3 CAPÍTULO 2: UM LUGAR PARA FICAR
3.1 O acampamento dos operários do Araras
3.1.1 Entre o serviço e o descanso: vivendo no canteiro de obras
A insalubridade no acampamento da construção do Açude Araras era muito grande. Além da carga horária exaustivas de doze horas diárias, implantada em determinados períodos da obra, os trabalhadores enfrentavam péssimas condições de moradia com estruturas precárias; outro agravante era a alta densidade populacional: “[...] Dali pra baixo tudinho era cheio de casas, não, casebres de taipa né. Era assim (gesto com as mãos). Era dia e noite (som de barulho). Eu chamava formigueiro humano (risos). Era muita gente, rapaz, ave Maria” (sic).56
Todo o contingente de retirantes, morando nestes “casebres”, não contava com saneamento e nem água canalizada. Inicialmente, até 1954, a água era obtida em pequenas cacimbas no leito do rio Acaraú; após a construção do açude auxiliar, o Ararinha, a água passou a ser transportada em lombo de jumentos até as moradias dos operários.
Mas, para as moradias localizadas à beira das estradas em construção naquele período, com relativa distância do acampamento e da nova fonte de água, o açude “Ararinha”, o abastecimento tornava-se mais trabalhoso e custoso. Os ocupantes de tais habitações penavam com as condições da água que consumiam.
Era em jumento, caneco vei, chegava lá fervendo rapaz, a água, e não tinha quem caísse doente, hoje em dia, diz que a água é toda tratada, toda tratada e todo mundo é doente, agora eu me encabulo é com isso viu, comer debaixo da barraca velha no meio do sol, quando nós chegava achego tava nata velha… eita…( ANTÔNIO GOMES DA SILVA, 2018).
A ocasião narrada por seu Valente se passa justamente quando ele trabalhou na construção da estrada entre o Araras e Santa Quitéria, em 1958. Os “canecos” que o entrevistado
56Entrevista de concedida por JOSÉ ARTEIRO ROCHA, em sua residência, em Varjota-CE, ao pesquisador Rafael Pires Martins no ano de 2014, (MATINS, 2014, p. 52).
se refere na citação são recipientes feitos de madeira, de couro ou outros materiais, acessórios acoplados ao lombo de animais de carga, onde se depositava a água para ser transportada do açude até as barracas.
Assim, as necessidades mais básicas, como beber, para aqueles trabalhadores, naquela situação, tornava-se um desafio de resistência, ingerindo “água fervendo” e comendo alimentos “debaixo de barraca velha no meio do sol”. A “nata velha”, que sr. Valente fala, não é a nata de leite, que, como tempero, pudesse ter sido acrescentada na receita do cozido; na verdade, ele se refere à crosta sobre a comida com o acúmulo de poeira que se formava nas superfícies dos cozidos preparados à beira da estrada.
Um aspecto nas memórias de sr. Valente nos chama a atenção: o modo como o entrevistado aborda a situação que viveu nas construções do Araras, consumindo água insalubre, mas que, segundo ele, “ninguém” caia doente. Comparando com situações atuais, ele diz que, “hoje em dia, diz que a água é toda tratada, toda tratada e todo mundo é doente”. Pensamos, mais uma vez, que as memórias de sofrimentos muitas vezes se tornam perturbantes (PORTELLI, 2014, p.20).
Em outros casos, como o narrado por Valente, os entrevistados, para realizarem uma espécie de catarse, tentando superar tais traumas, imaginam-se como pessoas mais fortalecidas do que as demais, para justificar, para si e para o entrevistador, que não sofreram algo indigno. Um artifício da memória em que as representações de suas experiências revelariam um vigor sobrecomum que aqueles sujeitos possuiriam.
Edvar relata a situação em que muitos daqueles operários viveram, como Valente, destacados para a construção das estradas de Santa Quitéria.
Aí teve essa estrada pra Santa Quitéria coitados, sofreram muito, porque (engole a saliva pigarreando) eles bebiam água aí do açude, do Ararinha, foi construído primeiro o Ararinha, alí dentro do açude, do grande, era pra tirar água pro serviço, aí tirava água também pra eles beberem, fazia uma latada com quatro forquilha na beira da estrada, pra Santa Quitéria, aqui no rumo de Sobral, e botava um tambor que eles chamavam quinto, hoje ninguém sabe o que é quinto, é aqueles tambor de... aqueles tambor que vinha com óleo né, aí botava naquela latada o cara bebia ali, aquela água morna, de qualquer maneira né, aí morria criança aí na beira da estrada aí, gripado, passando fome, aquele sofrimento todo, dormindo mal né, era aquela coisa. (EDVAR SOUZA LOPES, 2018).
A má alimentação, a água não tratada e a poeira a que estavam expostos, tanto os moradores do núcleo do acampamento dos operários, como também os demais trabalhadores de áreas adjacentes da obra, em suas péssimas moradias, faziam muitas vítimas, principalmente entre as crianças. O “formigueiro humano”, como dito por Zé Arteiro, tornava-se ainda mais turbulento com o trânsito dos veículos que passavam pelo acampamento.
O movimento era assim, naquela pista ali vindo do “empréstimo”, levando barro pra parede ali, naquela pista, e aqui passava ali, onde nós trabalhava na lubrificação passava por aqui, pra ir pegar barro de novo: mão e contra mão, uma mão lá, e contra mão aqui, né. Era uma poeira doida! Aqui era mata, aí o trator passou arrancando marmeleiro aqui, fez uma estrada, pra sair lá pra frente, [...] (EDVAR SOUZA LOPES, 2018).
Edvar se refere às duas vias paralelas, construídas na época, ligando o local da obra ao local onde o Departamento colhia materiais, como barro, piçarra e etc., para erigir a barragem do açude. Com o intenso movimento nas estradas, “era uma poeira doida” e, como dissemos, estas vias passavam por entre as moradias.
Em outro momento da entrevista, em trecho que já citamos no tópico anterior, Edvar nos fala dos turnos de seis em seis horas, durante o dia e a noite, sem parar, ritmo que tornava o ambiente com “muito barulho”, provocado pelos mesmos veículos que produziam a “poeira”, o pó do barro das estradas carroçáveis lançado no ar. Somado ao som dos motores das máquinas e caminhões, o barulho dificultava a dormida e o descanso, já que atravessava dias e noites sem parar.
A própria estrutura das barracas, “quatro forquilhas”, por exemplo, muitas vezes, poderia prejudicar a armação de redes para dormirem os trabalhadores, como relata experiências de outros retirantes em outras frentes (FERREIRA, 2016, p. 111). José Neco, em entrevista com a historiadora Vladya Severiano, fala da superlotação das barracas nos canteiros das obras:
[...] essa viagem que nós fizemos do Jaibaras até o Ipu, aí depois do Ipu a gente tirou pra frente até Ipueiras, esta ai era muita gente trabalhando, trabalhava junto quando era a noite que a barraca não cabia, dormia era nos pés de pau, assim como, como era assim muco num tabulero, onde uns pé de pau perto a gente armava uma rede, a lua clara!57
Nestas condições, o descanso no acampamento poderia se tornar uma agonia. Os trabalhadores estariam “dormindo mal” também pela própria falta de objetos, como redes, para deitar o corpo durante o descanso, pois muitos não possuíam o recurso para adquiri-las. Isso nos remete diretamente à imagens de pessoas dormindo amontoadas em uma só rede, ou mesmo no chão, adultos e crianças.
Eu cheguei, aí quando foi com três dias, minha rede, muito ruim, rasgou, bem no meio, rasgou certo, uma banda pra lá outra pra cá, e agora Edvar? Não, por causa disso eu não vou chorar não, eu vou botar no pé da parede aqui e vou dormir em cima dela, umas noite, quando passou mais uns dia, eu dormi três ou foi quatro noite no chão, no pé da parede lá, [...] quando eu cheguei lá, disse, boa noite, tinha uma moça até simpática, bonita, disse, o que que você quer? [...] pois me dê uma rede,[...], eu fui
57Entrevista concedida por José Gerardo Gomes, em sua residência, em Varjota-CE, à pesquisadora Vladya Cezário Severiano em 02 de fevereiro de 2012.
dormi nela cheirando a armazém, [...], aí tinha uma vizinha lá, mulher de um amigo meu, muito pobrezinhos eles, muito pobrezinhos, ela tinha uns três meninos, eu disse: dona Cidele, Cidele o nome dela, a senhora quer? Eu tô com vergonha, mas a senhora quer esses dois pedaços de rede pra senhora emendar pros meninos dormir dentro, ela disse: ô beleza! (EDVAR SOUZA LOPES, 2018)
Na entrevista com Edvar, percebemos sempre o humor que este colocava em suas narrativas; porém, esta sua jocosidade não esconde os dramas que viveu no Araras e no açude Orós, por onde passou.
Edvar, quando trabalhou nas frentes de serviços citadas, era solteiro e teve que dormir “três ou quatro noite(s) no chão” após se partir ao meio a única rede que possuía. Não tinha recurso para comprar outra de imediato. Quando finalmente comprou a rede nova, doou a antiga, ainda partida em duas “bandas”, para “Cidele”, esposa de um amigo, “muito pobrezinhos eles”, que tinha “uns três” filhos, possivelmente dormindo coletivamente na mesma rede, ou talvez no chão.
Além de tudo, os alimentos obtidos nos fornecimentos como forma de pagamento dos trabalhadores não saciavam a fome de todos os membros das famílias mais numerosas, devido aos parcos rendimentos recebidos pelas diárias de serviço e aos preço cobrado pelos itens. Muitos trabalhadores tinham de sacrificar sua alimentação para poderem oferecê-la aos filhos.
Ganhando uma minguada diária recebida em gêneros de ínfima qualidade e outros artigos vendidos pelos olhos da cara, os pobres operários vão lentamente, insensivelmente se exaurindo até morrerem de inanição, como aconteceu a infeliz mulher de um daqueles operários, que distribuindo a minguada ração que lhe tocava com os filhinhos, cuja fome queria atenuar, naniu-se até cair morta de FOME! Este fato ocorreu há poucos dias. (CORREIO DA SEMANA, 14 de fevereiro de 1953, apud FARIAS, 2010, p. 55).
Assim, a carência nutricional era o maior problema diário dos trabalhadores e seus dependentes. A variedade e qualidade dos itens fornecidos nos barracões do DNOCS, naquele período, além de caros, não tinham diversidade e nem boa conservação.
De arroz, farinha, café, sabão, açúcar, essas coisa tudo, feijão mulatinho, que chamava de brogodó, ele pulava dentro da panela e não cozinhava, abria as bandas, acho que ele vinha do Rio Grande do Sul. É vinha de longe, o feijão, e o arroz eu também não sei da onde era não, sei que... [pergunto se vendiam carne.] vendia, tinha carne no fornecimento, era aquela carne que chama de jabá né, era boa também, farinha dágua, uma rapadura pequena que chamava rapadura do pitanga, ela era assim vermelha, muito cozinhada, dura que só o diacho, né. (EDVAR SOUZA LOPES, 2018)
Como vimos, muitos nutrientes necessários para a manutenção das funções imunológicas do corpo, obtidos em alimentos como frutas e verduras entre outros, não são mencionados nesta descrição e nem em outras entrevistas. As carências nutricionais somadas
às condições de vida, provocavam doenças, principalmente nas crianças.
Aquilo ali rapaz as doenças até que num foram assim de imprecionar por que tinha o posto médico e tinha três dotor pra tratar daquele povo, graças a Deus sobre doença a gente tirou até bem, sofreu muito, agora deu uma febre nas crianças, menino de um ano ,de um mês pra um ano, agora tinha dia que morria, muito menino, dois três quatro, por dia, e quem fazia os invelopizim de levar o meninuzim pa interrar era eu. (JOSÉ GERARDO GOMES, 2012 apud SEVERIANO, 2012).
Zé Neco, que foi carpinteiro nas obras do Araras como já informamos, construía caixões, que ele chamava “envelope”, para enterrar os mortos do acampamento; neste relato, atribui a “uma febre” epidêmica a causa das mortes de muitas crianças.