is clearly much older and used more widely than in colonial and postcolonial theory. (...) Colonial frontiers were created as imperial discourse sought to define and inve nt the entities it shaped from its conquests. The numerous ruler-straight frontiers of imperial maps indicate how colonial

cartography existed as much to record actual features and distinctions between various places and peoples.

The frontier or boundary that limited the space so defined was a crucial feature in imagining the imperial self, and in creating and defining (othering) those others by which «Self» could achieve definition and value.” (Ashcroft et al.1995: 107-108)

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articulação ou cruzamento com outros géneros85. Por outras palavras, mais do que significar o extremo que separa dois países, o sobredito vocábulo implica um contacto permanente entre mundos, envolvendo relações de harmonia e/ou de tensão, sem que haja realmente a determinação de uma identidade com ambos ou com um deles, o que se transforma num vínculo de alguma complexidade. De facto, entre o real e o imaginário, as fronteiras surgem como um espaço intersticial mesclado onde se reequaciona a relação entre o Eu e o Outro pela contiguidade, implicando um redesenho identitário. Noutra aceção, elas podem emergir em zonas perigosas pelo facto de existirem fisicamente, proporcionando fossos culturais, políticos e religiosos entre os povos vizinhos, como observa Luciana Stegagno Picchio:

Os teóricos da fronteira reconhecem existirem em volta de uma fronteira, qualquer que ela seja, zonas híbridas de interrelação entre as duas realidades atravessadas pelas linhas de separação. Existem literaturas, línguas, culturas fronteiriças que participam das duas realidades. O problema voltou a ser actual recentemente, quando, no sentido de impor as suas fronteiras, linguísticas e religiosas, os povos se dilaceram. (Picchio 1999: 20)

Ora, é precisamente no plano do hibridismo que a noção em análise deixa perceber as suas diversas dimensões, pois para além de significar uma separação geográfica, estende-se aos níveis identitário e textual.

De forma análoga, podemos apontar fronteiras outras no tocante ao relato de viagem encaradas num enquadramento mais vasto, incidindo na intersecção com formas “literárias” consideradas da “margem”, ou seja, do domínio da paraliteratura, como observa Alain-Michel Boyer:

La paralittérature n’est pas cependant un bloc homogène, un système clos; ses œuvres sont aussi diverses que celles qui sont reconnues par les institutions et elle obéit, elle

85 Relativamente a esta questão, Domenico Nucera, no ensaio “Los Viajes y la Literatura” observa: “La

literatura de viajes por su misma naturaleza está acostumbrada a traspasar confines. Más bien es precisamente éste su primer carácter: cruzar la frontera para ver qué hay al otro lado, comparar lo interior con lo exterior, el aquí y el allá. Y éste es el punto de contacto más precioso con el comparatismo literario, que, con distintos instrumentos críticos, hace exactamente lo mismo: mirar más allá para comparar.” (Nucera 2002: 243)

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aussi, aux fluctuations historiques. Mais force est de reconnaître que dans tous les cas, ses lecteurs sont considérés comme des victimes passives et veules, vouées à subir docilement les roueries de ceux qui n’entendent que les asservir ou les corrompre. (Boyer 1992: 9)

A esse nível, as fronteiras compreendem todos os textos considerados menores à luz de um posicionamento epistemológico da literatura, tais como a crónica, textos autobiográficos, memorialistas, epistolares, entre outros, já que, como escreve Odile Gannier: “Le récit de voyage allie des domaines et des genres différents, et s´accomode de l´hétérogénéité: à la limite, sa spécificité échappe à la taxinomie générique” (Gannier 2001: 9)

Ora, tal ductilidade transforma a Literatura de Viagens num exemplo paradigmático da instabilidade genológica, revelando-se um profícuo campo de indagação agenciador de uma fluidez decorrente de novas formas estéticas de heterogeneidade, que encontram nos contextos viáticos atuais um espaço privilegiado de desenvolvimento, numa lógica de interpelação das realidades em transmutação, corporizando um variegado mosaico de obras e/ou“viagens” pluriperspetívicas, de que resultam formas textuais híbridas86, dada a sua porosidade. Dito de outro modo: ao escrever a viagem vivenciada, o escritor-viajante empreende um modus operandi que consiste na seleção do material recolhido e/ou anotado durante a deslocação, sua redação e estruturação final, para efeitos de publicação. Acima de tudo, o livro resulta do imaginário criativo do autor ao promover uma obra em que afloram registos diversos, conferindo-lhe um cariz palimpséstico.

Isto posto, em jeito de síntese, lembremos as pertinentes observações de Fernando Cristóvão num olhar atual sobre a escrita viática contemporânea, as quais advertem para a difícil tarefa de estabelecer os critérios subjacentes à atribuição de uma taxonomia da “Nova Literatura de Viagens” (Cristóvão 2009: 13-17), tendo em conta a sua variedade. Assim, no texto introdutório à obra Literatura de Viagens: da Tradicional

86 Note-se, a propósito, a afirmação de Ralph Cohen: “O surgimento de um género é determinado pela sua

relação com os outros. Se a escrita fosse sempre idêntica não haveria nem espécies nem qualquer necessidade de distinções genológicas acerca de obras inteiras.” (Cohen 2001:229)

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à Nova e à Novíssima. Marcas e Temas (2009), o autor postula “uma tipologia possível”

(idem: 15) para uma caracterização autónoma de uma poética do género nos dias de hoje, seguindo um paradigma temático, genológico e sociológico: “Viagens de conhecimento do país”, “Viagens de exploração colonial”, “Viagens exóticas”, “Viagens de aventura”, “Viagens de grande reportagem jornalística”, “Viagens de Repórter de Guerra”, “Viagens culturais”, “Viagens de reconstituição histórica” e “Viagens de Turismo Religioso” (idem: 13-17). Neste âmbito, prosseguindo neste estudo e no intuito de demonstrar novos suportes de difusão da escrita de viagem contemporânea, moldada nos processos inovadores e transformadores das modernas tecnologias, afirma o referido teórico:

Ao texto rápido da crónica da etapa moderna, contrapõem-se agora a mensagem simplificada na sua formação vocabular, o uso do inglês, os ícones ideográficos, as abreviaturas, os ideogramas, os símbolos. Linguagem esta salva da confusão, em última instância, pela estrutura gramatical. Acresce a esta prática o uso do anonimato do autor, ou mesmo do pseudónimo, que agora é nick.

Marcas típicas são também, sem dúvida, a da primazia concedida à oralidade, o triunfo da espontaneidade, o uso do lúdico e do improviso, o gosto pela linguagem cifrada grupal.

(...)

Textos assim, tipo manta de retalhos, podem ser considerados literários? (idem: 17-18).

Ora, de acordo com estas palavras, podemos inequivocamente colocar questões de ordem epistemológica atinentes ao estatuto indeciso destes textos como literários, já que assumem uma configuração lacunar e fragmentária condicionada pela natureza compósita e sincopada da poética do género e, paradoxalmente, pelo germinar de novas repercussões discursivas e tecnológicas que produzem uma “novíssima” retórica da escrita de viagem, claramente distinta da anterior. Todavia, sem que caiba aqui o enfoque do nosso estudo, parece-nos importante aludir à emergência de um corpus textual da viagem que começa a ter alguma visibilidade atualmente, como refere Fernando Cristóvão:

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Convivendo com a nova literatura de viagens, a novíssima, se forem admitidos como minimamente literários os seus textos, dela se distingue claramente.

Se a linguagem da anterior é rápida, a desta é mais veloz, por ser frequentemente sincopada, e até por os seus textos, mais do que quaisquer outros, serem governados pelas técnicas das ciências da comunicação. Textos ligados a viagens, mas que dependem mais da tecnologia dos aparelhos do que de qualquer meio de transporte. A mensagem é, assim, muito condicionada pelo computador, pelo telemóvel e pela aparelhagem fotográfica e de som. (…)

Ao texto rápido da crónica da etapa moderna, contrapõem-se agora a mensagem simplificada na sua formulação vocabular, o uso do inglês, os ícones ideográficos, as abreviaturas, os ideogramas, os símbolos. (Cristóvão 2009: 17)

Estas observações sugerem um permanente regresso da literatura contemporânea europeia ao magistério fundador da escrita de viagem, no sentido em que esta se caracteriza, não só pela participação em mais do que um género, mas também por se afirmar como o legado da Literatura de Viagens tradicional, como sublinha Fernando Cristóvão a « “etapa tradicional”, os séculos que vão do XV ao final do XIX » (idem: 9), seguindo-se-lhe “A Nova Literatura de Viagens”, que irrompe com o advento do turismo e da sua expressão na escrita (idem: 10).

Ora, se o fundo de referências da literatura viática começa por estar associado a uma visão europeia logo se cruza, na literatura portuguesa atual, com uma ancoragem nos pioneiros da arte de viajar, padronizando o ato de viajar: a partida, a aventura e o regresso.

Neste sentido, não se poderá esquecer que é na Idade Média de Marco Polo, (século XIII) e depois no século XV com Cristóvão Colombo, que o conceito homo viator emerge como protagonista de uma deslocação física causadora de um discurso baseado numa experiência, essencialmente empírica, mas imbuída de efabulação87. Assim sendo, a cartografia da viagem tem então as suas raízes na experiência intensa destes viajantes

87 Considerando a complexidade do papel do escritor-viajante ao construir a sua narrativa de viagem, Álvaro

Manuel Machado e Daniel-Henri Pageaux afirmam que “(...) todo o viajante é um mentiroso, pelo próprio facto de que conta a sua história, de que conta histórias.” (Machado/Pageaux 2001: 34). Esta tendência natural para a efabulação é explicada da seguinte forma: “Queremos dizer com isto que o escritor-viajante, ao tentar fazer obra literária, vai efabular. E o importante, do ponto de vista do estudo literário, é observar segundo que lógica se vai construir esta espécie de «mentira», segundo que fantasia criadora se vão desenvolver as confidências do viajante.” (ibidem)

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cujos relatos começam já na Idade Média, marcados pela travessia das fronteiras terrestres, servindo vários propósitos, entre os quais o religioso e o ascético, atingindo nos séculos XVI e XVII uma expressiva ressonância com a grande empresa dos Descobrimentos portugueses.

Não por acaso, na obra Ciência e Alteridade na Literatura de Viagens (2003), João Carlos Firmino Andrade de Carvalho se refere ao período das Descobertas de Quinhentos como uma época que

(...) está associada uma certa expressão literária a que genericamente se dá a designação de literatura da expansão e/ou literatura de viagens, (...). A chamada literatura de viagens da época da expansão portuguesa é uma designação genológica cómoda mas ambígua, na medida em que se refere a um vasto e heteróclito conjunto textual. (Carvalho 2003: 56).

De resto, um momento representado por uma vasta constelação textual compósita, onde pontificam os diários de bordo, a crónica e o relato de viagens88, entre outras formas, em que assistimos à função iniciática da viagem dos portugueses além-mar com base na deslocação física, promotora de uma retórica descritiva do espaço e do encontro com o Outro/ o Diferente/ o exótico (idem: 59-61)89.

Em termos mais explícitos, trata-se de uma literatura onde perpassa o olhar ocidental traduzido no impulso colonial e na imposição das imagens de um Portugal glorioso que ultrapassou a fronteira do mar, conquistando a outra face do mundo. Por conseguinte, qualquer projeto textual ligado às viagens marítimas portuguesas corporiza tessituras diversas eivadas de uma colonial vision (Lisle 2001: 3-6), fundada numa matriz

88 Os textos viáticos matriciais deste período são a Carta a el-rei D. Manuel de Pêro Vaz de Caminha

(1500), os relatos de naufrágios da História Trágico-Marítima (segunda metade do século XVI), a viagem segundo Fernão Mendes Pinto na sua Peregrinação, escrita antes de 1580, mas publicada em 1614. No entanto, neste quadro da viagem física e a sua representação textual não podemos deixar de referir o papel relevante da epopeia lusa Os Lusíadas (1572) de Luís de Camões como o exemplo típico de hibridismo que caracteriza a poética do género.

89 Neste sentido, observa Carlos Firmino de Andrade: “No plano retórico, há a considerar uma retórica

dadescrição que integra o realismo expressivo da narrativa, a qual se desmultiplica nas modalidades de retórica do olhar, da quantificação, da contenção, da geografia, da monstruosidade, do exótico, do épico- catastófico, da utopia, da oratória, sem esquecer uma retórica maneirista que, de certo modo as enquadra a todas.” (Carvalho 2003: 61)

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eurocêntrica que persiste em obras da atualidade de forma mais ou menos explícita, como mais tarde daremos conta.

Tome-se esta breve referência histórica ao período expansionista português, como um ponto de partida que permitirá compreender ao nível transnacional, a emergência de um vasto repertório textual polifónico e polimórfico resultante de uma livre criação sincrética nos mais diversos contextos políticos, socioculturais e estéticos. Tais cenários foram palco de deslocações outras como a expatriação, o desterro, a emigração, o exílio político, religioso ou cultural, que propiciaram o aparecimento de um conjunto de obras que espelham as imagens de um país marcado pelo peso do colonialismo e da diáspora, como observa Ana Paula Coutinho Mendes:

Sucessão de perspectivas à parte, parece indiscutível que Portugal foi, nesses séculos XV e XVI, não o fim da cauda da Europa mas o princípio ou génese da sua ligação com o «Novo Mundo». Outros enredos se seguiriam, levando milhares de portugueses a procurar de modo temporário ou definitivo, paragens outras para sobre(viver): uns tiveram de fugir às perseguições religiosas e políticas que combatiam ou expulsavam todo o corpo estranho à homogeneidade e à ortodoxia, quaisquer que elas fossem; outros acabariam por deslocar-se, empurrados quer pelas malhas ou «borras» do Império, quer pelas vicissitudes da conjuntura socioeconómica miserabilista da sua terra natal, em contraste com as necessidades de reconstrução e desenvolvimento nalguns outros países. (Mendes 2009: 61-62)

Como consequência, a herança das Descobertas e do colonialismo português revelará a face negra da viagem em meados do século XX com o surto emigratório para a Europa e América, devendo-se a fatores de ordem económica e sociológica, em relação aos quais apenas nos limitamos a aludir, por este se constituir um corpus assaz vasto e não caber nesta investigação. Por isso, ao invés das distinções invocadas, ater-nos-emos aqui ao sentido mais abrangente da experiência da viagem enquanto deslocação a vários níveis, entre os quais, a escrita que marca a realidade portuguesa contemporânea.

Ora, neste contexto, o que se verifica na prática é que a nossa narrativa de viagem atual ancora, não só na já referida poética de matriz tradicional (Cristóvão 2009:10-17),

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bem como na eclosão da Literatura de Viagens oitocentista como, de resto, já aludimos no tratamento do ponto anterior, da qual, entre outras, se destaca a figura paradigmática de Almeida Garrett, cujos ecos se pressentem em autores como Miguel Sousa Tavares, Gonçalo Cadilhe, Filipe Morato Gomes, Tiago Salazar, Pedro Rosa Mendes, Paulo José Miranda, Jacinto Lucas Pires, entre outros que integram o nosso corpus textual, atingindo um estádio de massificação que Maria Lúcia Garcia Marques resume, do modo seguinte:

O que faz o sucesso deste tipo de literatura, agora mais acessível e abrangendo um público mais vasto, é, provavelmente, o carácter testemunhal dos relatos de viagens, na sua grande parte autobiográficas, divulgando uma aventura pessoal de um indivíduo, em que o real surge, através da pena de quem escreve, identificando com experiências diversas, num rol de sucessos e azares que lhe dão o picante da aventura com a segurança do diferido, em leitura amena. (Marques 2010: 89)

Pelas palavras transcritas, confirma-se assim na literatura viática mais recente a já aludida tendência de maior proximidade do escritor-viajante com o público, elegendo uma cartografia pessoal e afetiva, não só imbuída do propósito ontológico, mas também de uma interpelação constante ao leitor-viajante através das páginas dos seus relatos, permitindo-lhe viajar através do seu olhar pelo espaço visitado e pelo Outro, numa vertente de interferência multidimensional.

Na realidade, nem sempre é fácil a catalogação de obras cujos autores, mais do que refletirem a viagem realmente acontecida, projetam construções ficcionais que transportam o leitor para universos romanescos polifacetados habilmente urdidos pelo escritor-viajante quer assumindo matizes autobiográficos, quer revisitando viagens de outros autores, promovendo assim uma multiplicidade de deslocações que não se esgotam na viagem em si mesma. São disto exemplo obras como Baía dos Tigres (2005) de Pedro Rosa Mendes, No teu Deserto. Quase Romance. (2009) de Miguel Sousa Tavares, O Mal (2002) de Paulo José Miranda e Livro Usado (2004) de Jacinto Lucas Pires, entre outras, dada a sua complexidade narratológica fruto de um jogo de espelhos em que as viagens pelo território, pela ficção e pela escrita se imbricam, abrindo-se a novas possibilidades hermeneûticas, sobre as quais nos deteremos a posteriori. Todavia, interessar-nos-á aqui

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explorar, sucintamente, a presença do traço de hibridização nos autores/obras referidos, numa abordagem demonstrativa desse estatuto de surpreendente indecisão, pois neles converge o fio condutor da viagem.

Independentemente das diferenças existentes entre os autores, tanto no tocante à cartografia escolhida como de imaginário e de especificidades estilísticas/retórico- formais, é possível estabelecer pontes entre as suas obras, que nos ajudam a intuir alguns traços que caracterizam a hibridez da poética do género.

Deste modo, no contexto espaciotemporal de uma obra como Baía dos Tigres, Pedro Rosa Mendes viaja pelo continente africano revisitando a História90, recolhendo

estórias de vida das figuras com que se cruza numa travessia enriquecida pelo “(…)

recorrente encontro com histórias. Umas por contar. Outras a pedir para ser contadas de maneira diferente, num diálogo permanente entre o que se vê e o que se sente.” [c]omo escreve, a propósito, Isabel Nery (Nery 2009: 137), tratando-se de uma obra em que realidade e ficção se diluem, resvalando numa surrealidade tão real, que deixa em aberto uma permanente indecisão taxonómica.

Se nos concentrarmos agora em Miguel Sousa Tavares, rapidamente verificamos que o livro No teu Deserto. Quase Romance faz a retoma da viagem relatada em Sul (2004), narrativa de viagens do autor. Na verdade, a viagem pelo Saara, aí também retratada, é revisitada em No teu Deserto, trazida à esfera do individual, em que as personagens se movimentam no espaço em trânsito, o deserto, urdindo uma teia romanesca, tendo a viagem como mote. Não é por acaso que o subtítulo nos remete para esse espaço intersticial, resultante dessa sobreposição viática proposta por um narrador

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