2 UMA TRAMA DE FIOS INTERCULTURAIS
2.1 EU E O OUTRO: AS FRONTEIRAS COMO ESPAÇO DE INTERAÇÃO
2.1.1 Entre real e ficção, teatro e performance
A performer Violeta Luna, mexicana radicada em São Francisco (EUA), trabalha com o que ela denomina teatro-performativo, uma investigação sobre as conexões e as fronteiras entre as linguagens do teatro e da performance art que se alimenta de disciplinas artísticas divergentes para criar narrativas e realidades alternativas através do cruzamento de estéticas e conceitos. Luna tem formação em teatro no Centro Universitário de Teatro (UNAM) e trabalhou como atriz, encenando tanto obras clássicas quanto contemporâneas, no México. Nos últimos anos tem trabalhado com performance art e ativismo social e vem buscando uma reaproximação do universo teatral por outras vias.
Na performance art, ou arte ação (como é denominada no México), o corpo do artista é o principal suporte da ação, atua como sujeito e objeto, significado e significante da obra. Encontramos na performance uma valorização da ação em si, mais do que seu aspecto representacional. “Mais que personagens e situações, a realização destaca seus intérpretes, o modo como particularizam e executam as ações dadas à vista” (MOSTAÇO, 2009, p. 43). Há um estreitamento do intervalo entre atores e personagens reforçado pelo caráter descritivo da ação, pelo mostrar o que se faz. A pesquisadora canadense Josette Féral faz uma reflexão sobre as diferenças entre performatividade e teatralidade:
[A performatividade] aparece como sinônimo de fluidez, instabilidade, abertura do campo de possibilidades, lá onde a teatralidade teria a ver com os signos. Ela seria aquilo que permite fazer escapar numa obra as fragilidades do pensamento linear e unívoco moderno. Ela vai ao encontro do “um” para fazer emergir o “plural”. Aberta e instável, a escrita é, portanto, performativa. Ela é multisignificante e, portanto, decodificável. Porque se ela é código, bem estabelecido em sistema e reprodutível certamente ao infinito, o significado desses códigos, ao contrário, bem como sua composição, não é um, mas são plurais (FERAL, 2009, p. 73-74).
Ela ainda ressalta que o processo performativo age diretamente no coração e no corpo da identidade do performer, destruindo e reconstruindo sua subjetividade
sem a passagem obrigatória por uma personagem. “A performance toca o sujeito que vai para a cena, que se produz, que executa. (...) Seu corpo efetivamente age.” (FERAL, 2009, p. 83). Na sua mescla de linguagens, Luna cria narrativas abertas, esboça personagens, apresenta e representa, provoca o espectador, lança perguntas, desestabiliza o ambiente.
Em 2009, a artista criou a performance Apuntes sobre la Frontera (Notas sobre a fronteira), que integra a Trilogia da Fronteira, relacionada com os temas de migração, exílio e ilegalidade na fronteira entre México e Estados Unidos, e desenvolvida em parceria com o coletivo Secos y Mojados, sediado em São Francisco. Ainda no México, Luna se envolveu em projetos performáticos transfronteiriços e translinguísticos, juntamente com o mexicano Guillermo Gómez- Peña e o coletivo Pocha Nostra. Hoje, o trabalho da performer está fundamentado em duas vertentes principais: o trabalho teatral comunitário e o trabalho de
performance em colaboração com outros artistas, de característica fortemente
experimental, sendo que frequentemente os dois eixos se confundem.
Luna se apoia em linguagens como a video-instalação, a fotografia, a voz gravada e o teatro para propor uma visão distinta daquela idealizada do chicano nos Estados Unidos. Sem preocupações com o “politicamente correto”, o trabalho de Luna desestabiliza as questões acerca da identidade, expondo as (ou algumas das) fraturas entre o Primeiro e o Terceiro Mundo. Muitas vezes a estratégia é colocar em crise algumas imagens icônicas de latinidade, como foi o caso da Frida-Kahlo tecno- punk criada por ela, que morde literalmente um coração na instalação-performance
Museo de las identidades fetichizadas do coletivo Pocha Nostra, em 2004 (MARÍN,
2010).
Em Apuntes sobre la Frontera (Notas sobre a fronteira), Violeta Luna apresenta uma imigrante que deixa seu país em busca de melhores condições de vida. Em suas malas, tanto as concretas quanto as poéticas, carrega o necessário para começar vida nova. Seu percurso é marcado pelo fato de haver cruzado “pro outro lado” e de ter uma consciência permanente do “aqui” e do “lá”, do “antes” e do “depois”. Suas recordações e sua memória se tornam a base de seu passado e seu futuro e trazem a perspectiva de sua existência como imigrante, exilada, refugiada, ilegal, nômade. Como pano de fundo, a performer busca sua própria identidade em um ambiente híbrido e de contornos pouco definidos.
plateia, intercaladas com imagens em vídeo de forte carga política e social. A narrativa se dá em múltiplas camadas que contextualizam a experiência fronteiriça dos migrantes ilegais e “indocumentados”. O corpo de Violeta Luna representa os movimentos de travessia através do continente, é um corpo que luta, trabalha, sofre violência e esquecimento. Mas é também um corpo que lembra e reúne o que foi disperso pela experiência diaspórica (HODOYAN, 2012, p. 1). As imagens fragmentadas projetadas na parede, que depois se fundem ao corpo da artista, proporcionam uma terceira narrativa que dialoga com sua presença ao vivo, entretida com um jogo de amarelinha rabiscado no chão. A brincadeira infantil faz alusão aos inúmeros obstáculos que devem ser superados pelo imigrante através dos saltos hesitantes e ao mesmo tempo determinados que a performer dá ao se deslocar de um quadrado a outro.
Uma corda é disposta no espaço, dividindo a plateia em grupos, espelhando a exclusão e a segregação a que são submetidos os imigrantes no continente americano, ao mesmo tempo em que promove um certo “mapeamento” do território. Então, Luna expõe alguns carimbos e solicita que membros da plateia carimbem seu corpo seminu, com dizeres do tipo “ilegal”, “imigrante”, “criminosa”, propondo uma inversão de papeis, estabelecendo uma comunidade de co-sujeitos (FISCHER- LICHTE, 2008), ao invés da relação sujeito-objeto que imperava até então. Com a participação silenciosamente tensa de alguns espectadores, o corpo da performer é manuseado, amarrado, carimbado, etiquetado, articulando uma espécie de contranarrativa aos discursos do poder, colocando-os em tensão com a realidade e permitindo a criação de outras noções do corpo e dos papéis sociais de gênero. Para a professora e editora Paola Marín, Luna se situa entre os “interstícios do percurso físico e da memória pessoal e comunitária, entre a arte e o protesto coletivo, entre o Primeiro e o Terceiro Mundo, para fazer de seu corpo um lugar de criação de narrativas alternativas a partir da interdisciplinariedade” (MARÍN, 2010, p. 40).
Violeta Luna propõe uma diluição das fronteiras entre os diversos papeis que desempenha: criadora, escritora, performer, público, produtora e autogestora. Ela assume a performance como “estratégia de descolonização frente a paradigmas binários subjacentes a políticas de dominação”, e se posiciona fortemente a partir de uma narrativa pessoal. Seu corpo feminino se transforma em uma “zona liberada” para a criação, utilizando suas diferenças e sua biografia como base de seu discurso
criativo, mas também como forma de reinventar o conceito de gênero, negando a generalização do feminino a partir de conceitos pré-fabricados (LUNA, 2010, p. 7).
Eu estou interessada em refletir e convidando o meu público a refletir sobre o corpo vulnerável, marginalizado, o corpo que é exposto a abusos, detenção, deportação - o "corpo ilegal". Este corpo perde a sua identidade no momento em que atravessa uma fronteira e deve construir para si uma outra identidade, a fim de sobreviver. (...) Eu estou interessada em como este novo corpo é construído dentro de uma dicotomia viva, em um espaço do entre que é habitado por esperanças, sonhos, nostalgia, e como, por sua vez, essas emoções são incorporadas (LUNA, 2008, p. 16, trad. nossa)69. Luna toca e é tocada. A experiência de contato físico rompe com a noção de
theatron, teatro como lugar para se ver, espaço reservado à esfera pública, e
penetra na esfera da intimidade. Aqui vários pares de opostos são rompidos: público e privado, distante e próximo, ficção e realidade, ver e tocar. A configuração espacial também é determinante na sua concepção da cena. Luna dá preferência a atuar em locações específicas. Tive a experiência de assistir o mesmo trabalho em um espaço teatral fechado não italiano, no Teatro do SESC Prainha, em Florianópolis, e no Patio de las Catacumbas (Mesón de San Antonio) em Guanajuato, México. As características da construção utilizada no México (o pátio interno de um palácio com grandes arcos de pedra, datado de 1776), e o tipo de configuração da plateia (além do fato de a apresentação ter sido feita no México, que implica em uma complexa relação emocional tanto com o tema quanto com a performer em si) foram fatores que modificaram radicalmente a experiência de recepção do trabalho.
Na performance NK 603: action for performer & e-maíz, a artista aborda a problemática do milho transgênico, produzido por grandes empresas transnacionais, que vem alterando e colocando em risco a prática milenar dos povos maias que têm o milho como sustento sagrado há pelo menos 8.000 anos. Além de ser um recurso alimentício importante, a prática desempenha um papel simbólico central em rituais e celebrações comunitárias das Américas. As atuais políticas de produção e comércio da semente transgênica, implementadas com o aval de governos terceiro- mundistas, além de contribuir com o empobrecimento dos camponeses mexicanos,
69 No original: “I’m interested in reflecting upon and inviting my audience to reflect upon the vulnerable, marginalized body, the body that is exposed to abuse, detention, deportation – in effect the “illegal body”. This body loses its identity the moment it crosses a border and must construct for itself another identity in order to survive. (…) I’m interested in how this new body is constructed within a living dichotomy, in an in-between space that is inhabited by hopes, dreams, nostalgia, and how, in turn, all these emotions are embodied.” (LUNA, 2008, p. 16).
provoca uma aceleração da emigração em direção aos Estados Unidos.
A cena, dominada por equipamentos cirúrgicos e tecnológicos, remete a um filme de ficção científica. Em uma projeção em vídeo, e posteriormente na cena ao vivo, uma intervenção no corpo da atriz-performer em um ambiente quase hospitalar, marcado por ações invasivas de caráter médico-cirúrgico (como uma seringa com agulha que é aproximada dos olhos e da boca através de movimentos bruscos, um aparelho instalado na boca que a mantém escancaradamente aberta, expondo as secreções e a vulnerabilidade da performer, entre outras), abre possibilidades de interpretação sobre as conexões entre as alterações efetuadas no corpo humano e na planta.
A paisagem sonora do trabalho, composta pelo músico el salvadorenho David Molina, é formada de entrevistas feitas durante mobilizações camponesas, de depoimentos de agricultores migrantes e de opiniões de cientistas sobre os efeitos maléficos causados pelos produtos transgênicos. Em diversos momentos marcados por um silêncio tenso, Luna agride seu próprio corpo, em uma clara alusão a processos políticos e sociais em andamento que já estão carregados de alta dose de violência.
Na performance art o corpo do artista é considerado o principal suporte em seu trabalho. Como um mapa conceitual onde você cria suas cartografias pessoais. Como um espaço metafórico - um corpo que é, em si mesmo, sujeito e objeto - e o significado e significante do trabalho criativo. Através da performance art, o corpo feminino se converte em um sujeito transgressor dos papéis que lhe têm sido atribuídos. Em um lugar de diferenças que aceita a alteridade, que assume e exprime a sua posição e as suas experiências dentro de um determinado contexto histórico e social, mas que aponta para a possibilidade de realização de imaginários multi- dimensionais (LUNA, 2010, p 7, trad. nossa)70.
Luna manifesta em cena a força da mulher indígena, mexicana, protetora do milho não apenas enquanto fonte de nutrição para a sua cultura desde tempos ancestrais, mas também como fonte de toda a cultura. “Esta mulher, como muitas em toda a América Latina, luta não apenas para dar de comer à sua comunidade,
70 No original: “En el performance art se considera al cuerpo del artista como el principal soporte en su trabajo. Como un mapa conceptual donde crea sus cartografias personales. Como un espacio metafórico – un cuerpo que es en sí mismo sujeto y objeto – y el significado y significante de la obra creativa. Através del peformance art, el cuerpo feminino se convierte en un sujeto transgressor de los roles que le han atribuido. En un sitio de diferencias que acepta la otredad, que asume y expresa su posición y sus vivencias dentro de un contexto social y histórico determinado, pero apuntando a la possibilidad y realización de imaginarios multi-dimensionales.” (LUNA, 2010, p. 7, trad. nossa)70.
mas para que se mantenha e cresça a memória cultural de toda a sua gente” (LUNA, 2010, p. 7).
No solo semiautobiográfico proposto por Luna, o corpo funciona como um lugar de resistência, de auto-referencialidade e de auto-representação. A artista cria um ambiente que questiona os padrões de subjetividade que constituem a identidade, possibilitando o cruzamento de diversas identidades culturalmente codificadas entre si, em uma dimensão que só ganha sentido à medida que conta com a colaboração do espectador.